À flor da pele
79 Ainda há luta em mim!
Notas iniciais
Diana
Acordo me sentindo tonta. Olho ao redor, estou no meu quarto. Levo um minuto para me situar, para lembrar de como vim parar aqui.
Não lembro.
Saí da casa do Theo, fui para a minha e depois ao trabalho, onde Derek tentou me atacar. Júnior e Sr. Hoen me socorreram e depois não lembro de nada. Devo ter desmaiado ou tido um ataque de pânico.
Me sento por um momento e quando parece que o quarto parou de girar, me levanto. A segunda coisa que percebo depois da tontura, é meu braço dolorido. Quanto toco a parte que dói, vejo um curativo.
O que diabos me aconteceu?
Vou até meu espelho e me assusto com minha aparência desleixada. Estou usando uma camisola amarela, que não usava há muito tempo. Na verdade até pensei que a tinha dado, já faz meses que a vi pela última vez.
Minha pele clara se superou, ficando um tom mais claro do que normalmente é. Se eu não estivesse sentindo esse mal estar e essa dor no braço, provavelmente ia pensar que morri e virei um fantasma. Meu cabelo não está nada melhor, parece que algum bicho fez um ninho nele.
Olho ao redor do cômodo. Tudo parece igual, mas não realmente. Olho para meu criado mudo e vejo meu relógio, marca sete horas. Fico na duvida se é noite ou dia, já que as cortinas estão fechadas. Caminho lentamente até lá e afasto o tecido. Não vejo nada. É um breu total. Escuto um barulho vindo do andar de baixo e então saio do quarto, em um ritmo bem lento.
Todas as luzes estão acessas, a do meu quarto estava e agora a do corredor, banheiro no fim dele e do quarto de hóspedes. Vou para a escada e desço devagar, esperando encontrar Theo ou Tyler. Não os acho na sala, então vou para cozinha. Me apoio o tempo todo nas paredes para não cair.
— Theo...? — Chamo, com medo de não conseguir chegar até a cozinha. Minhas pernas tremem e as sinto falhar, mas antes de alcançar o chão, braços fortes me seguram.
Agarro os braços e os seguro com força, respirando fundo e sentindo o perfume fami... Não.
Não é familiar.
Levanto meus olhos lentamente, percebendo coisas enquanto faço isso. Como roupas que nem Tyler e nem Theo usariam. Peças mais parecidas com meu pai. Camisa e colete. Mas não é o corpo do meu pai. Falta muitos quilos a mais para ser. Esse é forte, malhado e estranho.
Quando meus olhos alcançam seu rosto, sinto um arrepio passar por todo meu corpo. Medo me domina e o grito que quero dar fica preso.
— Calma querida. Está tudo bem. Você precisa se alimentar e vai ficar bem.
A voz grave me lembra a de alguém, mas não consigo saber exatamente. Seu rosto também não me é estranho.
— Você dormiu por um dia inteiro. Deve estar faminta.
Continuo o estudando, sem saber o que fazer.
Ele tem cabelos curtos, com duas pequenas entradas começando a aparecer pela idade. Talvez 40 anos, um pouco mais, um pouco menos. Me encara com os olhos verdes e um sorriso bonito nos lábios, mas apesar de parecer amigável, alguma coisa não parece certa. Seus olhos não têm aquela luz natural que geralmente as pessoas têm. Ele parece distante, frio e até mesmo cruel.
Será que isso é um assalto?
— Quem... — Não consigo terminar a frase, as palavras não saem.
Ele me pega no colo com facilidade, como se eu não pesasse nada. Leva-me para a sala e me coloca no sofá. Aqui as coisas parecem no lugar também, mas não realmente. Não consigo entender essa coisa inquietante na boca do estômago cada vez que olho ao redor.
— Nós vamos conversar em um minuto, vou te alimentar antes.
Ele se afasta da sala e tento me levantar. Eu preciso ir para fora, gritar por ajuda. Quem em sã consciência fica em casa com um desconhecido? Eu que não! Mas as pernas não respondem e me vejo perdendo a oportunidade quando ele volta com a minha garrafa de água e uma cumbuca de cheiro agradável. Ele deixa ambos na mesinha de centro e senta no sofá oposto, me dando espaço. Assim eu penso.
— Você se lembra de mim?
Nego devagar.
— Sou seu vizinho.
Então me lembro. O gato entrando em minha casa e Terry e eu tentando falar com ele a respeito disso. Eu o vi poucas vezes, na verdade era como se a casa estivesse desocupada. Nunca nenhum movimento, nunca nenhum barulho, nunca ninguém por perto. As poucas vezes que consegui ter um deslumbre, ou ele estava chegando ou saindo.
