the only noise
6 Nada que eu não possa lidar
Notas iniciais
Kiba chegou em Sunagakure e sentiu-se devidamente impressionado. Primeiro porque fez a viagem toda através do deserto sem nunca ver o tal protetor que o seguia. O homem era um mestre na arte da camuflagem! Foi uma viagem longa, embora longe de monótona. Pode reunir-se com algumas caravanas que seguiam em direções adversas e fazer amizades, ganhar produtos exóticos! Um Omega costumava ter certa vantagem nas interações ao permitir que sua presença ajudasse aos desconhecidos, sendo mimado em gratidão.
Segundo, o momento de maior estupefação foi entrever os paredões de Sunagakure se erguendo no horizonte. Uma construção natural impenetrável que garantia a defesa absoluta.
Kiba nunca tinha ido tão longe de Konoha antes. Impossível conter as reações empolgadas.
Aquele seria seu lar pelos próximos cinco anos!
Queria que fosse memorável. E que pudesse voltar pra casa depois de cumprir bem a sua missão e contribuir para a boa ligação entre os dois países.
Logo nos grandes portões de acesso que dividiam o paredão de pedra um trio de Betas o aguardava.
Um deles cuidou de Tokage, levando o grande camaleão para descansar da jornada. Kiba despediu-se dele e agradeceu pela carona.
Os outros dois homens traziam cavalos e foi o transporte usado pra seguir até o Conselho.
Atravessaram o que parecia ser uma das ruas principais, dominada por uma espécie de feira ao ar livre. Balbúrdia pura. Vendedores de produtos exóticos, comidas cujo cheiro instigava a curiosidade, roupas próprias para viver no deserto.
Trouxe apenas uma mochila com poucos trajes. Precisaria de algumas peças novas e adequadas. Ele receberia um salário todos os meses, para ajudar com as despesas. Ao final dos cinco anos, viria o pagamento real pela conclusão da missão! Contava com esse prêmio para o início da vida com Shino. Seu namorado ainda não sabia, mas o valor era alto o bastante para comprarem uma pequena casinha. Só ficou sabendo disso depois, apesar de, claro, imaginar que uma missão de tal proporção teria compensação equivalente.
Aos poucos notou o Conselho se entrecortando contra as casinhas encravadas nas paredes de pedra.
Pelo visto iria direto para uma reunião com o Kazekage. Todo muito formal, imaginou. Estava exausto, desejoso de um banho e com fome. Mas curioso sobre os detalhes do que queriam dele.
Podia ver que a cidade não estava assim tão ruim. O nível de reconstrução parecia a todo pique, similar a Konoha. Também conseguiu sentir a presença mais pontual de vários Omegas. Por que precisariam de alguém do estrangeiro?
Então, o derradeiro baque do encontro com o Kazekage.
A presença forte sempre impactava. Gaara não pertencia a nenhuma das três castas. Era um tipo de shifter raro que nascia de tempos em tempos, cuja essência forte e ilegível era um verdadeiro enigma.
Difícil de desvendar, mas honesto. Colocou todas as cartas na mesa, sem esconder a feiura da situação.
Kiba se viu preso numa teia da qual não poderia escapar assim tão fácil. Recusar a missão e voltar para Konoha significava que outro Omega viria atender ao chamado de Suna. Enquanto ponderava a resposta que daria, sua mente tentava se lembrar dos outros Omegas que ficaram em Konoha. Ele era o único em idade mais aproximada a de Kankuro. Os outros eram mais velhos. Ou mais jovens. Crianças.
Mesmo que Konoha desistisse de mandar alguém, Gaara requisitaria em outro país?
Sabia que não era responsável pela vida de pessoas que sequer conhecia. Mas ele aceitou a missão com base em poucos detalhes. Ele estava ali ouvindo algo que nenhum Omega gostaria de ouvir.
Isso fez toda a diferença na hora de decidir. Uma vez que aceitou a missão, não fugiria. Não daria as costas a uma situação que parecia feia apenas pela própria segurança.
Ele sabia que era um Omega dos mais fortes. Teve certeza que poderia lidar com o que quer que aparecesse para enfrentar.
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Depois de encerrada a breve reunião, Gaara fez questão de acompanhar Kiba até o novo lar do garoto. Foram a cavalo, em um trote moderado para que ele pudesse começar a se familiarizar com o cenário tão diferente de Konoha.
Uma casa, mansão na verdade, afastada do centro da vila, o que garantia privacidade e isolamento.
O Kazekage mostrou os principais cômodos da casa, explicou como devia solicitar o que precisasse dos empregados. Finalizou apresentando o piso superior, onde estavam os aposentos. Kiba foi levado à porta do quarto de Gaara, no final do corredor. Passaram por algumas portas vazias, até que ele indicou o quarto de Kankuro, seguido pelo de Temari e, por fim, seu próprio quarto.
— Vou pedir para que sirvam uma refeição para você. Deve estar cansado e com fome. Aproveite para descansar.
— E a minha missão…? — perguntou observando a chave que Gaara havia lhe entregado.
