É por isso que eu odeio o futuro!
20 Capítulo 20- Não tão certo quanto deveria.
Notas iniciais
Minha noite havia despencado morro abaixo.
Sinceramente, não tenho a mínima ideia de como consegui voltar para casa sem antes parar pra me jogar na frente de um ônibus. Simplesmente, quando dei por mim, já estava lá. Tão largado e acabado quanto um jornal de padaria.
Isso foi uma amostra grátis do apocalipse. Esse negócio de amnésia e tudo mais, sabe? Digo, claro que não seria –como não foi– nenhum piquenique no parque recuperar todas aquelas lembranças. Sério. Não foi mesmo. E ainda assim, não consigo sequer dizer que foi uma grande surpresar para mim.
Eu sempre soube que havia algo de podre no reino da Dinamarca. Eu só não sabia o que era. E também, não sei se deveria fazer tanta questão de procurar. Porque, cara, eu sabia que não era como procurar chifre em cabeça de cavalo. Realmente havia algo embaixo dos panos.
Não que agora eu vá me fazer de pobre vítima inocente de Roberto, porque fracamente, eu também não fui nenhum santo. Afinal, eu não tinha nada que ter ido chorar as pitangas para cima de Vitor daquele jeito.
Tudo bem, eu confesso que não estava nada satisfeito. E também não imagino alguém que ficaria se estivesse em meu lugar. Porém, eu também não ia quebrar o pau e discutir com ele igual a um rebelde sem causa, do nada. Até porque eu não estava nem com vontade e nem com força pra fazer isso. Eu só tinha força pra duas coisas: Deitar e morrer. Só. E como nenhuma das duas eram uma opção viável, acabei tendo que encarar Roberto cara a cara.
Às vezes acho que minha vida é uma grande videocassetada, só que sem a parte engraçada. Porque se for parar pra pensar, a minha vida não tem nada de engraçado! Digo, eu não estava rindo quando entrei em casa e dei de cara com Roberto, ainda completamente leigo no assunto, me abordado com um enorme sorriso.
— Chegou na hora certa. Eu estou terminando de fazer o jantar... – Ele começou a dizer, mas sua voz foi morrendo sílaba por sílaba.
E após me dar uma boa olhada dos pés a cabeça, Roberto estava completamente sem fala. E acredite, ele não estava mudo daquele jeito porque reparava no quanto eu era lindo e sensual sob a luz do luar. Pelo contrário. Ele provavelmente estava em choque pelo meu aspecto de sobrevivente de filme de terror.
— Meu Deus, Alex! O que foi que aconteceu? – Ele arquejou.
Foi uma reação exagerada. Porque Roberto também não precisava ficar me olhando como se fosse brotar um chifre de unicórnio na minha testa a qualquer momento. Quer dizer, eu não estava tão desgrenhado quanto ele fazia parecer. Tudo bem que as minhas mãos estavam um pouco tremulas, meus cabelos bagunçados pelo vento e era bem provável que meu rosto estivesse meio verde, já que meu estômago ficava dando tantas piruetas que poderia facilmente ser convocado para os próximos jogos olímpicos. Mas o jeito que ele me olhava, era como se eu acabasse de sair de “o massacre da serra elétrica” usando todo o figurino.
Eu abri a boca e a fechei várias vezes, igual a um peixinho, sem saber como respondê-lo. Na verdade, eu estava certo de que não ia conseguir fluir uma conversa sobre assunto algum com Roberto naquela noite. Sabe, não que eu me orgulhe em dizer isso, mas eu estava quase abrindo o berreiro pra cima dele. Eu sentia claramente uma bola de histeria formada em minha garganta, pronta pra explodir. Mesmo assim, desviando-me dele e tentando a todo custo seguir para o quarto, consegui murmurar um cansado:
— Estou bem.
Roberto veio logo atrás de mim.
— “Bem” é a ultima palavra que usaria para te descrever. – Verberou. – O que aconteceu?
Apertei meus lábios. E o encarei.
Decisão horrorosa, por falar nisso. Olhar para os olhos de Roberto era como pedir para relembrar tudo novamente. Senti minha respiração ficar cada vez mais pesada. E tentei negar com a cabeça pra ele. Mas Roberto não me deixou escapar só com isso. Ele segurou meu braço antes que eu sequer tivesse a iniciativa de sair dali.
— Eu vou te ajudar com qualquer coisa, Alex. Sabe disso. Mas o que eu posso fazer se você não me conta o que aconteceu? – Seu tom de voz começou repreensivo, entretanto segundos depois voltou a usar o tom mais brando. – Por que não confia em mim?
