Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira

3 Capítulo 3 - Sobre fazer dar certo


Older than water

Stubborn as stone

There'll be no forgiveness for all that you've known

Oh, these days

Oh, these days get heavy

Hotter than friction

Subtle as sound

There'll be no forgiveness for you to come around

Oh, these days

Oh, these days get heavy

I get older and life fades but you remain

Open up again I believe in second chances

Please, let me in, oh I believe in second chances

I won't break you, I will not let you down

Open up again I believe in second chances

(Second Chances – Imagine Dragons)

Den

Mia, o anjo negro, está dormindo há muitas horas.

Fico pensando no que isso significa. O cansaço do corpo aliado ao fato de que ela é uma humana em fuga, separada dos seus.

Quanto deve ter caminhado para chegar aqui, tão exausta e ferida? Por quanto tempo esteve sozinha? E quando deve ter sido a última vez que comeu antes do jantar de ontem?

Ela mencionou Portland, dizendo que não podia voltar para lá. O que me leva a pensar que deve ter vindo seguindo o rio desde a cidade grande. Dependendo do ponto de partida, dá para calcular uns 30 quilômetros. Para uma moça enfraquecida, possivelmente faminta, é uma árdua viagem sem rumo.

Não que eu tenha qualquer certeza sobre seus rumos e propósitos, mas por tudo o que disse até agora, Mia não parece ter um plano. E, no fim, acho que foi uma das coisas que me fez sentir pior pela angústia dela. O fato de que só posso supor o desespero que a moveu até aqui, apenas para se mostrar tão disposta a se entregar.

Só posso imaginar o que aconteceu no espaço entre a urgência de fugir e a decisão resoluta de não resistir à inserção.

Como tudo a seu respeito, só posso supor.

E as suposições estão me deixando maluco. Porque o que sei é que Mia acha que sua vida não vale a pena e não consigo entender como ela pode pensar assim. Nem por que isso me aflige dessa forma.

Não estou acostumado a não saber, a não entender. Histórias são como alimento. É assim para as Algas. De certa forma, é assim para os humanos também. A vida só existe na partilha.

Por isso Mia me transtorna com suas palavras. Porque quero provar que está errada.

“O que vai adiantar continuar sendo a mesma pessoa que não tem lugar no mundo?”

“Eu morro primeiro. Depois me transformo em outra pessoa.”

“Não pode ser pior do que já é.”

É assim que ela vê, afinal.

Quero pensar que está errado, que o que fazemos não é uma escolha pelo mal de outrem. Do jeito que ela coloca, parece muito com isso, e consigo compreender porque é assim para os humanos. Mas não é assim para nós. Somos quem somos, é dessa forma que vivemos.

Eu não escolhi estar no corpo de Owen. Vir para a Terra foi a única escolha que, de fato, me permiti fazer. Não determinei idade, sexo, localização... Nada. E quando recebi este hospedeiro pensei nele como em qualquer outro. Como continuidade e sobrevivência.

Em meus esquemas mentais não cabia o conceito de que Owen deixaria de viver. Somos formas de vida simbióticas e orgânicas. O corpo dele vive enquanto permite ao meu continuar vivendo. E é só.

Não é?

A consciência suprimida é uma parte desta vida, mas não a única. Foi isso que sempre pensei. É isso o que pensam as almas. Agora, quanto ao espírito em que Owen acreditava...

Se eu escolher pensar a respeito, o que vou descobrir? Onde “mora” a alma humana? No coração? Na mente? Nas ações que deixam sua marca no tecido entrelaçado das vidas em toda parte?

Será que alguma parte de Owen sobrevive em mim? Em meu coração? Em minha forma de agir ou pensar? Quanto de mim determina o funcionamento desta mente? Owen está morto ou somos um só?

Uma inserção significaria a morte para Mia? Se é assim que ela vê, de qualquer forma, por que razão pediu por isso?

E por que reluto em lhe dar o “fim” que já previu e aceitou?

O que estamos fazendo, nós dois?