— Certo... — Eu não me sinto melhor com sua revelação. Ele me disse quem é, mas não me disse o motivo de estar aqui. — O que faz aqui?
Ele franze cenho e passa a mão nervosamente pelos cabelos.
— Eu meio que passo bastante tempo aqui. Você não se lembra de mim?
Me assusto com suas palavras.
— Nós estamos juntos faz quase dois anos... — Me conta ele.
Juntos?
Dessa vez minha força parece voltar e me levanto, recuando para trás do sofá, quase caindo quando minhas pernas se embaralham brevemente, mas me mantenho ao apoiar no sofá.
— Eu não estou com você. Eu estava saindo do meu trabalho quando alguém tentou me prejudicar e...
Lembro do Sr. Hoen e então percebo nesse homem estranho algumas semelhanças com o idoso.
— Você é parente do Sr. Hoen?
Ele se encosta no sofá, e cruza os braços, me encarando. Não responde minha pergunta.
Sinto o couro do sofá na minha mão apoiada e ele parece diferente. Olho para a peça e percebo que é novo. Meu sofá não é novo, ele é de segunda mão. Eu o comprei usado e passei muitas horas o esfregando com Tyler, até sentir que estava limpo.
O tapete também está mais claro que o normal. O relógio no meu quarto... Que estava sumido por semanas...
Vou para a janela me apoiando nos moveis. Quando alcanço a borda, puxo a cortina. Tudo escuro lá fora. E a janela não abre.
Essa não é minha casa.
Me viro para confrontar o homem, esperando o ver ainda no sofá, mas ele está logo atrás de mim e me assusta. Acabo caindo no chão, me encolhendo em um canto. Sentindo meu estômago e meu braço doerem.
— Onde eu estou? O que você quer?
Ele se abaixa lentamente e acaricia minha bochecha, assustando a merda fora de mim. Seus dedos são frios e o medo me deixa ainda mais consciente da inadequação dessa cena.
— Querida, sou eu, Theodor.
Começo a negar. Esse certamente não é o Theo.
— Você sofreu um acidente, bateu com a cabeça. Os médicos dizem que é temporária essa sua condição... Confusa.
Mas que diabos?
— Eu não te conheço, eu não sou sua querida, se afaste...
— Eu não estou indo a lugar nenhum. Você é minha Diana, acostume-se.
Theodor
Quase 48 horas desaparecida. Peter preso por 3 horas, até que Tyler apareceu e disse que o cara não sabia da tatuagem. Mas que estava junto quando eles viram o desenho e Diana manifestou interesse. Ele também está sentado no sofá do meu apartamento, ao lado de John. Um olho roxo enfeita sua cara e foi dado por mim.
Derek foi detido também, o filho do chefe de Diana fez uma queixa, mas, aparentemente, eu ter mandado surrar ele foi o motivo de sua agressão. Exceto que ele não tem provas de que eu mandei. Eu tenho álibi, meus funcionários também. Então, sem queixa contra mim. Ele teria ficado preso se o tal do Júnior não houvesse visto Diana apagada no carro de um dos clientes dela, o livrando da culpa dos sequestro. Então, esse merda pagou fiança e sumiu.
O que me leva de voltar para o cliente que levou Diana. E é ai que a merda rola solta. Não existe um Sr. Michael D. Hoen. Identidades falsas foram usadas no escritório para fechar negócio. No endereço dele, não havia nada. Suas coisas se foram. Nem mesmo digitais havia, a não ser do pessoal que andou trabalhando por lá na obra.
Esse homem é um fantasma. Ele não existe. Como se acha alguém que não existe?
Terry apareceu quando Júnior ligou algumas horas depois e assim que ela chegou, ele e o pai foram embora.
Meu apartamento nunca esteve tão cheio. Tyler, Jane, minha mãe a família de Diana, meus amigos. Todos estão aqui, no entanto ninguém se aproxima. Estou na varanda refazendo todo o ocorrido em minha mente. Tentando achar alguma coisa, qualquer uma, que me diga onde encontrar a minha garota.
John não falou comigo desde que o avisei do desaparecimento. A mãe dela tem, pela primeira vez, um olhar preocupado em seu rosto.
Amy é a única que não está aqui. Fomos expulsos da casa de Diana para a polícia poder verificar o lugar, ela está acompanhando-os, desde que é amiga do policial que está no caso.
— Você precisa comer. — A voz de Theresa me tira do meu estado de amargura.
— Sem fome.
Ela se aproxima e para ao meu lado, olhando para o nada, como eu. Não faço ideia de quando ela chegou ou qualquer um dos outros.
