the sweet taste of your lips | MATZ

2 the sweet tone of your voice


Certa vez, uma coisa muito impressionante aconteceu em mais um dos dias em que eu fui ao café. Era bem baixinho, sutil, mas ainda conseguia ouvir, e era lindo. Cheguei a achar que fosse apenas a minha imaginação de novo, porém, quando cheguei perto do balcão hoje para fazer meu pedido, fiz questão de retirar os fones de ouvido, podendo agora escutar claramente uma voz suave e doce cantando minha música favorita.


Youth, do Troye Sivan, mas cantada pela voz de Kim Hongjoong, enquanto preparava tranquilamente os pedidos dos clientes que já estavam ali. Será que eles eram capazes de ouvir o quão bem ele cantava?


Quando virou-se e viu que eu estava parado no lugar, sem dizer uma palavra, ergueu as sobrancelhas e sorriu.


— Seonghwa, você chegou! Bem que achei que estava demorando.


Também tinha aquilo, o fato dele já ter decorado meus horários, ao ponto de fazer comentários como: "nossa, você demorou" ou "chegou mais cedo hoje?". Sinceramente, eu achava fofo.


— Não sabia que você cantava.


— Ah… você ouviu? Não é nada demais, eu só estava distraído.


Como assim "nada demais"?


— Youth é minha música favorita.


— Oh, sério? Sempre estive curioso em saber que tipo de coisa você ouvia nos fones de ouvido. — Admitiu. — Troye Sivan combina com você.


— Você acha?


— Uhum, com certeza! Se gostou mesmo, então posso cantar mais músicas dele. Bem romântico, hum? — Ele apoiou os cotovelos no balcão, se aproximando para cutucar minha bochecha. — Do jeito que alguém como você gosta, estou certo?


Fui rápido em me afastar quando percebi a proximidade, limpando a garganta e desviando o olhar. Tentei disfarçar, procurando o dinheiro em minha mochila, buscando ignorar sua risada. A principal diversão de Hongjoong era, certamente, me deixar envergonhado, ao ponto de eu chegar a pensar se ele, na verdade, já não havia descoberto meus sentimentos confusos até mesmo antes de mim e estava usando daquilo para brincar comigo.


— P-Por favor, apenas… o meu café. — Coloquei as notas sobre o balcão, brincando com meus dedos insistentemente.


— O mesmo de sempre?


— Hoje é um Cappuccino.


— Certo, pode ir se sentar, docinho. Vou caprichar e a noona já leva para você.


Docinho?


Me virei de costas para ele no automático, como um robô, seguindo até minha mesa de costume com os olhos arregalados em choque devido ao apelido inusitado.


Hongjoong me achava um… docinho?


Não, provavelmente não. Ele devia chamar todos assim, é isso, eu não deveria me sentir tão afetado com um apelido qualquer e sem importância, não é?


Quando sentei, ergui o olhar para observá-lo, mas descobri que Kim já me encarava e essa constatação o fez sorrir ainda mais, lançando-me uma piscadela. Desviando novamente, concentrei-me em abrir a mochila e tirar de lá meus livros da faculdade, colocando-os sobre a superfície. Não havia muita coisa para fazer hoje, mas minha aula seria daqui a duas horas e sempre gostei de entregar as coisas antes do prazo para poder ficar livre.


O café chegou alguns minutos depois, delicioso como sempre e cumprindo a promessa dele de caprichar.


Moda era minha profissão dos sonhos, não consigo pensar em um momento da minha vida que eu não estivesse desenhando diferentes tipos de roupas em todos os cadernos de cartografia que ganhava da minha mãe. Era fascinante para mim ir juntando os traços até que algo lindo estivesse sendo formado no papel. Se fosse para escolher uma parte desse processo para ser minha favorita, eu diria que com certeza é quando o desenho já está pronto e então preciso procurar pedaços de tecido para demonstrar cada camada e textura, talvez porque isso fazia parecer real, como se eu estivesse realmente tocando uma criação que produzi do zero.


Minha família sempre me deu todos os motivos para não seguir meus sonhos, mas por sorte tinha minha mãe, que nunca falhou em me apoiar — seja com materiais que eu precisei ou até mesmo simples palavras de conforto e incentivo. Por isso, no momento em que Hongjoong — uma pessoa fora do meu convívio — chegou e se mostrou verdadeira e genuinamente interessada no que faço, meu coração disparou. Não que isso fosse o ponto principal de eu gostar dele, porque, qual é… Kim é apaixonante por completo, levaria apenas mais algum tempo.


Não demorou muito para que eu estivesse completamente integrado nos estudos, com o adicional da música tocando em meus ouvidos.Só percebi que Hongjoong estava se aproximando quando um dos fones foi retirado de mim. Olhei para o lado assustado, mas vi apenas seu sorriso travesso mais uma vez.


— O que está ouvindo? — Sentou-se ao meu lado, colocando o aparelho. — Mentira! Eu amo essa música! Como adivinhou que era minha favorita dele?


— E-Eu não…


Estava tocando Bloom, novamente de Troye Sivan.


