Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira
6 Capítulo 6 - Esvoaçar de Borboletas
Remember those walls I built
Well, baby, they're tumbling down
And they didn't even put up a fight
They didn't even make a sound
(…)
Everywhere I'm looking now
I'm surrounded by your embrace
Baby, I can see your halo
You know you're my saving grace
You're everything I need and more
It's written all over your face
Baby, I can feel your halo
Pray it won't fade away
(Halo – Beyoncé)
Mia
Eu não queria nada disso. Juro que não queria.
Não queria ter me viciado no Corta Dor e muito menos que Den descobrisse, ainda que fosse inevitável chegar a esse ponto.
Sou uma maldita viciada, afinal. Uma sombra sob a força de minhas próprias vontades. E todas elas perdem importância diante da necessidade que me consome.
Tentei evitar, pensei que conseguiria, mas a abstinência de outras drogas vinha cada vez mais avassaladora e eu cedia. Por um momento, eu não pensava que o estoque acabaria, que os quadradinhos na caixinha minúscula não durariam para sempre. Isso porque, naquela hora, não importava. Eu podia lidar com aquilo depois. Podia lidar com o fato de que Den, fatalmente, descobriria que eu o estava roubando. Podia superar e fazer pouco da decepção dele. Talvez pudesse manipulá-lo a conseguir mais.
Nas horas em que o vício me dominava, eu pensava assim. Esquecia suas gentilezas e minha dignidade, e intencionava me aproveitar do desejo que já percebi que ele sente, do instinto adorável e conveniente de me proteger como se eu fosse dele.
E então, cada vez que voltava a mim, eu me odiava mais por isso.
Porque Den é um homem bom. É meu amigo. E o desejo que ele sente não é unilateral, mas é impossível. Porque eu sou uma humana nojenta e bruta, cheia de falhas que a delicadeza dele não compreenderia. Pronta a me aproveitar de seu amor puro e sujá-lo para sempre.
“Você não falha”, ele disse enquanto me abraçava. Porque, apesar de tudo, Den pensa que sou uma espécie de anjo caído. Ele tem essa visão romântica de que sou alguém que ele pode amar e salvar, mas eu não sou nada disso. Minha própria alma já estava perdida muito antes do risco de que houvesse outra em meu lugar.
É por isso que eu deveria me entregar.
Se eu fosse um deles, poderia ter todas as drogas que quisesse, mas talvez nem precisasse delas. Poderia voltar e ficar com Den, para que ele pudesse amar alguém que não precisasse limpar. Alguém que merecesse.
Talvez eu faça isso. Talvez um dia eu possa, de alguma forma, estar com Den de verdade. Mesmo que não seja exatamente eu.
Já amanheceu, mas não consegui me levantar. Ainda estou aqui, velando o sono tranquilo dele, com medo do que pode acontecer quando eu quebrar esse encanto.
Dormi no abraço deste homem adorável, escutando aquela história bonita que ele criou para poder me amar, me perdendo na doçura de seus graves. Em algum ponto da madrugada, Sammy foi se deitar na própria cama, mas Den continuou ao meu lado e eu sei, simplesmente sei, que depois que ele acordar as coisas nunca mais serão as mesmas entre nós.
Por isso estou gravando esta imagem. Tirando fotografias em minha mente. Gostaria de poder ver os olhos dele, aquele olhar de preocupação e carinho que já não voltarei a vislumbrar. Por estranho que pareça, é isso que torna esse rosto perfeitamente humano para mim. Não os traços juvenis e plácidos de Owen, mas as expressões de Den.
Deixo meus dedos pairarem sobre seus contornos, esvoaçando como borboletas a pele clara beijada de leve pelo sol. Traço da têmpora ao maxilar, sentindo os fios macios da barba de alguns dias. Toco seus lábios também, tão suavemente que ele mal sentiria se estivesse acordado, mas então não consigo parar por aí.
É uma despedida. De um jeito ou de outro, sinto como se estivesse dizendo adeus. Por isso cedo à tentação de provar a textura da boca de Den uma única vez.
Só um beijo. Um único beijo que explode dentro de mim. Um toque de nossos lábios apenas. Que explode dentro de mim.
— Mia — ele balbucia, e a rouquidão em sua voz faz coisas comigo e me permite esquecer a prudência, por isso me aproximo de novo. — Meu anjo...