— Eu sinto muito sobre tudo o que está acontecendo. Eu sei o quanto ela é importante para você, te conheço o suficiente para reconhecer isso.
Ela está com o habitual branco. Tão serena quanto qualquer máscara poderia ser. Mas por dentro é uma guerra. Eu bem sei disso. E simpatizo na maior parte do tempo.
Menos agora.
Sua voz é irritante, não a quero aqui. Não quero ninguém aqui. Só Diana, mas a cada hora que passa, isso parece ser impossível. As 48 horas são criticas, o policial nos informou ontem. Se a pessoa não for encontrada, é possível que não esteja mais viva. É o que diz as estatísticas, me contou, e lutei duro para não quebrar sua cara. Depois disso me isolei e me junto aos outros para receber atualizações quando chegam. Mas não houve nenhuma realmente.
— Theo... — Dessa vez não é Theresa, é Terry. Só espero que não me pergunte se estou bem. Eu não estou, porra!— Eu estive pensando... Enquanto eu estava passando um tempo com Diana...
Isso tem a minha atenção, me viro para ela, assim como Theresa.
— Pode não ser nada... Mas...
— Mas? — Me aproximo, esperançoso.
— Ela dizia que eu estava errada, mas às vezes coisas estranhas aconteciam. Como coisas sumindo e as tábuas do piso rangendo de noite, como se tivesse alguém lá...
Sinto um arrepio passar pelos meus ossos.
Eu já ouvi isso. Porém não recentemente.
Pego meu celular e disco o número de Amy. Ela atende no segundo toque.
— Ainda nada, Theo. — Ela diz.
— Eu não estava ficando louco, Amy. Tinha alguém na casa dela, todo esse maldito tempo.
— O quê?
— As malditas coisas que sumiam, as tábuas rangendo, Terry disse que escutou e achava que tinha alguém lá. Isso parou, depois que colocamos o equipamento de segurança. A aquela porra de foto, com certeza agora temos confirmação das suspeitas. Esse porra estava lá dentro, o tempo todo.
Ela não responde, escuto sua voz abafada falar com alguém do outro lado.
— Stuart vai pedir recolhimento de digitais. — Me informa meio minuto depois.
Vai pedir? Por que diabos já não pediu?
— Eu te ligo. — Ela desliga.
Olho para trás e vejo que Tom está próximo. Ele me olha preocupado.
— Terry, me conte o que mais você percebeu, qualquer coisa. — Ele pede para ela, tirando as palavras da minha boca. E então ela começa a falar, me fazendo sentir um idiota por não ter a protegido direito.
Meu telefone toca uma hora depois e é Amy.
— O que você descobriu?
— Muitas impressões digitais, que não vão sair em menos de 12 horas. Sinto muito. A casa estava cheia, Theo. Pode ser da família dela, ou nossas. Mas...
— Mas...?
— Achamos as cartas que o Tyler disse. A maioria está aberta, como ele falou e não tem mais que poesias e letras de música. Mas tem algumas novas que não foram abertas. Tinha mais uma foto dela...
— Eu estou indo para aí. — Desligo.
Olho para Tom e Terry que estão me estudando e Tessa está olhando para dentro.
— É melhor você ir sem chamar atenção, não precisa de todas essas pessoas atrás de você. — Ela me sugere.
— Certo.
— Vou distraí-los. — Ela se afasta, sem esperar minha resposta. Abre a porta de vidro e escorrega para dentro, se senta na minha nova sala e começa a falar, aos poucos todos começam a olhar para ela e então essa é minha deixa.
Saio da varanda e vou para a cozinha, onde saio pela saída de emergência. Tom e Terry me seguem e, apesar de não querer a companhia deles, os deixo fazer isso.
Eu entro em meu carro na garagem e Tom toma o assento do carona enquanto Terry vai atrás.
Dois minutos depois estou na frente da casa de Diana. Duas viaturas e um outro carro parado na frente. Um policial do lado de fora me diz que não posso entrar e então Amy e Stuart, o detetive que eu evitei como uma praga, aparecem, nos liberando.
— Detetive, essa é Terry, ela pode ter algumas informações para você.
Ele acena e indica para ela o seguir até o carro.
Amy puxa o celular e me mostra uma foto da foto que encontraram.
— Eles levaram como evidência, foi o que eu consegui.
A imagem está um pouco borrada, mas eu consigo ver Diana na cama. Comigo.
Ódio corroí minha alma. Ele esteve lá quando estávamos juntos.
Como alguém que se atreveu a tanto, não deixou nada para trás?
Minutos depois, de Amy contando tudo que fizeram, Terry se junta a nós de novo. E então ela estala os dedos, chamando nossa atenção.
— E tem a porra do gato do vizinho... Aquela coisa na cama dela não era urina nem no inferno!
