É por isso que eu odeio o futuro!
4 Capítulo 4-Álbum de família.
Notas iniciais
O meu pai sempre dizia que preferia passar uma temporada na Antártida, usando apenas um calção de banho, do que uma visita da minha vó por duas horas. E olha que a minha vó era bem legal! Fazia biscoito e aquelas coisas de engordar e tal, mas enquanto para mim e para minha mãe ela era um anjo, para o meu pai era demônio encarnado. Ela amava esculhambar com ele. Era divertido. Até eu está no lugar dele.
Lá estava ela. A dita cuja da sogra, mãe do namorado que eu nem sabia que tinha. Com todos aqueles cachos no cabelo platinado e toda a aquela maquiagem chamativa. Porque dava para rebocar uma casa com tanta maquiagem que essa mulher tem na cara.
Não me entendam mal. Ela não era insuportável nem nada assim.O problema é que... Ela me parecia bastante, hum...Carente. Muito, por sinal.
Eu estava sentado com cara de tédio com o queixo apoiado na mão enquanto Roberto falava sem parar sobre a minha “recuperação”.
Eu havia sido PROIBIDO de falar algo sobre a perda de memoria um pouco antes de ele sair do quarto. Ainda fiquei um pouco mais para poder vestir alguma coisa, mas dava para achar um fóssil de dinossauro naquele guarda-roupa, mas não achava algo menos... Nerd! Procurei algo até nas coisas do Roberto, já que a gente devia ter o mesmo tamanho ou sei lá, mas era tão engomadinho quanto as minhas próprias roupas. A coisa menos exótica que eu achei foi um short de algodão que ia até mais ou menos a minha coxa e uma camisa branca comprida. Arrependi-me de ter vestido aquilo assim que entrei na sala e ele sorriu para mim da maneira mais indecente que já vi na minha vida.
—Sinto muito por mais cedo... – Ela falava com a face vermelha... Ou aquilo era só blush mesmo? – Eu soube sobre a saída do Alex, mas não sabia que vocês já estariam...
A frase ficou no ar. Eu apenas respirei fundo e desejei que um buraco abrisse para eu me enfiar dentro. Ela resolve me aparece bem na hora que eu estou nu e com um cara, que detalhe, é filho dela, em cima de mim... Tem como não ficar com raiva e constrangido? Imagina.
Eu estava caladão, na minha, deixando papo entre mãe e filho fluir e tal, até ELA resolver falar comigo, e não dava para eu ficar lá olhando mosca e ignorando a mulher, né?
—Alex, você está tão calado hoje, estou até estranhando, geralmente é tão comunicativo... – Eu? Eu sou comunicativo? Eu, que corria de festas familiares só para não falar com a farofada da família? Eu?
—Acho... Que ainda estou tentando me acostumar com tudo isso. Sabe como é... O acidente me desestabilizou muito!- Não foi uma mentira, ocultei certos fatos. Para mim foi o suficiente.
—Não foi isso que me pareceu há alguns minutos atrás. – Ela riu e eu corei, me recusando a olhar para o Roberto.
— Não se preocupe Mãe. O Alex só está um pouco constrangido com a situação anterior.
— A culpa foi de quem mesmo?– Soltei venenosamente. Eles riram.
—Alex... Ele está cuidando bem de você? –Ela me perguntou dando outro gole na xícara.
Olhei finalmente para o ser ao meu lado. Ele me parecia tenso, mas com um leve sorriso, cujo eu queria arrancar da cara dele.
— É... O Roberto está cuidando muito bem de mim. – Falei entredentes.
Muito bem! Tipo, a cada passo um assedio... Melhor impossível! Ela analisou entre mim e Roberto e depois só em mim.
—Vocês já estão brigando? –Ela soltou.
Arqueei as sobrancelhas.
— Não... Por quê? – Bom, eu até estou com raiva, mas não brigamos.
— Você o chamou de Roberto... – E dai? Foi o nome que a senhora deu a ele! Queria eu o chamasse como? – Só faz isso quando está irado com ele.
Ela olhou para ele.
—Não olhe para mim. Não fiz nada!– Mentiraaaaa!
—Sei... – Ela murmurou depois olhou para mim e mexeu os lábios em um “depois você me conta”. Acabei sorrindo.
E antes que o clima ficasse tenso, a campainha tocou. Roberto foi atender. E adivinha que era? O povo da farofa... Digo, minha família.
—Olá, Carlinha! Camila! Minhas queridas! – A mãe de Roberto cantarolou alegremente.
— Leonor! Você veio ver nosso filho?- Minha mãe riu. Espera... Nosso? Que porra é essa mãe? Tá me monopolizando agora?
—Claro! E olha... Ele não está adorável?-Ela apontou para minhas roupas. Minha mãe olhou para mim com os olhos arregalados. Movi os lábios em um “o quê?” mudo para ela. Mamãe apenas balançou a cabeça.
