É por isso que eu odeio o futuro!
21 Capítulo 21- Consequências - final
Notas iniciais
Certo, agora é oficial: Acredito mesmo nessa coisa do destino. Quer dizer, quando uma coisa tem de acontecer, ela vai acontecer e ponto final.
Se parar pra pensar, é realmente engraçado o modo como às coisas acontecem, em uma ordem tão simétrica e tudo mais. O único problema, você já deve imaginar, é que eu nunca me dou bem com essas coisas muito “certinhas”. E é por isso que uma situação que já estava ruim consegue chegar tão facilmente em proporções colossais.
Bem, não que eu acredite, mas se realmente existe essa coisa chamada de “inferno astral” eu provavelmente estava no ápice.
— Por Deus, Alexander! — Disse Roberto, batendo as mãos no volante. — Isso que você está me pedindo é completamente impossível!
Se o transito daquela cidade não estivesse tão caótico logo tão cedo, formando uma incalculável e longa fila de carros, é possível que nós não tivéssemos passado tanto tempo parados na avenida. E aí Roberto não se estressaria o suficiente para jogar pelo ralo todo o pouco bom-humor que ele já não estava tendo naquela manhã. E nem ficaria descontando os pecados em mim, que sequer havia tomado café ainda.
Já cheguei a mencionar que ele estava beeem chateado comigo? Vê se pode! Eleestava chateado comigo. Era euquem possuía todos os motivos do mundo pra ficar “chateado” com ele. Não o contrário. Mas olha só, bastou o Alex abrir a boca e sugerir uma pequena coisa que, opa! La vai minha batata assar novamente. Inclusive, Estou pensando em escrever um livro. Provavelmente irei chama-lo de “como emputecer pessoas em menos de três segundos” ou algo do tipo. Quer dizer, tenho muita experiência no ramo, sabe? Seria até desperdício não compartilhar com alguém.
Quando eu estava em casa, apenas triste e choroso, estava tudo certo. Tudo estava indo realmente muito bem. Agora, só porque eu tive aquela fantástica ideia, o jogo virou completamente. Não que, como pode ver, Roberto compartilhasse a mesma opinião sobre a “fantasticidade” dela. Não mesmo. Ele viu aquilo como uma afronta.
Mas ele não precisava realmente brigar comigo. Digo, quando eu tive consciência de que a confusão toda foi por minha causa, não seria natural eu me dispor a consertar? Não é como se eu estivesse sugerindo que fizéssemos um show em um templo budista vestidos de Madonna, poxa. Mas o que ele fez? Deu-me um sermão tão bom, que deixaria qualquer padre de qualquer lugar do mundo no chinelo.
—Tudo bem. — Interrompi, arrependido de ter falado qualquer coisa sobre o assunto pra ele. — Estupida, sem noção, insana... Mas não é impossível. —E acrescentei: — Com um pouco de esforço e tenho certeza de que você consegue.
Dizer aquilo pareceu não ajudar muito na situação. Pude perceber pelas caretas que ele fazia cada vez que olhava pelo retrovisor. Algo me dizia que não eram exatamente os péssimos motoristas que estava o deixando furioso.
— Já disse que não! — Foi o que ele respondeu, rispidamente. Coisa que ele andava fazendo desde o momento em que eu toquei naquele assunto. —Por que você precisa sempre arrumar uma forma tão esdrúxula de resolver os seus problemas?
— Bem, pelo menos eu tenho uma forma de resolvê-los, não é? É melhor isso do que ficar chorando em casa, de moletom e escutando toda a coleção de CD’s da Adelle. — Falei sarcasticamente, mas parei no momento em que percebi que Roberto me encarava. Parecia que, cada vez que eu abria a boca, ele era possuído por uma das sete bestas do apocalipse. Fiz uma nota mental de nunca mais falar nada da coleção de CD’s de Roberto.
E olha, talvez eu devesse mesmo ter me mantido calado. Quer dizer, se eu soubesse ficar calado na hora certa, nada daquilo teria acontecido, você sabe. Mas o que eu fiz? Usei a minha gloriosa língua afiada, lógico.
— Quer saber... —falei em uma voz contida, me ajeitando no banco. — Para de agir como se eu tivesse pedindo pra você pular na boca do inferno. Não precisa de todo esse chilique digno de uma pop star. Apenas confia em mim. Você vive me pedindo pra confiar em você, então porque não pode fazer o mesmo? — Lancei a ele um olhar magoado. — Eu só quero que você pare de pensar em mim como um traidor...
Mal havia terminado de falar, quando Roberto repentinamente pisou no freio. Não sei bem se foi pelo o que eu disse ou porque um dos carros, dirigido provavelmente por um jegue de sombreiro, virou no retorno sem dar sinal. Mas o mais provável é que tenha sido eu, já que ele se virou pra mim. Escandalizado. Como se eu tivesse acabado de abaixar as calças e colocado todos os lugares onde o sol não bate pra tomar um ar fresco na janela.
— É isso? — Ele me perguntou, em um tom formalizado. — Acha que eu penso isso de você?
Soltei um riso pelo nariz, sem graça alguma, e olhei para minhas mãos.
— Não. Eu não acho. Eu sei disso! — Falei para ele. — Desde que eu perdi a memória, eu venho tendo o vislumbre de dois pontos de vistas diferentes sobre mim: O seu e o meu. E agora acho que ambos estavam errados. Nem um deles representava quem eu era de verdade. — Sorri com sinceridade. — Não vou mais te culpar, Roberto. Prometi isso a mim mesmo. Porque eu acho que você apenas não sabia...
Ele entortou a cabeça, confuso.
— Não sabia o que?
—Sobre mim. Sobre o porquê do meu comportamento instável. E... Se tudo isso não tivesse acontecido, acho eu também não teria me dado conta. — Confessei e o encarei com os olhos firmes. —Você pode achar o que quiser, mas isso é mais que um capricho. Algumas coisas precisam ser ditas cara a cara.
Roberto apenas ficou lá, olhando pra minha cara, como se eu estivesse proferindo algum cântico alienígena. Ou talvez estivesse tentando achar algum argumento pra usar contra o meu, mas como ele já havia falado tudo nas ultimas três horas, não devia estar achando nada.
Por fim suspirou.
— Certo. — Concordou em um falso tom conformado. — Então vamos fazer do jeito que você quer. Apenas me prometa que a gente morre esse assunto assim que isso acabar?
Senti um sorriso largo se formar em meus lábios.
— Prometo! Claro. Apenas confie em mim. Eu tenho um plano...
...
Tá, eu não tinha um plano. Pelo menos, não exatamente. Quer dizer, dada à situação, você já poderia imaginar que a pessoa mais difícil de convencer a participar disso seria Vitor.
Mas o estranho é que até que foi bem fácil. Bastou um SMS dizendo a hora e o local, e...
