Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira

13 Capítulo 13 - A Inevitável das Horas


No warning sign

No Alibi

We're fading faster than the speed of light

Took our chance

Crashed and burned

No We'll never ever learn

(Alibi – Thirty Seconds To Mars)

Den

— Estive pensando... Você pode viver para sempre, não pode? — Mia perguntou sem me olhar, como se fosse um simples comentário aleatório sobre o céu estrelado que observávamos, deitados sobre um cobertor no gramado.

Não respondi de imediato. Apenas me virei de lado, fitando seu belo perfil. Nós nunca tínhamos falado sobre aquilo antes. Não exatamente. Mas acho que ela deduziu sozinha, a partir das informações que tinha, que eu era algum tipo de criatura imortal.

— É tão lindo! — Ela suspirou, falando sobre o céu, imaginei. Quando percebeu que eu continuaria em silêncio, completou: — Eu queria poder ver as estrelas do seu ponto de vista.

— Na verdade, a maioria de nós cruza o espaço dentro de criotanques — afirmei sem pensar.

Mia tinha uma noção romantizada sobre as almas e, às vezes, eu podia ser um tanto quanto insensível a isso. Acabei me sentindo um pouco culpado pelo toque desnecessário de realismo, mas ela riu, batendo a mão na testa num gesto engraçado. Isso me fez rir também.

— Não parece ter muita graça desse jeito — comentou.

— É, acho que não mesmo.

— Mas eu gosto de imaginar. Fico pensando nas coisas que você me conta, nas vidas que já teve e que pode ter. É... maravilhoso. Impressionante. Viver para sempre nas estrelas. Não é?

— Para sempre é muito tempo — falei.

A verdade era que eu não estava pronto para pensar naquilo. Na finitude do que tínhamos aqui, em como seria depois. Sem ela. Então dei essa resposta lacônica e desajeitada que, no fim das contas, não dizia nada.

Mas é claro que Mia não me deixaria escapar. Ela simplesmente me olhou com uma das sobrancelhas arqueadas numa repreensão muda, e eu soube que precisaria dar uma resposta de verdade.

— Sim, enquanto houver um hospedeiro, posso viver indefinidamente.

Ela simplesmente sorriu e voltou a olhar o céu.

— Você se lembraria de mim? — perguntou.

Respirei fundo e expirei o ar com força. Não era fácil explicar.

— Muito do que sinto está vinculado a esta mente, a este corpo. Há uma essência que viaja comigo a cada nova vida e, sem dúvida, você é parte dela agora. Mas outras formas de vida têm funcionamentos inteiramente diferentes. Em outro planeta, há demandas e prioridades diversas. A experiência da vida na Terra estaria lá, gravada no meu ser, mas eu não estaria ligado a ela por pensamentos e sentimentos humanos.

— Ah — ela disse.

— Você não precisa se preocupar em ser esquecida — decidi. — Eu não vou...

— Não. Eu posso viver com isso — ela me interrompeu, então sorriu de olhos fechados. — O que importa é o agora. E é melhor assim. Eu realmente compreendo. Você será mais feliz desse jeito.

Por todo nosso tempo juntos, eu tinha evitado esse tipo de reflexão. Nunca quis conversar sobre aquilo, porque não me parecia suportável lidar com a ideia de que não haveria um “depois daqui” para Mia. Mas, de repente, tudo me pareceu claro demais. Uma vida em que ela não estivesse no centro do meu universo seria um sacrilégio, um desperdício de tudo o que eu sentia agora.

— Você não entendeu. Eu já vivi muitas vidas, não faz sentido continuar depois de experimentar a melhor delas ao seu lado. Então não vou a lugar nenhum depois daqui, Mia.

Como se propelida por uma mola, ela se sentou e me encarou.

— Não é isso que eu quero! De jeito nenhum! Você não vai morrer neste lugar!

Quando Mia colocou as coisas nesses termos, pude entender o porquê de tamanho sobressalto, mas não era dessa forma que eu via. O fim era parte do ciclo, de qualquer ciclo, até mesmo do meu.

— Todas as coisas se transformam em outras e eu... — tentei começar a explicar, sentando-me de frente para ela, mas Mia se levantou e jogou as mãos para o alto, claramente indisposta a ouvir.

— Você está brincando!? Nós estamos falando de morte!

— Eu sei, mas esse não é um conceito assustador para mim, entende? É só parte do ciclo. Uma das escolhas que posso fazer.

— E, tendo escolhas, você vai fazer justamente essa!?