Olhei instantaneamente para seu rosto quando aquelas palavras acertaram meus ouvidos.
Como ele podia agir como se fossemos o casal mais feliz da história? Como ele podia ignorar as coisas que fez pra mim, tanto quanto ignorava as que eu fiz com ele? Como alguém poderia ser tão... Hipócrita daquele jeito?
Bom, eu o chamo de hipócrita, mas tenho até medo de procurar no dicionário uma palavra para me descrever. Então deixa baixo.
Mas Roberto notou a forma que eu o olhei naquela segunda vez. Notou na hora que havia algo totalmente errado. E notou também o que saia dos meus olhos. E que com certeza não eram confetes.
Eu realmente não precisava chorar naquele momento. Que dizer, poxa, aquilo era tudo o que não precisava acontecer! Mas lá estavam elas deslizando pelas minhas bochechas. Lágrimas.
— Ah, mas que droga, Roberto! – Esperneei para ele.
Esse talvez seja o momento em que você diz “oh, Deus! Como esse cara é chorão” ou algo do tipo, mas, veja bem, o que mais eu poderia fazer? Sair cantando e sambando pela avenida vestido de odalisca? Porque sinceramente, não tinha como não chorar. Que dizer, não depois de passar por tantas lembranças amargas iguais a aquelas. Reviver tudo, uma por uma. Foi como sentir a dor de cada uma delas, todas de novo e todas de uma vez. E eu só não despenquei no chão igual jaca madura, porque Roberto teve um bom reflexo e segurou meus ombros antes disso, enquanto eu chorava copiosamente.
Imagine um lutador de sumo tentando se equilibrar em um banquinho de três pernas na beira de um barranco. Imaginou? Bom, porque era essa a proporção de estabilidade da minha sanidade.
Ele ficou assustado. E olha, nem vou culpá-lo. Eu também estaria se do nada ele caísse sobre mim, chorando daquela forma. Aliás, eu ia sentar e chorar junto dele. Mas Roberto não fez isso. Quer dizer, ele até sentou no chão comigo, deitando minha cabeça em seu peito e ficou afagando meus cabelos como ele sempre fazia, enquanto eu terminava de desidratar com todas aquelas lágrimas.
Só porque eu chorava daquela forma, não quer dizer que eu não havia aprendido uma boa, e dolorosa, lição de moral. Porque eu aprendi várias delas. Como por exemplo, o fato de que a única pessoa que era capaz de destruir a minha felicidade... Era ninguém mais do que eu mesmo.
Eu realmente havia me tornando um saco de pessoa.
O que tinha acontecido com o antigo Alex? Porque eu não era assim. Na verdade, eu sequer sabia quem eu era naquele momento. Se chegassem a mim e me afirmassem que eu era uma samambaia, eu seria eternamente grato à pessoa, por pelo menos me mostrar um rumo a seguir.
Mas o que eu ia fazer? Eu estava tão desnorteado, tão confuso, que não tinha a menor noção.
Quando eu já não mais chorava, e apenas fungadas e soluços que vez ou outra escapavam da minha garganta faziam som, foi que Roberto se atreveu a voltar a falar:
—Está mais calmo? –Ele perguntou cautelosamente, mas com uma preocupação oculta na voz.
— Não, Roberto. Eu não estou calmo. – Respondi azedo, me desfazendo de seus braços, e o encarando. – A última coisa que eu estou neste momento, é calmo. Estou... Sentindo alguma coisa que misturada com fúria, está me dando uma enorme vontade de... –Nunca mais olhar pra você,foi a sentença não concluída. E o máximo que fiz foi engolir o gosto amargo que se formou em minha boca quando eu disse: Eu me lembro de tudo.
Foi como se o ar parasse de circular entre nós. E não sei por quanto tempo exatamente ficamos apenas nos olhando.
Roberto foi o primeiro a quebrar o contato visual. Levando a mão às minhas bochechas e limpando os vestígios que sobraram das lágrimas.
— Lembrou? É por isso que está assim? – Seu tom de voz foi afável, mas contido.
— Eles estavam certos. – Falei. –Em dizer que eu fiz isso comigo mesmo. Porque eu fiz mesmo.
— O que?– Ele titubou, seriamente.