Olhei para trás dela e sorri para Camila que retribuiu e veio em minha direção. Deu-me um beijo no rosto. E então senti o leve toque no ombro e me virei para ver quem era. Quase cai de costas. O cabelo louro bem cortado, o rosto masculino e sem feições adolescentes e aqueles olhos verdes um tanto fechados. Gustavo... Ou uma versão mais velha dele.
— Caralho! Gustavo! É você?– Não quero me gabar... Mas fiquei mais gato que ele.
—E aí? Senti sua falta. – Ele apertou meu ombro. Sorri para ele.
—É claro que sentiu! Sou seu melhor amigo, porra. E como assim você casa com a minha irmã e eu vou ser tio?– Quase me esqueci desse evento!–Tenho tantas coisas para te perguntar.
Camila riu
—É uma menina e um menino! – Ela falava orgulhosa. – Está quase na hora deles chegarem. Infelizmente você sofreou acidente antes que e pudéssemos te contar... – Não é como se eu fosse lembrar de qualquer maneira.
Olhei para todos na sala e vi minha mãe e a mãe do Roberto falarem alegremente àquelas coisas que mãe adora fofocar uma com outra. Haja assunto. Foi quando uma parte da conversa capturou a minha total atenção.
— Onde está seu marido, Carla? É raro vê-los separados.
Minha mãe riu nervosa e depois olhou para mim.
— Ele está lá em baixo. Disse que nós podíamos ir à frente enquanto ele estacionava.
Estava sentindo falta do meu velho. Não via a hora de vê-lo novamente! E quando a campainha tocou pela segunda vez eu fui mais do que alegremente atender. Só que... Não era meu pai.
Na verdade, demorei um pouco para entender quem era. Mas depois de olhar a careca com apenas um bocado de cabelo na ponta, meu sangue gelou.
A memoria de um garoto de onze anos traumatizado e com um professor demoníaco o aterrorizando veio a minha mente. Um ano inteiro vivendo no inferno...
— Senhor... Burk? – Falei ainda olhando aquele homem que torturou o pobre Alex quando criança.
—Olá meu rapaz. Como está se sentindo? – Pasmo! O que essa múmia veio fazer aqui? Como ele me achou?
Ele passou por mim enquanto eu fechava debilmente a porta. Minha mãe se levantou e sorriu.
—Desculpe o atraso a todos. Querida, você pegou tudo? – Querida?
—Ah... Sim. Estão aqui. – Nem havia reparado na sacola não mão da minha mãe quando ela entrou.
—Mãe... O que—Eu ia perguntar o que diabos o demoníaco senhor Burk estava fazendo naquele apartamento quando ele se inclina e beija A MINHA MÃE! Tipo, minha mãe. Uma mulher casada.
—Isso vai dar merda... –Escutei a voz do Roberto atrás de mim, mas ignorei completamente.
—Mãe!– Gritei. –O que você pensa que está fazendo? – Todos os olhares estavam sobre mim!– Porque está beijando o senhor Burk? Esse cara é o maluco que quase me reprovou na quinta séria, lembra? O que o papai vai dizer se souber disso?
Eu estava mais do que pronto para dar um senhor sermão naquela mulher quando a mão de alguém tampou meus lábios. E mesmo que eu me debatesse ele era mais forte.
—Podem nos dar uma... Licencinha? –Reconheci a voz do Roberto que me arrastava igual um boneco de volta para aquele quarto.
Ele me empurrou para dentro e trancou a porta. Tossi ao voltar a inalar o ar novamente.
—Você viu aquilo? – Esbravejei.
—Sim! Todos viram. Você pode parar com esse chilique? O que foi aquilo, Alexander? – Ele tá brigando comigo? O cara beija a minha mãe e ele briga comigo?
— Eu é que te pergunto! O que foi aquilo? Minha mãe é uma mulher casada! Como ela pode fazer isso?
—Eu sei que sua mãe é casada. E aquele lá fora, David Burk, é o marido dela. Mais conhecido também como seu padrasto. – A resposta que eu tinha na ponta da língua sumiu, junto com toda a minha voz. Precisei de alguns minutos antes de voltar a falar novamente.
—Marido? Então... Cadê o meu pai? – Olhei para ele.
Roberto suspirou e se sentou na cama pedindo para que eu me sentasse ao lado dele. Eu segui. Na verdade eu estava tentando processar o fato de que... A minha família havia mudado... E que nem existia mais.
—Alex... Seus pais se separaram quando você tinha vinte anos. E logo em seguida a sua mãe se casou com o David. O seu pai se aposentou da policia.
Olhei para ele debilmente.
—E onde ele está?
—A ultima noticia que nós tivemos, é que ele estava em Las Vegas. Com uma bela loira do lado dele. – Ele riu um pouco, mas parou ao ver que eu não havia achado graça.