Certo, eu confesso que eu menti pra ele, ok? Eu não estou dizendo que me orgulho disso. Mas, puxa, acha mesmo que Vitor levantaria, àquela hora do dia, só pra ver as lindas madeixas de Roberto? Porque pelo que eu conheço dele, seria mais fácil encontrar uma vaca assobiando o hino do flamengo. Então sim, eu inventei um pequeno infortúnio a ele e solicitei “desesperadamente” sua presença.
E vou ser sincero, não achei que ele ia cair. Aliás, depois de tudo, a última coisa que eu achei que iria acontecer era ele cair naquilo. Vitor era inteligente de mais pra não ter sacado. Digo, se realmente eu estivesse em uma emergência, qual a probabilidade de eu ligar justamente para ele?
Mas, enfim, o importante é que de alguma forma aquilo deu certo e, minutos após eu e Roberto termos nos aconchegado em uma padaria, Vitor chegou. Ele se sentou justamente no lugar de Roberto, (que havia se oferecido para comprar algo que calasse os protestos furiosos do meu estômago vazio), jogando-se ao meu lado abruptamente e virando meu rosto em direção a ele, dizendo:
— O que você tem? Qual era a emergência?
Não que tenha dado tempo de eu sequer explicar o que estava realmente acontecendo. Roberto chegou, com a mesma sutileza que uma escavadeira, sentando-se do lado oposto. De modo que ficasse de frente para Vitor, e ao meu lado ao mesmo tempo. E quando eu disse que Vitor era inteligente, não foi brincadeira. Sério. Quero dizer, é claro que ele soube. Pela expressão que ele fez quando olhou para Roberto, parecia até que todo o exército da Rússia estava ali, com fuzis na mão e tudo mais.
E aí sobrou pra mim.
— Alex. — Vitor rosnou. Pode apostar que ele queria empalar a minha cabeça com um daqueles canudos. Ou talvez me assassinar usando o porta-guardanapo. As opções eram infinitas. — O que significa isso?
Eu, que mastigava alegremente um misto quente, me limitei a olhar pra ele e dar de ombros.
— É exatamente o que parece, meu caro. Eu, você e Roberto vamos ter uma mesa redonda e... E nem pense e levantar dessa cadeira, Vitor!— Emendei quando ele deu sinal de ir embora. — Vocês já ouviram falar comunicação? — Perguntei. — Pode ser bem útil de vez em quando. E é bem fácil: Basta que alguém fale. E outro alguém, acreditem, precisa escutar.
Vi quando ambos abriram a boca pra argumenta qualquer coisa que fosse, mas ergui a mão em sinal de que eu ainda não havia acabado.
— Não se preocupem. Não quero tomar muito tempo... — Olhei para Roberto, em busca de algum apoio moral, mas o dito cujo, que me encarava com os braços cruzados, apenas deu de ombros e disse:
— Vai fundo, meu querido. A ideia foi sua...
Certo, aquilo nem de longe foi um encorajamento. Ele ainda estava chateado pela situação. Muito, pelo que parecia.
Acabei respirando fundo.
—Antes de começar uma nova história, é preciso primeiro terminar a anterior com um ponto final. E eu sinto... — Falei a Vitor. — Que nunca fizemos isso. Eu simplesmente emendei duas histórias que... Não deveriam ter se cruzado. — Fiz uma careta. — Parando pra pensar... Acho que eu faço muito isso. Mas como nunca houve esse ponto entre nós, estava sentindo que era o que faltava pra te banir da minha vida de vez. É por isso que... Eu meio que... — Pigarreei. — Estou terminando com você.
Foi a primeira vez que vi ambos tão caladinhos. Ou em choque. Tanto faz.
Acho que um minuto se passou antes deles finalmente demonstrarem qualquer reação.
— Como é? — Vitor e Roberto indagaram juntos. Vitor com graça e Roberto confuso.
— Você só pode estar de brincadeira... — Vitor comentou, quase gargalhando.
—Chamou esse cara... Pra isso? —Roberto perguntou friamente.
— Hum... É. — Falei. — E, Roberto, Vitor está bem na sua frente, ok? Pergunte a ele o que quiser. Nada de duas caras. Isso não é um jogo.
— Não, não é. — Roberto disse seco. — Você não está jogando, e ele provavelmente também não.
—O que é isso, afinal? — Vitor interrompeu com um riso. — Eu estou participando de algum programa de talk show e não estou sabendo?
— Estou falando sério. — Me voltei para ele. — Não que você se importe, mas ontem tive as piores vinte e quatro horas da minha vida, e parte disso é graças a você. Não tem ideia do que eu revivi, o que eu vi e o que eu senti...
— Nossa! — Vitor exclamou falsamente comovido. — Que péssimo dia pra ser você...
—Você poderia parar de ficar rindo pra tudo? — Roberto perguntou não muito educado. — Nós não estamos em um comercial da Calvin Klein e eu não sou dentista. Não quero ficar toda hora vendo os seus dentes.
Juro que teria rido. Porque teria mesmo, se aquilo não cheirasse a encrenca. Por isso, antes que Vitor respondesse, emendei um quase desesperado:
— Apenas não quero que haja mais nenhum mal-entendido entre nós, entende?
Mas acho que Vitor não me ouviu bem, pois ainda se deu o trabalho de falar:
— Não há nenhum mal-entendido, pelo que eu sei. E não tenho ideia do que vocês podem não ter entendido... — Mas não disse a mim. Disse para Roberto.
— A parte da sua existência. — Roberto Interrompeu, sustentando o mesmo olhar hostil. — Porque você sabe. Ela foi completamente desnecessária. Tudo isso poderia ter sido evitado se você não tivesse aparecido.
Vitor o olhou como se fosse o monstro do pântano de peruca loira.
— Se acreditar nisso é o que te faz dormir melhor à noite, por mim tudo bem. Mas se fosse pra botar tudo em pratos limpos, nós sabemos que você tem tanto direito de ficar com ele quanto eu. — Vitor deu a ele outro de seus luminosos, e irritantes, sorrisos que faziam até o próprio Apolo querer descer e aplaudir.
Vi os músculos de Roberto se contrair e seu braço tremular. Por impulso, eu o agarrei e joguei um olhar reprovador para Vitor.
— Pare de provocar!
— Você não queria resolver o “mal-entendido”? — Ele riu com satisfação, vendo que Roberto mordeu a isca. — Não tenho culpa se a carapuça serviu. Agora, chega a ser patético querer me culpar por você ter uma péssima personalidade. — Então ele se virou para mim: — Sabia que eu até me compadeci com a sua história? Juro que até cheguei a me sentir culpado quando vi o que você estava fazendo com a sua vida. Quer dizer, puxa vida, Alexander! Quem é tão idiota ao ponto de se deixar levar assim? Ou a sua carência emocional foi tanta que você precisou dormir com qualquer um pra se sentir melhor?
Foi mais ou menos aí que tudo desandou e a vaca não só foi para o brejo como também resolveu fazer mergulho turístico por lá.
Eu ia dizer algo. Sei que ia. Mas Roberto agiu mais rápido. E repare que eu disse “agiu”. E não “falou”.
