O jovem rapaz acordou de seu sono com um sobressalto; com um punho enluvado fechado em torno da empunhadura de um cajado com uma pedra celestial incrustada na ponta, e uma espada curta na outra. Ele examina o templo em ruínas onde se abrigara, temeroso. Após momentos de absoluto silêncio, ele solta o fôlego.

A tensão abandona seu corpo. O jovem senta-se em um banco próximo. A noite de descanso devolveu alguma vida ao seu dolorido corpo, mas não resolveu os seus problemas; apesar das dedicadas e fervorosas orações, nenhuma divindade se dignou a reabastecer seu parco suprimento de comida. Ele quebra o jejum com um de seus últimos pedaços de biscoito duro, junto de um gole de água do único cantil que carregava.

“Pelo menos não infeccionaram”, murmura o jovem, levantando as calças para examinar as bandagens enroladas em ambas as pernas; os assaltantes que o emboscaram duas noites atrás deveriam ter sido facilmente derrotados, mas, na fúria do combate, ele, de alguma forma, não viu as mandíbulas do único cão que os acompanhava. Este foi o preço. “Não vou morrer por causa de um vira-latas nojento”.

Ele retirou um caderno surrado de sua mochila, desamarrando a caneta presa à lombada e o abriu. Por um longo minuto, ele encarou a página em branco.

Não há nada para escrever. Ele tentou, por mais de meia hora, pensar em algo importante para escrever, e ainda assim sua mente está vazia. A jornada até o templo foi cheia de acontecimentos. Três quartos das páginas deterioradas detalham o perigoso ano que durou a viagem, mas, para a última semana, apenas um pouquinho de tinta foi usada. Nem a fome, a sede ou os ferimentos o impediram de escrever antes. Parece que ele ficou sem combustível justamente quando chegou em seu local destinado.

Ele fecha o livro, enfiando-o de volta em sua mochila. Com as suas armas em mãos, ele caminha até as porta. Ao abri-las, a noite brilha em seu rosto.

“Nós não pertencemos a Atena”, sua mãe lhe disse uma vez. “Pertencemos à noite. Não importa se nosso status tenha se perdido; não estarmos ajoelhados diante de nossa Rainha todas as noites não muda nossa natureza. Consegue ver, meu pequeno floco de diamantes? Você não vê a majestade da noite iluminada pelas estrelas? Se algum dia você sentir que as paredes do seu castelo estão se despedaçando, tire um momento e contemple a luz brilhante da noite, e a verdade irá te sustentar.”

Nos últimos dias, a fragilidade de seu corpo e mente tornaram-se impossíveis de ignorar. O outrora todo-poderoso nutrimento da noite começou a perder sua potência. Aquele veludo negro bordado com diamantes, sua luz guia, ainda o nutre, ainda que apenas um pouco. Com um balançar da cabeça para limpar a poeira de seu cabelo e de sua mente, ele segue em frente.

Cauteloso, ele desceu um lance de escadas, atravessando um pequeno pátio. Diretamente a sua frente, além de um arco de pedra, havia um jardim de tamanho considerável, sobre o qual se erguia uma estátua de Atena. Ele deu apenas alguns passos no jardim quando uma abominação com muitos braços e pernas se lançou de trás da parede distante do jardim. Ela segura duas enormes lâminas de ouro reluzente em seus braços esquerdos e carrega um escudo imponente à sua direita.

A monstruosidade mal terminou de lançar um grito alto e agudo e o jovem já está avançando contra ela, sua mochila arremessada contra uma coluna próxima e suas armas em punhos. Correndo, ele desfere um golpe certeiro, atingindo a criatura no que parece ser seu rosto — o rosto de uma criança no qual foram enxertados vários braços, pernas e o tronco de um gigante. Ele salta para trás imediatamente, evitando a saraivada de contra-ataques da monstruosidade. Mesmo no ar, ele já buscava o seu cosmo noturno interior. Ao aterrissar em pé, um trio de lâminas cintilantes paira acima de si, manifestados a partir da pedra celeste de seu cajado.

Graças a sua selva de pernas, a besta avança rápido, desferindo uma sequência de estocadas e golpes. O jovem se esquivou e desviou dos primeiros. Ao sentir que suas pernas não conseguiriam acompanhar o ritmo, as lâminas cintilantes se lançaram contra a fera. Graças à distração do impacto, o jovem correu para o lado da criatura. Urrando, mergulhou sua lâmina profundamente nela. Uma, duas vezes. Uivando de raiva e dor, a monstruosidade gira seu escudo. O jovem puxa sua lâmina livre bem a tempo de desviar do escudo. No entanto, ele não foi rápido o suficiente para se esquivar dos golpes com o pomo da espada. Ambos o atingiram no estômago. Em um momento carregado de horror, sua visão escureceu; ele se choca contra a base da estátua de Atena, ofegando por um ar que vem em respirações agonizantes e sangrentas.

Bufando e ignorando os rios de dor lancinante que rasgam seu âmago, ele se levanta. A besta também se recupera, com suas selva de pernas cambaleando e suas armas seguradas em mãos trêmulas. O jovem travou o olhar com a fera, encarnado profundamente seus olhos disformes. A besta a encarou de volta. Por um momento, apenas a brisa e os suspiros entrecortados de dois guerreiros feridos podem ser ouvidos.

A besta então urra de maneira ensurdecedora. Ela joga seu escudo fora, passando uma lâmina para uma das mãos no seu lado direito, erguendo as armas. Correntes de fogo dourado surgem das guardas.

A visão do jovem está desvanecendo novamente. Está custando cada vez mais caro se manter de pé e acordado.

