É Tudo Questão de Genética

2 O nariz sabe a verdade mesmo que o cérebro demore a associar


Notas iniciais
Resumo: Derek sabia que havia algo diferente em Stiles no momento em que viu o garoto na floresta com Scott. Mas descobrir que ele na verdade era filho de uma deusa era demais para o seu lobo interior.

Derek sabia que havia algo diferente sobre Stiles no momento em que viu o garoto na floresta com Scott. O vento soprara naquele segundo, trazendo ao nariz do lobo o cheiro do adolescente que era uma mistura de hormônios, desodorante e, estranhamente, livros, metal e ozônio. Os livros e metal Derek conseguia entender, o menino tinha um jeito todo nerd de ser. Mas o ozônio? Este era estranho. Mas naquele momento ele tinha coisas mais importantes com que se preocupar, como a metade do corpo de sua irmã morta e o fato de que o garoto com Stiles tinha cheiro de lobo. Lobisomem na verdade. Então Derek relegou todas essas novas informações sobre Stiles a um canto escuro de seu cérebro e continuou com a sua vida, tentando descobrir quem era o novo alfa.

Obviamente e irritantemente, Stiles o ajudou em todo o percurso, com o seu falar incessante e suas tiradas espertalhonas, e colocando a culpa de todos os assassinatos sobre ele, o que fazia Derek sempre arremessar o frágil humano sobre alguma superfície lisa e rosnar para ele.

E agora que pensava sobre isto, Stiles nunca ganhou um hematoma diante do tratamento nada delicado de Derek. Nunca captou uma essência que fosse de medo vir do garoto. Na verdade, cada vez que ameaçava Stiles, o adolescente gritava como uma menininha, dizia uma coisa ou outra sem sentido, mas nunca sentia medo. Era como se ele não tivesse instinto de auto preservação ou soubesse que Derek não era uma ameaça verdadeira. Normalmente Stiles sentia medo pelos outros, mas nunca por ele mesmo.

E agora, depois de tudo ter terminado, depois dele ter matado Peter, que Derek descobriu o porquê ao ir à casa de Stiles falar com o garoto um assunto ou outro e no momento em que cruzou o batente da janela, viu uma bela mulher no quarto do adolescente.

Ela tinha longos cabelos escuros e ondulados e olhos cinzentos como uma tempestade. Mas o que fez realmente eriçar os pelos do seu lobo interior foi o fato de que ela não tinha cheiro. Na verdade, ela até tinha cheiro, mas um que não era associado com a raça humana. Ela não cheirava a nada que Derek conhecia e apenas uma essência ela tinha em comum com Stiles: ozônio. E havia também o fato de que antes de alcançar a janela de Stiles, Derek ouvira uma estranha conversa onde o seu nome foi mencionado, o que o fez ficar mais ainda na defensiva e rosnar para a estranha assim que adentrou o quarto.

Rosnado que não a abalou em nada, porque ela lhe sorriu, um enorme sorriso tão parecido com os de Stiles que quase tirou Derek dos eixos, e com um simples adeus ela começou a brilhar.

Os olhos de Derek doíam por causa do brilho repentino que a mulher emitia, mas ele não desviou o olhar porque:

Um alfa nunca dá as costas para uma ameaça em potencial.

Ele queria ver o que iria acontecer.

Mas Stiles gritando para ele fechar os olhos mudou os seus planos. E normalmente Derek arremessaria o garoto contra a parede e diria para ele nunca mais lhe dar ordens ou iria rasgar a sua garganta com os seus dentes, mas algo na voz do adolescente e os seus instintos lhe disseram que a melhor ideia no momento era realmente fechar os olhos. E foi o que ele fez no exato momento em que o brilho tornou-se extremamente intenso, com Derek podendo percebê-lo através de suas pálpebras cerradas, antes de desaparecer segundos depois junto com a mulher.

– Stiles! — Derek rosnou como resposta padrão a qualquer esquisitice de Stiles, porque parte dele estava surpreso diante do que aconteceu enquanto a outra parte odiava que o garoto escondesse coisas dele. — O que diabos foi aquilo? Quem era ela?

– Bem, Derek, você acabou de conhecer a minha mãe biológica. — Derek tinha a sensação de que os seus olhos deveriam ter emitido um brilho avermelhado, como se fossem um maldito anel do humor, pois recentemente eles pareciam mudar de cor de maneira constante na presença de Stiles já que o garoto vivia para irritá-lo, ainda mais quando sabia que a mãe do jovem havia morrido quando ele era criança, e o lobo dentro dele ganiu. O seu parce... O que fosse, o adolescente mentiu para ele.

– Sua mãe biológica. — Derek não queria ter dito aquilo com o tom incrédulo que disse, mas até algumas horas atrás ele achava que Stiles fosse um humano como qualquer outro.