Foi por isso que ninguém viu quando aquele soco chegou. Digo, em um minuto, lá estava eu pronto para respondê-lo, e no outro, estava vendo um punho fechado acertar o nariz de Vitor, que nem percebeu o que o atingiu.
Confesso que a primeira coisa que eu quis fazer foi descer até o núcleo terrestre e me jogar de lá. A segunda foi botar a mão na testa e exclamar um horrível, porém eficaz, “puta que pariu!”. E, desculpe meu francês, mas foi a coisa mais cabível para dizer naquele momento. Pena que o tempo que eu gastei devaneando sobre isso foi o suficiente para fazer os dois se engalfinharem novamente. Por isso não pensei em nada quando pulei, literalmente, entre eles. Apenas fui lá e fiz.
— Mas o que vocês pensam que estão fazendo? —Gritei, enquanto empurrava o peito de ambos. —Cadê a merda da noção de vocês?
Olhei para eles e, bom, não dá pra comentar a encarada assassina que um jogava para o outro. Isso sem contar o horror que a cara dos dois se encontrava. Vitor estava com a frente da camiseta ensopada de sangue que escorria do nariz. E Roberto parecia ter um corte no lábio inferior.
E você realmente acha que eles ao menos estavam ligando?
— Escuta, porque isso não vai mais ser uma sugestão: Você vai sumir. E não é pra voltar a parecer nunca mais. Entendeu? Por que deu pra perceber que só palavras não são o suficiente pra você. — Roberto rosnou.
— Ah, vai se ferrar. – Vitor respondeu com um sorriso rubro.
—Ah, não. – Continuei entre os dois. – Acho que... Isso já foi longe demais. Ou estão a fim de outro show? Porque sério, se eu tivesse tirado a roupa e dançado pelado em cima da mesa teria sido menos catastrófico.
— Estaria disposto a fazer isso? — Vitor caçoou.
Olhei para ele.
—Por que ao invés de me incentivar a quebrar o que restou do seu nariz, você não vai tentar parar essa hemorragia?
E por incrível que pareça, ele obedeceu. Bufando e com raiva, mas obedeceu.
Então me virei para Roberto, sem nem saber por onde eu começava. Por isso optei pelo obvio:
— Você quebrou o nariz dele. Quebrou a droga do nariz dele!
— Que bela sorte que foi só o nariz. A intenção era quebrar bem mais que só o nariz. — Ele me respondeu ofegante.
— Que lindo! Mas caso você não tenha reparado, não estamos gravando um documentário do mundo animal, Tarzan. Você não pode sair atacando as pessoas como se fosse uma jamanta desenfreada.
— Você está certo! — Roberto me deu sorriso não muito satisfeito. — Não posso sair atacando pessoas. Aquilo não é uma pessoa!
Nem respondi. Vitor apareceu segundo depois, uma gracinha, por falar nisso. Com dois pedaços de papel socados no nariz e murmurando palavrões que eu sequer sabia que existiam.
— E você ainda diz que ele não é um sociopata. Tem razão, ele acabou de ser promovido. Meus parabéns! Agora você é um psicopata. – Vitor ainda esbravejava com uma voz anasalada que, se eu não estivesse tão furioso, juro que teria zoado.
— Ah, cala a boca! —Ralhei, e logo em seguida suspirei. — Eu só queria ter uma conversa pacifica. Então... Porque nunca nada sai como eu planejo? Aliás, por que eu ainda perco o meu tempo planejando? — Choraminguei, enquanto esfregava as mãos no rosto ao ponto das minhas bochechas ficarem vermelhas.
— Esse tipo de pessoa não serve pra conversar. Eu te avisei... — Roberto retrucou. Ele estava com uma contusão perto supercilio e eu tinha quase que certeza que um olho roxo ia aparecer em poucas horas.
— Foi você quem pulou em mim igual a uma jaguatirica, seu estranho. — Vitor bradou pra ele. — Sério, Alex, aonde você pegou esse cara? No zoológico?
Agora, uma pequena dica: Quando resolverem entrar uma briga como se fosse um gladiador romano, ou um jogado de futebol americano, certifique-se de que não está fazendo isso em um lugar... Público. Ou as coisas podem ficar ruins.
Coisa que, infelizmente, foi o nosso caso. Embora eu me atreva a dizer que as coisas ficaram ruins especialmente para o meu lado. Eu só lembrei que não estávamos sozinhos, e que provavelmente o dono da padaria não tinha curtido nenhum pouco o festival de luta livre que tinha acabado de rolar ali, quando ele mesmo já estava ligando pra polícia.
Ah, e aquilo seria fantástico! Quer dizer, era tudo o que estava faltando para completar o meu calvário. Aliás, eu tinha acordado aquele dia já com a conclusão de que seria um maravilhoso dia pra ser preso.
Por isso aqui entra outra dica (muito eficiente) caso você também resolva repetir o desastre citado aqui acima: Corra. Certifique-se de que ninguém saiba seu nome, ou endereço, e corra como se o próprio capeta estivesse te perseguindo.
Porque foi exatamente isso que eu fiz.
—Ah merda! — Foi a ultima coisa que eu resmunguei antes de puxar Roberto pelo colarinho e Vitor, provavelmente, pelos cabelos, já que ele estava reclamando muito enquanto eu literalmente os arrastava para fora daquele lugar.
Imagino que, pra quem via, era uma cena bem peculiar. Digo, eu arrastando Roberto e Vitor pela rua. Algo me dizia que a aparência dos dois seres humanos que me acompanhavam era o que piorava ainda mais a situação: Vitor parecia uma coisa saída de um filme apocalíptico e qualquer um que olhasse pra Roberto podia jurar que ele era membro de alguma máfia. E eu... Bem, era eu. E isso bastava.
Só paramos quando cheguei a uma praça, ofegante. Joguei-me em um dos bancos e coloquei a cabeça para trás, fitando algo qualquer no céu.
— Vocês me odeiam? Tipo, pra caramba? Porque é o que eu acho. — Falei exatamente a. conclusão que eu havia chegado. — E olha que eu nem pedi pra morrerem de amor um pelo outro, eu só disse que queria conversar. Mas parece que até encontrar Papai Noel dançando axé no semáforo é mais fácil que isso.
Tomei folego por alguns longos segundos e escutei Vitor suspirar não muito feliz. Até porque ninguém pode suspirar feliz depois de ter o nariz socado daquele jeito.
— E o que exatamente você esperava? — Ele perguntou de repente. — Porque eu realmente não sei o que você queria...
— Eu não esperava nada. — Respondi. — Nunca esperei, pra te ser franco. Mas eu cometi um erro uma vez, e, por muito pouco, não voltei a repeti-lo. Você sabe. Se eu não posso consertar o passado, vou garantir que não estrague o futuro... Ainda mais.
— Olha, eu sei que o que eu fiz...