Ele olha para a noite brilhante mais uma vez.

Ela brilha em volta, eterna.

“Servir, meu pequeno floco de diamante, é sua própria recompensa. Mesmo na face da morte certa, mantenha-se ereto e firme. Seus ancestrais fizeram isso, e você fará o mesmo — pois em seu sangue corre a linhagem daqueles que lutaram contra o exílio, o tormento e o sofrimento, e nunca, jamais, viraram as costas para a honra!”

“Um fim nobre é mais do que posso pedir de você, besta”, ele diz, erguendo-se orgulhoso, ajustando sua postura. A besta inclina sua cabeça disforme, andando de um lado para o outro com suas armas erguidas, esperando que o jovem revele suas intenções.

Venha então, besta. Eu mostrarei tudo o que deseja saber.

Ele canaliza o que sabia ser o último resquício de sua força, sentindo as energias do céu noturno queimando toda a sua dor e incendiando sua mente com uma clareza fria e flamejante. Ele embainha sua arma na luz brilhante da noite. Da pedra celestial incrustada no cajado surge uma falange inteira de enormes espadas em chamas.

“VOCÊ IRÁ ENFRENTAR CAELUM, AQUELE QUE ERGUE O ANTIGO ESTANDARTE DOS FILHOS EXILADOS DA NOITE! VENHA, ABOMINAÇÃO! BANQUETEIE-SE NAS LÂMINAS QUE GUARDAM A NOITE!”

—----------

Caelum derrotou a criatura.

Da luta, ele não lembra quase nada. Apenas um borrão de lâminas, entranhas e gritos.

Caelum venceu a criatura. E vice-versa.

Enquanto a besta se desfaz em partículas de cinzas e luz, Caelum desabou no chão. A dor está desaparecendo, mas há tanto sangue jorrando de suas incontáveis feridas que ele sabe que sua jornada chegou ao fim.

Ele se arrasta, rangendo os dentes, até a estátua no centro do jardim. Ele olha para a noite brilhante. Não há arrependimentos, desejos ou pensamentos; ele simplesmente contempla a noite. A última coisa que Caelum viu antes de sua visão desaparecer foi uma luz cintilante e brilhante na noite escura.

Ele fechou os olhos, sua respiração irregular diminuindo… e a sensação final que vem antes do fim de todas as coisas foi como calor, amor e sensação de lágrimas que não eram suas correndo por seu rosto.

—----------

A terra, outrora abençoada, agora está decadente.

Nós, destinadas a ser mães, agora nos tornamos desgraçadas.

Nós lamentamos e derramamos lágrimas, mas ninguém nos consola.

Ó Dourada, com quem você está zangada?

—----------

A Mãe Gentil amava tudo o que era Dela, e como tudo era Dela, ela amava a todos. Suas muitas mãos seguravam a meada de tudo o que era Dela, através de todos os tempos e espaços.

Certa vez, ela olhou para uma terra e viu uma de Suas crianças; frágil e magra, com cabelos roxos que brilhavam como ouro.

E Ela chorou.

E Suas lágrimas caíram, através das brechas no tempo e no espaço, e tocaram a criança moribunda que olhava para o céu noturno. Salve a minha filha.

—----------

O jovem ofega, uma mão estendendo-se para o céu, a outra agarrando seu estômago. A última coisa que se lembra era do Amado de Ártemis puxando sua arma após desferir-lhe um golpe mortal, olhando para ele com olhos que carregavam o peso do mundo em tristeza.

Ele parou, franzindo a testa, ao perceber que seu estômago não doi. Ele olha para baixo e percebe que não apenas está ileso, mas estava vestindo calças esfarrapadas e uma túnica surrada ao invés de uma armadura sagrada. Além disso, também está utilizando uma capa antiga e desbotada em azul brilhante. E o que é este intrusivo pensamento de um caçador?

Afastando a confusão da mente, ele olhou para cima e observou os arredores. Um templo velho e abandonado. Uma estátua de Atena, sabe-se lá de que época — certamente bem diferente de todas que ele já viu. A escada que leva para fora está ladeada por estátuas que representam algum tipo de figura feminina vestida por um manto. Ao olhar para uma poça d’água, pode examinar seu próprio reflexo: um rosto mortalmente pálido o encarava através de olhos entardecidos, cabelos brancos como a neve caindo soltos ao redor de seu pescoço.

Esses traços eram seus, sim.

Mas, qual é o seu nome?

As palavras tentam se insinuar de sua boca enquanto ele luta através de um labirinto de memórias fragmentadas. Dédalo ficaria orgulhoso de tal labirinto.

Caelum? Não. Este é o nome do jovem que outrora ocupava este corpo.

“Qual é o meu nome?”

Ele se pergunta, esperando desesperadamente descobrir se sua mente está intacta.

Sem respostas, o jovem se levanta. Estendendo as mãos, as armas douradas antes empunhadas pela Besta se convertem em fragmentos dourados muito pequenos, mínimos. O jovem não consegue acreditar que fragmentos de armadura foram usados para forjar espadas como essas. Ele guarda os fragmentos em uma mochila que encontra próximo. Encontrando um velho caderno surrado, ele se detém em seu conteúdo.

—----------

Itens vistos no capítulo:

Cajado celeste

Cajado com uma pedra celestial incrustada na ponta. Um catalisador para utilizar o cosmo.

Espadas ornamentais douradas.

Espada reta e esbelta, inspirada em um ornamento antigo. Após a perda da graça, a escória da Vanguarda Dourada buscou poder e propósito no passado. Um catalisador para utilizar o cosmo.