Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira

14 Capítulo 14 - A Coragem dos Desesperados


Capítulo 14

Mia

Quando digo o nome de Marcus, alguma coisa se transforma em Den. Seu corpo se endireita como se eletrizado por um raio. E ele parece maior por causa da postura agressiva, dos músculos retesados e das mãos fechadas em punho.

— Marcus — ele murmura, quase hipnotizado.

— Meu nome é Notas Invisíveis agora — o buscador corrige.

E isso, de certa forma, vem a calhar, porque preciso que Den se lembre de que o homem diante de nós não é aquele que me destruiu. É só uma alma incapaz de enxergar o que ele enxergou. Alguém que me julga como uma ameaça a ser extinta, mas que talvez não pense o mesmo sobre o “impressionável” Corrente Ascendente.

— Bem, eu continuo sendo Mia Lopez, como você pode ver — digo ao buscador.

É obviamente inútil tentar me passar por uma alma. Estamos a poucos metros um do outro. Ainda que não tivesse vindo aqui com a intenção de me prender, mesmo que tudo fosse uma infeliz e macabra coincidência, ele pode ver meus olhos. Então guardarei minhas mentiras para o que realmente interessa.

— Eu não vou oferecer resistência, vou caminhar até seu carro e me sentar no banco de trás. Então podemos ir embora daqui e deixar Corrente Ascendente em paz.

— Mia! — Den se exaspera, mas eu o ignoro.

— Imagino que ache prudente me revistar — digo ao buscador enquanto ergo as mãos em rendição e caminho bem devagar em sua direção. — Não tenho armas, juro.

Sammy rosna outra vez e Den continua a se postar entre mim e Notas Invisíveis.

— Seria prudente, sim. Mas acho que seus amigos não vão facilitar. Eles não querem deixar você ir. Parece que gostam muito de ter você aqui.

— Não! — exclamo, com pressa de rebater a insinuação. — Não, não, eu... Não é culpa dele. — Suspiro. — Eu o obriguei a me ajudar.

— Você não me obrigou a nada! — Den protesta, mas continuo a ignorá-lo. Não tenho forças para olhar em seus olhos agora. Não quando estou prestes a dizer o que vou dizer.

— Eu o ameacei no início, ele achava que eu tinha uma arma e que outros humanos estavam escondidos nos arredores. Era o suficiente para garantir que ele me ajudasse no início, enquanto eu estava de passagem, mas aí eu decidi ficar. Então eu... eu o manipulei para que se apaixonasse por mim. Foi fácil, o hospedeiro não tinha experiências românticas e Corrente Ascendente vivia aqui praticamente isolado. Foi quase como uma Síndrome de Estocolmo.

Continuo a evitar o olhar de Den, mas ouço seu arquejo escandalizado. Permaneço firme, entretanto, encarando apenas o buscador.

— Isso é mentira! Mia nunca me ameaçou, nunca me obrigou a nada! A responsabilidade é minha. Eu a ajudei porque ela precisava e porque sei que ela nunca faria mal a ninguém. Posso prometer isso. Ela nunca vai sair desta fazenda, nunca se encontrará com outra alma. Por favor, deixe-a ficar sob minha responsabilidade! — Den implora, mas nem me permito sonhar com a possibilidade. — Eu faço qualquer coisa, dou qualquer garantia.

O buscador não responde, apenas continua a nos examinar com seu semblante indecifrável, mas imagino que o pedido de Den apenas reforce a minha mentira.

Notas Invisíveis me conhece através dos olhos de Marcus, o que significa que já viu o meu pior em suas lembranças. E eu sou humana. Uma pária. Nada além do que ele espera, talvez ainda pior. Ninguém vai acreditar que sou inofensiva. Nunca nos deixariam em paz. Por isso preciso contabilizar as minhas perdas. Preciso proteger Den a qualquer custo. Tenho que garantir que não restem dúvidas de que ele foi apenas uma vítima da minha manipulação.

— Eu menti para ele — afirmo. — Corrente Ascendente me defende assim, porque eu menti depois que o seduzi. Ele acha que estou grávida.

Dois pares de olhos se fixam em mim. Em choque. Somente Sammy continua focado no impasse entre os corpos, mas toda a atenção de Den agora está em mim. Como seu primeiro instinto é sempre o de acreditar no que digo, por um instante, ele parece confuso, e a surpresa em seu semblante quase estraga o efeito pretendido.

Eu devia ter previsto isso. Mas obviamente não tive tempo de me planejar. Tudo vai saindo de improviso.

— É isso, Corrente Ascendente. Eu não estou grávida, não precisa mais me proteger achando que eu carrego seu filho — falo antes que ele consiga articular qualquer palavra.

— Mia, não... — Agora que parece ter entendido meu plano, ele tenta me parar, mas eu me aproveito de seu estado de choque e imponho minha voz.

Falo alto, grosseiramente.

— Se quer saber, é um alívio! Sei que acabou pra mim, mas eu não aguentava mais isto aqui de qualquer jeito. Estou indo para o carro agora. Só quero sair deste lugar. Pelo menos uma última vez vou ver alguma coisa que não seja mato e bicho.