Não tenho ideia de qual é a força que nos está mantendo aqui, razoavelmente seguros na presença um do outro. Mas, no fundo, acho que estou preso àquele primeiro momento. Ao pedido mudo e desesperado no olhar dela. À minha própria urgência absoluta de ajudar.

Temi mais pelo que pode ter acontecido com ela do que pelo que poderia acontecer comigo, em qualquer circunstância. E isso não mudou quando descobri que ela era humana.

A necessidade de fazer desaparecer a dor de Mia, qualquer que ela seja, continua tão premente quanto antes.

Essa é minha razão, no fim das contas. O motivo pelo qual minha decisão já estava tomada, antes mesmo de eu saber que precisava fazer uma escolha.

Foi isso que entendi ao longo das horas em claro que passei essa noite. Parece suficiente, mas é apenas sobre mim mesmo, entretanto. Sobre Mia e suas razões, continuo sem saber nada.

Não conversamos ontem enquanto comíamos. Não havia mesmo muito a dizer e eu não quis incomodar quando ela mal parecia disposta a olhar para mim. Além do mais, jamais tinha visto alguém com tanta fome. Saciar aquela ânsia parecia sagrado e pedia pelo meu silêncio.

A única coisa que eu disse, logo que ela saiu do banho, curada de seus ferimentos e usando minhas roupas, foi que ela poderia ficar com a cama. Eu ficaria com um velho saco de dormir que tinha guardado na garagem, assim que o encontrasse.

Saí à procura dele assim que terminamos o jantar e dei uma última checada nos cavalos. Quando voltei para casa, não muito tempo depois, a cozinha estava organizada e Mia dormia pesadamente sobre os lençóis que eu havia trocado enquanto ela estava no banho.

Quanto a mim, deitei com Sammy em frente à lareira e fiquei ali, sem saber em que direção perigosa meus pensamentos poderiam me levar, mas sem sucesso em conseguir evitá-los.

Assim que o sol raiou, desisti de fingir que em algum momento pregaria os olhos e saí para realizar minhas tarefas. Voltei uma hora e meia depois, com medo de que ela tivesse acordado e tomado qualquer das decisões precipitadas que parecia disposta a tomar ontem à noite, mas Mia mal havia se mexido em seu sono.

Naquele ponto, acho que eu próprio estava tão cansado que, enquanto esperava que ela acordasse, adormeci finalmente, todo torto na poltrona. Acordei agora, com o sol a pino entrando pela janela, aquecendo a casa. Meio-dia.

Mia acaba se levantando também, provavelmente com todo barulho que faço sem querer enquanto preparo o café da manhã.

— Bom dia — digo, embora já seja de tarde. — Espero que você tenha dormido bem.

Olho para ela, finalmente. Estive evitando fazer isso para lhe dar um pouco de privacidade, mas agora ela está parada a poucos metros de mim como se quisesse dizer alguma coisa também.

Mesmo assim, continua muda, retribuindo meu olhar com uma expressão confusa e sisuda, como se eu tivesse dito alguma coisa incompreensível.

— Já está na hora do almoço, na verdade — começo a explicar, puxando assunto nas amenidades, tentando motivar qualquer reação nela. — Mas eu também acordei faz pouco. Então decidi preparar o café da manhã mesmo. Espero que goste de ovos e bacon.

Mia vacila um pouco em sua seriedade, o olhar se voltando para o fogão onde comecei a preparar nosso desjejum. Depois ela se permite olhar em volta também, fixando-se no grande crucifixo sobre a cama onde dormiu. Provavelmente, nem chegou a notá-lo ontem.

— Esta casa... — ela começa num murmúrio rouco, depois limpa a garganta e firma a voz. — A quem ela pertence? Não é sua.

— Sim, é minha.

Seus lábios se apertam numa linha hostil. Mia quer brigar.

— Como é seu nome? — pergunta.

— Eu me chamo Corrente Ascendente...

— Não — ela me interrompe. — Quero dizer, o nome dele — explica, apontando em direção ao meu peito. — Da pessoa que morava aqui.