— Mas quer saber por que eu preferi apagar toda a minha memória? Não foi porque eu estava revoltado com você ou algo do tipo. É porque eu me odiava. – Confessei a ele. – Eu sou uma pessoa horrível, Roberto. Eu me tornei alguém assim. E... Eu amava o antigo Alex. Com toda a sua ingenuidade, seus sorrisos fáceis e seu jeito dócil. Assim como você amou tê-lo.
O Rosto dele ficou nublado.
— Você está exagerando, Alex...
— Acha que eu estou exagerando? – Rebati, com um sorriso frustrado. – Como você acha que eu estou? Acha mesmo que eu estou bem?
Ele desceu a mão aos meus ombros.
—Não pense assim– Ele me censurou. – Sabe que de mais nada vale repisar os erros...
Roberto me puxou de volta para a prisão dos seus braços. E a sensação de ser abraçado por ele daquela forma, fez meu corpo relaxar por um breve momento. Mas não durou mais do que segundos.
— Apesar de tudo, eu estou realmente feliz em saber que você voltou... – Sua voz saia baixa, mas repleta de emoção. E um suspiro aliviado escapou de seus lábios.
Separei-me mais uma vez dos braços dele.
— Então você será o único. – Respondi, me levantando do chão. –A ficar feliz com isso.
Não que Roberto tenha levado minhas palavras a sério. Pois assim que ele também levantou do chão, me abraçou por trás, apoiando seu queixo em meu ombro.
— Está se preocupando por nada. – Sua voz era suave, e ressoava em meus ouvidos. – Não importa mais o que houve no passado. Nada mudará entre nós.
— Tem razão. – Me virei para ele. – Depois de tantas mentiras, tudo que vivemos por quatro anos foi anulado, certo? Aliás, me diga, quantos livros de romance você leu para planejar tudo isso?
Roberto se mostrou impassível diante das minhas palavras, apenas arqueando as sobrancelhas.
— Quando, exatamente, eu menti pra você?
Bufei, completamente incrédulo.
— Quando? Roberto, qual parte foi que você falou a verdade? Onde você me contou que não tínhamos paz? Que vivíamos em um inferno? Que você... Estava lá. Quando aconteceu...
— Eu não menti pra você. – Ele interrompeu. – Posso ter sonegado informações, mas nunca menti para você.
— Ah, claro! Porque isso faz toda a diferença. – Revirei os olhos.
— Eu nunca menti, Alex. – Ele reafirmou. – Eu não vou negar que te segui naquele dia. Mas eu nunca, nunca quis que nada de ruim tivesse acontecido com você! Eu não dormi por meses. Sempre me senti culpado por, de certa forma, causar o seu acidente. Você não sabe o quanto isso me corroeu. Eu enlouqueci!
— Então você teve a brilhante ideia de fingir que nada havia acontecido? Iludindo-me e cortejando. Até eu finalmente ceder.
— Eu só quis recomeçar. – Ele balançou a cabeça, em desgosto. – E era a oportunidade perfeita. Você estava... Tão diferente do que eu conhecia. Tão mais...
— Ingênuo? – Arrisquei.
— Acessível. – Ele corrigiu. – Eu consegui, depois de anos, finalmente alcançar você.
— E pra quê? – Levantei os braços em protesto. –O fim era um final certo para nós, Roberto. Tudo que você precisava fazer era seguir a sua vida, e ter me deixado com a minha. Eu sequer me lembrava de você!
Foi a vez dele de rir sem qualquer humor. Depois voltou seus olhos dourados para mim.
— Está certo em dizer que se esqueceu de mim, Alex. – Ele concordou. – Mas em momento algum eu me esqueci de você. E acho que jamais o faria. Porque eu preferia remoer todos os meus pecados, a me esquecer de você.
Eu senti como seu alguém tivesse me dado um chute no estomago. Até abaixei meu olhar para comprovar se não havia mesmo levando um. E não havia.
O problema, é que toda vez que eu ia lá e destruía a ponte que me ligava a Roberto, ele fazia questão de voltar e reconstruí-la. De uma forma ainda mais firme e dura.
— Eu não estou dizendo que estou certo. – Continuou. – Mas também não vou dizer que lamento ter escondido coisas. Se você acha que eu me aproveitei de você, tudo bem. É um direito seu. Porque no fundo eu realmente estava pensando mais em mim. Mas você sempre soube do meu egoísmo. E talvez esteja certo em me ver como um infame. Porque em toda a minha vida, eu nem sempre fiz as melhores escolhas, Alex. Mas ao menos fiz as escolhas que eu queria. E eu escolhi você.
Fiquei mudo. Apenas o fitando com os olhos inertes.