Digo essas coisas que beiram a falta de sentido, tentando magoar Den com essas besteiras, apenas para impedir que ele se estabilize e comece a argumentar comigo. Também preciso distrair o buscador para que ele não tenha tempo de raciocinar, porque sei que meu plano é frágil e repentino.

A distração, entretanto, não funciona como o esperado. Na verdade, Notas Invisíveis está mais atento agora. E seu semblante não está mais insondável. Com um misto de compreensão e choque em seus olhos, ele murmura:

— Você o está protegendo...

O que acontece a seguir é quase rápido demais para processar, mas meu desespero registra cada cena.

Notas Invisíveis dá um passo em minha direção e Den tenta agarrá-lo. Em sua fascinação, o buscador reage por instinto, cegamente, e o empurra. Sammy salta sobre o homem e o derruba com seu peso. Desesperado para se livrar da mordida em seu braço, o buscador desfere pontapés aleatoriamente e um deles acaba acertando nosso cachorro. Sammy se afasta ganindo, tremendo de dor pela pata traseira ferida.

Eu grito. Den grita também, mas é mais como uma espécie de urro. É rápido demais. Nenhum de nós está raciocinando. Den avança sobre o buscador e eu penso que terei que separá-los, mas Den nem mesmo completa qualquer que fosse o movimento pretendido. Simplesmente desaba no chão, como um animal abatido em pleno salto.

O buscador se debate para tirar o corpo de Den de cima do seu. Tropegamente, ele se levanta. Não está mais de mãos vazias. Um de seus braços sangra, mas o outro está firmemente segurando um spray. Antes que Sammy se recupere, nosso algoz vai até ele e borrifa algo em seu focinho. Um jato breve e o animal desfalece também, tão rápido quanto aconteceu com Den.

Meu Den. Meu amor. Dirijo um olhar para seu corpo imóvel e sinto meu peito se rasgar, mas eu não grito.

Den está morto. Sammy está morto. E eu estou viva.

Tive inúmeros pesadelos com isso. Em todos eu gritava. Na maior parte das vezes, me desesperava. Em outras, apenas chorava nossa derrota. Mas quando acontece de verdade não faço nenhuma dessas coisas. Ao contrário, uma estranha calma se apossa de mim. E eu corro.

O buscador me persegue, mas eu chuto seu braço ferido de propósito. Não é um chute poderoso, nem sequer muito certeiro, mas funciona, porque Sammy o pegou de jeito. Ele para, dobrando-se um instante sobre si, segurando o ferimento. É tempo o bastante para que eu alcance a mochila escondida em um compartimento sob os degraus da varanda. Den a preparou no início, caso eu precisasse fugir, mas desde algum tempo não carrego mais apenas mantimentos nela. Puxo uma faca de lá de dentro. Ele não concordaria que eu a usasse assim, mas não posso fazer o que pretendo sem ela.

— Afaste-se deles — ordeno, brandindo a arma para o buscador.

— A menos que você tenha se tornado atiradora de facas, vai ter que chegar muito perto para me matar.

O spray de veneno continua em sua mão e eu entendo que, se me aproximar, o jato vai me alcançar antes. A distância o favorece.

— Eu não preciso matar você. Cortar seus dedos fora já vai ser o suficiente. Estenda a mão pra mim e veremos quem é mais rápido.

Não duvido de que eu conseguiria. Sei lidar com facas, a vida na rua me ensinou muitas coisas. E Marcus sabia disso. Notas Invisíveis também sabe.

— O que você pretende, Mia?

— Saia de perto deles agora! — grito, e para mostrar que não estou brincando seguro seu braço com força com minha mão livre e, com a outra, faço um talho fundo perto de seu pulso. Com a dor, ele deixa cair o spray que eu chuto para longe. — Prometi a Den que não mataria uma alma, embora minha vontade neste momento seja grande, mas não prometi que quem nos atacasse sairia daqui inteiro. Na próxima, corto seu tendão. Você não vai conseguir dirigir e até alguém chegar aqui para te consertar, já teremos desaparecido.

— Você está entendendo errado. Não sou uma ameaça para vocês. Deixe-me explicar.

— Entre no carro. Mas antes me dê a chave e o celular.

Derrotado, ele obedece.

— Eles estão bem...

— Cala a boca!

Eu me ajoelho perto de Sammy e afago sua cabeça. Formulo um agradecimento e uma promessa silenciosa de que vou cuidar de Den por nós dois. Tenho que parar por aí, porque as lágrimas começam a cair e eu preciso de foco. Então me abaixo e encosto a testa em seu pelo marrom, respiro fundo nele o cheiro de nossa terra e tento me acalmar.

Den continua na mesma posição desajeitada em que caiu e eu quero colocá-lo em meu colo, abrigar seu corpo em meu abraço, chorar por ele. Mas não há tempo. E, de novo, eu não posso me permitir ser arrasada por essa despedida.

É só um corpo. É só um corpo. Repito mentalmente como um mantra.

