Águia Solitária
8 Capítulo VII
Assim que o viu, ficou especada, incapaz de falar, a segurar o espeto com o marshmallow a arder. Logan sorriu.
– É melhor olhar para isso antes que pegue fogo a alguém.
– O que está aqui a fazer?
– À espera de um marshmallow, — respondeu ele — os seus parecem demasiado passados. — estavam a transformar-se em cinza no espeto, ela continuava a fitá-lo, incapaz de acreditar que ele estava realmente ali. Ele parecia feliz por vê-la e, de calças caqui e camisola, tinha o ar de um miúdo. Também estava descalço.
– Quando é que regressou da Califórnia? — perguntou ela, sentindo novamente a velha empatia. Sentiam-se como velhos amigos e pareciam ter esquecido toda a gente em volta. Ela estivera com um grupo de rapazes e raparigas da mesma idade e ele fora de carro a Cape com um amigo.
– Não regressei da Califórnia. — respondeu ele com um sorriso, feliz por tê-la encontrado — Ainda lá estou e estarei pelo menos até ao final do ano. Só cá vim passar uns dias. Ia ligar ao seu pai na terça-feira e renovar o meu convite. Já começou as aulas?
– Começo na próxima semana. — era incapaz de se concentrar. Logan estava bronzeado e muito bonito, o cabelo mais escuro e ela reparou como os seus ombros eram largos e um pouco musculados sob a camisola e não sob o casaco emprestado que levara à festa. Era ainda mais bonito do que ela recordava e Kate subitamente a fala, o que era uma coisa pouco vulgar nela. Logan continuava a parecer-lhe uma ave gigantesca amarrada à terra, com os seus braços compridos, os movimentos nervosos das pernas e dos pés. Mas ele agora aparentava sentir-se mais à vontade com Kate. Pensara nela muitas vezes e sentia-se mais familiarizado com a situação. Kate continuava a segurar no espeto queimado com os marshmallows, que não só estavam esturricados como também gelados. Com um gesto meigo, ele tirou-lhe das mãos e atirou-o para o lume.
– Já comeu? — perguntou ele, tomando o controlo da situação.
– Só marshmallows. — respondeu ela, com um sorriso tímido. Logan estava muito perto dela e, sem querer, a mão dele tocou na sua.
– Antes de jantar? Sua marota! Que tal uma salsicha? — Kate assentiu. Ele pegou um espeto, tirou duas salsichas de um tabuleiro, espetou-as e aproximou-se do lume — Então, o que tem feito desde o Natal? — perguntou com interesse.
– Acabei o liceu. Entrei em Radcliffe. E é tudo. — sabia tudo o que ele fizera, ou pelo menos os recordes que batera. Lera nos jornais e o pai falava dele constantemente.
– Muito bem. Sabia que entraria em Radcliffe. Estou orgulhoso de si. — disse, e ela corou. Felizmente, a noite já caíra, e ali estavam ambos na praia, com a fina areia branca fresca sob os pés.
Logan parecia mais confiante do que oito meses antes. Ou talvez fosse apenas por já se conhecerem. O que Kate desconhecia era que ele havia pensado tantas vezes nela que, na sua mente, já eram como velhos amigos. Tinha o hábito de rever cenas, situações e pessoas na mente, como se estivesse a ver um filme, até se tornarem familiares.
– Tem conduzido? — perguntou com um sorriso travesso.
– O meu pai diz que sou uma péssima condutora, mas acho que até sou bastante boa. Pelo menos melhor do que a minha mãe. Ela anda sempre a bater com o carro. — respondeu Kate, retribuindo o sorriso.
– Então talvez já esteja apta a ter lições de voo. Havemos de tratar disso quando eu voltar cá. Vou regressar a Nova Jérsia no final do ano, para ser consultor num projeto com Charles Lindbergh. Mas primeiro tenho de acabar umas coisas na Califórnia.
Kate não sabia porquê, mas ficara radiante por saber que ele ia regressar para a costa este. E tinha consciência de que era uma parvoíce, porque não havia razões para pensar que ele queria vê-la. Era um homem de 24 anos, muito bem sucedido na sua área. Ela era apenas uma estudante universitária, ou nem sequer isso. Sabendo quem ele era, Kate sentiu-se ainda mais impressionada do que da primeira vez. E era por isso que se mostrava tímida. Logan estava muito mais à vontade do que na festa.
– Quando começa as aulas Kate? — perguntou ele, quase como se ela fosse a sua irmã mais nova, embora, tal como Kate, ele fosse filho único. Tinham isso em comum. Os pais haviam morrido quando ele era bebé e fora criado por primos da mãe, de quem ele admitia prontamente não ter gostado e que também não haviam gostado dele.
– Esta semana. Tenho de me mudar na terça. — respondeu ela.
– Que grande excitação! — comentou ele, entregando-lhe uma salsicha.
– Não tão excitante como o que tem andado a fazer. Tenho seguido os seus passos pelos jornais. — ele sorriu ao ouvir aquilo, lisonjeado por se ter lembrado dele. Haviam pensado muito um no outro, mas seria embaraçoso admiti-lo — O meu pai é o seu maior admirador. — Logan ainda se recordava de como ele se mostrara interessado em si e do quanto sabia a seu respeito. Ao contrário de Kate, que apenas o considerava um tipo simpático e não fizera ideia de que estivera perante um herói.
Terminaram as salsichas e sentaram-se num tronco a beber café e a comer gelado. Era servido em cones de baunilha e o de Kate já começara a pingar por todos os lados. Logan observava-a enquanto bebia o café. Adorava olhar para ela, era tão bonita e jovem, cheia de energia e de vida. Assemelhava-se a um jovem puro-sangue, a escoicear e aos saltos, lançando a crina de cabelo vermelho-escuro para trás dos ombros. Nunca na sua vida ele pensara que encontraria alguém como ela. As mulheres que conhecera ao longo dos anos haviam sido muito mais simples e apagadas. Kate parecia uma estrela a brilhar nos céus e Logan era incapaz de tirar os olhos dela, com medo de a perder.
– Quer ir dar um passeio? — perguntou por fim, depois de ela ter limpo os pingos do gelado. Ela assentiu com um sorrio.
Caminharam pela praia com a lua quase cheia a brilhar sobre a água. Conseguiam ver tudo na praia e seguiram lado a lado, muito próximos, calados durante algum tempo.
Momentos depois, ele olhou para o céu e depois para Kate e sorriu.
– Adoro voar em noites como esta. Acho que você também irá gostar. Parece que estamos próximos de Deus durante algum tempo, é tão calmo. — partilhava com Kate o que para si era mais importante. Pensara nela uma ou duas vezes quando fizera voos noturnos e desejara que ela tivesse estado com ele. Depois dissera a si próprio que era maluco. Ela era apenas uma adolescente e, se voltasse a vê-la, já deveria tê-lo esquecido. Mas não esquecera, e sentiam-se como velhos amigos. Parecia uma dádiva do destino o facto de terem voltado a encontrar-se. Apesar do que lhe dissera, ele ainda não tivera coragem de telefonar ao pai dela. Encontrá-la no churrasco resolvera-lhe o problema.
– O que o levou a apaixonar-se por voar?
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