Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira
5 Capítulo 5 - Lições Sobre Controle
Capítulo 5 – Lições Sobre Controle
I lose control when I'm close to you babe
I lose control don't look at me like this
There's something in your eyes, is this love at first sight
Like a flower that grows, life just wants you to know
All the secrets of life
It's all written down in your lifelines
It's written down inside your heart
(You and I – Scorpions)
Den
O dia está agradável hoje, mais quente do que o normal para a época. De modo que, pela primeira vez nos dez dias em que está aqui, Mia deixou de lado a calça jeans e os moletons e vestiu roupas mais frescas.
Estou olhando para ela agora, vindo em minha direção junto com Sammy, enquanto cuido da horta vertical. A bermuda cheia de bolsos e a regata simples de algodão eram para ser peças práticas, mas acabaram por abraçar suas formas de um jeito encantador demais para meu próprio bem.
É a primeira vez que a vejo assim e não consegui parar de pensar nisso a manhã toda, por isso gostaria que ela não tivesse vindo me encontrar. Meus sentimentos têm sido menos do que adequados e meus pensamentos, na presença dela, ficam um pouco fora de controle, o que me deixa meio em pânico, porque não posso deixar isso acontecer.
Algo assim tornará tudo mais difícil para nós, já que Mia jamais me veria dessa forma. Somos de espécies diferentes e mesmo que ela controle sua hostilidade, eu sei que está ali. Então o que será que ela faria se percebesse?
Talvez se enojasse. Talvez não saiba que eu jamais faria qualquer movimento em sua direção sem que ela pedisse e, por medo, decidiria ir embora para fugir de mim. Talvez, assim, um dia de repente, ela voltasse com olhos que não são os dela.
Eu deveria querer isso, deveria gostar da ideia, mas não gosto.
— Ei, Den — ela me chama, tirando um dos pares de óculos escuros que arranjei e que ela mantém no rosto o tempo todo aqui fora. — Ainda tem muito o que fazer? Pensei em aproveitarmos o resto do dia juntos depois que você terminar suas tarefas. Posso te ajudar a adiantar o trabalho...
Mia sempre me ajuda como pode, com as plantações, os cavalos e o serviço de casa, mas na carpintaria ela ainda não se aventurou. Por isso concluo que é a melhor desculpa para poder evitá-la. Tenho passado muito tempo lá de qualquer jeito, embora não goste de saber que ela se sente sozinha.
— Desculpe, tenho coisas a fazer na carpintaria depois que terminar aqui — minto, tentando parecer chateado, não o covarde que sou.
— É que eu acho que este clima não vai durar e pensei em aproveitarmos um pouco o sol. Tem uma parte do rio, ali entre as pedras, que forma tipo uma piscina onde dá pra nadar.
Tento permanecer inexpressivo, mas a imaginação é uma coisa poderosa. Penso em Mia com pouca roupa e muita pele úmida e reluzente sob o sol. E, não, não é uma boa ideia, porque já posso sentir o que isso faria comigo. E agora tenho mais um acréscimo às fantasias de que preciso me livrar.
É estranho demais me sentir assim, como se o cérebro alimentasse e, ao mesmo tempo, não tivesse controle algum sobre esta máquina movida a hormônios que é o corpo humano.
— Não vai dar, Mia. Infelizmente, eu não pensei que faria calor e não providenciei roupas apropriadas para você nadar. Que tal se fizéssemos uma trilha ao invés disso?
Seria consideravelmente mais fácil para mim...
— Ora, Den! Não preciso de roupas apropriadas — ela diz as palavras em um tom grave, como se estivesse me imitando. — Estou acostumada a usar o que tenho. Você deve ter uns shorts aí no seu armário para usar. E eu entro com o que estou vestindo mesmo. Vamos?
Como se a camiseta grudada no corpo fosse ajudar...
Céus, estou parecendo um descontrolado! Isso não combina comigo.
De qualquer jeito, é melhor não acrescentar lenha na fogueira.
— Desculpe, hoje não posso. Mas se você está procurando uma boa companhia, Sammy adora nadar.
Volto ao trabalho, tentando encerrar o assunto, mas minha visão periférica ainda capta quando ela se abaixa para fazer um cafuné em Sammy, provavelmente lançando um daqueles sorrisinhos irônicos para mim.
— Ah, mas ele vai junto, claro! Assim alguém garante que eu não faça mal a você.
Olho de volta para ela e sorrio em resposta, tentando mostrar que a brincadeira não me afetou.
Já notei que Mia gosta de me deixar constrangido. É uma espécie de pequena vingança quando eu a irrito. Às vezes tento não dar esse gostinho a ela, mas provavelmente não consigo disfarçar.
