Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira
2 Capítulo 2 - Belo Monstro
Capítulo 2
Belo Monstro
How can you see into my eyes
like open doors
leading you down into my core
where I've become so numb?
Without a soul;
my spirit's sleeping somewhere cold,
until you find it there and lead it back home.
(Wake me up.)
Wake me up inside.
(I can't wake up.)
Wake me up inside.
(Save me. )
Call my name and save me from the dark.
(Wake me up. )
Bid my blood to run.
(I can't wake up. )
Before I come undone.
(Save me. )
Save me from the nothing I've become.
Mia
O monstro é bonito.
Cabelos ondulados e muito negros, contrastando com a pele muito clara. Os olhos são escuros também, mesmo com aquela luz estranha vindo deles. Não aparenta, mas ele é forte. Deu para perceber quando me amparou.
O monstro foi gentil.
Eu poderia gostar dele se ainda fosse humano. Poderia gostar muito. Mas o que é que eu sei? É só uma casca, como sou eu própria.
Já fiz muita coisa errada sendo gentil, bancando a inofensiva. Às vezes, é só parte do disfarce.
Ele me olha por alguns segundos, parado à minha frente. Se eu fosse mais ingênua, acreditaria que está com medo.
— Você é humana — constata, e não sei exatamente que tipo de emoção é essa em sua voz.
— Você não sabia? — Sinto minha testa franzir. Ele não responde, mas sua expressão me diz tudo o que preciso saber. — Ah, pensou que estivesse ajudando um dos seus...
É uma acusação e ele percebe. Ousa parecer envergonhado. Então outras coisas passam por seus olhos também, tantas que mal posso decifrar. Mesmo assim, ele se aproxima, uma mão erguida em sinal de paz, e me entrega o copo de água que eu engulo imediatamente, tão rápido que quase me engasgo com o prazer de ter água limpa e fresca novamente.
— Vou buscar os remédios — diz ao passar por mim e entrar no único cômodo que tem uma porta, onde eu presumo que seja o banheiro.
Sou deixada ali, confusa e sozinha, esgotada pelo breve impulso de enfrentar o estranho. Fico olhando para a porta da frente da casa pequena, perfeitamente visível de onde estou.
Não entendo por que ele está fazendo isto. Me ajudando e fingindo que não entendeu o que pedi antes. Me dando a chance de fugir.
Talvez ele não tenha entendido mesmo, afinal. Não me surpreenderia. Para todos os efeitos, minha obrigação seria lutar, resistir. Sou uma imitação barata de ser humano por não conseguir agir assim, por não ter forças para me mover.
Posso lançar uns desaforos para o monstro bonito, como se tivesse algo dentro de mim pelo que eu sentisse que preciso brigar. Posso tornar tudo o mais desagradável possível para ele, mas é só.
Para onde eu fugiria? Para encontrar o quê?
Sinto a bile subir à garganta e minha respiração se acelerar. O cachorro que continuava imóvel, sentado me observando, de repente levanta as orelhas e choraminga. Ele vem para o meu lado e apoia o focinho no colchão, olhando em meus olhos.
Estendo a mão hesitante. Parece só um cachorro comum, mas eu não sei. Não entendo o que esses monstros fazem, não sei se fizeram algo a ele também. Mesmo assim, me sinto bem quando o animal coloca as duas patas da frente na beirada da cama e abaixa a cabeça para mim, pedindo que eu confie nele, dizendo que também confia em mim, apesar de não me conhecer.
Quando me arrisco a tocá-lo, me sinto estranhamente satisfeita. O pelo marrom é quentinho e as orelhas grandes são macias, gostosas de correr meus dedos por elas. Minha respiração começa a entrar em um ritmo mais constante quando ele me cutuca com o focinho.
— Oi — falo suavemente. — Eu sou a Mia. Você tem um nome?
— O nome dele é Sammy — a voz grave me sobressalta e eu recuo, ficando na defensiva. Não sei para quê.
— Mia? — ele testa e eu confirmo com a cabeça, sem olhar naqueles olhos perturbadores.
Devagar, ele se senta na ponta da cama, longe de mim, e encolho as pernas ainda mais para aumentar a distância. O monstro percebe e seus lábios fartos se contraem em uma linha séria. Alheio a tudo isso e parecendo muito feliz, Sammy vai até ele, confiante. Pelo menos isso me diz algo de bom.
— Preciso saber o quanto você está ferida para te ensinar a usar os remédios. Ou, se você me permitir... — Ele deixa a frase inacabada e, depois de pensar um pouco, desiste de terminar. Por fim, me estende a bolsa branca que trouxe de dentro do banheiro e acaba por deixá-la a meus pés quando não me movo para pegar. — Você deve saber que não posso te levar para ser tratada em um hospital. Imagino que entende o que isso significaria.
— Como acontece? — repito a pergunta de antes, porque sou perfeitamente capaz de deduzir do que ele está falando.
— Você quer saber...