— Como...? — Continuo sem entender, então sigo seu olhar de novo até o crucifixo e subitamente as coisas fazem sentido. Na cabeça dela, aquilo que o símbolo representa faz com que ele não possa pertencer a alguém como eu. — Meu hospedeiro era católico. Um padre, para ser mais exato. O nome dele é Owen.

Os olhos dela se arregalam. Um sentimento misto de revolta e compaixão — certamente não por mim — passa por seu semblante e se instala ali, sem que ela faça o mínimo esforço de disfarçar.

E por que deveria? Aparentemente, eu sou o inimigo.

Era Owen — ela retruca. Depois faz um movimento com a cabeça em direção à cruz. — Por que você deixa isso aqui? É injusto com ele. Faz a casa parecer um túmulo.

— Eu jamais desrespeitaria Owen ou aquilo em que ele acreditava. — É minha vez de ficar sério. Sei que estamos em território complicado, mas não preciso aguentar tudo o que ela jogar sobre mim. — Deixo o símbolo de sua devoção onde ele escolheu colocá-lo, porque é minha forma de tentar entender as lembranças e sentimentos sob o ponto de vista dele.

— Que diferença faz? Você acredita em Deus?

— Já vivi em outros mundos. Minha visão não cabe nas estruturas de pensamento judaico-cristãs de Owen, mas gosto do que a fé inspirava nele. Era uma visão bonita e lhe bastava. Não penso muito além disso.

— Outros mundos... — ela repete. Aparentemente, o fato é novidade. Mesmo assim decido deixar no ar por enquanto. Vou esperar que me pergunte, caso escolha entender. — Sente-se.

Assim como fiz ontem, fujo do confronto voltando-me para a comida, mas a tampa de vidro aberta do fogão reflete a figura de Mia o suficiente para que eu acompanhe seus movimentos.

— Que espécie de nome é Corrente Ascendente? — ela pergunta enquanto puxa a cadeira.

Não sei se é uma bandeira branca ou não, mas aceito como uma oferta de paz e começo a falar.

— No meu planeta anterior, vivíamos como uma espécie que lembra as algas marinhas... Bom, mais ou menos. Éramos todos ligados, o planeta inteiro, por nossos pensamentos. Embaixo do mar, era uma coisa bonita ver a corrente marinha que, de tempos em tempos, subia à superfície. Era uma visão onipresente, considerando a forma como estávamos conectados, milhões de olhos olhando para uma coisa só em diferentes pontos, mas era... sublime.

A lembrança traz tamanha nostalgia que, por um segundo, esqueço a tensão entre nós e me viro de volta para Mia, tentando compartilhar a sensação.

Acho que ela não previa que eu fizesse isso, pois flagro sua atenção sobre mim, a “guarda baixa” enquanto repousa o queixo sobre as mãos e deixa os cotovelos apoiados na mesa.

Percebo de novo como ela é bonita, o rosto perfeito de uma escultura em ébano reluzente.

De repente, seu corpo se apruma e ela esconde as mãos sob a mesa, claramente incomodada pela vaga intimidade do momento. Também eu estou ciente de que meu olhar de admiração a deve estar constrangendo, então me esforço para deixar de encará-la, concentrando minha atenção em Sammy.

Como se entendesse a situação, ele salta da poltrona onde cochilava e demonstra interesse pelo que estou fazendo. De boa vontade, sem que ele peça, ofereço-lhe um biscoito pela distração oportuna.

— É um nome ridículo — ela diz sem me olhar, afagando as orelhas de Sammy quando ele se aproxima da cadeira. — Corrente Ascendente — repete em tom de desdém.

Tento ignorar o insulto. Posso fazer melhor do que cair nessas pequenas armadilhas que Mia prepara. Não sei por que ela quer brigar, mas eu não quero, então não vai acontecer.

Encho um prato e o coloco na frente dela, que começa a comer imediatamente, sem cerimônias.

— Você tem um sobrenome, imagino.

Observo-a revirar os olhos, querendo dizer que é óbvio que sim.

— Lopez — responde de má vontade quando arqueio a sobrancelha questionando.

— México?

— Meu avô paterno era de lá.

— Então você entende como um nome comunica os outros sobre suas origens, sobre sua história...