Certo, ele corria por Beacon Hills com lobisomens, mas ainda sim era um simples humano, mesmo que fosse um humano com vários parafusos soltos.

– Que acabou de desaparecer em um flash de luz. — era importante frisar esta parte. No pouco tempo em que ficou na presença da mulher, Derek pôde perceber as semelhanças entre Stiles e ela, mas ele se lembrava bem que o adolescente não costumava desaparecer em flashes de luz. Não quando Derek estava olhando.

– É, sobre isto. — Stiles deu ao lobisomem um sorriso fraco. — Me diz Derek, o que você sabe sobre mitologia grega? — Derek arqueou ambas as sobrancelhas como resposta. Ele sabia o suficiente. Certo, ele sabia muita coisa sobre o assunto.

O mito do lobisomem vinha da mitologia grega. Algo sobre a deusa Ártemis ter dado a “maldição” da licantropia a um seguidor que queria vingar a sua família morta por um monstro criado devido a arrogância de um dos filhos de Apolo.

– Mitologia grega? — e ele não duvidava que Stiles sabia o suficiente também, ou mais do que ele, porque o garoto era uma versão humana do Google.

Mas quando Stiles lhe sorriu de maneira traquinas, Derek soube que estava prestes a descobrir algo que o deixaria embasbacado. Stiles costumava ter esse efeito nas pessoas, nele principalmente.

– Sente aqui lobo rabugento. — o garoto deu tapinhas sobre o colchão. — E deixe-me te contar sobre Atena, a Deusa da Sabedoria, e em como ela gosta de seduzir homens inocentes e ter bebês superinteligentes com eles.

E Stiles contou. Contou como os Deuses Gregos realmente existiam e viviam no mundo moderno, pois eles costumavam mudar de moradia à medida em que o centro do poder do mundo mudava também. E foi assim que Derek também descobriu que acima do Empire State, edifício que visitou várias vezes quando vivia em Nova Iorque, estava localizado o Olimpo. Foi assim que o lobo descobriu que a lenda de Ártemis não era tão lenda assim e que os Deuses, como na Grécia antiga, ainda tinham casos com humanos e bebês com eles. Bebês que eram metade mortais, metade deuses. Como Stiles...

Derek saiu da cama em um pulo ao chegar a esta conclusão, ganhando um olhar confuso de Stiles.

– Você é um semideus. — balbuciou e Stiles piscou repetidamente para ele, como se não entendesse o que o lobisomem queria dizer. Mas Derek? Este estava entrando em pânico.

Stiles era um semideus, filho de Atena. O seu parce... O que fosse, estava totalmente fora do seu alcance.

Certo, ele sempre achou que Stiles estava fora do seu alcance simplesmente porque era um mero humano. Um humano leal, bom e mesmo que fosse irritante, ainda puro, intocado pela escuridão do mundo, mesmo que vez ou outra corresse com lobisomens e fosse ameaçado por eles (na maior parte das vezes sendo a fonte da ameaça o próprio Derek). E Derek era emocionalmente constipado (graças a Kate “Vadia” Argent). Então era por isso que mesmo que o lobo estivesse ganindo e arranhando as suas portas mentais, implorando para sair e clamar o que era seu por direito, Derek o mandava calar a boca com um sonoro “não”. Stiles era humano, quebrável, e merecia coisa muito melhor.

Ao menos essa era a justificativa que Derek usava para se convencer de que não era bom o suficiente, que era arriscado se envolver, que era para ignorar os seus instintos e algo que acontecia com lobisomens desde o início dos tempos. Para ignorar o parceiro que o seu lobo escolheu. Porque Stiles era humano e bom demais para ele, ponto.

– Sim, desde que eu nasci. E daí? — e daí? É que como humano ele já estava fora do alcance de Derek, como metade divindade ele tornou-se permanentemente inalcançável.

– Se você é um semideus, como foi que conseguiu ser capturado tão facilmente por Peter? — porque o sangue divino teria que ter dado alguma coisa a mais a Stiles além do falar incessante e o dom natural que ele tinha de ser irritante.

Stiles rolou os olhos. Derek precisava lembrá-lo de um de seus momentos menos brilhantes?

– Você não ouviu a parte em que eu disse ser filho de Atena? Ela é uma guerreira brilhante, isto é verdade. A maioria dos meus irmãos a puxaram neste quesito. Mas eu? Eu herdei o talento dos Stilinski de tropeçar no ar. Então, obviamente, que eu sou bom na questão de pensar, de planejar, mas não na luta em si.

– Eu tenho que ir. — Derek disse, achando que não estava chegando perto da janela rápido o suficiente antes que o seu coração explodisse para fora do peito. Com o sobrenatural ele podia lidar, moleza, mas isto estava fazendo o seu lobo ter uma síncope e uma batalha de vontades surgir dentro dele.