— Bem, eu já fiz quase todas as outras.

— Den! — Ela passou as mãos sobre o rosto, depois enterrou os dedos nos próprios cabelos.

A discussão a estava deixando ansiosa, e muito embora suas crises parecessem sob controle, eu não queria arriscar. Então me levantei e fui até ela. Primeiro coloquei as mãos em seus ombros, olhando fundo em seus olhos, mas ela os desviou dos meus, então a apertei em meus braços. Mia encaixou o rosto na curva do meu pescoço, mas não correspondeu ao abraço.

— Desculpe — pedi.

— Perder uma pessoa é a coisa mais difícil deste mundo, Den. Pensei que depois de passar por isso com minha mãe, eu já teria passado pela pior dor e não teria mais medo, mas eu me enganei. Nunca melhora. Tenho pavor de perder você. E você age como se não se importasse.

— É claro que me importo! É só que... estou acostumado a pensar nas coisas como ciclos que se cumprem, mas também nem posso imaginar como seria te perder. Dói só de mencionar. Devia ter sido mais empático. Realmente, me desculpe.

— Parece até que você não tem medo!

— Eu nunca pensei em morrer, nunca tive que lidar com a mortalidade antes de me apaixonar por você. Então você está certa quando diz que eu não temo por mim, mas está errada quando supõe que eu não tenho medo algum. Porque também tenho pavor de ter que viver sem você. Desde o começo foi assim. O nosso amor me individualizou e agora eu gosto de ser único. Eu nem sabia o quanto queria isso antes de acontecer. É como se esta vida fechasse o ciclo porque encontrei tudo o que precisava aqui. A vida perfeita. Não consigo conceber ter outras sem você e o Sammy.

— Mas você nos esqueceria. — Sua voz estava embargada e era quase como se a afirmação fosse uma súplica. Dessa vez, ela me apertou em seus braços também.

— Eu não sei ao certo. Como disse, outras formas de vida funcionam de maneiras diferentes. E a biologia exclui a metafísica do jogo, eu acho... Mas o que eu sei de verdade? Nunca passei por isso antes. Não sei de ninguém que tenha passado. Contudo sei que muitas almas encontram parceiros e os mantêm por muitas vidas. Então talvez eu esteja errado. Talvez eu viva milhares de anos sentindo sua falta. E ainda assim eu preferiria isso a te esquecer e te perder de novo toda vez que despertasse para uma nova existência.

— Desculpe. — Dessa vez foi ela quem pediu. — Eu só não estou preparada.

Fiquei embalando seu corpo de um lado para o outro, acariciando sua nuca. Não achava que aquele fosse um impasse que pudéssemos resolver, mas estávamos juntos naquele momento. E ficaríamos juntos enquanto pudéssemos. Talvez a gente precisasse se apegar a essa certeza para lidar com o que não podíamos mudar.

— Você acha que algum dia estará pronta? — questionei.

— Não.

— Nem eu.

A constatação teve um efeito estranho, pois ambos rimos e a tensão se dissipou um pouco, como se entender isso trouxesse certa conformidade.

Mia se afastou ligeiramente e secou as lágrimas teimosas, segurando minha mão para voltarmos a nos sentar.

— Nós precisamos de um criotanque — sentenciou.

— Quê?

— Um criotanque. Eles te dariam um ou teríamos que roubar?

— Por que estamos falando nisso? Este corpo é jovem e saudável. Temos tempo antes de precisar realmente nos preocupar com...

— Eu ficaria sozinha — ela esclareceu. — Se acontecesse alguma coisa inesperada, eu ficaria sozinha.

A fala soou estranhamente mecânica, mas apertou todos os botões certos, porque imediatamente me colocou em alerta.

Mia estava certa: eu não podia correr o risco de deixá-la sozinha. Tinha que ficar aqui cuidando dela enquanto ela precisasse de mim. E acidentes podiam acontecer. Não era uma precaução assim tão fora da realidade. Caso acontecesse algo, eu não sabia como faríamos para que ela me levasse até um hospedeiro viável, mas eu podia pensar nisso depois. Por enquanto, precisava dar a Mia uma garantia que a tranquilizasse.

— Os tanques são responsabilidade dos Curandeiros — expliquei —, mas para uma pessoa comum possuir um, teria que solicitar aos Buscadores. Posso alegar medo de ataque animal, já que não são totalmente incomuns nesta área. O problema é que os registros deles dizem que moro sozinho, a quilômetros de alguém que possa fazer uma retirada de emergência.