— No dia a dia ninguém ficava me chamando de Mia Lopez, simplesmente escolhia um ou outro. Você se apresentar como Corrente Ascendente é bem estranho. E se te chamarem só de Corrente... Bom, fica pior ainda.

— Faz sentido para as almas, especialmente para outras Algas Visionárias como eu. Mas você pode me chamar de Den, já que acha meu nome tão impronunciável — completo depois de pensar um pouco.

Ela dá de ombros.

— Ainda não resolve o fato de ser um nome idiota.

— Parece que não consigo agradar, não é mesmo?

Retiro o prato dela para enchê-lo de novo. Subitamente, perdi a vontade de comer, então coloco tudo o que resta na frigideira antes de devolver.

Depois fico irritado comigo mesmo. Porque é uma imprudência deixar que ela me perturbe assim. Fiz a promessa de ajudar e isso tem que bastar para que eu a suporte. Então não vou me permitir dar importância a seus desaforos pueris. Qual seria a utilidade? Por outro lado, também não posso deixar que faça pouco de minha boa vontade.

Assim, nesse espírito de não me deixar abater, pego mais alguns ovos no cesto e começo a prepará-los para meu próprio café da manhã. Ainda tenho muito o que fazer e não devo negligenciar minha alimentação. Ao contrário do que ela pensa, tenho muito respeito por este corpo. Meu corpo.

— Gostaria de ter conhecido Owen. Ele deve ter sido uma boa pessoa — murmura, mas não há agressividade agora. Apenas uma solenidade desejosa que me faz mais mal que os insultos, porque deixa claro que não sou importante.

Eu não deveria estar aqui: nesta casa, nesta vida, neste planeta que agora também é meu. É isso que essas palavras me transmitem de sua parte. Como se não tivesse sido eu a carregá-la e a cuidar dela. Como se eu não estivesse fazendo uma coisa absurda e perigosa ao acolher uma humana.

Por fim, é a honestidade na voz dela — mais do que qualquer ofensa boba — que finalmente me tira do sério.

— Owen ajudaria você do mesmo jeito que eu — alfineto para lembrá-la. — Porque ele não era como os humanos comuns no que dizia respeito à caridade.

Ouço o barulho dos talheres sendo largados no prato e, quando olho para ela, percebo. A última palavra que eu disse foi a que atingiu o alvo, como posso perceber pela expressão em seu rosto. Reconheço o orgulho dos humanos na atitude de Mia e me arrependo imediatamente por ter usado isso contra ela.

— Na minha espécie, ajudamos uns aos outros. Então fico feliz que esteja me permitindo fazer algo por você — digo brandamente, a título de desculpas.

Acho que ela entende, porque de repente uma coisa maravilhosa acontece.

Mia sorri.

Começa de um jeito tênue, parecendo quase um engano. Mas o rosto dela vai se suavizando aos poucos, os belos traços perdendo a intransigência até se transformarem em um inequívoco sorriso. Há cumplicidade no jeito com que ela me olha e isso me comove de um jeito que não sei explicar.

— Queria dizer que não sou um caso de caridade — diz, pegando os talheres de volta. — Mas a quem estou tentando enganar? O gosto da comida é bem melhor do que o do orgulho.

Sinto vontade de rir, apenas pelo jeito bem-humorado como Mia fala, mas me limito a um sorriso discreto. Apesar do tom divertido que ela tenta dar, não é uma coisa fácil de ouvir, e deve ser ainda mais difícil de dizer.

— Obrigado pelo elogio. É bom poder cozinhar para alguém de vez em quando — comento, tentando deixar o ambiente mais leve.

— Você cozinha bem. Devia comer também.

Faço que sim com a cabeça, feliz que o mal-estar inicial esteja desfeito.

Um passo de cada vez, penso.

— Podemos fazer isto dar certo. Aos poucos — acabo deixando escapar.

— Seria mais fácil se eu também fosse uma alma, hein! — ela me testa, mas não vamos falar de novo sobre essa possibilidade.

