À flor da pele

17 Adorável insanidade


Notas iniciais
Boa leitura!

Diana

Terça-feira.

Acordo atrasada e não saio para correr. Quando são 09 e 10, meu celular apita e o pego ansiosa. Esperando ser um certo homem que quase me beijou ontem.

Caramba! Acho que nunca vou esquecer aquele quase beijo.

Doente?”– A mensagem diz, e é do Theo...

Com visita.”– Respondo.

Um cara?”– A pergunta é fofa, porque tem um certo ciúme implícito, mas ao mesmo tempo é deprimente. Como ele pode pensar que estou saindo com alguém? Ainda mais quando ele me dá sua atenção e um quase beijo... Sem contar o que ele, de fato, me deu na sexta-feira.

Sim. Algum problema?”– Envio.

Não sei o porquê de fazer essas coisas. Às vezes sou invadida por um espírito da maldade e essas demonstrações de rebeldia e infantilidade escapam. Pequenas coisas me irritam e é realmente difícil me manter calma e racional sobre elas.

Divirta-se!”– Ele responde.

Fico olhando para o visor do celular, esperando que algo mais chegue. Ele está bravo? Nós não temos nada além de um quase beijo, e um por intervenção, no histórico. Ficar bravo é estúpido.

E por que fico pensando toda hora no maldito quase beijo? E no, de fato, beijo?

Eu já fui beijada antes e já tive quase beijos também. Qual a novidade?

Respiro fundo, tentando invocar toda a calma que o mundo.

Poderia ser o Tyler...”– Envio e a resposta chega em menos de um minuto depois.

“Só se ele tiver um gêmeo, porque o deixei tomando café em minha cozinha minutos atrás”.

Hum... Tyler toma café em sua casa, toma banho... Eu deveria me preocupar?

Theo parece bravo. Quer dizer, não dá pra saber realmente o tom das coisas por mensagens assim. Mas eu aposto que ele está. E eu sei que pisei na bola de novo. Eu ajo como idiota às vezes mesmo. É como se tivesse uma parte de mim que adora me sabotar e ela só aparece quando as coisas estão indo bem.

É uma amiga, na verdade. Ela acabou de terminar um relacionamento e está ficando aqui”– Envio sem pensar duas vezes.

Não devia ter mandado. Eu não preciso me justificar.

“Você quer me deixar maluco, Dia?”

Deixar maluco... Quem sabe eu queira.

“Talvez...”

Você virá amanhã?”– Ele muda de assunto.

“Correr?”

“Sim” – Ele confirma.

“Sim”

“Ótimo”

– Minha nossa! — Terry atravessa a porta aberta do meu quarto, me encontrando ainda na cama, sentada com o celular. — Eu acordei mais cedo, Diana, só para fazer seu horário maluco, e você nem levantou!

Ela está pronta. Usa um terninho preto e um rabo de cavalo. Sem maquiagem. Nem mesmo um batom hoje.

– Acho que estou ficando doente. — Conto. — Foi muito penoso acordar. Precisei, pela primeira vez, usar aquele “Só mais cinco minutos”.

Ela ri, se senta na cama. Seu rosto está um pouco inchado, ela deve ter chorado a noite toda.

– Será que isso tem a ver com as duas garrafas de espumante que viramos, ontem? — Lhe pergunto para puxar assunto.

– Espumante não deixa bêbada. — Ela diz.

Até que não é ruim ter ela por aqui. Ontem, quando chegamos, ela se acomodou no quarto que Ty fica quando vem. Não a vi mais, ou as suas coisas, por umas duas horas. Ela só ficou em seu canto. Então a chamei, comemos meus potinhos de terça e quarta e bebemos. Não foi lá a pior das coisas, no fim.

– E é assim que se fica bêbada, achando que algo alcoólico não te deixa! — Conto a ela.

– E aí, vai levantar ou... — Ela olha para minha coberta e arregala os olhos, se levanta rápido, como se tivesse uma cobra ali. — Ah, Diana! Andou transado em cima da coberta, que nojo! Pelo menos lava a roupa de cama, querida!

– O quê?

Olho para onde ela encarava. Bem no centro da colcha uma mancha. O meio não está não amarelado, mas as bordas da mancha sim. Me levanto.