— Eu sei que me tornarei como você, seja lá o que isso significa. Mas quero saber o que vou sentir.
Volto a me focar naqueles olhos, tentando demonstrar uma coragem que não sinto. Isso o deixa desconfortável, ao que parece, mas acho que ele decide ser honesto.
— Você não sentiria nada — diz depois de um suspiro profundo. — Você dormiria e uma alma seria inserida em seu cérebro, através de um pequeno corte em sua nuca.
— Uma alma?
— É o nome que adotamos aqui.
— Então eu não acordaria mais — afirmo, sem querer pensar no que quer dizer exatamente “o nome que adotamos aqui”. Por estranho que possa parecer, a outra parte não me assusta tanto quanto deveria, mas essa sim.
A “alma” apenas balança a cabeça.
Então é isso.
— Eu morro primeiro. Depois me torno outra pessoa.
O monstro-alma abre a boca para dizer alguma coisa, talvez para tentar amenizar a crueza do que eu disse, mas muda de ideia. Acho que percebe que não há nenhuma palavra que possa embelezar a verdade.
Primeiro, eu morro.
Como esse pobre moço cujo corpo ele roubou. Como Donny, Maria, Chico... Um por vez. Faltava pouco para chegar em mim.
Não foi tão rápido, imagino, porque a maioria de nós preferia enfrentar o frio a aguentar as regras do albergue. E, aparentemente, era lá que as coisas aconteciam, porque cada vez que um dos meus companheiros cedia, voltava diferente. Limpo demais. Calmo demais. Mais ou menos como esse cara diante de mim. Então eles se juntavam a outros grupos e os de lá voltavam mudados também.
Um dia, a polícia levou o Marcus. E o sujeito que voltou da prisão não era simplesmente diferente. Não era uma versão mais calma e gentil. Era outra pessoa.
A maldade é inconfundível. Quem já a olhou de perto sabe onde ela não está.
E é por isso que, apesar de tudo, posso engolir minha raiva e confiar neste aqui.
— Não estou ferida. São apenas uns arranhões. Talvez meus pés... Estou andando há dias.
Ele assente.
— Você borrifa esse aerossol para limpar — explica, apontando para o frasco branco maior. Há também um cilindro mais fino, algo parecido com um spray de garganta. — Este aqui você inala, serve para evitar infecções. Provavelmente, você deve precisar se bebeu água do rio ou da chuva. Esse outro frasco é o Curar, depois de limpar você pinga sobre os ferimentos. Como não tem cortes profundos, acho que não precisará do Suavizar — continua, feito um daqueles professores que estão com pressa demais para se certificarem de que os alunos estão acompanhando o raciocínio. — Você pode tomar banho... se quiser. Digo, acho que vai te fazer sentir melhor. Posso arranjar umas roupas limpas...
“Se quiser.”
É estranho como ele parece constrangido. Quer dizer, estou andando há um tempão, com a mesma roupa. Antes disso também, não era como se eu tivesse a chance de tomar banho todos os dias. Mesmo tendo usado o rio para me refrescar vez ou outra, é óbvio que preciso de um banho. Um bom banho. Seria apenas natural oferecer, como mais uma das muitas gentilezas que me concedeu. Mas agora tudo entre nós parece mecânico, tudo soa como um teste a limites que nenhum dos dois conhece.
A situação me deixa ansiosa. E já está bem difícil controlar minha cabeça. Por isso decido esclarecer as coisas.
— Então depois você vai fazer o que deve, não é? — Fico irritada quando ele me olha confuso. — Qual é, cara? Eu já disse que não vou fugir. Nem teria para onde ir se tentasse. Não tenho nada para que voltar.
É a vez dele de parecer irritado.
— Não sei o que está pensando, mas já disse que não vou levar você para lugar nenhum. Eu ofereci ajuda, abrigo e comida. É só o que vou fazer.
É estranho, mas isso me deixa furiosa.
— Eu não vou viver como prisioneira — decreto.
— Você é hóspede, não prisioneira. Pode ir embora quando quiser.
Fico olhando para ele, estática. A raiva apertando tanto minha garganta que não consigo responder. Essa criatura está me colocando na posição mais humilhante em que já estive. E humilhação é uma coisa que eu conheço como ninguém.
“E para onde eu iria, hein,” quero perguntar, mas quase consigo imaginar a resposta. Simplesmente não é responsabilidade dele. Em toda a minha vida, nunca houve uma única pessoa que não tivesse me deixado à própria sorte, de um jeito ou de outro.
— Eu estou cansada — sussurro, afinal, engasgada.
— Você pode passar a noite...
