the only noise
7 Esse Ômega tem outro Alpha
Notas iniciais
— Okaeri — a voz divertida e inesperada fez Kiba abrir os olhos que nem tinha se dado conta fechar.
Demorou meio segundo para descobrir Kankuro sentado sobre a cama, ao lado a bandeja com uma vistosa refeição.
A presença Alpha totalmente recolhida.
E o rapaz sorria.
—--
— Kankuro! — Kiba não escondeu a surpresa. Jamais conseguiria, era espontâneo demais para isso.
— Em carne e osso — ele levantou-se e foi colocar a bandeja com a refeição sobre a cômoda — Vim trazer algo pra você comer.
O Ômega alternou olhares entre o homem enquanto ele voltava a sentar-se na cama que seria sua dali para frente, e a refeição. Realmente parecia ótima, mas o que ia na mente de Kiba era a facilidade com que o outro entrou em seu quarto sem se anunciar ou pedir licença. E na liberdade com que ele se movia pelo aposento.
— Não ouvi você batendo — falou como quem não quer nada, sem sair do lugar em que estava, próximo a porta de acesso ao banheiro. Toda a postura do Alpha era de cortesia e simpatia, mas aquele sorriso enorme parecia... Kiba não sabia explicar, apenas não se sentiu a vontade para relaxar.
— Eu não bati — Kankuro deu de ombros.
Isso irritou Kiba, fazendo até mesmo a intuição precavida desaparecer.
— Pois é bom bater daqui pra frente, sabe? Eu gosto da minha privacidade. E se eu saio só de toalha do banheiro?
Kankuro deu uma risadinha:
— Era minha esperança, caralho!
— Eu não lembrava de você ser tão engraçadinho! — Kiba resmungou. Algo pareceu desaparecer do quarto, um certo ar de opressão esquisito que o rapaz nunca sentiu antes na vida, e ele teve coragem o bastante para ir até a cômoda e observar a refeição, todos aqueles pratos diferentes que pareciam apetitosos.
— Eu lembrava de você exatamente assim: bem ressabiado e língua afiada! Seja bem-vindo a Sunagakure, Inuzuka! — ele hesitou um pouco — Posso te chamar de Kiba?
— Pode — o Ômega assentiu — Gaara me explicou que você será meu guarda-costas enquanto eu ando por Suna, ajudando com minha energia.
— É. Eu vou cuidar de você.
O tom de voz usado por Kankuro fez Kiba se arrepiar. Ele fingiu estar concentrado na comida, evitando retribuir o olhar intenso que sentia queimando suas costas.
Sequer deu-se conta de que o Alpha se levantou da cama a segunda vez e aproximou-se sorrateiro, ousando estender a mão e tocar as costas de Kiba, subindo-a suave até fechá-la ao redor do pescoço do garoto.
Kiba ficou tenso, surpreso pelo contato físico inesperado que durou menos de dois segundos, mas relaxou quando notou que Kankuro afrouxava o breve aperto para ladeá-lo e abraçá-lo.
— Obrigado por vir me ajudar — sussurrou com sinceridade inquestionável.
— Disponha — Kiba acertou tapinhas camaradas nas costas alheias — Konoha deseja honrar os bons termos entre nossas vilas.
Falou o óbvio esperando que Kankuro lhe devolvesse um “Suna também”, mas o Alpha manteve silêncio, afastando-se meio segundo depois. Ele caminhou até a porta do quarto e a abriu:
— Você está cansado e com fome, nem precisa me dizer. A viagem é longa e exige demais. O que me diz de sairmos amanhã às nove horas? Primeiro podemos comprar o que for necessário para sua estadia. Depois começamos a via sacra por Suna.
Kiba avaliou a figura do homem por alguns instantes, intrigado com a atitude.
— Parece bom.
— Então até amanhã!
Kankuro despediu-se e saiu do quarto fechando a porta com suavidade.
O Ômega aguardou, pensando que o outro talvez voltasse para dizer alguma coisa mais e se enganou. Pouco a pouco sentiu, finalmente, um traço da presença Alpha recolhida até então, se afastando rumo ao quarto do próprio Kankuro, conforme Gaara havia lhe explicado. Separado do seu pelo aposento de Temari...
Respirando muito fundo, Kiba precisou sentar-se na cama. Kankuro estava estranho, sem dúvidas. Ele notou algumas cicatrizes no pescoço dele, ainda que a gola da túnica fosse um pouco alta.
Lembrou-se do que Gaara lhe contou, que o irmão foi prisioneiro na guerra. Apesar de não dar detalhes, Kiba não era burro. Quando a guerra explodiu, era jovem, mal chegado aos dezoito anos, inexperiente em conflitos de tal magnitude, embora não totalmente a parte de tudo o que acontecia.
Pessoas falavam, sussurravam a meia voz. Mortes como de Asuma-sensei não eram as únicas que aconteciam. Um dos lados envolvidos na guerra era despido de humanidade: torturava os prisioneiros sem mostrar comiseração. Ele sabia de um ou dois ninjas de Konoha que foram resgatados com vida do cativeiro e... bem, o que restou desses pobres homens sequer poderia ser considerado humano.
Comparado a esses torturados, Kankuro parecia fisicamente muito melhor!
Já mentalmente, se fosse se guiar pelas palavras de Gaara, cheias de entrelinhas, Kiba podia imaginar que talvez ele estivesse ainda pior. O Kazekage não deu detalhes, se para preservar Kiba ou o irmão, nunca saberiam. Intenção que não era confortável para o Ômega, que tinha que completar as lacunas com suas observações e teorias.