Não vou fazer isto. Não sei se é o que pretende, mas não vou levá-la para a Instalação de Cura. De toda forma, opto por agir como se ela estivesse brincando.

— Você seria a mais educada e gentil das criaturas. Aposto que teria vindo do Planeta das Flores. Já vivi lá e acho a sua cara, toda aquela suavidade — ironizo e ela ri. O som é encantador. — Seu nome seria Índigo.

Mia me encara pensativa, curiosa talvez. Mas já revelei outra coisa que não me perguntou, então resolvo me calar até que ela demonstre algum interesse real.

Volto a me concentrar no fogão e alguns instantes se passam até que ela finalmente cede à curiosidade.

— Não são flores de verdade, imagino. Mas formas de vida parecidas, como você disse sobre as algas.

— Sim, as comparações são o jeito mais fácil de nomear. No caso das que chamamos de flores, elas eram belas, delicadas e se alimentavam de luz. São muitos traços em comum.

— Então você foi algo como uma flor?

— Há muito tempo, sim — respondo quase mecanicamente, apreciando a leveza bem-vinda que se instalou, tão diferente da conversa de minutos atrás.

— Você tinha um nome lá? Poderia ter escolhido esse em vez de Corrente Ascendente?

— Até poderia, mas seria incomum. Era algo como Aquele que Aprecia a Luz... A tradução fica um pouco longa. Além disso, prefiro a referência ao meu planeta mais recente. Gosto das Algas.

— Índigo é um tom de azul, certo?

Ainda sem olhar para ela, eu paro. De repente, não quero mais responder, já que não sei exatamente por que disse isso. Mas já comecei o assunto e, de qualquer forma, foi o que fez com que ela se interessasse em conversar comigo.

— As flores azuis são raras e especiais — explico.

“Como você”, quero completar, mas não o faço. Tenho que me lembrar de que ela sente medo e repulsa por mim. Seu esforço para ser amigável não é uma permissão para que eu vá mais longe. Há um limite entre ser gentil e inconveniente que eu provavelmente já violei.

Pelo reflexo no tampo transparente, vejo quando ela para, me observando em um silêncio assustado.

Talvez eu deva me desculpar.

Quer dizer, não menti. Isso tudo, ela. É raro e especial, inegavelmente.

Deparar-me com alguém como Mia é a última coisa que eu poderia imaginar, e isso vem mexendo comigo de maneiras que não consigo compreender. Mas se eu mesmo não consigo lidar com minhas reações, como posso esperar isso dela?

— Mia, eu... — começo a me desculpar, mas ao me virar vejo quando ela morde um sorriso e olha para baixo, escondendo-o de mim. Meu coração dispara, estranhamente, e não consigo mais achar as palavras.

— Sim, Den? — ela questiona quando percebe que não vou completar a frase.

Den. Meu nome humano, ao que parece. Um sinal de paz.

— Eu... Ah... Você quer mais alguma coisa? — tento disfarçar.

— Ainda nem acabei. Mas obrigada, acho que estou satisfeita.

— Certo.

Ficamos nos encarando outra vez. Ela sentada, os pés delicados e descalços brincando com o pelo de Sammy, que está deitado no chão. Eu, em pé diante da mesa, um prato nas mãos, relutante.

— Você devia se sentar e comer um pouco também — ela diz. — Se eu estiver atrapalhando... Digo, se for por minha causa que...

— Não! — interrompo. — Eu gostaria muito da sua companhia, se você quiser ficar.

— Vou ficar, Den. Acho que não tenho compromisso para hoje — ela brinca e nós trocamos sorrisos outra vez. — Um passo de cada vez, não é?

— Acho que sim.

Ficamos num silêncio embaraçado pelos minutos que nos restam, mas Mia já não parece incomodada ou assustada.

Quanto a mim, fico reprisando aquele sorriso particular em minha cabeça. O jeito como ela mordeu os lábios... Acima de tudo, a maneira como me fez sentir.

Fico imaginando o que vai ser de mim, de nós, deste dia e dos próximos. Mas tudo em que consigo pensar é em como estou feliz por tê-la encontrado. No momento, esta é a conclusão que terá que bastar.