— Eu não to nem aí para o que você fez ou deixou de fazer. — Interrompi. — Sério. Eu não me importo. Ao contrário de você, eu não vou ficar apontado os seus erros. A única coisa que eu queria era que soubesse que não estou mais comprometido com o passado, Vitor. E que eu não quero você no meu futuro.
Certo, eu não queria falar aquilo daquela maneira. Juro. Mas, poxa, eu estava irritado! Não tinha como ser sutil diante uma situação daquelas.
Ele me encarou por algum tempo, acho que procurando a hesitação que eu sempre mantinha na voz, mas ela não existia. Então suspirou e por fim disse:
—Isso foi comovente. — Então tentou sorrir, mas acabou fazendo uma careta de dor. Acho que Roberto tinha sido bem fiel ao objetivo. — Talvez você esteja certo. E, talvez, eu realmente até te deva um pedido de desculpas agora, mas... Acho que isso quita todas as nossas dívidas. — O “isso” era o nariz. — Então, ao menos, me deixe ter certeza de uma coisa: Isso é sem ressentimentos? Ou é por que você ainda está magoado?
Eu o encarei por um ou dois segundos. E parecia brincadeira, mas não havia nada. Nenhum ressentimento em relação a ele. Achei que alguma coisa ainda pegaria, mas... Não. E eu me senti ótimo ao saber disso. Afinal, essa era a intenção. A minha, pelo menos.
—Não tem ressentimentos. Eu só quero, realmente, me livrar de tudo. — E como “tudo”, me referia totalmente a ele.
Por um minuto, pude jurar que algo parecido com “alivio” passou pelo rosto dele. Algo que, sinceramente, não sei se fazia sentindo que ele sentisse.
— Você com certeza mudou, Alex. — Ele falou. — Mas por algum motivo, isso não parece ruim...
Vitor se aproximou de Roberto alguns centímetros.
— Vamos deixar claro uma coisa: Você pode até não gostar, mas nunca terá como apagar o fato de que eu fiz e faço parte do passado dele, meu querido.
Roberto o encarou com uma carranca assustadora.
— Você está tentando ganhar mais que um nariz quebrado?
— Entretanto... — Vitor se apressou em dizer, girando os pés graciosamente em minha direção. — Eu já percebi que não há lugar pra mim. — Ele olhou uma ultima vez pra Roberto e franziu o cenho. — Mesmo assim, boa sorte. Algo me diz que você vai precisar. E eu estou falando sério! As coisas não serão para sempre um mar de rosas. Tem certeza do que você está fazendo?
Sem querer, acabei sorrindo e sibilei:
— E alguma vez eu tive?
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— Não vou pedir desculpas. — Roberto declarou algum tempo depois de já estarmos em casa.
— Eu sei. — E disso eu não tinha duvidas. Até porque, não era pra mim que ele tinha que pedir desculpas. Não fui eu quem ficou com desvio do septo nasal.
É provável que ele só tenha dito aquilo por causa da minha insólita crise de silêncio. Eu havia me mantido calado o caminho todo por que: a) não só a cara de Roberto, como a aura que emanava dele, não eram nem um pouco convidativas para uma conversa; e b) Eu não queria realmente falar sobre aquele desastre...
— Não posso pedir desculpas por algo que eu não me arrependo. — Falava como se estivesse se defendendo em um tribunal.
— Tudo bem.
Ele parou de andar do nada, me fazendo parar também e encará-lo.
— Por que será que eu sinto que não consigo acertar uma com você? — Ele declarou de repente.
Suspirei.
— Não estou com raiva nem nada do tipo, se é o que está sugerindo. Eu só não tenho... Palavras pra descrever o quanto eu fiquei surpreso. Porque, desculpa, mas eu não sabia que você tinha um espirito barraqueiro desses no seu interior. — Esclareci.
— Ah, pelo amor de Deus! Eu estava irritado. —Roberto falou, como se aquilo explicasse tudo e, de certa forma, explicava. — Eu não tenho sangue de barata. Não dava pra aguentar ele falando daquela forma. Até um piolho tem mais moral para falar de alguém. E ele estava... Praticamente te tratando como um qualquer. — Seu tom de voz estava enfezado, como se dizer aquilo fosse a pior coisa do mundo. — Como consegue ficar tanto tempo perto de alguém como ele sem sentir vontade de cometer um homicídio?
Não consigo!, Pensei, mas não disse. Porque eu entendi o lado dele. Quer dizer eu me lembrava, muito bem, das coisas que Vitor estava tagarelando. E acho que meu rosto ficou tão vermelho que até carros parariam, pensando que eu era um semáforo.
Pigarrei.
— Eu não... Não ligo para o que ele diz. O que Vitor fala não se escreve. É provável que ele só estivesse tentando provocar...
— Mas ele estava. — Roberto esbravejou. — Só que não da forma que pensou. Ele é tão demente que eu aposto que nem mesmo reparou no que estava dizendo. — Era engraçado como às vezes Roberto conseguia parecer um garotinho. Que dizer, era fofo, mas era engraçado ao mesmo tempo. — Você está bem?
Ele me encarou por um estante e sua expressão pareceu relaxar um pouco.
Assenti e toquei seu rosto levemente.
— Não fui eu quem resolveu dar uma de lutador de UFC. Que punho pesado esse que você tem... —Resmunguei. —Acho que você vai precisar de um saco de gelo... Ou um bife. O que a gente encontrar primeiro.
— Desculpe. — Ele murmurou, colocando a mão sobre a minha.
— Pensei que não ia pedir desculpas. — Arqueei as sobrancelhas, surpreso.
— Não é exatamente pelo que aconteceu agora a pouco, porque eu sinceramente adorei fazer aquilo. Mas... Por todos os últimos anos. — Ele respondeu à meia-voz. — como eu disse, parece que eu simplesmente não consigo fazer nada certo quando o assunto é você. Eu fui um grande idiota, não fui? Por isso que você estava tão inconsolável ontem? Eu... Fiz algo muito errado. Eu pressionei você mais do que podia aguentar e ainda assim eu não me senti satisfeito. Fui arrogante, infantil e... — Ele grunhiu. — Acho que eu fiquei tão cego de ciúmes que em vez de te ajudar piorei ainda mais a situação. Então você acabou assim...
Eu ouvi silenciosamente o desabafo dele, prestando atenção no olhar de desespero e ternura que ele me dava.
— Hum... — falei depois de um tempo. — É, você está certo. Foi um desastre o que aconteceu. E... Eu poderia facilmente dizer que a minha vida não teria virado essa bagunça toda se eu não tivesse me envolvido com você. — Respondi e o vi suspirar pesadamente. — Porém... Aí, não teria graça nenhuma.
Quando falei isso, Roberto inclinou a cabeça para o lado, como um cachorrinho, e eu acompanhei a curiosidade estampada em seu rosto.
—Como é?