– Ai que nojo, eu dormi nisso!

Começo a me despir ali mesmo, na frente dela e puxo as cobertas, descobrindo outra mancha em meu lençol. Aliás, não uma, mas duas, e em lugares distantes uma do outra.

– O que é isso? Você mijou na cama? — Ela diz me apontando.

– Eu não mijei na cama e essas coisas não estavam ai ontem, quando arrumei a cama de manhã. — Quando cheguei com Terry, estava tão cansada que só tomei banho, engoli meu jantar e fui me deitar. Não reparei em nada. — É o gato do vizinho, ele esteve aqui ontem. Não posso mais aguentar isso! — Tiro o lençol e jogo para a pilha de roupas e cobertas sujas. Começo a me coçar, pensando em toda essa porcaria em contato com meu corpo.

Corro para o banheiro e entro debaixo do chuveiro, o ligando depois e sendo recebida por uma ducha fria de água. Pego o sabonete e esfrego com força em minha pele. Me sinto tão suja. Parece que não importa o quanto eu esfregue, a sujeira não me deixa. Minha pele arde pela água que começa a esquentar, e pelas esfregadas fortes. E a sujeira... Ela parece colada a mim.

Acho que faz anos desde que me deixei abalar tão profundamente assim. É só sujeira, certo? Ela sai. Mas não... Não quer sair. Minhas lágrimas se misturam a água do chuveiro.

– Amiga? — Terry entra no banheiro, abre a porta do boxe e me espia. Olha em meus olhos. — Você tem certeza que foi o gato do vizinho?

Apenas aceno positivamente. Estou nervosa demais para falar alguma coisa.

– Qual dos vizinhos?

Começo a pensar sobre isso. Eu não conheço meus vizinhos, não sei seus nomes também e alguns, nem o rosto.

– Da casa branca com cercado. — Digo fracamente.

– Eu vou até lá, ok? Você sai desse banho antes que rasgue a pele.

– Ele está trabalhando, eu acho...

– Vou verificar, se ele não estiver, deixarei uma nota para ele ligar. Sai dessa e se arruma, tá?

E então eu saí. Do boxe, não da crise.

Quando saio do banheiro, percebo minha cama com um novo lençol. Sem cobertas.

As coisas sujas se foram.

Menos a sujeira. Ela continua impregnada em mim.

***

– Vá para casa mais cedo, querida. — Dony me surpreende na minha sala, depois do almoço. Eu estava tão concentrada em achar alguma mancha em meu terninho branco, que nem o vi chegar.

– Oi, Dony. Estou bem. — Digo a ele, mas, a verdade é que estou em meu limite. Beirando o abismo do desespero e não consigo me sentir melhor. Minha perna não para quieta, é como se de repente todos os tiques que eu consegui me livrar nos anos passados, estivessem de volta para atormentar.

– Querida, você parece abatida. — Ele se senta na cadeira a minha frente. — Eu a conheço por tempo o suficiente para saber que, quando você se tranca nesse seu mundinho, não há nada que a alcance.

As palavras dele me deixam mal. Meu mundinho? Como assim? Agora sou uma criança?

– Dony, eu sou uma mulher adulta, sei das minhas responsabilidades e...

– Diana, eu não estou dizendo que não seja. O que estou dizendo é que hoje você não é útil para mim e prefiro que vá para casa. — Seu tom é alto, sério, quase zangado. — Estou te mandando para casa, como seu chefe. E como seu amigo – Seu tom fica mais calmo, mais gentil – Eu quero que você descanse. Você não parece nada bem e olha que quem foi trocada foi a Terry! — Ele ri.

Ela acabou contando a ele ontem, quando pediu para sairmos mais cedo, para pegar suas coisas. Eu me sinto péssima com isso. Odeio sair antes ou faltar. É como se não merecesse meu pagamento no fim do mês.

– Eu não gosto disso, Dony.