Eu queria, Ah meu Deus como queria, conseguir culpa-lo. Sentir rancor. Mas... Eu simplesmente não conseguia.
Claro que eu também não era nenhuma madre Tereza que perdoa tudo. E também não estava em um daqueles filmes fofos e bonitinhos onde “o amor vence tudo” e toda essa baboseira. Não. Eu ainda estava deveras chateado. Mas toda vez que eu me lembrava de que eu , mais do que ninguém, era quem mais tinha culpa no cartório, não conseguia realmente culpa-lo por não ter falado desde o inicio o quão decadente era a nossa situação.
A realidade machuca! Por isso preferimos o gosto da fantasia. Eu, melhor que ninguém, sabia disso.
É muito fácil chegar à teoria e incriminar alguém por uma penca de erros já cometidos. Mesmo que na prática, ninguém goste tanto assim da verdade. Porque é fato que nem sempre sabemos lidar com ela. Eu não saberia, por exemplo.
Então Roberto, com intenção ou não, de certa forma acabou me protegendo de mim mesmo.
Por isso, a minha verdade, nunca foi, nem provavelmente será, a mesma que a dele. Sempre veríamos as coisas com pontos de vistas opostos. Porque é isso que somos. Opostos.
Talvez seja por ele simplesmente não conseguir ser de outro jeito. Aquele era o temperamento dele e o que eu podia fazer? Eu também não podia evitar ser quem eu era.
E naquele momento, olhando para Roberto, eu era... Simplesmente eu.
Digo, eu não era mais o Alex do hospital. Nem o sem noção que pulou de um penhasco, ou ranzinza que discutia por tudo. Não. Eu era apenas... Eu. Sem título.
Levantei minhas mãos e pela primeira vez desde que havia chegado, eu o toquei por minha vontade, deslizando meus dedos pelo seu rosto.
— Eu sempre agi por impulso. – Sussurrei para ele. – E foi assim, que te transformei, ainda que inconscientemente, em minha válvula de escape. Eu deixei que se tornasse o meu maior capricho. E por sua causa eu perdi minha capacidade de autodomínio. –Suspirei e retirei minha mão de seu rosto. –Mas, quando duas pessoas egoístas acabam juntas... Não há futuro para elas.
— Irônico ouvir isso de um garoto que dizia não acreditar no futuro. – Ele proferiu.
Balancei a cabeça.
— Eu não sou... – Comecei, mas fui interrompido com Roberto acolhendo meu rosto em suas mãos.
— Sim, você é. – Ele se apressou em dizer. – Sempre foi você. E sempre será você.
Pisquei estático, para ele. Roberto estava realmente me jogando em um empasse.
— Por que você faz isso? Por que apoia o meu lado infantil? Por que... Continua com isso?
— Porque eu te amo. – Ele respondeu como se fosse obvio. E de certa forma, até era. – E eu amo seus defeitos do mesmo jeito. Seu mau humor, sua infantilidade, seu jeito impulsivo. Eu amo todas, e qualquer faceta que você me mostra. Eu amo você. Independente de como você é ou se mostra. Então por favor, pare de agir como se eu fosse seu inimigo.
Fechei meus olhos, como se aquilo fosse me fazer acordar na Patagônia, feliz e livre de qualquer problema. Mas não aconteceu. Obvio.
O que aconteceu foi que eu sentia os dedos de Roberto delinear meus lábios levemente, e logo em seguida, o roçar dos lábios dele. Em um gesto que significou mais do que eu esperava.
Foi como se eu estivesse hipnotizado. Incapaz de me afastar dele. E quando ele também se deu conta que eu não me afastaria, Roberto tomou meu lábio novamente. Suas mãos mantinham meu rosto imóvel. Deixando que apenas meus lábios seguissem seu ritmo. Mas uma urgência colossal tomou conta da gente. E Roberto desceu suas mãos, até meus quadris, pressionando-me ainda mais contra ele. Movi meus braços que ainda estavam imóveis na lateral de meu corpo, e contornei seu pescoço.
Eu podia sentir uma pressão em meu peito, tão forte e incontrolável, que literalmente chegava a doer.
Ainda nos beijávamos com volúpia, quando Roberto deixou-me cair contra a cama, e cobriu meu corpo com o seu. Meus pulmões protestaram por ar, mas preso como eu estava, não era mais uma escolha me afastar dele. E quando se afastou, me arrastei pela cama, com olhar preso a ele, ofegante e atraído pelo poder lascivo que ele emanava.