— Não teria graça. —Falei novamente, com um sorriso. — Acho que nós demos tão errado que acabou virando certo. E me chame de louco se quiser, mas eu gosto quando fazemos tudo errado. Porque, olha pra mim, Roberto! Eu sou medalha de ouro nas olimpíadas da idiotice! E eu não quero alguém que sempre faça as coisas certas. Quero você... Que me faz perder a cabeça, o sono, a sanidade. Me faz pular de um penhasco, me faz gritar, brigar, chorar e logo em seguida rir. Somos complicados, eu sei. Um mais sem vergonha na cara que o outro. Você até mesmo consegue me fazer te odiar e depois gostar, depois odiar de novo...
Eu, provavelmente, tinha mais alguma coisa pra acrescentar, mas tudo se perdeu no momento em que Roberto prendeu a mão entre meus cabelos e puxou meus lábios em direção aos dele. Foi tão repentino que meus joelhos acabaram perdendo o equilíbrio. Não que eu tenha me importado. Não mesmo. Estava muito mais preocupado em lidar com os lábios e a língua que se movimentavam furiosos e apaixonadamente contra os meus.
—Não sei se você sabe, mas eu te amo. — Ele falou ofegante. — De verdade.
— Acho que sei. Por que, ás vezes, eu te amo também. — Acabei sorrindo. E o beijei novamente. E pude sentir a urgência dos lábios dele quando tocaram os meus.
Roberto puxou meu corpo possessivamente contra o dele, como se fosse possível diminuir ainda mais aquela distância. Suas mãos desciam vagarosamente por toda extensão da minha coluna, fazendo minha cabeça girar, e um desejo até então adormecido despertar em mim.
Era incrível. Quer dizer, não importa quantas vezes fazíamos aquilo, sempre me parecia à primeira vez. Aquela mesma sensação de quando escutamos uma musica viciante, e a repetimos várias vezes. Acho que era isso que ele era. Minha canção favorita.
Fui incapaz de resistir à vontade de colocar minhas mãos por dentro de sua camisa e explorar o calor da pele ali coberta, enquanto eu arfava ainda preso aos seus lábios. Ele provavelmente também deveria estar com dificuldade em encontrar o ar, mas não se importava. Nenhum pouco.
Deixei que ele conduzisse meu corpo lentamente para o pesado e felpudo tapete da sala, desvencilhando seus lábios dos meus e os conduzindo à curva do meu pescoço, no tempo em que suas mãos levantavam minha camisa, numa ânsia poderosa para que o tecido fosse completamente removido.
E ele teve sucesso nisso.
Lá estava eu, com um olhar vulnerável, despido, enquanto deixava os toques dele se tornarem pequenas ondas de prazer. Sua boca intercalava em meus mamilos e suas mãos perigosamente se movimentavam pelo fino tecido que ainda cobria meu membro, provavelmente, não por muito tempo.
Fiquei observando sua boca fazer um caminho longo e tortuoso por todo meu peito, descendo pela minha barriga e chagando ao meu baixo ventre dolorido. Mas ele fez questão de ignorar isso. Descendo ainda mais seus lábios.
— Ah... Não — Falei numa voz rouca e ofegante. — Você só pode estar querendo me irritar...
Roberto, que agora distribuía beijos molhados por toda minha coxa, me deu sorriso ardiloso.
— É... Talvez eu goste mesmo de ter ver irritado...
Olhei completamente insatisfeito para ele. Então ele estava brincando comigo agora? Agora?
Acabei soltando um riso abafado, ainda mostrado minha indignação.
— Se é assim... — Falei, me levantando e me pondo de joelho — Talvez eu não deva ser um bom garoto com você... — Me joguei contra ele.
Não era difícil dominá-lo. Não mesmo. Toques vagarosos e beijos lentos sempre faziam todo o trabalho sujo. Isso, somado a pressão que meu corpo fazia contra o dele, parecia excitá-lo ainda mais, e eu podia ouvir os sons profundos que sua garganta emitia. Acabei depositando pequenas mordidas em seu pescoço e tórax.
Sentei-me em seu quadril sentindo o volume saliente contra mim, e deslizei minha mão por seu peito, agora nu.
— Acho que você se esquece de que eu também sei os seus pontos fracos... — Me remexi um pouco e ouvi Roberto solta um gemido baixo.
— Você... — Ouvi ele sussurra, sabendo que seu olhar estava completamente em mim. E sorri.
— O que? — Perguntei.
— Você é o meu ponto franco. — Ele disse simplesmente. — De todas as formas que imaginar...
As mãos deles passearam pela minha cintura, pressionando meu corpo ainda mais contra o dele, e dessa vez nem eu consegui conter um gemido ordinário, quando um arrepio se apossou de mim.
Roberto se levantou, ainda comigo sobre ele, de modo que seu peito ficasse rente ao meu, e deslizou a língua para meus lábios, tão intensamente que não pude mais suportar. Movi meu corpo contra o dele, numa investida sôfrega, e ele pareceu entender o recado, deitando-me lentamente, ainda com seus lábios junto aos meus.
Deixei que ele se posicionasse entre minhas pernas, e que suas mãos trabalhassem por lá. Sábia que ele não ia querer brincar mais. Pelo menos, não quando eu podia sentir o desespero por alivio que ele emanava.
Arquejei e inalei o ar fortemente ao sentir aquela sensação impaciente, quase dormente, se espalhar por toda parte do meu corpo. Roberto depositou um rápido beijo nos meus lábios, enquanto minhas pernas circundavam seu quadril. Ele me provocou, mordendo a base do meu pescoço, fazendo que uma voz despudora escapasse da minha garganta. Coloquei minha mão rapidamente contra minha boca, mas Roberto fez questão de tira-la na mesma hora.
— Ninguém mais pode te ouvir... Apenas eu. — Falou contra meu ouvido.
— Eu posso me ouvir!— Respondi.
Ele pareceu se divertir com o comentário, pressionando seu corpo ainda mais contra o meu, fazendo com que eu gemesse novamente, e o segurasse pela bunda, puxando seu corpo ainda mais fundo para dentro de mim.
Nossos corpos se uniam em perfeita afinidade, e eu deixava minha cabeça se concentrar apenas ali, naquele momento. Não existia ontem, nem amanhã. Existia o agora. E existia eu e Roberto.
A intensidade se aproximava, rápida e calidamente. Arqueei meu corpo, me apoiando totalmente nos ombros de Roberto, quando ele acelerou o ritmo, tentando corresponde-lo na mesma intensidade. A boca dele estava pressionada contra meu pescoço, e eu podia ouvi-lo vez ou outra chamando o meu nome, como se eu estivesse longe.
Fui tomado por uma forte sensação de que meu corpo estava em combustão, sendo testados a experimentar milhares de sentimentos ao mesmo tempo. Segundos depois ouvi Roberto também alcançar aquele ápice.
Ficamos ali, parados, ofegantes, enquanto eu aconchegava Roberto em meus braços. Acho que a mente dele divaga em algo. E tive certeza disso no momento em que ele falou:
— Já ouviu aquele dizer “Se você ama alguma coisa, deixe que parta. Se voltar é porque é seu, se não é porque jamais seria”?