— Que pouca diversão você tem, hein! — provoco.
Ela ri, desviando os olhos por um momento, mas é quando volta a olhar para mim que percebo que já perdi a discussão. Não é mera insistência, tem um apelo sério naquele olhar, na expressão do rosto dela.
— Por favor, Den. Estou muito ansiosa. Preciso distrair a cabeça.
Engulo em seco. Com medo do que isso significa, lembrando do que a ansiedade pode causar nela.
Depois que decidiu ficar aqui, na primeira manhã depois daquela noite, Mia teve uma espécie de crise. Eu nunca tinha visto nada como aquilo, e fiquei assustado quando ela ficou trêmula, com a respiração difícil e falando coisas incoerentes quando conseguia articular algo. Tentei fazer como da outra vez em que ela começou a chorar, pedindo para que imaginasse coisas boas e apertando-lhe a mão até o ponto da dor, para ver se a sensação física a distraía do resto. Demorou um pouco, mas eu consegui fazer com que pelo menos sua respiração se acalmasse. Então apenas ficamos olhando um para o outro. A mão dela ainda trêmula segura entre meus dedos.
— Crise de ansiedade — ela explicou baixinho. — Eu acho. Está tudo bem agora. Estou ficando bem. Obrigada, Den.
— Você já teve outras antes? O que devo fazer se acontecer?
— Está tudo bem — repetiu. — Preciso ir ao banheiro.
Quase não consegui largar a mão dela. Eu estava apavorado, sem saber o que fazer, mas ela a puxou delicadamente, enquanto se levantava. Percebi que ainda estava apertando com força demais, por isso soltei.
— Se você desmaiar, se precisar de mim...
— Não. Eu só preciso de um minuto.
De privacidade, acho que ela quis dizer, mas não disse.
Cambaleando, ela foi até lá e trancou a porta, para meu desespero. Não foi apenas um minuto, como Mia tinha dito. Para mim, pareceu uma eternidade de sons abafados. Torneira, armário, suspiros... Todo o resto em suspenso.
Então Mia voltou. E parecia que nada tinha acontecido.
Desde então tenho ficado atento aos sinais.
— Só preciso de um minuto — ela repete.
E depois desse “minuto” cada vez mais breve, tudo volta ao normal. Mas, aparentemente, hoje não será assim.
— Vou com você até o rio — digo.
— Você vai até em casa se trocar?
— Não tenho nada para usar também — minto, porque no fundo minha intenção é apenas ficar por perto e vigiá-la. Não vou me distrair enquanto ela pode sentir alguma coisa dentro d’água. Não posso arriscar. Nem mesmo pelos cinco minutos que levaria para que eu fosse até o chalé.
Mia me olha como se não acreditasse, mas não discute. Talvez não queira correr o risco de que eu mude de ideia.
— Pelo menos eu trouxe toalhas — diz, apontando para a sacola de pano que eu uso para compras e que ela tinha deixado no chão quando chegou, ao lado de uma cesta. — Também trouxe sanduíches, suco de laranja e umas maçãs.
— Bem pensado — elogio, pegando as coisas e seguindo em frente. — Me mostre o lugar que você descobriu, então.
Ela sorri e me guia, com Sammy correndo alegremente logo adiante.
*******
Tiro os sapatos e dobro a barra da calça jeans, afundando os pés na parte mais rasa para poder sentir o barro gelado entre os dedos.
— Não vou entrar nesta água gelada — digo, me fazendo de difícil depois que minhas táticas anteriores falharam.
— Você está me enrolando. Não pense que não percebi. Primeiro, se distraiu com cada planta no caminho como se nunca tivesse visto, depois quis abrir a cesta de piquenique antes da hora!
— Só estou com fome.
— Coma só depois de nadar. Sua mãe nunca te ensinou que é perigoso entrar na água de estômago cheio? — ela pergunta bem-humorada, depois percebe. — Quer dizer... É...
Não sei o que sinto por ela ter se esquecido de que não sou humano, mas tento trazer de volta o ar de normalidade de antes. De alguma forma.
— Eu tive mãe, se é o que você quer saber. Mas nossas mães morrem quando nos trazem à vida.
— O quê? — ela pergunta, chocada, e percebo que disse isso com uma naturalidade que deve parecer estranha demais.
Eu e minhas tentativas de normalidade!