Viro-o de bruços e afasto cuidadosamente seus cachos. Os cachos do hospedeiro.

É só um corpo.

— O que você está fazendo? — o buscador se exalta. Cerimoniosamente, eu retiro o criotanque da bolsa. — Mia, não! Corrente Ascendente está vivo, não seja irracional!

— Sim, ele está vivo aí dentro, eu sei. Leva um tempo para a alma morrer, se eu agir agora...

— Você vai matá-lo. É uma reação instintiva. Se tentar tirá-lo à força, hospedeiro e alma vão morrer.

— Não vai ser à força. Eu sei como fazer.

— Mas o quê... Mia, escute! E depois? O que você vai fazer depois?

Olho para ele, por fim.

E depois?

Penso no criotanque em minhas mãos. E nas minhas opções. Posso carregar Den comigo, mas se outros buscadores me pegarem, o que vai ser dele? Que garantias eu tenho de que vão mantê-lo vivo?

Ele precisa de um corpo para se defender. Um corpo com que possamos enganar os outros. Um corpo hábil com que, ao menos, possamos fugir daqui. Um corpo com os conhecimentos certos.

Eu me sinto flutuando. Como se estivesse em um filme, observando tudo de algum outro lugar onde não tenho estes pensamentos cutucando meu cérebro. Onde não observo Notas Invisíveis e concluo que, apesar de seus dois braços estarem sangrando, por causa do que eu e Sammy fizemos, o resto está bem.

Respiro fundo.

Den. No corpo de Marcus.

A mera formalização do pensamento faz com que bile suba à minha garganta. Mas qual é a escolha que eu tenho? Não posso deixar meu amor morrer.

Ele percebe. O homem que um dia foi Marcus percebe alguma coisa em meu olhar.

— Mia...

Ele está assustado. Engraçado, nunca imaginei que um buscador pudesse ficar assustado.

Levanto como que hipnotizada. Não posso usar o spray venenoso, não posso ferir demais o corpo. Nada que seja muito difícil de consertar. Não temos mais Corta Dor em casa... Quais são minhas opções?

Eu me aproximo do carro e Notas Invisíveis me olha nos olhos. Não é Marcus. É só uma alma. Quem já viu o mal, sabe onde ele não está.

Terei que machucá-lo. Ele poderá sobreviver no criotanque, mas antes disso... Antes disso, preciso dar um jeito de cortá-lo fora desse corpo. Um corpo que terei que machucar, mas não a ponto de matar. Ou de lesionar permanentemente. Embora uma pancada na cabeça pareça ser minha única opção. E meu grande risco.

Imagino minhas mãos buscando uma pedra grande. Imagino meu braço descendo sobre sua têmpora. Imagino...

— Não posso — ofego.

Imagino Den acordando. A dor em seus olhos ao saber o que eu fiz. A maneira como as lembranças de Marcus o torturariam. O quanto isso o mudaria?

É só um corpo. Mas também não é só um corpo.

Quero ficar viva, e quero estar ao lado dele, ainda que seja nessas circunstâncias. Em outros tempos, não me importaria mais nada. Mas hoje o que ele sente me importa mais. Den sofreria. E eu não poderia suportar.

Em outros tempos, só me importaria estar com ele.

Mas eu não sou mais essa pessoa. Amo Den demais para isso.

— Você vai mandá-lo para outro planeta — digo.

— O quê?

— Vou deixar você viver. Vou me entregar. E você vai mandar Den para outro planeta. Pra que ele não possa sentir minha falta.

— Você vai se entregar em troca disso? Por quê?

— Ele disse que formas de vida diferentes não sentiriam como nós sentimos. Não quero que ele sofra. Ficar aqui seria ruim. Ele... ele vai ficar de luto por mim. E por Sammy.

— Mas Sammy não está morto — ele diz. Pisco aturdida, o buscador me olha surpreso. — Corrente Ascendente e o cão só estão dormindo.

— Você diria isso, não é? Para se salvar. Mas eu não posso. Não posso tomar seu corpo de você.

— Era isso que você estava tentando fazer?

Ele não sabia. Não tinha entendido. Achei que ele soubesse que eu pretendia roubar seu hospedeiro e colocar Den em seu lugar.

— Eu... eu não podia deixar que ele ficasse em um hospedeiro morto — tento explicar, mas de repente não faz mais sentido.

O mundo está girando. Notas Invisíveis sai do carro. Eu deveria fazer alguma coisa a respeito, porém é como se, subitamente, todas as forças tivessem me abandonado.

— Você está em choque — ele diz.

E quando finalmente processo essa ideia, meu corpo reage de acordo e minhas pernas falham. Meus joelhos tocam o chão e eu me sento ali, no chão de terra, os olhos vagando sem enxergar.

Já está anoitecendo. Preciso acender as luzes da varanda. Tenho que tirar Den deste lugar.

Acho que estou hiperventilando. Ou talvez o ar esteja rarefeito. Só sei que minha cabeça continua a girar.

— Preciso que você respire, Mia — o buscador diz, se ajoelhando ao meu lado. — Se você quer salvar tudo isso, temos muito o que conversar.