— Claro. Em vários cartazes com um fundo melodramático, como um por do sol e gaivotas. — Respondi sorrindo.
— Eu odeio essas palavras. — Comentou. — Porque simplesmente não consigo confiar nisso...
— Tem medo de que elas não voltem pra você? — Perguntei.
Dessa vez ele riu.
— Não tenho medo. Tenho certeza de que elas não voltam. —Ele divagou. — Caso contrário, nunca teriam ido. Não acha?
Olhei para um ponto qualquer do teto, e franzi o cenho.
— Não. Não acho. — Olhei para ele. — Eu estou aqui, não estou?
Roberto levantou dorso, se apoiando no chão e sorriu.
— E você não quer ir? Está sendo impulsivo novamente? — Ele apertou os olhos para mim.
Certo, eu já estava entendo. Olhei para ele e suspirei.
— Quer ouvir uma história bonitinha?— Perguntei.
— Bonitinha? — Ele riu — O que seria “bonitinho” para você? Alguma coisa envolvendo coalas e aquele bicho que você adora... Qual era o nome? Lhama?
— Alpaca. — Corrigi. — Mas não é sobre isso. É sobre um policial que se apaixonou por uma enfermeira.
— Uau. Parece realmente, bem... Hã... Bonitinho. — Ele sorriu novamente. — Eu adoraria ouvir.
Pigarrei e fiz a minha melhor voz de narrador:
— Certa vez, um policial levou um tiro na perna quando... — Quando foi mesmo? — Bom, não sei exatamente o que ele estava fazendo. Mas deveria ser perigoso o suficiente pra levar um tiro, certo? — Ele assentiu, divertido. — E obviamente foi levado ao hospital onde essa enfermeira trabalhava. E sabe? Ele era muito bonito. Ela nem teve culpa de se apaixonar, coitada. Só que ela era muito tímidas e muitas mulheres já o cercava. Não havia chances dele sequer percebê-la. Pelo menos era o que ela achava. Mas na verdade, ele sempre a viu. O seguindo com os olhos, observando de longe. E ele a achava muito, muito fofa mesmo. — Fiz uma pausa. — Não acha bonitinho?
— Acho. Muito lindo. — Respondeu, e eu fiquei na duvida se era verdade ou ele estava com sarcasmo.
—Um dia ele finalmente a convidou pra sair. — Continuei. — E ela aceitou, apesar da timidez. E eles se apaixonavam mais e mais a cada dia. Até que ela apareceu gravida. Aí, você imagina. os pais dela surtaram. Como podia uma mulher solteira ficar gravida? Todo mundo achou que aquilo seria o fim. — Tomei folego. — Mas no final ele ficou ao lado dela e ainda a pediu em casamento. Porque ele a amava de verdade e ficou superfeliz quando soube do bebê.
Roberto agora me olhava com um rosto sério. As sobrancelhas estavam franzidas e ele parecia confuso.
— O que aconteceu depois?
— Bom, ela teve que deixar o emprego no hospital. Os dois primeiros anos foram os piores, se quer saber. E mesmo assim, eles continuavam juntos. A situação não foi permanente, ele foi promovido e ela voltou a trabalhar. Os três, eles dois e o bebê, viveram muito bem. — Soltei um suspiro. — Não que as coisas tenham permanecido assim. Os filhos crescem e... As coisas complicam. Ela colocou seu amor de mãe acima do seu amor de mulher... E, depois de longos vinte anos, aquele casal que, por diversas vezes, jurou tanto amor... Findou de vez. — Fiz uma careta involuntária. — Essa parte não é tão bonita assim.
— Esta falando dos seus pais. — Oh! Ele sacou isso?
— Estou. Porque quando eu era pequeno, considerava a história deles o meu conto de fadas. Só não sabia que iria separa-los anos depois...
— Mas a culpa não foi sua! — Ele argumentou. — Seus pais são adultos, Alex. Tomam as próprias decisões. Tire isso pela sua mãe: Está casada e está feliz.
— Meu pai talvez não esteja.
Roberto me olhou com uma cara que, apesar de eu não ler mentes e de ele não ter dito alto, podia jurar que queria dizer: “Acha mesmo que eu me importo com o seu pai?”.
— O que eu quero dizer é que as coisas mudam facilmente. Daqui a dez ou vinte anos, poderemos estar em polos opostos. A vida é inconstante, Beto. Mas não podemos deixar de vivê-la só por causa disso.
Roberto me fitou silenciosamente, com intensidade no olhar, como se refletisse as minhas palavras pesadamente.
— Mesmo depois de tudo você ainda continua... Sendo você. — Roberto balançou a cabeça. — É só que... Eu queria ter certeza de que dessa vez não sou eu que estou impondo você a ficar comigo. Porque eu não quero mais fazer isso. Mas eu também não posso te prometer que as coisas nãos serão turbulentas daqui pra frente.
— Se você quer saber se ainda vamos brigar, a resposta é: Sim, vamos. Incontáveis vezes. Porque temos um gênio muito difícil e divergente um do outro. Mas também vamos fazer as pazes. Quantas vezes forem necessárias, ok? Eu não jogo búzios, cartas ou sei ler folhinhas de chá. Eu não sei o que diabos o futuro vai fazer com a gente. Como eu disse, ele e o destino são duas coisas imprevisíveis. Se decidirem que vão chover porcos amanhã, então choveria porcos e todo mundo teria bacon infinito. Está entendendo? Não dá pra saber. — Tomei folego mais uma vez, porque estava despejando tudo sem pausa. — Eu não acredito mais em “felizes para sempre” e nem em contos de fadas... Mas eu realmente acredito em você e eu.
Quando terminei de falar, Roberto se aproximou e depositou um beijo longo no alto da minha cabeça.
— Alex... — Ele disse em um tom terno. — Não mude, ok? Eu gosto demasiadamente do jeito que você pensa agora...
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— Pra resumir... — Falei finalmente. — Foi isso que aconteceu.
Vários pares de olhos chocados olhavam para mim, e isto estava me incomodando. Afinal, não estavam assim quando chegaram aqui. Digo, estavam felizes. Felizes de mais pra ser mais especifico. Aparentemente, dizer que recuperou a memória deixa as pessoas tão felizes quanto falar que ganhou na mega-sena. Sério. Porque, um dia depois da confusão com Vitor, quando cheguei em casa, ao invés de dar de cara com a típica sala de estar calma e tranquila, me deparei com balões e cartazes bem firulados espalhados por todo lugar. Teve até chuva de confetes. E eu nem tive tempo de perguntar o que era tudo aquilo, porque um coro de vozes animadas cantarolou:
— Seja bem vindo de volta, Alex!
Coisa que achei bem engraçada, porque aquilo fazia parecer que eu estava voltando de uma longa viagem às Filipinas. Embora eu ache que ninguém reparou no quanto eu fiquei sem jeito diante aquilo. Ah, não. Eles estavam muito ocupados. Pulando em cima de mim, e me abraçando.
Pelo menos, até verem o rosto de Roberto.