Para o lobo Stiles era o parceiro perfeito. Não era simplesmente humano, era metade imortal, ideal para uma criatura como ele. Stiles aguentaria o tranco, qualquer coisa que o lobo fizesse. Para Derek, Stiles era perfeito demais para alguém quebrado como ele. E junto com os seus malditos e recentes poderes alfa, manter o controle nesta briga entre homem e animal estava ficando mais difícil.

– Espera! O quê? Agora você tem medo de mim só porque descobriu que a minha mãe não é como as outras mães? — basicamente sim. Mas Derek jamais diria isso.

– Te vejo por aí Stiles. — não necessariamente. Talvez fosse melhor que ele se afastasse... Para sempre de preferência. Stiles tinha um grande futuro pela frente se o que ele lhe disse era verdade. Semideuses eram os responsáveis pela evolução da sociedade. Logo, Stiles estava destinado a fazer grandes coisas e Derek estava destinado a ser um lobo rabugento pelo resto da eternidade.

– Espera! — Stiles gritou quando viu Derek pular janela afora, correndo para a mesma somente para vê-lo sumir na escuridão da noite antes que pudesse dizer qualquer outra coisa.

Com um suspiro, ele fechou a janela e deixou-se cair novamente sobre a cama. Não era estúpido, nunca foi. Era um filho de Atena e percebeu na nonagésima vez que Derek o pressionou contra a parede que o lobo gostava de tocá-lo imensamente para alguém que não gostava de ser tocado. E os olhos brilhando? Eles também eram uma pista.

Então, na época dessa descoberta, ele ligou para um de seus irmãos (de todos que conheceu no acampamento, os gêmeos Carson, Ace e Cass, eram os mais próximos dele) pedindo por conselhos, porque o Google oferecia ajuda apenas até um certo nível. Mas foi a filha de Afrodite, Calla, que namorava Ace, que lhe deu a resposta.

– O arremessar contra a parede e o rosnar? Ele está te marcando. Clamando território sobre você. O lobo o vê como sendo dele. E se ele tem problemas emocionais como você disse, esta é a única maneira que ele conhece de demonstrar interesse.

– Praticamente me mutilando?

– Imagine filhotes. — e Stiles imaginou, o problema era que Derek estava longe de ser um filhote.

Scott? Esse sim, antes mesmo de se tornar um lobisomem. Aqueles olhos castanhos no rosto de menininho deveriam ser registrados como uma arma letal. Mas Derek? Os dentes, as garras e todo o conjunto da obra que eram os músculos de Derek, esses eram uma arma destinada a causar o fim do mundo. Ou o fim de Stiles que várias vezes pegou-se distraído observando por tempo demais bíceps flexionarem sob a jaqueta de couro.

– Quando eles estão brincando, parecem que estão brigando, se machucando, ao rosnar e morder um ao outro. Mas não estão. Eles estão demonstrando afeto. — e Stiles riu e caçoou do irmão quando a garota devolveu o telefone para ele.

– Como é que ela se tornou o cérebro dessa relação?

– Cala a boca! — Ace grunhiu e desligou na cara dele, sem nem ao menos dizer adeus. Mas estava tudo bem, Stiles estava acostumado com o jeito antissocial do irmão. Mas as palavras de Calla ficaram impressas em sua mente e se confirmaram nesta noite em que Derek descobriu a verdade sobre o parentesco de Stiles e fugiu com o rabo entre as pernas.

Agora, como dito antes, Stiles era filho de Atena, ele sabia como criar estratégias de guerra. Como dividir e conquistar, como derrotar lobisomens alfas ensandecidos. Mas não fazia a mínima ideia de como derrubar paredes emocionais. Por isso precisava de mais conselhos, e de um especialista. E foi pensando nisto que pegou o celular e discou o número familiar, sendo atendido no segundo toque.

– Calla me contou sobre o Derek. — nem ao menos um “oi Stiles, como vão as coisas?”. Não, mas não era por isso que ele amava menos a sua irmã.

– E o que você sugere Cass?

– Aguenta firme irmãozinho, porque quando eu terminar com ele aquele lobo vai pular na altura que você ordenar.

Notas finais
OBS: Eu sei que originalmente, na mitologia grega, Zeus foi o responsável pela maldição do lobisomem ao punir Lycaon por servir-lhe carne humana no jantar como um teste sobre o deus. Mas, por alguma razão que eu não sei explicar, sempre achei que o mito do lobisomem estaria mais associado a Ártemis, já que ela é a "lua" e esta é de grande influência sobre os lobisomens. Uma teoria louca que eu tenho que resolvi aplicar nesta história mais louca ainda.