Águia Solitária
9 Capítulo VIII
– O que o levou a apaixonar-se por voar? — perguntou ela quando começaram a andar mais devagar. Estava uma noite agradável e muito bonita e a areia parecia cetim sob os pés.
– Não sei... sempre gostei de aviões, mesmo quando era miúdo. Talvez quisesse fugir... ou subir tão acima do mundo que ninguém pudesse tocar-me.– Do que é que andava a fugir?– Das pessoas. De coisas más que tinham acontecido, e de me sentir mal por causa delas. — nunca conhecera os pais e os primos que o tinham criado haviam sido cruéis. Não houvera amor entre eles. Haviam-no feito sentir-se um intruso. E aos dezasseis anos, Logan deixara-os. Tê-los-ia deixado antes se tivesse podido — Sempre gostei de estar sozinho. E gosto de máquinas. E das pecinhas que as fazem funcionar e dos pormenores de engenharia. Voar é como magia, junta todas aquelas coisas e, quando damos por nós, estamos no céu!– Faz com que isso pareça maravilhoso!Pararam e sentaram-se na areia. Tinham percorrido uma distância considerável e estavam cansados. – É maravilhoso, Kate. É tudo aquilo que eu quis ser e fazer quando crescesse. Custa-me a crer que agora me pagam para o fazer. – Isso é porque você é muito bom no que faz. Ele baixou a cabeça por momentos, com humildade, e Kate ficou sensibilizada com o que viu e pressentiu nele.– Um dia, gostaria que voasse comigo. Não vou assustá-la, prometo. – Você não me assusta. — retorquiu ela muito calma.Estavam sentados muito juntos, e aquilo assustava mais Logan do que Kate. O que o assustavam ainda mais eram os seus sentimentos. Estava intrigado. E encontrar-se sentado ao seu lado atraía-o como a um íman. Era seis anos mais velho do que ela. Kate vinha de uma família rica, uma família relativamente importante, e iria frequentar Radcliffe. Logan não pertencia àquele mundo e sabía-o. Mas não era o seu mundo que o atraía, era ela própria e o facto de se sentir bem ao seu lado. Nunca conhecera uma mulher assim. Nem sequer as da sua idade. Namorara com várias, na sua maior parte mulheres que rondavam as pistas de aviação ou raparigas que conhecia por intermédio dos outros pilotos, normalmente irmãs. Mas nunca tivera muito em comum com qualquer delas. Só gostara realmente de uma e ela casara com outro, pois dissera que estava sempre sozinha, que ele não tinha tempo para si. Não conseguia imaginar Kate a sentir-se sozinha, era muito cheia de vida e demasiado independente, e era isso que o atraía. Mesmo com dezoito anos já era uma pessoa completa. Por aquilo que ele podia ver, não havia necessidades que ele tivesse de colmatar e não pudesse, nenhuma expectativa ou admoestação. Era apenas quem era e seguia o seu próprio caminho, como um cometa, e Logan só queria apanhá-la quando ela passasse por perto. Kate contou-lhe então que gostaria de estudar Direito mas que seria melhor desistir, porque não era uma carreira dedicada para uma mulher.– Isso é um disparate. — comentou ele — Se é isso que deseja, porque é que não vai para a frente?– Os meus pais não querem. Querem que eu tire o curso, mas desejam que me case. — ela parecia desiludida. Achava aquilo muito aborrecido. – Porque não pode fazer as duas coisas? Ser advogada e casar? — parecia-lhe uma coisa razoável, mas ela limitou-se a abanar a cabeça. O seu cabelo agitou-se como uma cortina vermelho-escura. Contribuía para lhe dar um ar mais sensual e já há algum tempo que ele tentava resistir a essa sensualidade. Fora bem sucedido, ela nem percebera que ele se sentia atraído por si. Achava que estava apenas a ser simpático e meigo. – Consegue imaginar um homem que deixe a mulher exercer direito? Qualquer homem com quem eu casasse haveria de querer que eu ficasse em casa e tivesse filhos. — as coisas eram mesmo assim, e ambos sabiam-no. – Há alguém com quem queira casar, Kate? — perguntou bastante interessado. Talvez ela tivesse conhecido alguém desde o Natal, ou já conhecesse antes. Logan não sabia assim tanto a respeito dela. – Não, — respondeu — não há. – Então porquê preocupar-se com isso? Porque não faz o que quer até encontrar o homem certo? É como preocupar-se com um trabalho que ainda não tem. Talvez conheça um rapaz simpático em Radcliffe. — e depois voltou-se para ela com uma pergunta. As pernas de ambos quase se tocavam, esticadas na areia, mas ele não tentou pegar-lhe na mão ou pôr-lhe um braço sobre os ombros — Casar é assim tão importante? — ele, com vinte e quatro, ainda não estivera perto de o fazer. E Kate tinha apenas 18 anos. Parecia ter diante de si uma vida inteira para poder casar e ter filhos. Era estranho ouvi-la falar daquilo, como se fosse uma carreira escolhida e não o resultado natural de algo que sentisse por alguém. Logan perguntou a si mesmo se os pais dela pensariam assim. Não seria de estranhar. Mas ao contrário da maior parte das mulheres, que eram mais reservadas, ela foi completamente franca.– Acho que o casamento é importante, toda a gente diz que é. E creio que um dia também o será para mim. Só não consigo imaginá-lo neste momento. Não tenho pressa. Ainda bem que vou estudar primeiro. — era um adiantamento para os planos que a mãe tinha para si — Nem sequer vou ter de pensar no assunto durante quatro anos, e nessa altura sabe-se lá o que é que vai acontecer.
– Podia fugir e juntar-se a um circo. — disse ele, fingindo querer ajudar, e ela soltou uma gargalhada, deitando-se na areia e pousando a cabeça no braço. Nunca vira ninguém tão belo, pensou ele ao contempelá-la ao luar. Teve de recordar-se da idade que tinha e que ela não passava de uma criança. Mas, ali deitada, Kate não parecia uma criança, era já muito mulher. Logan desviou o olhar por momentos, para se recompor. Kate não fazia ideia do que lhe ia na alma.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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