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2 A Emoção Começa Agora
Notas iniciais
Acordei sendo cutucada. Era um menino que me cutucava incessantemente:
— Iara! O que estás fazendo deitada neste banco? Levante logo! Se mamãe a ver neste estado, vás levar umas belas palmadas.
— Oi. Não, você deve estar me confundindo. Meu nome não é Iara — respondi ainda meio tonta, sem entender o que estava acontecendo.
— Levante logo Iara, e pare com essas gracinhas — disse me ajudando a levantar — mamãe ficará furiosa se não chegarmos à tempo para o almoço.
Não estava entendendo nada, não entendia por que aquele menino me chamava de Iara. A primeira coisa que me passou à cabeça foi que era uma brincadeira da minha turma, porém não o conhecia. Notei que aparentava ter 13 ou 14 anos, e vestia um conjunto verde parecido com um terno, mas era diferente pois era bastante justo, e a calça era até o final dos joelhos, no restante da perna usava meias e botas pretas. Resumindo: ele se vestia como alguém do século 19, e eu fiquei intimidada com aquilo. Procurei minha bolsa mas não encontrei. Olhei ao redor e havia algo diferente, eu não sabia identificar o que era. O ar estava mais fresco, o sol estava menos ardente mas ainda sim se fazia presente.
Olhei para o menino e perguntei as horas, ele tirou um relógio do bolso e disse:
— São 12:10. O Barão chega às 13:00 para almoçar conosco. Se eu fosse você, iria logo arrumar-me os cabelos. Vamos logo! — disse-me puxando pelo braço e me levando para só Deus sabe onde.
Espera, ele disse "se mamãe a ver neste estado"? Perguntei a ele onde estávamos e quem ele era, mas não quis responder. Achou que eu estava brincando.
Ao andar pelo bairro, via pessoas vestidas como as novelas de época da Globo. Não estava acreditando naquilo, nada podia ser real ali. Talvez fosse algum delírio pela fome e cansaço. Talvez eu estivesse apenas sonhando. Andamos um pouco por ruas pequenas, enquanto o menino falava coisas sem sentido até chegarmos a uma casa grande e antiga, mas que parecia estar nova. O menino abriu o pequeno portão para mim e logo depois subiu as escadas com poucos degraus que dava para uma varanda, abriu a porta e entrou correndo pela casa gritando "mãe, achei Iara". Percebi o quanto aquela casa era linda, sempre amei casas antigas e nunca estive por dentro de uma. Logo uma mulher também vestida de época apareceu:
— Menina, onde estavas? Ficamos preocupados, achamos que tinha se afogado no mar. Vá já para seu quarto se arrumar, o Barão está à caminho. Seu pai foi buscá-lo no cais.
— Que Barão? Moça, a gente tá em que data? — perguntei
— Que jeito é esse de falar? Aquele amigo de seu pai, não te lembras? — disse me levando até um quarto — irá vir de Tinguá junto sua esposa e seu filho, não me faças passar nenhuma vergonha — disse isso, e logo depois saiu do quarto para pegar algo — Miguel, vá se arrumar também!
Lá estava eu, sozinha num quarto com duas camas que pareciam ser menos confortáveis que a minha. Tinha uma penteadeira ao lado de uma das camas, então me aproximei dela olhei para o espelho e levei outro choque: estava vestida como as pessoas que tinha visto na rua. O susto foi tão grande que tive que sentar na cama pra recuperar as forças.
Logo aquela moça que eu acho que era minha mãe entrou no quarto com uma escova de cabelos e alguns grampos. Sempre achei aquelas roupas lindas, mas dessa vez eu estava usando uma, estava tão feliz e ao mesmo tempo tão preocupada. Será que nunca mais eu vou voltar pra casa?
Enquanto a mulher, digo, "minha mãe" me penteava, bati os olhos num calendário na parede e o peguei. Ali datava o ano de 1883. Estávamos em 1883, Dom Pedro ll ainda estava vivo. O filho mais velho da Princesa Isabel tinha 8 anos, a República ainda nem tinha sido proclamada e Getúlio Vargas ainda tinha 1 ano. Sim, amo tanto história a esse ponto.
Perguntei algumas coisas, mas não queria que ela percebesse que eu estava perguntando demais, e então ela me "lembrou" que esse tal Barão e "meu pai" se conheceram numa viagem de negócios de meu pai, e desde então viraram grandes amigos.
A moça então me vestiu com algumas anáguas, e depois me pôs um vestido muito bonito, de cor clara e sapatilhas bem estranhas por sinal. Nunca que meu jeans e meu tênis ganhariam daquele luxo todo. De repente, uma outra mulher entra no quarto pra avisar que a comida estava pronta. Outro choque. Ela era negra, uma escrava. Em 1883 a escravidão ainda existia, e eu iria poder vivencia-la! Não que isso seja bom, mas eu to na história do Brasil cara.
— Está bem Antônia, obrigada. Já pode ir! — respondeu
Antônia era uma mulher que aparentava seus 30 anos, e não parecia ser uma escrava sofrida como as que nós vemos nos livros de história, era bem cuidada e serena. Isso pode soar preconceituoso da minha parte, mas juro que não. Estou confusa na verdade. Não entendo mais nada.
Logo eu estava pronta, fiquei horas me olhando no espelho. Um batom matte e um delineado caíriam bem com os brincos que a moça me deu. Digo, minha mãe. Não consigo chama-la de mãe. Minha mãe é uma só, e tá lá no Grajaú.
Bateram na porta e Antônia foi atender, ouvia do quarto todos os "oh que saudade" "vejo que estão bem" "como Miguel cresceu" "onde está a menina?" e logo um homem veio me chamar. Era meu pai, eu acho, e disse:
— Venha logo, já chegaram. O filho Inácio também veio, essa é a oportunidade de enriquecermos e sairmos desta ilha — falou me sacudindo de leve os ombros — não a jogue fora!
Pronto, era só o que me faltava. Um casamento arranjado.
— Já vou, só preciso terminar de me aprontar — respondi.
Ele então me deixou sozinha, e em questão de segundos me veio na cabeça inúmeras idéias. Ali eu poderia viver tudo o que não pude viver no presente, ou futuro, não sei ao certo. Talvez pudesse assustá-los um pouco com meus conhecimentos sobre o que iria acontecer, ou apresentá-los as modas do século 21, seria imensamente divertido. Mal podia esperar.
Levantei-me da cadeira, respirei fundo e fui, pensando claro no que iria fazer ou falar. Só precisava antes encontrar a sala de estar, eram tantas portas. Droga, me perdi. Ah não, já achei.
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