Diana
— Você dorme encolhida, mal se mexe de noite. É uma coisa assustadora. E você era virgem quando nós transamos pela primeira vez.
Ele tem repetido coisas assim por quase uma hora, tentando me convencer que me conhece e insistindo para que eu coma. Não toquei em nada que ele me ofereceu. E não acreditei em nada. Mas cada coisa que ele diz me deixa ainda mais com medo. Como esse cara pode saber de todos esses detalhes?
Eu quero ceder a histeria. Deixar o descontrole tomar conta e voltar aos velhos hábitos. Mas eu sei que isso não pode acontecer. Minha vida está pendurada por um fio.
Meu captor me espreita, como um lobo, só esperando a abertura perfeita para atacar.
— Nós gostamos de correr pela manhã e...
Ele fica quieto quando finalmente alcanço a cumbuca de sopa que trouxe. A colher é de plástico, percebo. Mas não a toco. Apenas lanço a tigela em sua direção e ele se afasta a tempo, fazendo o a peça bater na parede e se partir.
Tento correr e falho.
— Me solta! — Grito, quando o meu “namorado” falso decide que ultrapassei os limites e me captura, segurando com mais força que o necessário.
— Por que você não pode aceitar? Por que não consegue ver que somos perfeitos juntos? Maldita! — A gentileza de suas palavras dão lugar ao tom rude e venenoso. Ele me empurra contra a parede da sala, perto de onde eu taquei a tigela de sopa.
Sinto-me fraca, mas não deixo de lutar, de empurrar e gritar.
De onde essa luta sai? Não faço ideia. Acho que realmente não me conheço no fim das contas.
Alguns meses atrás eu teria me encolhido, caído em um ataque de pânico que me teria fora de órbita por horas. Mas talvez só fizesse isso porque sabia que teria uma rede de segurança. Tyler sempre foi isso para mim. Depois Theo, mesmo que ele não fizesse o mesmo que Tyler, eu sempre soube que ele viria por mim. E então tinha meu pai, se me manifestasse, ele viria também. Mas aqui, agora, não há ninguém além de um maluco tentando me fazer acreditar que somos um casal.
A minha mente pode não ser a mais perfeita, meus medos podem servir como barreiras e às vezes não sei se estou realmente entendendo as coisas do jeito certo. Mas, algumas coisas eu sei: não namoro esse cara, e essa casa não é a minha!
Eu grito mais alto e quando ele tenta tampar minha boca, mordo com força sua mão. Ele grita e me pega pelo cabelo, me jogando no chão com força. Nesse momento sinto uma dor horrível em minha mão e coxa.
O sangue mancha o piso e minhas roupas.
Quase piro com isso, quase volto ao que era, mas isso significa cair e eu não estou fazendo isso. Nem que eu dê meu último suspiro tentando, não vou ser mais uma vitima das circunstancias dessa vida de merda. Eu estou lutando dessa vez.
Consigo agarrar o pedaço da tigela de cerâmica que se partiu, e cai em cima, e lanço a minha mão ferida e armada sobre o rosto do homem quando tenta me segurar.
— Filha da puta! — Quando ele cai de joelhos, segurando seu rosto, eu me arrasto até o pé da escada e tento subir. Então meu pé é segurando com força, me impedindo de ir.
— Dessa vez não!
Me lembro da outra vez... Quando invadiram a minha casa. Assalto droga nenhuma!
Eu tento chutá-lo, mas não consigo, então uso o pedaço de vidro ainda em minha mão, que só aumentou meu corte. Eu o uso na mão dessa desgraçado, que me solta e isso é o que eu preciso. Eu me arrasto para o quarto de hóspedes, não tem chave nas portas, então empurro a cômoda bem na hora que ele tenta abrir. O móvel não é pesado o suficiente, então não vai segurar a porta. Me encosto nele, tentando segurar, mas não consigo. Sinto-me muito fraca. Logo a cômoda e eu somos empurradas e o meu vizinho está aqui. Sangrando tanto quanto eu.
Ele me olha com tanto ódio nos olhos. Desafivela o cinto, que tem um fecho de ferro grande na ponta e começa a se aproximar lentamente. Me arrasto para trás, até dar em uma parede. A trilha de sangue que ficou no caminho faz parecer um filme de terror.
Quando ele ergue aquele cinto e deixa claro sua intenção, eu uso minha mão ferida para cobrir meu rosto, justamente quando o primeiro golpe me alcança, fazendo meu braço queimar de dor.
— Você foi uma mulher má.
Então o segundo golpe e minha garganta ardendo com cada maldito grito agoniante que eu dou.
— Precisa ser castigada.
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