— Meu pai... Está em Las Vegas? Ele... Nem sabe sobre mim, então...
Roberto mordeu o lábio.
— Alex... Você e seu pai, não se davam muito bem. Ele não aceitou amigavelmente quando você disse que era gay e desde então acho que vocês mal se falavam.
Meu nariz começou a pinicar e meus olhos também. Não posso chorar. Não na frente desse cara.
—Você pode chorar se quiser... – Ele falou como se pudesse escuta o que eu pensava. – Você está aguentado tanta coisa ... A maioria das pessoas não teria metade da sua coragem, Alex. Mas não precisa ser forte o tempo todo. Você sempre ficava mal quando assunto era esse e sei que isso sempre vai ter machucar. – Ele segurou meu rosto me fazendo olhar para ele. – Aquelas pessoas lá fora... E eu, somos a sua família agora. E você pode mostrar a sua fraqueza para sua família, certo?
Está vendo, eu do futuro? Eles amam você! E olha como você os recompensou? Esquecendo todos! Você é um filho da puta, eu do futuro! Só digo isso.
Ele me puxou para um abraço e eu acabei afundando meu rosto em seu pescoço. E por incrível que pareça, foi um vez gesto onde não tinha malicia ou segundas intenções. E... Eu aceitei. Lembrei-me dos olhos dele. Sempre que eu os vejo, acabo pensando que estou me esquecendo de algo muito importante. Bom, não que isso realmente conte.
Acho que ficamos assim por alguns minutos. Eu não chorei, e não foi porque eu me censurei a isso, mas porque eu não quis. Eu simplesmente... Acalmei.
Ele me perguntou algumas vezes se eu queira continuar ali, mas achei que seria uma puta falta de educação, já basta o show que eu dei na sala. Anotei mentalmente que deveria parar de achar certas coisas estranhas e fazer barraco por isso, àquele já não era o mundo que eu lembrava, só me restava aceitar.
Eu pedi desculpas ao senhor Burk e a minha mãe, que apenas me abraçou e também pediu desculpas, enquanto a mãe do Roberto perguntava de um por um o que estava acontecendo. Depois que minha mãe soltou olhei para a sacola jogada no chão:
— O que tem aí dentro?
— Álbuns de família! – Camila disse alegremente enquanto passava um braço pelo meu ombro.
A aquela sentença familiar. Aquilo que faz você gelar. Os malditos Álbuns de família. Todos os micos da sua geração registrados em fotos. Você bebê pelado comendo o dedo do pé, seu tio avô de cueca, ou a sua madrinha bêbada dançando com o cachorro... Essas são as fotos que geralmente acabam em álbuns de família. E a minha família, como toda família farofa, não podia perder essa oportunidade...
Minha mãe espalhou os montinhos sobre a mesa de centro e cada um pegou um daqueles demoninhos.
Eu acabei com um não tão recente. Era minha formatura do segundo grau. E não é que mesmo vagabundando eu passei? Lá estava eu, de beca e tudo mais, com o canudo em mãos e sorrindo. Outra com Gustavo rindo e uma ainda mais bonita: Eu todo sujo de tinta segurando um cartaz escrito “aprovado” ao entrar na universidade. Eu parecia estar tão feliz...
Levantei o rosto par ao resto das pessoas. Minha mãe mostrava a farofada de família para a mãe do Roberto que ria histericamente, minha irmã estava vendo as fotos do casamento dela com um sorriso bobo no rosto. Espiei por cima do ombro de Roberto para ver o que ele estava vendo.
Ele olhava uma foto nossa. Na verdade, o álbum parecia ser só sobre isso -mania da minha mãe de organizar por datas e acontecimentos- Eu observei todas aquelas fotos, minhas e dele e por mais que me desse calafrio admitir, parecíamos um casal. Mas de todos os álbuns, aquele era ao o único em que eu menos sorria.
— Porque eu to com essa cara de bunda nas fotos? – perguntei a ele.
— Você não sorria muito... – Ele disse sem olhar para mim... Mas, não era isso que eu via. Eu sempre estava rindo nas fotos, exceto... Quando eu estava com ele.
Esse era o padrão das fotos. Fotos com ele, eu estava emburrado, fotos sem ele, eu sorria e parecia outra pessoa. Muito estranho
— Mas eu só estou com essa cara quando você está comigo! Isso é estranho... –Falei em um sussurro.
Roberto fechou o álbum e sorriu para mim e alcançou minha mão entrelaçando nossos dedos. Olhei para ele sem entender.
— Alex... — Ele disse também em um sussurro. – Lembre-se: Você é meu! Com memoria ou sem.
Não precisei de mais nada para aperceber o peso que aquelas palavras carregavam. Eu estava preso a ele... De algum jeito.
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