Quando isso aconteceu, acabou que eu tive que explicar tudo que havia acontecido. E foi exatamente isso que eu fiz. Contei tim tim por tim tim.
Minha mãe ouviu como se eu estivesse reescrevendo “Romeu e Julieta”.
— Ah, meu bebê! —Ela suspirou, abraçando o meu pescoço com força logo em seguida. —Sinto muito! Sinto... De verdade...
Com minha mãe agarrando meu pescoço como um bote salva vidas, ficava meio difícil perguntar qual era a da lamentação, por isso eu afastei delicadamente antes de lhe devolver um sorriso e perguntar:
— Por que está dizendo isso? Tudo acabou bem, não é?
—Acho que a culpa de tudo isso é minha. — Ela concluiu, sozinha. — Esse tempo todo, eu sei que não fiz meu melhor papel como mãe...
—Mamãe. — Supliquei. — Eu já não estava em baixo das suas asas havia muito tempo...
—Sim. Mas você não se lembrava disso. E... Eu o deixei só...
— Bem... Eu curti bastante. — Disse a ela, e só então percebi que estava com um sorriso enorme.
—Curtiu, Alex? Sozinho, com tantos problemas à sua volta? Achou mesmo divertido?
Imaginei que daria muito trabalho explicar pra ela que, a minha ideia de “diversão”, quase nunca condizia com a da maioria das pessoas. Por isso, poupei folego e disse apenas:
—Eu era um adolescente de quinze anos, morando sozinho e vivendo um romance louco e intenso. Por que eu não acharia divertido?
Ela apenas sorriu e balançou a cabeça.
— Você vai continuar sendo um grande menino pra mim. — Sibilou, apertando minha bochecha. — Estou orgulhosa, meu bebê!
Olha, queria deixar claro que só, e exclusivamente, a minha mãe pode me chamar de “bebê". Aos demais, está completamente e irrevogavelmente proibido!
— Eu só recuperei a memória, mãe. Eu não ganhei o prêmio Nobel de física.
—Não. — ela respondeu. — Mas voltou pra mim. E de alguma forma, também conseguiu resolver todos os... Enigmas da sua vida. — Essa ultima parte ela apontou discretamente para Roberto.
Teria sido um clima lindo, dramático e digno de final da novela das nove...
Se Camila não chegasse com a mesma sutileza que um míssil dourado e flamejante, se atirando em mim como se eu fosse um colchão de água.
— Você filmou? — Camila gritou no meu ouvido. — Alguém filmou? Tá na internet? Meu Deus, eu adoraria ter visto Roberto dando um umas porradas naquele escroto do Vitor...
Fiz uma careta.
—Eu espero sinceramente que não.
Mas ela não pareceu se incomodar com a minha resposta. Já que ela apertou ainda mais os braços ao meu redor.
— Ah, meu irmãozinho, cabeça dura e que só faz tolices! Apesar de todas as burradas épicas que você faz e de não saber dar valor a quase nada quem tem na sua vida... Fico feliz ao saber que você voltou a ser o mesmo idiota que mete o pé pelas mãos! Só não ferre com tudo de novo, ok?
—Quanto amor pra um comentário só... — Murmurei, tentando me livrar dos braços dela. Gente, abraçar não é matar!
—Estou falando sério, Alex! Agora que a sua memória voltou, acho bom que pense e repense nas suas ações antes de fazer merda.
Claro! Agora eu também recebo sermão da Camila. Porque não junta ela e Roberto e a gente faz logo uma grande conferência “Como adestrar o Alexander”?
— Quando te promoveram a irmã mais velha? — Sorri sarcasticamente.
— No momento em que você deu uma de Peter Pan e resolveu achar que tinha quinze anos de novo.
Achei que ela continuaria o discurso, mas o que ela fez foi me abraçar novamente.
—Você é meu irmão, Alex! É você que tem que cuidar de mim. Não o contrário. Então... Não me deixe de novo. Você não é lá o melhor irmão do mundo... Mas eu te amo!
Suspirei. Camila sabia mesmo quebrar minhas pernas. Porque ela estava certa. Quando eu acordei e a “conheci”, eu só conseguia vê a mulher que ela se tornou. Independente, casada e... Mãe. Eu não via mais minha irmãzinha, que, apesar de tudo, eu gostava de ter. E de quem eu realmente senti muita falta.
Por isso nem percebi quando eu a abracei de volta e murmurei:
— Eu também te amo, pirralha.
— É realmente comovente quando vocês agem como irmãos. — Gustavo falou. Ele, pelo menos, não chegou pulando em cima de mim, como todo mundo resolvera fazer. E eu achei isso fantástico.
— Não precisa ficar com ciúmes. — Falei. — Eu amo você também.
Gustavo fez uma careta e Camila soltou um riso abafado.
— Tem certeza de que você está bem? Ou o sentimentalismo veio como um bônus? — Ele perguntou.
— Eu sempre fui sentimental! — Me defendi.
— Claro... Igual a uma geladeira... — Então olhou pra Camila, que ainda estava agarrada a mim. E, acredite se quiser, ele apenas abriu os braços para ela. Só isso. E a garota foi alegremente para o lado dele.
— Que amor forte, em, Camila? — Resmunguei.
— O que posso fazer? — Gustavo deu de ombros. — Parece que eu ganhei a garota.
Revirei os olhos, enquanto via os dois se afastarem. Por mim, ele que ficasse com ela...
— Hey! — Gritei para Gustavo. — Não vai me dizer “bem vindo de volta”?
Ele parou, me fitando surpreso, depois me devolveu um meio sorriso benevolente.
— Por que eu deveria? Pra mim, você não foi a lugar nenhum...
Naquele momento confesso que parei. E acabei sorrindo. Porque acho que Gustavo nunca esteve tão certo. É verdade, eu nunca fui a lugar algum. Eu apenas achava que sim.
Então me virei para Roberto, que desfilava pela casa com óculos escuros, consequência do dia anterior. E vi minha mãe sorrindo. E Camila e seus filhos, junto com Gustavo. Eles pareciam felizes. Muito felizes.
— O que foi? — Roberto parou de repente na minha frente. — Você parece estar prestes a chorar...
Acabei dando um sorriso a ele.
— Não. Não estou. Estou feliz. — Falei com sinceridade. E o encarai mais uma vez: — Quer ir a um lugar comigo?
Aquilo pareceu pegá-lo de surpresa. Que dizer, a última vez que eu o chamei pra ir a um lugar, ele acabou com um belo hematoma na cara. Eu também não botaria fé naquele convite.
— Depende... Vou ter que bater em alguém ou algo assim? — Perguntou depois de um tempo.
Não consegui não rir.
— Eu espero que não.
— Certo. — Ele assentiu. — Vou confiar em você. Quando vamos?
— Agora! — Disse. — Aproveite que ninguém vai sentir nossa falta... — Sussurrei e apertei sua mão.