Estou prestes a beijá-lo outra vez, mas ele se mexe e leva a mão ao rosto que estive tocando, os olhos se abrindo e piscando para a luz.
O susto me traz de volta à realidade e, quando me dou conta do que fiz, me afasto bruscamente. Den se assusta também e, numa espécie de movimento reflexo, nós nos colocamos de pé, um de cada lado da cama.
Ele ainda está confuso e passa os olhos pelo quarto e por mim, parando com os lábios entreabertos e uma expressão diferente. Quando sigo a direção de seu olhar, percebo o que viu. Durante a noite, dois botões da minha camisa se abriram e agora estou com os seios quase à mostra, como se estivesse me oferecendo depois de acordá-lo com um beijo.
Seguro a parte da frente da roupa com força, tentando desajeitadamente fechar os botões. Den percebe meus dedos trêmulos e olha para os próprios pés, envergonhado.
Estou envergonhada também. Pelo que fiz e por estar terrivelmente excitada com isso. O que só torna as coisas piores.
É injusto com Den. A minha vontade de estar com ele e a mágoa por sentir-me assim. É injusto porque embora seu corpo humano evidencie um desejo recíproco, por baixo disso há um ser cuja forma e vontades eu desconheço. E tudo o que Corrente Ascendente me ofereceu sem nenhuma hesitação ou fingimento até agora foi amizade.
Nada além.
Sim, o corpo de Owen se excita pelo meu. E, sim, Den me protege e cuida de mim como se eu fosse importante para ele. Mas eu não sei como ele se sente sobre estar com uma humana. Não sei como ele se sentiria por estar comigo.
Eu simplesmente não sei como as almas lidam com essa coisa toda, mas Den não parece disposto a ir mais longe do que já fomos. Dormimos no mesmo quarto há quase duas semanas e esta noite adormecemos abraçados. Os homens que conheço teriam tomado isso como um convite claro.
— Você estava agitada ontem à noite — ele diz, como se precisasse me lembrar do porquê de estarmos dividindo a cama.
— Sim — respondo. — Precisei e você veio. Obrigada.
— Eu não... Eu não queria... Não quero! Foi uma má ideia. Desculpe.
Detesto a forma como ele parece torturado. Odeio que não consiga olhar para mim.
— Está tudo bem — murmuro, lutando contra as lágrimas que não quero deixar cair.
Quero repetir que sou grata, e dizer que me senti amada e feliz quando ele me abraçou. Mas as palavras se tornaram um bolo em minha garganta. Porque estou tornando a vida dele uma série de atos dos quais se arrepende, pelo visto.
— Você está bem? — ele pergunta.
— Estou.
Minha voz sai em um fio.
Não, não estou bem.
Com certeza, Den percebeu o tamanho do problema que eu sou. E agora está claro que atração física e vontade de ajudar não são suficientes para fazer minha presença compensar os riscos.
— Vamos esquecer isso — proponho e ele assente. — Não vai se repetir.
Finalmente, ele me olha.
— Você está segura, Mia.
— Eu sei.
Ficamos os dois parados, sem saber o que fazer. Olhar um para o outro faz tudo doer mais. Pelo menos em mim.
— Você pode usar o banheiro primeiro. Acho que vou dormir mais um pouco, se você não se importa — minto.
Volto para a cama e fecho os olhos para conter o choro enquanto ouço seus movimentos. Da forma mais silenciosa possível, ele separa uma muda de roupas do armário e se fecha no banheiro com o chuveiro ligado. Dez minutos depois, está de volta.
Sinto o colchão se curvar um pouco ao seu peso, mas não me viro para encará-lo. Sei que ele sabe que não estou dormindo, mas não posso olhar em seus olhos agora. Não ainda.
— Tem cereal, se você quiser — ele me avisa baixinho. — Acabei dormindo demais e vou sair agora para tratar dos animais. Volto logo para fazer café para você. A gente precisa conversar.
Relutantemente, ele toca meu ombro. Bem de leve, a princípio, mas depois sua mão permanece ali, o calor da pele atravessando o tecido de minha blusa e os dedos me pressionando suavemente.
É tão bom. E é tão pouco.
Quando Den finalmente se vai, mal ouço o som da porta se fechando e deixo as lágrimas correrem livres pela dor da rejeição não pronunciada e pela decisão que sei que preciso tomar.
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