— Não! — interrompo. Esse filho da mãe maldito vai me obrigar a implorar. — Eu não tenho uma vida. Não tenho lugar nesta droga de mundo. Estou cansada de passar frio e fome. De remexer o lixo e implorar esmolas, de fazer coisas que eu não quero para... — Respiro fundo, pensando em Marcus. — Estou cansada de tudo! Se eu sair daqui agora ou amanhã, ou semana que vem ou daqui um mês, o fim vai ser o mesmo. Vocês vão me pegar e o que quer que aconteça depois vai valer mais a pena do que a vida que eu levo, você não vê? O que vai adiantar continuar sendo a mesma pessoa que não tem lugar no mundo, que está com os dias contados? Eu não posso voltar pra floresta, não tem nada pra mim lá. Também não posso voltar para Portland! Eu... eu... Estou entre quatro paredes de qualquer jeito...
Os olhos dele se arregalam. Minha respiração volta a acelerar, essas crises estão mais frequentes agora. Penso imediatamente nas pílulas que Marcus jogou fora e que eu peguei. Engoli a última ontem de manhã e não tenho ideia de onde conseguir mais aqui, no meio do nada. O que eu estava pensando? O que eu estava pensando?
“Estou entre quatro paredes... estou entre quatro paredes...”
— Mia, você não está entre quatro paredes. — Ele aperta minha mão com força e é quando percebo que estou dizendo essa frase em voz alta, sem parar. Estou abraçando meus joelhos, com a cabeça enterrada neles. O jeito como a alma segura minha mão é tão firme que a dor do aperto me traz de volta à realidade. — Mia, me escute. Você tem escolhas.
Tento manter o foco em seus olhos escuros.
Não faz sentido. Por que ele quer que eu acredite nisso? Por que está sendo bom comigo?
Sammy choraminga de novo. Uma lágrima espessa desce pela minha bochecha. O tempo parece ao mesmo tempo parado e escorregadio.
— Feche os olhos — ele pede, e eu obedeço sem saber por quê. — Você não vai morrer hoje. Vai dormir em lençóis limpos e comer comida boa. Não tirada do lixo, mas comida fresca, feita para você. Amanhã você vai se levantar quando estiver bem descansada, vai tomar o café da manhã e ir conhecer os cavalos no celeiro ou no cercado. Posso selar a Lua para você montar. Ela é linda, você vai gostar muito dela. É muito mansa também. Então você vai sair e conhecer os campos ao redor, respirar ar puro. Vai ao rio com Sammy mais tarde, ele vai querer brincar e vai espirrar água fria em você, mas amanhã o sol vai te aquecer...
Tento imaginar o que ele está me mostrando. Um dia ensolarado. A água tocando minha pele e o sol me abraçando em vez de me castigar.
Eu sempre quis brincar com um cachorro.
Imagino... Qual será o cheiro de cavalos? Eu nunca estive perto de um.
Lembro o cheiro da floresta e da brisa úmida vinda do rio. Agora, estranhamente, essas sensações me dão segurança.
Estou sorrindo, mesmo que seja um absurdo sorrir. Mesmo que eu tente disfarçar. Sinto quando ele finalmente solta minha mão e abro os olhos, ancorada em uma realidade estável outra vez.
— Você vai viver o dia de amanhã, Mia. Para poder decidir como será o dia seguinte. Para poder pegar meu telefone e chamar os Buscadores, se quiser. Ou para pegar meu carro e dirigir até a cidade para se entregar, se realmente achar melhor. Talvez você possa pegar a estrada e nunca mais voltar. Pode encher sua mochila de suprimentos e ir pra qualquer lugar, depois voltar quando precisar de mais. Ou nunca mais me ver. Não tem como garantir como vai ser, mas você tem escolhas, Mia. Não são infinitas, mas são suas.
Então ele se levanta e volta para a cozinha, me deixando outra vez sozinha com meus pensamentos confusos.
Como tantas outras pessoas já fizeram, ele está me deixando por minha conta. Mas desta vez, soa como uma coisa boa.
— Você está me dizendo que estou segura aqui — digo, e não sei bem se é uma pergunta ou uma afirmação.
— Você está segura aqui — ele responde sem tirar os olhos da geladeira.
Talvez lhe falte coragem para tomar a decisão e por isso ele a esteja delegando a mim. Talvez a covardia do belo monstro seja apenas tão grande quanto a minha.
— Por quê? — pergunto.
Por um minuto inteiro, ele não responde, apenas continua concentrado em suas tarefas. Chego a pensar que não me ouviu ou que simplesmente não quer se dar ao trabalho.
Por fim, ele se endireita e me olha.
— Não sei — diz, com uma expressão confusa que deve estar refletindo a minha. Por alguns instantes, nós nos encaramos, sem saber como seguir adiante. Então ele sorri e me dá as costas de novo. — Vou demorar pelo menos uma meia hora para preparar o jantar. Tem toalhas limpas no armário do banheiro, se quiser aproveitar o tempo.
Silenciosamente, e com Sammy me seguindo a cada passo, acato a sugestão, porque aparentemente é o melhor que tenho a fazer agora.
Não vou mesmo morrer esta noite, ao que parece.
Todo mundo morre um dia, todo mundo tem sua hora. Na minha vida, sempre pôde acontecer a qualquer momento. Mas, hoje, aqui, eu pude decidir viver.
E decidi.
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