É, eu sei. Talvez aquilo soasse infantil, e talvez até fosse realmente infantil. Mas, havia algo, que eu percebi que eu realmente queria dizer a ele.
Foi por isso que eu o levei lá. Aonde tudo começou.
Bem, que dizer pra mim era um lugar marcante. Que, de certa forma, agora fazia parte da minha vida. Mas, pra Roberto, era só uma faixa de pedestre;
— Hã... — Ele falou. — Algo... Deveria acontecer aqui?
— Esse lugar é magico. — Comentei, filosoficamente. Mas tudo que aconteceu foi Roberto me olhar como se eu tivesse chapado. — Estou falando sério!
— É claro que está. — Ele falou divertido. — A faixa de pedestre da esquina é magica e rinocerontes são filhotes de hipopótamos com unicórnios...
Certo, Roberto deveria, urgentemente, parar de ser influenciado por mim.
— Não estrague meu momento. Essa faixa é mágica. — Voltei a afirmar. — A ultima vez que estive aqui eu tinha quinze anos. E... Quando acordei... — Me virei pra ele com um largo sorriso. — Eu conheci você.
Aquilo pareceu fazer com que ele entendesse.
— Era aqui que as suas memórias terminavam? — Ele perguntou com o semblante sério.
— Bem, no começo eu achei que sim. — Disse a ele. — Também achei que era aqui onde minhas memórias acabavam. Mas eu acho que... Aqui foi onde a minha vida começou, na verdade.
— Isso é até poético de se escutar... — Ele murmurou e entrelaçou nossos dedos.
— Bem, talvez você esteja certo. Talvez esse lugar não seja mágico. Mas quer saber o que eu acho? Acho que não existem coincidências. Quer dizer, naquele dia, parado exatamente aqui, eu desafiei o meu futuro. E você sabe o que aconteceu. Então, talvez... A coisa estivesse em você.
Roberto olhou pra mim com um sorriso estranho.
— Em mim? Mas o que eu fiz?
Eu, por outro lado, estava sério.
— Você fez com que eu amasse você. No passado. No presente... E acredito que no futuro. —Tá, eu sei que Roberto sempre se saiu melhor nessa parte de declaração de amor. Eu não era muito bom com essas coisas. Não mesmo. Mas, bem, eu estava tentando. — Você até roubou o meu primeiro beijo, sem sequer me dar chance de defesa...
— Eu não roubei seu primeiro beijo...
— Roubou sim. — Interrompi, com graça. — E se quer saber, acho que você foi meu primeiro amor também. E... Você também corrompeu a minha inocência. — Foi engraçado dizer aquilo olhando para Roberto. Quer dizer, acredita que ele ficou vermelho? Foi bonitinho de ver! — Acho até irritante o jeito que você consegue derrubar minhas barreiras. E se quer realmente saber, quando eu disse que nunca fui apaixonado por você, contei a maior mentira da minha vida. — Engoli em seco. — Certo. Acho que já falei de mais.
Não sei como eu consegui fazer aquilo. Digo, era um gesto simples se for parar pra pensar, mas eu estava nervoso. Muito mais do que parecia. E tudo isso pra tirar uma pequena caixa do bolso.
— Na verdade... — Eu disse com a voz um pouco tremula. —Fiz isso quando ainda nem tinha memória. Eu queria te dar aniversário. Mas... Acho que se eu não fizer isso agora, não faço nunca, então, Err... Vocêquersecasarcomigo?
Nossa, tive vontade de morrer naquela hora. Você não tem ideia. Que dizer, você passa horas ensaiando uma coisa, e na hora h, vomita um bolo de palavras que mais parece uma parte de um exorcismo do que eu pedido de casamento. Só nascendo de novo...
Clareei a garganta, e então tentei de novo:
— É, talvez isso seja estranho vindo de mim que, bem, sempre correu desse tipo de coisa, mas, a verdade é que quando eu paro pra pensar e imaginar a minha vida daqui a dez anos, eu realmente, realmente quero você nela. Quero, sei lá, adotar um cachorro, e... A gente pode até chamar de jujuba ou paçoca. Deixo você escolher. Apenas... Roberto, Você casaria comigo? — Eu estava olhando para o anel a minha frente. Sabe, não quero me gabar, mas fiz um trabalho bom. Ok, não que eu tenha magicamente aprendido a manipular metal. Pelo amor de Deus. Eu me queimo fazendo um sanduíche! É claro que eu não forjaria um anel. Mas... Bem... Eu que o desenhei. E o achei bonito. Era simples, de prata. Escolhi prata porque destacava as pedras que cobria toda a circunferência e deixava um brilho bonito. — O nome dessas pedras é citrino. Eu a escolhi por causa da cor. Dourado. Igual aos seus olhos.
Falando em olhos, acho que mais um pouco e as pupilas de Roberto iam sair. Que dizer, ele estava parado, atônito. Não dizia nada, nem reagia a nada. E eu, que já estava nervoso, estava quase entrando em colapso.
— Está me pedindo em casamento?— Ele perguntou depois de um tempo. — Vocêestá mesmo me pedindo em casamento?
—Hã... Achei que isso era meio óbvio... — Respondi, ansioso. — Tem um anel e... Eu... Só tá faltando um “sim” da sua parte que aí fica tudo ok.
Aí, Roberto fez aquilo que eu adoro que ele faça quando eu estou em momento bem constrangedor: Começou a rir.
— Quando eu acho que você não pode mais me surpreender...— Ele sibilou, ainda rindo. Porém não fiquei zangado. Porque apesar de tudo, os olhos dele pareciam brilhar de felicidade. E aquilo foi mais que o suficiente.
Roberto me envolveu em um abraço cálido, de modo que os lábios dele ficassem próximo ao meu ouvido. E isso fez com que um arrepio gostoso se alastrasse por todo meu corpo no momento em que ele disse:
—É claro que sim. — Sua voz saiu ainda mais profunda do que de costume. — Isto é, desde que você não se importe de passar o resto da sua vida com um neurótico, ciumento e que, segundo você, também é manipulador...
Acabei rindo.
— Bem, aí vai depender. — Disse a ele. — Você se importa de aguentar por mais um longo período algumas situações problemáticas, azar extra, muita impulsividade e uma pitada de mau-humor matinal?
Ele me deu um sorriso largo.
— Eu não me importaria nem um pouco.
— Então acho que já temos nossa resposta. — Respondi antes de beija-lo. — Acho que temos um longo futuro pela frente...
Há uma musica que diz: “Se eu soubesse antes o que sei agora, erraria tudo exatamente igual.”. E eu acho que isso seja verdade. Não mudaria nada, se já soubesse que aquele seria o final.
Era incerto. Eu sei! Acredito que aquilo era apenas um começo. Ainda havia tanta coisa a ser resolvida: Precisava voltar a minha vida antiga, e sabia que as coisas não resolveriam magicamente. Ainda tinha meus problemas que não dependiam apenas de mim para resolvê-los...
Mas, naquele momento, mesmo que um pouco, eu bem que comecei a gostar do futuro.

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