— Desculpe, é que nunca precisei explicar isso a ninguém. Agora que disse em voz alta, percebi que pareceu chocante, mas não é. Essa é a nossa natureza, simplesmente é assim que acontece. Ser mãe, na minha espécie, é uma escolha que apenas algumas almas podem fazer. E quando decidem, elas se sacrificam para dar vida a milhares de outras. Herdamos suas memórias e conhecimentos e ela não é esquecida. Não morre realmente. Simplesmente, se reparte. É, acho que é isso.
— Entendo — ela murmura, mas continua em choque.
Não foi um bom caminho. Queria poder falar da mãe de Owen, para amenizar. Mas não há nenhuma lembrança dela. Ele era órfão, criado em orfanato de freiras. Foi feliz lá, gostava das mulheres que cuidavam dele e dos outros, mas não consigo pensar em nada específico para contar.
Para minha sorte, Sammy me salva de novo, latindo animado e correndo na parte rasa, espirrando água para todo lado. Mia ri e eu quero mais dessa leveza. Quero os momentos anteriores de volta.
— Você tem razão. Vamos comer depois — digo, tentando mudar de assunto.
Ela me olha e estreita os olhos, esperando alguma coisa. Depois morde o cantinho do lábio, contendo um daqueles sorrisos.
— Tá legal, vira pra lá — ela pede, sinalizando com a mão para que eu me vire de costas.
Obedeço, mas não consigo resistir realmente, não por muito tempo, e espio por cima do ombro quando ela corre para a água, de costas para mim, usando apenas a camiseta e a calcinha.
Jesus, me ajude, penso. Um reflexo dos tempos de antes. Fico imaginando o que Owen faria, mas acho que ele não teria espiado, de qualquer jeito.
— Caramba, tá muito gelada! — ela grita e eu me viro.
Sinto-me quase mal-humorado agora, porque percebo que estou perdido. Não posso fugir da atração que sinto, nem posso dar vazão a ela.
— Eu avisei. Podemos comer agora? — resmungo.
— Você tem que entrar, Den. A gente se acostuma com a temperatura.
A gente se acostuma... Bem que eu queria acreditar.
— Ai! — ela grita de repente.
— Que foi?
— Câimbra. Me ajuda aqui.
Eu sabia! Sabia que tinha que vir e cuidar dela. De repente, Mia mergulha e desaparece. Jogo de lado a camiseta que já tinha começado a tirar e entro na água correndo, desesperado.
— Mia!
Mergulho na água um pouco turva, tateando até que ela mesma encontra meus braços e me puxa. Encaixo o corpo dela em meus braços e me levanto, carregando-a de volta para a margem.
Ainda estamos no meio do caminho, com água batendo pouco acima da minha cintura, quando ouço sua gargalhada e sinto um empurrão em meu peito.
— Viu? Quando se entra de uma vez não fica tão gelada assim!
— Quê!?
Olho pro rosto dela, indignado. Tenho vontade de jogá-la de volta na água, mas não o faço. Porque as mãos em meu peito produzem uma sensação mais forte que a raiva.
— Não tem graça, Mia!
— Tem um pouco, sim. — Ela ri. — Você não ia entrar na água se eu não fizesse isso.
— Eu pensei que você estivesse se afogando.
Acho que ela percebe meu estado. Estou transtornado. Mia me deixa confuso, sentindo coisas que eu não queria sentir. Tenho medo de perdê-la o tempo todo. Medo de perder o que não é meu.
— Desculpe, de verdade. Eu só estava brincando.
Começo a soltar seu corpo devagar, com cuidado para me certificar de que está firmando os pés no fundo do rio. Uma das mãos dela continua em meu peito, enquanto a outra acaricia meu rosto.
— Não estou acostumada às pessoas se preocuparem assim. Às vezes posso ser insensível. Me desculpe.
— Tá tudo bem — minto, porque nossos corpos ainda estão perto demais. O calor dela irradiando para mim apesar da temperatura da água. Os seios marcados sob a blusa molhada quase encostando em minha pele.
Então, não. Não está tudo bem.
Acaricio os braços dela, incapaz de resistir ao toque. Quero tirar suas mãos de mim, desviar os olhos do olhar intenso e escuro que me prende. Dizer que se afaste, que não suportaria o nojo dela depois, se soubesse como sou realmente. Porque eu não sou este corpo que anseia por ela.
— Vamos sair. Você está arrepiada. Pode usar minha camiseta até o sol secar a sua.
— Uhum — ela murmura, sem tirar os olhos dos meus.
Quero levantá-la e entrelaçar suas pernas em minha cintura. Beijar essa boca e arrancar a blusa que me impede de passear as mãos pela pele mais bonita que já vi.
Sinto meu corpo exausto pela necessidade, o sangue pulsando nas veias prestes a explodirem pela resistência.