– Você sabe, Diana, minha esposa e eu temos um carinho muito grande por você. Gostamos demais do seu trabalho e da sua companhia. Mas querida, você precisa descansar também. Nós não vamos ter menos afeição por você não estar bem. E nem menosprezar seu trabalho. Você tem talento, tem bom gosto, e nossos clientes te adoram. Você é necessária aqui. Ter o seu tempo não vai tirar seu emprego e nem te tornar menos importante. Em dois anos, você não tirou férias. A primeira vez eu as comprei de bom grado, era ruim ficar sem você. Mas quero deixar claro, não farei isso esse ano. Eu estou mandando, ouviu bem, querida? Mandando, que você vá as agendar com Janine e se não o fizer – Ele levanta as mãos – Que céus te ajudem, porque ai sim, eu ficarei muito bravo e pensarei seriamente em seu emprego.

Sinto um ligeiro arrepio percorrer meu corpo. Ele não está brincando.

As primeiras férias eu não quis porque precisava de dinheiro. Comprar uma casa e arrumá-la teve seus custos e muitos deles estavam se acumulando, sem contar o carro, que eu precisava. Eu não tive muito opção. Agora, esse ano, eu pretendia vender de novo, mas só porque eu não acho que preciso de tanto tempo em casa. O que eu faria lá?

– Dony...

– Eu já disse tudo o que precisava ser dito. Vá para casa – Ele fica em pé – Pense em quando você irá querer suas férias e então, amanhã, assim que entrar, você irá marcar com Janine e eu espero, sinceramente, que seja em um tempo bem próximo, Diana. Para o bem da sua carreira.

Então ele sai. Me deixando confusa, irritada e inquieta.

Sem mais opção, pego o celular e ligo para Tyler.

***

Estaciono meu carro na garagem, exatamente às 16 horas. Tyler para na frente de casa. Ele me pegou no trabalho e depois fomos buscar seu carro. O danado conseguiu sair do trabalho na hora do almoço. Todo cheio de desculpas esfarrapadas.

– Agora você entra. — Ele diz, me abordando quando saio do meu carro. — E eu vou falar com o vizinho.

Terry tentou falar com o dono do gato pela manhã, mas ele não estava. Agora, no entanto, há uma moto na garagem dele.

– Eu posso fazer isso. — Digo a ele.

– Sei que pode, Diana, mas eu é que irei fazer. Ok?

Ele segura minha mão. Não lembrei de colocar os adesivos que Theo me deu, então... As costas das minhas mãos estão bem vermelhas e arranhadas. Sem contar o resto do meu corpo, que esfreguei como se tivesse sarna.

Ok, Tyler.

Vou para a porta e a destranco. Me sinto enjoada só de olhar para o lugar. Preciso limpar. Cada canto, tirar a imundice que há aqui. E em meu corpo.

Vou para a lavanderia, onde a Terry deixou as roupas de cama. Elas continuam amontoadas no mesmo lugar. Não posso apenas lavar isso. Pego, embaixo do tanque, saco de lixo grandes e abro dois deles. Começo a enfiar as cobertas e todas as peças que ali estão. Eu não posso, não quero mais tocar nisso de novo.

Depois de tudo ensacado, largo ali no chão e pego um galão de água sanitária. Tudo está sujo, imundo. A abro e começo a jogar pelo chão. Primeiro na lavanderia, então pela cozinha. Meus olhos embaçam por um momento. Lágrimas começam a descer. Isso é pelo cheiro forte, tenho certeza. Nenhum outro motivo. Eu mudei, não sou como antes, não perco mais o controle.

Eu não perco mais o controle.

Não perco...

– Pelo amor de deus, Diana! — A voz de Tyler ecoa pelo cômodo e sinto braços fortes me apertarem. O galão cai das minhas mãos. Tyler se senta no chão e me deixa entre suas pernas, me abraçando forte.

– Respira, querida, respira...– Ele sussurra em meu ouvido. Percebo que eu estou segurando minha respiração e que meu peito dói. Meu corpo todo dói. Minha cabeça gira. - Respira...

Eu estou perdida. Estou no meu limite...

Notas finais
Chato esse capítulo? u.u Cenas do próximo capítulo: "- Eu vou ligar para o Dony e dizer que batemos o carro, morremos e fomos para o inferno." "Me sinto mal quando estamos brigados. É como se algo estivesse faltando." Indicação do dia: http://fanfiction.com.br/historia/395562/Sweet_Jasmine De uma das minhas parceiras em Forever, Pudim de Gelatina. Bj bjs, até... amanhã?