— Se você dissesse que contratou um ajudante ou que tem amigos que passam muito tempo aqui, eles acreditariam?

— Não vejo por que não.

— Então está resolvido. Temos que nos precaver.

Fiquei olhando para ela, apreensivo. A conversa difícil de antes tomara um rumo de certa forma inesperado.

— Mia, por que estamos falando sobre criotanques? Eu sei que você tem medo de que aconteça algo comigo, mas eu falei sério quando disse que teríamos tempo para aprender a lidar com isso. Nós temos remédios para qualquer doença do corpo humano.

Ela olhou para baixo, brincando com uma linha solta na roupa que estava usando.

— Eu não sei se temos tempo.

Toquei seu queixo de leve e virei seu rosto para mim.

— Acidentes acontecem, eu sei. Mas você sabe o quanto eu sou cuidadoso. Não é como se precisássemos nos preocupar mais do que em qualquer outra circunstância. Então o que está te afligindo de verdade?

— Um dia eles vão nos descobrir — ela disse, segurando minha mão que estava em seu rosto e desviando o olhar novamente. — Mais cedo ou mais tarde, os Buscadores vão chegar.

Fiquei sem fala. Já havíamos tido essa discussão outras vezes e Mia sabia que esse também era um medo meu. Mas ela nunca tinha se expressado dessa forma, com essa certeza absoluta e fatalista.

— E você acha que eles vão tentar me matar, é isso? — perguntei com cuidado.

— Não sei. Você disse que eles não fariam nada contra você, que não agiriam contra sua vida, mas podem agir contra sua vontade. E se doparem você e te removerem do hospedeiro? Você não quer ser mandado para fora da Terra, pelo que me disse. Ou então... e se você estiver errado e eles te machucarem?

— E de que o criotanque adiantaria se fosse assim?

— Eu não sei! Eu... — Ela enterrou o rosto entre as mãos outra vez e inspirou fundo. — Eu só queria mais uma garantia de que posso tentar te proteger. Se eles te machucarem, eu vou matá-los, Den! E se o seu corpo estiver morrendo, ou muito machucado, eu posso... Eu posso...

— Você nunca vai precisar matar ninguém — assegurei, puxando suas mãos para poder segurá-las e olhar seus olhos. — Não é assim que as coisas funcionam, eu já disse. Almas não machucam umas às outras, nem mesmo os Buscadores. No máximo, me colocariam para dormir se eu tentasse impor algum tipo de resistência. Além disso, nós fizemos um trato quando você decidiu ficar, lembra? Você prometeu que nunca usaria de violência.

— Não posso prometer isso mais. Porque você vai tentar impedir que eles me levem. E isso vai fazer os Buscadores te considerarem um traidor. Na verdade, só por ter me acolhido eles já vão querer te punir.

— Não é assim. — Balancei a cabeça, insistindo. Mas outra vez Mia descartou meu protesto.

— Você não sabe. Nunca viveu isso antes — ela declarou, usando a frase que eu dissera instantes atrás. E mesmo que eu ainda não pudesse concordar, também não conseguia, depois de tudo, encontrar argumentos para discordar.

Então apenas fiquei ali, fazendo promessas que não sabia se poderia cumprir. Dizendo que tudo ficaria bem, mesmo que não dependesse de mim.

A lembrança é nítida como um filme. Durante os últimos dias, desde que aconteceu, repassei a conversa de novo e de novo em minha cabeça.

Eu precisava cuidar de mim mesmo, sim. Precisava estar aqui para proteger Mia. Se o criotanque a fazia sentir mais segura a esse respeito, então eu conseguiria um.

Quanto a mim, no entanto, o que realmente me traz alguma segurança é o plano de fuga que criei para ela. Supondo que ela realmente vá embora. Supondo que não aja contra os Buscadores, que não tente ser a heroína. Pedi que ela prometesse, que me fizesse juras de não violência. Tudo o que consegui foram mais evasivas em troca das minhas próprias.

Encaro a estrada com isso girando em minha mente.

É tarde demais agora.

Eu devia ter insistido, devia tê-la feito prometer, nem que para isso precisasse esgotar todos os meus recursos emocionais. Mesmo que precisasse brigar, chantagear, obrigar... Mesmo que isso tivesse custado tudo em que acredito.

Porque nada vale mais do que a segurança de Mia.

Nem a minha paz. Nem a minha vida. Nem mesmo o nosso amor.

Mas é tarde demais agora.

Sei que ela também pode ouvir o barulho do carro. Talvez, de alguma fresta entre as cortinas fechadas, esteja vendo o homem que sai de dentro do veículo chamativo e se posta à minha frente.