— É melhor a gente ir — me forço a dizer. — Eu tenho encomendas pra terminar na carpintaria.
Isso parece surtir efeito, porque os olhos de Mia, por fim, abandonam os meus e é ela quem rompe nosso contato físico, se afastando um pouco. Tomo isso como um sinal de que o momento acabou e começo a me mover em direção à margem.
— Fique, Den, por favor — ouço-a chamar, a mão segurando a minha.
E eu fico. Fico porque não tenho forças de soltar sua mão, ou de não me deixar enredar pela doçura em sua voz.
Olho de novo para ela. Tão linda.
Tem alguma coisa que me puxa na direção de Mia. Desde que a conheci, é como se houvesse uma espécie de zumbido que só silencia quando estou ao lado dela. É por isso que eu a abraço agora. Tão forte como se soltá-la pudesse me fazer gritar.
Sei que ela fica surpresa, rígida até. Não quero que sinta que estou invadindo as fronteiras de nossa intimidade, mas não consigo resistir. O desejo do corpo ainda está aqui, em cada célula, em cada centímetro em que estamos nos tocando, mas já não é apenas isso.
Quando ela finalmente relaxa e se aconchega em meus braços, alguma coisa se transforma em mim. Alguma coisa que mora naquela parte imaterial que os humanos chamam de coração. Alguma coisa que, sim, está na mente que é parte deste corpo, mas porque nasceu primeiro em mim.
Em mim, Corrente Ascendente. A Alma. Eu estou apaixonado por esta humana.
É definitivo agora. E eu não sei o que fazer com isso.
— Prometo que não vou mais assustar você de propósito — ela murmura, porque obviamente não sabe que já não é mais do que se trata este abraço para mim. — Estou tentando ser legal aqui, mas às vezes eu falho. Me desculpe.
— Você não falha — digo, e me arrisco mais um pouco, colocando meus lábios na testa dela, num beijo carinhoso e protetor que é só o que posso me permitir.
Ela suspira e depois me afasta, me empurrando sutilmente, os olhos tristes não se focam mais nos meus.
Devo ser o culpado, parece óbvio, mas se eu a ofendi, prefiro não saber, prefiro fingir que não percebi, porque não consigo lidar com mais nada agora.
Só quero a leveza de volta. Quero a inocência do minuto perdido, embora eu saiba que nunca mais vou conseguir olhar para Mia como o amigo que prometi ser, que eu deveria ser.
Então eu finjo.
— Câimbra, você disse? — pergunto com pretensa ingenuidade.
— Quê? — Ela ri. — Eu não...
— Acho que você precisa de ajuda, não pode andar com as próprias pernas.
Mia dá um grito quando a pego em meus braços de novo e giro com ela, fazendo com que a água espirre para todos os lados possíveis. Sammy pula ao nosso redor, indo e voltando nadando da parte mais rasa, latindo feliz.
Tento não pensar no desejo, no toque, no calor. E acho que ela também não pensa em nenhuma outra coisa que não seja este momento simples. Estamos apenas brincando e rindo juntos. Felizes.
Estou feliz, de fato. Nem preciso me esforçar para entender. Ao lado dela e de Sammy é simplesmente natural. E se isto for tudo o que eu puder ter, vou viver cada segundo.
********
O silêncio da noite e o cansaço não são suficientes para me fazer dormir. Estou deitado aqui, na cama nova que fiz para mim mesmo, com Mia dormindo pacificamente a poucos metros, revivendo como num filme o dia que tivemos.
A bem da verdade, não sei o que pensar. Ainda estou sob o efeito da tomada de consciência do meu amor por Mia, mas muito embora eu não tenha me permitido pensar no amanhã, é isso que me assombra agora. Porque não sei como esse sentimento vai evoluir ou o que vai fazer comigo. Não sei como ela vai reagir quando, eventualmente, inevitavelmente, perceber. Acima de tudo, não sei por quanto tempo conseguirei mantê-la segura.
A questão é que já não importa o que vai acontecer. Não posso fazer nada pelo futuro, ainda. Nunca houve garantias de qualquer jeito. E não posso evitar a sensação de libertação que me traz constatar que, de todo modo, no que diz respeito ao destino de Mia, já estou envolvido. Inegavelmente.
Eu nunca tive outra possibilidade. Quando a encontrei no chão lá fora, faminta e quebrada, soube imediatamente que nunca mais poderia voltar para aquela doce paz forjada dos pensamentos que pertenciam só a mim. Do momento em que a conheci em diante, sabia que meu mundo já não seria apenas meu.