Eu o vi se aproximar novamente, se livrando da camisa cinza de mangas que usava. Então ele parou. Tocando a lateral do meu rosto.
— Se você está supostamente certo em me mantar longe, Alex. Essa é a sua deixa. – Sua voz era baixa, grave e excitante. – É só dizer, olhando nos meus olhos, que você não me ama. Que não pode fazer isso. Então eu prometo que me afastarei pra sempre. Caso contrário, eu não irei parar...
Foi uma ameaça, mas diante de tanto sentimento misturado, eu não tive como sentir qualquer temor.
Na verdade, aquelas palavras fizeram com que a realidade desabasse sobre mim, mais pesada do que eu realmente poderia suportar. Porque elas eram a certeza de que eu sempre estive certo em dizer que eu nunca estive apaixonado por ele. Porque eu não estava mesmo. Era pior que isso.
Eu o amava.
Eu o amava o suficiente pra querer tacar todo o meu passado pela janela novamente, se necessário, apenas para que eu pudesse continuar ao lado dele.
E admitir isso, me fazia desmaiar.
Não. Não literalmente. Quer dizer, não do tipo que precisava me dar palmadinhas nas bochechas pra acordar. Apenas, que eu sentia como se estivesse sendo jogado em um abismo.
Mas saber que eu amava, de verdade e sem volta, não estava exatamente me fazendo querer pular de alegria. Aliás, me fazia querer pular sim. Só que pela janela. Porque, deixe-me dizer uma coisa: Mágoa e amor, quando misturados, geram um sentimento toxico. Do tipo que faz você questionar se algum dia o oxigênio puro voltará aos seus pulmões, antes de você ser envenenado com aquilo.
Só que Roberto ainda fazia todas as minhas aflições serem dissipadas com o mais simples dos toques.
Eu li, em algum lugar, que o amor deixa as pessoas estupidas, mas e quando já se é estupido de natureza? A coisa provavelmente terá um resultado catastrófico e incalculável.
Eu poderia continuar negando. Claro. Mas... Por que eu deveria afastá-lo quando tudo que eu conseguia pensar era no quanto eu amava quando ele me confortava em seus braços? Eu fui atropelado (quase), pulei quatorze anos no tempo, passei por mil problemas, revivi toda a não tão legal história da minha vida e pra quê? Pra eu conseguir estragar tudo de novo em troca de nada?
Ah, Alex... Você realmente confundiu as coisas. O seu problema, nunca foi odiar o futuro. Mas se apegar de mais ao passado e esquecer o presente.
Então parabéns, eu do passado. Essa briga, quem ganhou foi você. Nós realmente o amamos. Espero que esteja feliz.
Ele voltou a me beijar, com movimentos impetuosos. Minhas mãos passaram a explores os músculos de seus braços, enquanto eu aproveitava a sensação deles em minhas mãos. Roberto encostou sua testa na minha.
— Eu amo cada um dos seus toques... – Ele suspirou.
Deslizei minha mão para seu peito nu, sentindo as batidas frenéticas de seu coração.
As mãos dele puxavam minha camiseta para cima, e passeava pelos músculos da minha barriga que se contraiam com seus toques. Sua boca agora explorava sem pudor algum meu pescoço, enquanto meus olhos estavam fechados e meus lábios entreabertos.
Estávamos em chama.
Então eu notei. Havia algo realmente queimando. E eu esperava, sinceramente, que não fosse a gente.
Coloquei minha mão sobre seu peito novamente, e tentei empurrá-lo. Só que Roberto não entendeu, e puxou meus braços, colocando-os sobre minha cabeça.
— Beto... – chamei, mas minha voz saia mais como um gemido sôfrego. – Fogo.
Ele sorriu.
— Está ficando quente, baby? – Ele sussurrou pra mim.
Abri meus olhos e dei de cara com o teto bege.
— Não. – Respondi confuso. – Há algo... pegando fogo. Digo, está cheirando a queimado!
— O que? – Ele riu das minhas palavras. Apenas por um tempo, até notar que eu não estava ficando doido, e que o apartamento estava impregnado com cheiro de queimado. – Ah... Cacete!
Foi interessante quando isso aconteceu, porque ele literalmente pulou de cima de mim para o chão e saiu correndo.
E eu, sem entender bulhufas, fui atrás.
E a única coisa que eu consegui dizer quando cheguei à sala, e me deparei com a nuvem de fumaça negra, foi:
— Ah. Meu. Deus! – Depois dei a volta para chegar à cozinha. – O que é isso?