Já era surpreendente o suficiente ele decidir que tínhamos intimidade para dividir fones de ouvido, mas o que me pegou desprevenido de fato não foi isso, e sim como poucos segundos depois, sua voz bonita que eu tanto admirava soou no meio da música. Aquela mesma voz que ouvi tão baixinho quando cheguei, agora estava bem ao meu lado.


Me vi hipnotizado. Tudo de repente deixando de ter importância, para que eu pudesse me concentrar apenas naquilo. Era um pouco agudo, embora suave, como um smoothie de iogurte. Poderia dizer facilmente que era a coisa mais linda que já tinha ouvido: a pessoa que eu gosto, cantando as músicas do meu cantor favorito, quase como um sonho.


Hongjoong cantava de olhos fechados, como se pudesse sentir a música irradiando em toda a sua pele. Me aproximei involuntariamente, querendo ouvir mais claramente. Estava tão absorto que não percebi o som chegando ao seu fim, nossos rostos estavam muito perto quando ele se virou para me encarar, meu próprio olhar desceu para seus lábios bonitos e desenhados, o coração batendo como um louco dentro do peito. Só me dei conta do que estava prestes a acontecer no momento que senti o hálito aquecido bater em meu rosto, junto da pequena mão de Kim deslizando suavemente em meu joelho, deixando ali um aperto sutil.


Me afastei rápido, nos tirando do breve transe, entretanto, ele foi rápido em segurar minha mão, mesmo com meus protestos, até que me cansei e desisti, porém ainda sem fazer contato visual. Bufei descrente quando ouvi aquela sua mesma risada travessa de sempre.


— Ei, vamos, olhe para mim… — Foi cuidadoso quando segurou meu queixo com a destra e virou para si. — Vamos falar sério agora, pode ser?


— Não tenho nada para falar com você, Hongjoong.


Na verdade eu tinha, e muito. Poderia falar sobre tudo o dia todo.


— Você pode, por favor, não ser tão arisco assim comigo? Hum? Pelo menos uma vez. — Seu tom de voz era manso, apesar de sério. Nunca o ouvi falar daquele jeito.


— Me desculpe… — Suspirei, relaxando e engolindo em seco quando finalmente tive coragem para olhar dentro do olhos profundos.


— Posso ser sincero com você? — Confirmei com a cabeça. — Quero muito me aproximar de você, Seonghwa. Sabe? Eu estou, porra… maluco por você já faz um bom tempo.


— V-Você está? — Senti meu rosto esquentar. — Eu pensei que estivesse apenas brincando com a minha cara.


— Por que eu faria isso?


— Porque você é bonito, legal, extrovertido… todos brincam assim comigo pois sabem que eu sou tímido.


Eles se divertiam me provocando o tempo inteiro, me zoavam e eu reagia da mesma forma idiota todas as vezes, o que só fazia com que aproveitassem ainda mais vezes.


— Não sou assim. Gosto mesmo de você. — O sorriso carinhoso quase me fez derreter. — Pode, por favor, deixar eu me aproximar? Entrar no seu mundo?


Aquilo estava realmente acontecendo? Alguém como Kim Hongjoong se declarou mesmo para alguém como eu?


— Me diga que deixa. Caso não, prometo que irei parar de enchê-lo. — Levantou o indicador e o dedo médio, cruzando-os em promessa.


Respirei fundo, pensando que, além do pensamento de não ter mais ele ao meu lado o tempo inteiro fosse bem desanimador, aquela era a minha oportunidade de tentar pela primeira vez e me permitir viver sem medo, pois eu tinha total ciência de que merecia.


Com isso, acariciei sua mão, olhando para as duas juntas e reparando a maneira como a dele se escondia dentro da minha por ser pequena.


Fofo.


— Tudo bem, você pode.


— Sério? — O olhar de Kim se iluminou de imediato, o sorriso foi ainda maior. — Posso te dar um abraço? — Esticou ambos os braços animadamente.


— Não! Nós acabamos de quase… ugh, você sabe! — Cruzei os braços, retomando o olhar para os livros, provavelmente havia um bico involuntário nos meus lábios. — Ainda preciso de um tempo para processar tudo.


— Argh! Você não pode ser tão fofo assim!


Lá estava eu corando de novo…


— Pare de falar essas coisas!


— Tudo bem, tudo bem! — Levantou ambas as palmas em uma falsa rendição. — O que está fazendo hoje?


— Apenas lendo.


— Ah, sim. O que o professor falou do último trabalho? Você estava bastante empenhado nele, eu me lembro.


— Tirei a maior nota da turma, então acredito que tenha me saído bem. — O menor riu soprado.


— Não esperava menos do meu docinho.


Oh meu Deus… Ele estava fazendo de propósito, tenho certeza que sim. Hongjoong definitivamente descobriu o quanto eu, secretamente, me derretia todo com aquele maldito apelido.


— N-Não sou docinho coisa nenhuma, muito menos seu! — Bufei, tornando a por meus fones de ouvido para ignorá-lo, embora estes não tenham sido capazes de impedir que eu ouvisse sua risada alta.


Enquanto lia, senti sua bochecha encostar em meu ombro direito, olhando atentamente para as páginas junto comigo, parecendo igualmente concentrado. O observei pelo canto do olho e sorri pequeno, meu estômago se revirando de felicidade.


Kim Hongjoong… O que você está fazendo comigo?