— Amanhã vocês podem ir atrás de tudo o que precisa para o dia a dia. Depois vou passar uma lista de lugares em que a visita de um Omega será mais do que bem vinda. Kankuro irá com você, como um acompanhante. Atualmente Suna é uma vila segura, mas prezamos pelo seu bem estar.
Kiba ergueu os olhos e encarou Gaara. Alguma coisa naquela última frase despertou sua atenção. Não houve a menor mudança no tom de voz ou na expressão facial do Kazekage, mas aquela essência intrigante se projetou um pouco, quase de modo inconsciente. Não. Kiba concluiu que a manifestação foi totalmente inconsciente, só a sentiu por ser um Omega. Havia uma dose de preocupação inegável. Sentiu-se envolvido em algo que beirava a culpa e serviu mais para preocupá-lo do que outra coisa.
— Tudo bem — se obrigou a responder. Não ia encher a mente de fantasmas e medos antes do tempo.
Kankuro salvou a sua vida, pelos céus. Lembrava-se do rapaz bem humorado, de agradável senso de humor. Tinha uma dívida com ele.
Mais do que uma missão, aquela não seria a chance de retribuir? De fazer algo pelo Alpha que o ajudou?
Não podia ser tudo assim tão ruim, podia?
Gaara apenas acenou com a cabeça. Esperou Kiba entrar no quarto e fechar a porta. Apurou a audição em busca do sonzinho da chave girando, mas isso não aconteceu.
Suspirou de leve.
Deveria ter sido mais claro?
Kankuro ainda não tinha voltado do missão que lhe deu. Era algo apenas para distrair e ocupar o tempo. Temari estava com ele, para o caso da parte animal sentir a chegada do Omega estrangeiro.
Os mandou para o outro lado da vila, por via das dúvidas. Mas se tinha uma coisa que aprendeu era não subestimar o poder de um Alpha. Principalmente um que sofreu torturas medonhas, e que a ampliação dos sentidos foi uma das garantias que o ajudou a escapar do cativeiro.
Mantinha Kankuro sob controle boa parte do tempo, tratando-o quase sempre com frieza e de um jeito distante pois mostrar empatia e gentileza remetia a pena, o pior gatilho para seu irmão do meio.
Tantas coisas tinha que dizer para Inuzuka Kiba. E não conseguiu falar nem uma pequena parte do que deveria.
Culpa. Sim. A culpa era esmagadora. Porque devia alertar o garoto, só não o fez do jeito certo graças aquela pequena parcela de esperança. Talvez o destino tivesse enviado um Omega conhecido e não fosse uma simples coincidência.
Talvez Kankuro estivesse recebendo a abençoada segunda chance.
Suspirou fechando os olhos de leve. Corrigiu se, com o peito apertado de tristeza: abençoada terceira chance.
—--
O quarto era amplo. E simples.
Agradou Kiba.
Havia uma grande cama que parecia confortável. Um guarda-roupas de bom tamanho, assim como uma cômoda e uma escrivaninha. Na parede em frente a porta, uma janela aberta arejava o ambiente.
Deixou a mochila sobre a cama e foi espiar a segunda porta. Deparou-se com um banheiro!
A vida toda dividiu o banheiro com Hana-nee e com a mãe. Agora teria um para seu uso exclusivo! Wow!!
Voltou para o quarto e pegou a mochila. Tirou as roupas socadas lá dentro e as colocou no guarda-roupa. Devia ter trazido mais! Não fez nem volume…
Ou não. O ideal era comprar por ali, visitar a feira e se abastecer com trajes de Suna. Era um morador oficial da Vila da Areia agora.
Terminou a breve tarefa e resolveu tomar um banho.
Encontrou toalhas limpas na cômoda. Escolheu uma troca de roupas e foi para o banheiro.
Preferiu tomar um banho rápido no chuveiro. Deixaria a convidativa banheira para outra ocasião. Porém o que planejava ser algo rápido acabou se estendendo mais do que esperava.
Estava cansado. Exausto na verdade.
Durante a travessia do deserto não pode tomar um banho decente. A água morna bateu no corpo grudado de suor e areia e relaxou instantaneamente. O agradável sabonete de ervas foi bem apreciado também. Ensabou o corpo por duas vezes, caprichou na base do pescoço, tentando aliviar uma certa tensão.
Algum tempo depois, quando as mãos começaram a enrugar e sem ter levado nem uma bronca da mãe por demorar demais, fechou o chuveiro sentindo-se renovado!
Secou-se e vestiu-se ali mesmo, louco pra comer alguma coisa e poder descansar um pouco. Deixaria a realidade para quando sua mente estivesse plenamente recuperada da viagem.
Assim que saiu do banheiro a primeira coisa que sentiu foi o cheirinho agradável de comida. O aroma bateu no estômago vazio e fez os lábios salivarem em antecipação. Nem a conversa com Gaara havia espantado o apetite!
— Okaeri — a voz divertida e inesperada fez Kiba abrir os olhos que nem tinha se dado conta fechar.
Demorou meio segundo para descobrir Kankuro sentado sobre a cama, ao lado a bandeja com uma vistosa refeição.
A presença Alpha totalmente recolhida.
E o rapaz sorria.
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