As roupas pretas indefectíveis só confirmam meus medos.

Pelo menos é apenas um.

— Corrente Ascendente? — pergunta o Buscador.

— Sim, sou eu.

Ele assente milimetricamente. É um homem grande, bem maior do que eu. Mas minha motivação não é algo que possa ser desprezado.

A naturalidade com que o pensamento me assalta impressiona. Não consigo parar de avaliá-lo, de enxergar um irmão como ameaça. Isso não sou eu, não se parece comigo, mas também sou eu, sim. Porque Mia vale mais do que tudo. Mais até do que eu mesmo.

Penso se conseguiria enfrentá-lo. Penso se o machucaria, mesmo se soubesse como causar-lhe dano.

— Meu nome é Notas Invisíveis.

— Mundo Cantor. Nunca estive lá — observo mecanicamente. É apenas um tópico de conversa comum entre os de minha espécie, mas no instante em que as palavras saem da minha boca, percebo a inutilidade delas.

Esse homem é meu inimigo. E neste momento sinto como se todas as outras almas também fossem. Frases amistosas não vão mudar isso.

Olho para ele. A pele é alguns tons mais clara do que a de Mia, mas os olhos são muito escuros e me encaram de volta. Por cima de meu ombro, ele observa também a casa e sua expressão se acende com interesse.

— Acho que você sabe por que estou aqui.

Abro a boca para discordar, mas sinto que é tarde demais para isso. Ele sabe sobre Mia. É claro que sabe. Nenhum Buscador viria até aqui e diria algo assim se não soubesse. Mentir não vai ajudar. Então simplesmente fico em silêncio.

Sammy percebe a animosidade e se posta entre nós dois. Quando o Buscador faz menção de se abaixar para tocá-lo, ele rosna. Está desconfiado e desconfortável. Então o homem simplesmente se endireita e volta de novo sua atenção para mim.

— O cachorro será um problema?

— Esta é a casa dele. Já era dele antes de mim. Então, sim, ele vai protegê-la.

Quero dizer mais do que isso. Sammy não é um cão agressivo, mas não tenho a menor dúvida de que, tanto quanto eu, ele faria de tudo para proteger Mia.

Você será um problema?

De alma para alma, essa é uma pergunta estranha. Em circunstâncias normais ela jamais seria feita. Mas uma coisa permanece como esperado: ele está jogando limpo comigo. Devo-lhe a mesma cortesia.

— Vou protegê-la também. Farei todo o possível.

Notas Invisíveis assente de novo. Não estamos discutindo a segurança de minha propriedade, não haveria razão para isso, mas essa clareza não torna a conversa menos estranha.

— Por quê? — ele questiona, inclinando a cabeça. — Por que você está protegendo uma humana?

Engulo em seco. A consciência que eu já tinha de que ele sabe sobre Mia não diminui o impacto da pergunta à queima-roupa.

— Porque ela precisava de mim. Não fui capaz de salvar sua vida e depois entregá-la a vocês.

Acho que essa é a explicação mais simples a que consigo chegar, e a obviedade dela surpreende até a mim.

— “Entregá-la a vocês”, você diz. Quer dizer a nós Buscadores ou à espécie que você traiu?

Não sinto nada quando ele diz isso. Achei que sentiria, que me culparia, mas não me culpo. A verdade é que nunca me culpei.

— Eu não traí ninguém, fiz o que tinha que fazer, o que senti que era o certo. E é só. Esse tempo todo eu garanti que ela ficasse segura e era tudo o que ela precisava. Vivemos em paz aqui. Não ameaçamos a estabilidade da sociedade, nem a segurança de ninguém. As almas já têm o planeta. Ela pode ao menos ter esta casa. Comigo.

— Os humanos são instáveis, violentos. Você não tem como garantir que ela se conformará em ficar aqui. Não pode saber se ela não se juntará a outros remanescentes e trairá você.

— Ela não...

— Está tudo bem, Den. Acabou agora. Você não precisa mais mentir por mim — a voz firme de Mia me interrompe.

O Buscador faz um movimento brusco ao tentar se desviar de mim e ir até ela, mas eu barro sua passagem e Sammy emite um rosnado ameaçador. Ele para, mas seus olhos estão vidrados, como se todo o esforço de se conter fosse apenas automático.

— Mia — ele murmura, o que é estranho, porque eu nunca disse o nome dela.

— Olá, Marcus — ela responde.

E o mundo parece desabar ao meu redor.