Étoiles Perdues
2 I've just seen a face
Notas iniciais
Éponine
– Ahn... – todos me olham com certa expectativa, mas não consigo me concentrar sabendo que ele continua me encarando.
– Conte um pouco sobre como veio parar aqui – a moça sorridente ao meu lado sussurra. O rapaz balança a cabeça de leve e sorri como se soubesse coisas das quais não sei.
– minha família é uma merda, me largou aqui, comecei a andar com gente que não prestava e virei uma verdadeira Thénardier enquanto a única mulher que me amava no mundo apodrecia debaixo do solo.
– Resolução de ano novo.
Respondo com um sorrisinho e o resto da reunião se resume a olhar para o garoto enquanto ele também me olha e ambos fingem que não estão percebendo.
Enjolras
– Mãe!
Silêncio. Largo as chaves em cima da mesa e a mochila no chão.
– Cosette, cadê você...
– Surpresa!
– Céus. Não acredito que fez isso – sorrio pegando a torta de pêssego das mãos de uma Fantine toda arrumada. As sete velas em cima do doce são as únicas luzes na sala.
– Feliz sete anos na família, mon amour – ela pega dois garfos e sentamos no chão um ao lado do outro na mesinha de centro.
– Onde estão os outros?
– Esperando no restaurante, mas queria ficar um tempo só com você.
Dou a primeira garfada e o gosto de infância desce garganta abaixo.
– Adoro o fato de estar comendo a sobremesa antes do jantar enquanto a Cosette espera. Ela deve estar enlouquecendo.
Fantine ri e coloco mais doce na boca. Ela toca meus cabelos e em seguida o contorno do meu rosto enquanto fecho os olhos. Foi com torta de pêssego que ela me conquistou enquanto todos dormiam na primeira semana com os Valjean. Exatamente no mesmo lugar que estamos agora.
– Você é tão lindo, Enjolras. Ainda me lembro de como pensei isso quando te vi a primeira vez. Todo sério sentado em um canto enquanto aquela garotinha de olhos puxados pulava corda te encarando.
Fecho os olhos com mais força sentindo falta do espaço que preencheria o vazio dentro de mim.
– Agradeço a Deus todos os dias por ter você –ah, a frase que ela diz todo dia. -Olhe pra mim.
Abro as pálpebras e dou de cara com seus olhos fixos nos meus.
– Você vai encontrar ela de novo. Sei disso.
Toco a mão dela que permanece em meu rosto espalmada e olho para baixo.
– Enjolras.
A encaro outra vez.
– Eu sei que vai.
Silêncio.
– Acho melhor guardarmos pra mais tarde o resto.
– Tudo bem.
Guardamos as coisas sem dizer nada depois que apago as velas que ainda estavam acesas.
Antes de sair eu a abraço. Mais forte que da última vez e mais fraco que da próxima.
– Merci.
– Pelo quê, filho?
– Pelo doce.
– Não foi nada.
Infelizmente ela já não é mais alta que eu. Já não sou eu o acolhido em braços quentinhos. Olho para baixo.
– E por ser linda. E todas as outras coisas que não importam tanto agora.
– Deixe de ser bobo – ela ri e passa as mãos pelas minhas costas me fazendo querer voltar a ter 12 anos quando ela ainda acreditava.
Cosette
Olho a tela do celular pela vigésima vez, mas o horário não mudou ainda. Ninguém online. Ninguém por perto que não seja meu pai grudado no jornal enquanto eu padeço no tédio.
– Aleluia! Onde vocês estavam?
– Em casa ué. Eu precisava me arrumar.
– Enjolras — o observo da cabeça aos pés -, você ainda tá usando a roupa que foi pra aula.
Ele olha a própria camisa.
– ah, deixa de ser chata, Cosette.
Ele bagunça meus cabelos e senta. Papai larga o jornal. Ele e mamãe começam a conversar sobre algo chato e Enjolras levanta outra vez porque disse ter visto Courfeyrac do lado de fora.
– Onde você vai? – me questiona assim que levanto.
– Com você.
– Por quê?
– Porque quero ver o Courf.
– Você nem fala com ele, Cosette.
– Mas quero sair daqui então vamos logo.
Ele dá de ombros e segue até a rua. Courfeyrac e outro amigo, virado de costas pra gente, conversam sentados nas mesas do lado de fora do restaurante.
Enjolras puxa uma cadeira e age como se o outro cara não estivesse ali.
Ah, as boas maneiras do meu irmão!
Aceno para Courfeyrac e é aí que seu amigo vira pra trás e tudo vira do avesso junto. E coraçõezinhos rosas saltam dos meus olhos como nos desenhos e todas as borboletas acordam ao mesmo tempo fazendo a maior bagunça no meu estômago.
Marius
Courfeyrac acena para alguém atrás de mim, e na curiosidade giro o corpo para a esquerda. E vejo um anjo e todas as estrelas dentro dos olhos dele. E meu coração palpita e esqueço tudo que não seja o rosto dela me encarando.
– Ai que chatice – o outro cara reclama com o celular na mão. – Papai quer que a gente entre.
– droga – ela fala baixinho.
– Depois a gente se fala. Eai? – ele finalmente nota minha presença.
– Eai – respondo.
– Vamos?
Ela acena e silenciosa volta seguindo o rapaz. E deixa no ar todas as respostas pras minhas perguntas recém-nascidas.
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