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3 Brincando de Viver


Notas iniciais
Leia ouvindo as Gymnopédies: https://www.youtube.com/watch?v=K0k1WCPWZ8Q

Abri umas portas e encontrei Antônia que arrumava a mesa para o almoço.

— O que estás fazendo aí parada menina, vás logo receber teus convidados — disse me empurrando para uma outra porta, que dava para a sala.

Dei de cara com o que parecia uma pintura dos livros de história. Meus pais conversando com o tal Barão de Tinguá e sua esposa, e sentado numa poltrona estava Miguel, meu irmão, brincando com algo que eu não soube identificar o que era. Na outra, meu futuro mari... espera, aquele era o tal Inácio? Misericórdia.

Agora eu fiquei nervosa. Aproveitei que ninguém além de Inácio tinham notado minha presença e caminhei até a janela atrás de Miguel que tinha vista para uma pracinha. Perguntei alto em e bom tom:

— Mas vem cá, essa ilha aqui num afunda não galera? Não, por que as geleiras tão tudo derretendo. Ouvi dizer que é por causa do aquecimento global, poluição, essas coisas. Já teve a Primeira Revolução Industrial? Que é ai que começa as industrias né.

Nada ouvi, a não ser o barulho dos passarinhos lá fora. Me virei e estavam todos estáticos. Miguel segurava em uma mão seu brinquedo, e na outra um pedaço de pão à caminho da boca que acabara de roubar de cima da mesa.

— Céus, como está grande esta menina — disse a esposa do Barão

— Iara, te lembras de Inácio? — perguntou minha mãe me apresentando ao tal menino.

Inácio era baixo, da minha altura na verdade, tinha seus 17 anos. Não era bonito, não que fosse feio, mas não era o que eu esperava, principalmente pra me casar. Me cumprimentou beijando minha mão, naquela época as pessoas ainda eram educadas.

— Num to lembrada não — respondi — Gente olha só, eu to com fome. Se der pra vocês andarem rápido com isso ai eu ia agradecer — lembrei que só havia comido umas torradas de manhã, antes de sair de casa. E viajar no tempo.

— Iara, onde estão teus bons modos — sussurrou minha mãe sem graça, me beliscando.

Fomos então todos para a mesa. O Barão, a qual o nome era Silvino de acordo com meu pai, não parava de falar de pesca, negócios e império. Minha mãe e a mulher do Barão, Isaura (que não era escrava ou filha de escrava, pra quem já viu a novela) conversavam sobre a moda na Europa e como as roupas lá eram mais bonitas. Inácio não parava de me olhar, e Miguel não parava de comer.

A comida era diferente, mas estava boa. Notei que Antônia havia sumido, então perguntei por que ela não havia se sentado com a gente.

— Que pergunta é esta! —disse Silvino — ela é uma escrava!

Aquilo me ferveu o sangue, então comecei a falar sobre os direitos humanos, preconceito e a Lei Áurea e adivinhem, mandaram eu calar a boca. Pois bem, peguei meu prato, pus mais comida e disse:

— Tá bom então, vou almoçar com Antônia. Volto quando tiverem evoluído.

Achei Antônia almoçando na cozinha e me sentei com ela, logo eu tinha uma amiga por perto. Conversamos sobre inúmeras coisas: — estás bastante esperta menina, o que há de errado contigo? — riu e voltou a comer.

Antônia era uma mulher solteira, tinha uns rolos de vez em quando. Nunca se casou nem teve filhos, e só foi à cidade duas vezes. Me contou que sua mãe morreu quando ainda era criança, mas que graças a Deus caíra em boa família, família de minha mãe, e a acompanhou quando casou com meu pai.

E o dia foi assim, o Barão iria dormir lá em casa já que iria demorar pra chegar à cidade. Naquela época não tinha ainda a barca que eu havia pegado a poucas horas.

Fiquei mal por querer mudar um conceito cultural numa família do século 19, então fui até a sala e pedi desculpas pelo que eu tinha falado. Falaram algumas coisas que nem prestei atenção mas me desculparam, isso é o que importa.

Depois fui até a varanda da casa. Haviam duas cadeiras e uma mesinha de um lado, e do outro um banco tipo um sofá. Sentei no banco para tomar um ar e ver o entardecer, deviam ser umas 16:30 e a paisagem era incrível. Parecia uma pintura. O vento era fresco e o tempo agradável, o canto dos passarinhos dançando no ar e pousando nas árvores do outro lado da calçada me esquentavam o coração, era uma quietude e os unicos sons eram as vozes vindas de dentro da casa.

Meu irmão veio me fazer companhia, sentando do meu lado:

— Iara, vás mesmo desposar Inácio? — perguntou Miguel — Se casares com ele, terá que mudar-se para Tinguá.

Ah não, perai. Já não me basta vir morar em Paquetá assim de um minuto para o outro, tenho que me mudar de novo e dessa vez pra Tinguá? Mas não vou mesmo.

— Não, não vou. Não gosto nem de pensar na ideia de casamento arranjado, e ai deles se me obrigarem! — respondi

Inácio também veio até a varanda, pegou uma cadeira e pôs na frente de nós. Puxou assunto falando sobre como Tinguá estava crescendo e como a viagem demorou, e logo estávamos todos entretidos.

Ficamos nós três até anoitecer conversando na varanda, e ficaríamos por muito mais tempo se não fossemos a janta dos mosquitos, me sentia um pedaço de carne no meio de uma selva cheia de animais famintos. Chamaram-nos para dentro às 19:00 para lanchar, já que o almoço havia sido farto, e ainda estávamos cheios.

Antônia havia feito um pudim. Hmmmm, há quanto tempo eu não comia um pudim. Minha mãe nunca fazia, dizia sempre que doces engordam e causam Diabetes. As únicas sobremesas que rolavam lá em casa era o brigadeiro que eu mesma fazia quando estava com vontade.

Notas finais
O que está achando da história?