Então é isso. Sofrer, não sofrer. Dividir com ela a minha solidão ou sofrer sua ausência. Amá-la plenamente ou me contentar em ser amigo. Seja como for, não muda o presente. E, de certa forma, é isso que me desoprime. Entender que não adianta lutar contra. Não agora, não da forma como eu vinha fazendo.
Embalado por essa nova constatação, estou quase conseguindo dormir, quando ouço um gemido baixinho. É tão débil que chego a pensar que imaginei, mas Sammy também se alarma e levanta a cabeça, prestando atenção.
— Mia? — sussurro, andando pé ante pé até a cama dela, na esperança de que seja apenas um sonho do qual não preciso acordá-la.
Um soluço de choro rompe o silêncio outra vez e um pressentimento ruim me toma por completo. Assim que meus olhos se acostumam com a escuridão, entendo por quê.
Mia está deitada de lado, embolada sobre si mesma, tremendo convulsivamente apesar dos cobertores que a protegem. Talvez esteja mesmo sonhando, porque seus olhos continuam fechados, mas lágrimas brotam deles mesmo assim.
— O que foi?
Coloco a mão em seus cabelos curtos, acariciando-os, tentando acordá-la. Ela abre os olhos e agarra minha mão, segurando-a entre as suas.
— Den?
— O que eu posso fazer? Do que você precisa?
Os músculos dela parecem todos contraídos e outro gemido de dor me assusta. Está pior desta vez, muito pior.
— Corta... — ela tenta dizer, mas um soluço forte a interrompe. — Corta... O Corta Dor!
Sai quase como um grito.
Claro, o Corta Dor, ela deve ter visto quando lhe dei os remédios no primeiro dia. Pode ajudar e eu não penso duas vezes.
— Vou buscar pra você, querida. Fique calma.
Solto minha mão com cuidado, tentando imaginar onde e como ela se machucou. Enquanto corro até o banheiro, fico revendo a tarde, pensando em algum incidente, qualquer coisa que tenha me escapado durante nossas brincadeiras tolas e quase imprudentes. Talvez ela tenha batido em alguma pedra no fundo em alguma das vezes em que a joguei na água. Quem sabe...
Meu raciocínio para quando abro a pequena caixa, os dedos desajeitados tateando depois da dificuldade em abrir o zíper da bolsa. Acendo a luz sobre a pia — na pressa, nem tinha feito isso —, mas antes mesmo que meus olhos se certifiquem da realidade desesperadora, eu já sei.
Vazia. A caixa de Corta Dor está vazia.
Como? Eu me lembro de ter...
A confusão dura apenas um instante, porque então, subitamente, eu compreendo. Como Mia sabia o que pedir. Todas as vezes em que ela se trancou no banheiro assim que uma crise se avizinhava, depois da intensidade interrompida daquela primeira.
Volto para o quarto sem olhar meus passos, sem ver absolutamente nada. Apenas ela.
— Acabou. Mia, o Corta Dor acabou.
Em silêncio, ela chora, apertando o estômago, mas não diz nada. Provavelmente já sabia. Talvez apenas tivesse esperança de que houvesse mais guardado em algum lugar.
— Você se machucou? — pergunto feito um tolo, mas ela nega com a cabeça. — Eu não sei o que fazer. Quero ajudar, mas não sei o que fazer.
A resposta, porém, não vem de Mia. É Sammy quem entra em ação, com sua sensibilidade que nunca chegarei a entender por completo. Num pulo rápido, ele se deita na frente dela, estendido, forçando-a a relaxar os músculos para acomodar seu corpanzil peludo. Daquele seu jeito próprio, ele coloca o focinho muito próximo do rosto de meu amor, como se lhe dissesse que é seguro respirar. Ela toma um fôlego profundo e o abraça.
Lentamente, movido por uma força que não compreendo bem, eu faço o mesmo, deitando-me do outro lado, meu corpo protegendo o de Mia, e a abraço por trás. Ela se aconchega em mim e suspira, os tremores se aquietando um pouco enquanto a próxima contração de dor não vem.
Começo a sussurrar devagar, uma história sobre um anjo negro e perfeito que caiu e machucou as asas. Bobagens sobre o homem que a encontra e lhe empresta seu peito imperfeito para que ela possa se deitar e se curar. Sobre o outro anjo que, disfarçado em quatro patas, cuida dos dois. Aos poucos, vai virando uma canção. Desajeitada e sem rima, mas uma canção que fico entoando à beira da incoerência.
Eventualmente, acho que ela dorme. Talvez eu também, mas é difícil de saber se estou sonhando ou acordado. Aqui, imerso no cheiro de sua pele.
Apenas eu, meu cachorro Sammy e meu doce anjo caído.
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