Sabia que Kankuro matou um Ômega. O porquê, o como... desconhecia. E essa morte acontecera antes da guerra.
Então em algum momento o Alpha foi feito prisioneiro, torturado e resgatado por Gaara. Vivo, conquanto irremediavelmente abalado e marcado.
Uma onda de piedade dominou Kiba. Apesar de tudo, ainda era Kankuro, o Alpha que apareceu na hora H, salvou seu pescoço e protegeu Akamaru dos ataques dos gêmeos Ukon e Sakon.
Nesse ponto, Kiba levantou-se da cama e foi até a janela. Debruçou-se nela observando toda a Vila da Areia que se descortinava a sua frente. Era uma paisagem tão diferente da de Konoha. A casa dos três irmãos ficava longe da cidade, no alto de uma pequena colina, separada do povoado por um trecho de deserto árido. Separada do povoado ou... isolada dele?
Pensamento que o fez perceber como estava longe de casa, longe de todos os que amava. Sozinho por si próprio pela primeira vez na vida. Ou melhor, não sozinho por completo. Gaara jogou uma bela batata quente na sua mão, reforçando que estaria por perto para dar apoio.
Queria que ele tivesse dado é mais detalhes! Tinham apenas medo que Kankuro sentisse algum surto por causa dos traumas da guerra e o atacasse? Para ele ser proibido de se aproximar de Ômegas em Sunagakure, quão grave foi essa morte? Seria ele algum tipo de serial killer cujas vítimas eram da casta de Kiba?
Okay, essa última opção era demais até mesmo para ele que tinha uma veia um tanto dramática (palavras dos amigos). Se Kankuro fosse um homem com tendências tão perigosas nem o fato de ser irmão do Kazekage lhe daria imunidade. Estaria preso, sem dúvidas.
Decidiu sapiar as coisas aqui e ali, tentando entender melhor a história e assim montar sua própria defesa, para o caso de ser necessário. Não sabia como faria isso contra um Alpha, claro.
Com um último olhar à paisagem tentou livrar-se dos pensamentos negativos. Kankuro o deixou em alerta e meio desconfortável, mas só porque Gaara o alertou para o contexto em que atuaria. Se fosse bem sincero e avaliasse os fatos com racionalidade, nada no encontro inusitado podia ser considerada como uma ameaça.
Exceto, claro, esse encontro ter acontecido.
Porque Kankuro entrou em seu quanto enquanto tomava banho e estava totalmente vulnerável e indefeso, e agiu com total domínio no seu espaço privativo. Isso, por si só, era um alerta que jamais deveria ser ignorado.
Kiba sentiu o peso de estar ali, tão longe de casa, executando algo que não era bem o que esperava. Compreendeu aquele sentimento como solidão, pura e simplesmente.
Confiava em Gaara, claro, ele se mostrou um ninja digno durante a guerra. E esse mesmo homem foi em frente em uma convocação e atraiu um Ômega inocente para agir como babá do irmão desiquilibrado, algo bem pouco ético, há de se convir.
E o peso da solidão se somou ao cansaço da viagem, assim como a tensão do recente encontro. Kiba notou que a fome desapareceu. Ele afastou-se da janela e foi até a porta. Não havia tranca ou chave, nada que impedisse a abertura. Por isso pegou a cadeira e a usou como escora contra a maçaneta, se não bloqueando ao menos dificultando a entrada de qualquer pessoa.
Deitou-se na cama confortável, ao acordar quem sabe o apetite tivesse voltado? Teve pensamentos nostálgicos sobre Konoha, a Vila em que nasceu e cresceu, lugar em que deixou amigos e... seu namorado.
— Shino... — murmurou antes que a exaustão o fizesse mergulhar num sono pesado e sem sonhos, no qual apenas a escuridão existia. Um último pensamento cruzou a barreira da sonolência: cinco anos seria tempo demais. E seu lado animal soube com toda certeza do mundo que sua missão não duraria tanto tempo.
A intuição, certeza assustadora e inabalável, perdeu-se em meio a inconsciência cansada. Sua estadia em Suna, para o bem ou para o mal, seria extremamente curta.
—--
Kankuro saiu do quarto de Kiba sentindo-se alegre e nostálgico. Gostava daquele garoto, saber que ele foi escolhido e aceitou a missão o fez exultar.
Afastou-se pelo corredor caminhando sem pressa, cantarolando uma cançoneta de sua infância cuja letra não se lembrava. Passou pelo quarto de Temari, vazio àquela hora, assim como seguiu em frente ao invés de entrar no próprio aposento.
Só parou ao chegar em uma das janelas que arejavam o longo corredor cheio de cômodos vazios. Debruçou-se no beiral, numa pose quase gêmea da que Kiba mantinha, sozinho no quarto enquanto refletia. Então ergueu o punho esquerdo, o mesmo com o qual acariciara as costas de Kiba e que manteve firmemente fechado desde então.
Apertou com força, quase com raiva, antes de abri-la. Observou os pequenos insetos espiões esmagados contra a palma. Sorriu bem de levinho.
— Desculpa, Aburame Shino. Esse Ômega tem outro Alpha agora — e soprou os kikaichuu mortos para a imensidão da paisagem que se descortinava pela janela.
Limpou a mão na túnica que vestia e foi atrás de algo para beber. Poucas vezes se sentiu tão satisfeito quanto naquele instante.
Esse Ômega tem outro Alpha agora.
Outro ‘dono’ agora, era o que dizia a voz distorcida em sua mente. A voz que era forte o bastante para sobrepor-se aquele único som... e que sempre lhe ordenava fazer o pior.
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