— Era. – Roberto me corrigiu. – Era o nosso jantar.
Tampei o nariz por causa do cheiro.
— Você deixou o fogão ligado? – Perguntei incrédulo. – Estava tentando explodir a gente?
— Não é como se você tivesse me deixado lembrar esse pequeno detalhe. –Ele resmungou. – Quem foi que saiu correndo para o quarto esquisitamente?
— E você não podia ir atrás de mim depoisde desligar as chamas?
— Que parte do “eu não lembrei” você não entendeu? – Ele respondeu, jogando o... Sei lá o que era aquilo, mas que algum dia deve ter sido comestível, na pia.
Abri a boca pra dizer alguma coisa, mas não consegui. Porque eu tive que rir. Desculpe, mas aquilo era ridículo de mais. Mais uma pra série: “isso só acontece comigo”.
Roberto ficou apenas me olhando, enquanto eu literalmente rolava no chão de rir. Olhei para ele, e ainda com a voz gasta pelas risadas, conseguir dizer:
— Acho melhor pedirmos alguma coisa. Eu voto por Yakisoba. O que acha?
Ele não respondeu, mas se aproximou. Tocando meu rosto delicadamente como seu eu fosse desmontar.
— O que foi? – Perguntei, enquanto tentava conter o riso.
— Por que não pode ser sempre assim, Alex? – Ele perguntou seriamente.
— O que? – Agora eu realmente não estava rindo.
— Olha a sua volta, Alex. – Ele abriu os braços, mostrando uma cozinha que estava o puro caos. –Você criou tudo isso. Você é o responsável por tudo isso.
— Ei! Eu nem entrei na cozinha hoje. – Me defendi.
Roberto suspirou.
— Estou dizendo, que se temos alguma coisa hoje, se chegamos a aonde chegamos... Tudo foi você. Por você. Eu até mesmo desaprendi a viver sem você. Não. Não estou dizendo que eu não vivo sem você. Estou dizendo que eu não quero mais viver sem você.
Levantei-me, sem respondê-lo e fiquei em pé, em frente a ele.
— Sabe, Roberto, uma das coisas que eu notei quando a minha memória voltou, foi o quanto eu sempre estive errado sobre você. Ou melhor, o quanto você me deixou ser enganado. Por que... Você nunca foi, e nem será, um príncipe. Você está muita mais pro lado do lobo mau. Você me enganou, controlou e iludiu, apenas para defender seus próprios interesses. – Roberto a apertou os lábios. – E... Eu acho que eu sou uma espécie de masoquista, sabe? Porque apesar de tudo... Eu sigo amando o tal lobo...
Fixei meus olhos em Roberto, que também me olhava, com os lábios entreabertos, pronto para dizer alguma coisa, mas eu fui mais rápido:
— Eu amo você. – E eu sou um tolo por isso.
Ele se aproximou bruscamente e beijou minha testa. Depois beijou cada uma das minhas pálpebras, até por fim chegar aos meus lábios. Roberto encostou a testa com a minha e me fitou com os olhos dourados, intensos, e que foram o que me fizeram entender o que eu sentia por ele. E era por isso que toda vez que eu olhava para ele, eu sentia que estava me esquecendo de algo importante. Eu havia me esquecido que eu amava.
— Eu acho bom que isso seja verdade, senhor Alexander. – Ele murmurou com os olhos fechados. – Porque eu realmente não sei se consigo aguentar outra de suas mudanças drástica...
Passei meus braços por seu pescoço e o abracei, e sorri.
— Bom, espero que você esteja ciente que o destino definitivamente não está a nosso favor. E ainda assim, estou indo contra ele.
— Está? – Ele inquiriu, e suas sobrancelhas levantaram.
— Estou. Mas eu estou cansado de fazer o que a razão manda, Roberto. Eu só quero ser feliz. E eu não me importo de recomeçar tudo de novo quantas vezes forem necessárias pra isso acontecer.
Roberto abaixou a cabeça, com um dos sorrisos mais lindos e sinceros que eu já vi.
— Então... Acabou? Finalmente... Acabou? – Ele perguntou cauteloso.
— Não. – Respondi, olhando em seus olhos. – Ainda temos um grande mal intendido que precisa ser resolvido. Algo que enquanto não for esclarecido, e arquivado, nunca nos deixará plenamente em paz.
Ele piscou confuso.
— E o que seria?
— Vitor. – Respondi. – Acho que está na hora de nós três termos uma conversinha...
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