the only noise
8 A nova rotina começa
Notas iniciais
Kiba acordou cedo no dia seguinte. Estava realmente cansado da viagem, pois o sono pesado não lhe ofereceu sequer um sonho, nada além da inconsciência. Apesar de tudo foi uma noite restauradora.
Ainda levou algum tempo deitado, observando a luz do sol que se fortalecia e insidia através da janela que deixara aberta. Sabia que as noites no deserto eram frias, por isso cobriu-se com uma das mantas que encontrou no guarda-roupas e a baixa temperatura não incomodou em nada!
Reuniu coragem o bastante para ir ao banheiro e tomar um banho rápido, dando início ao que seria sua nova rotina em Sunagakure. Voltou para o quarto devidamente vestido para missões e não teve nenhuma surpresa, satisfeito em ver a cadeira travando a maçaneta da porta. Então pegou a bandeja com a refeição trazida no dia anterior e sentou-se na cama para comer. Nunca foi de desperdiçar comida, durante a guerra precisou fazer vigias e montar guarda em lugares difíceis, nem sempre conseguia fazer as refeições, aprendendo assim a valorizar ainda mais a comida recebida.
Devorou tudo frio mesmo, apreciando o gosto de cada um dos pratos exóticos. A culinária de Suna se baseava em arroz, frango e frutas do deserto, tudo temperado com várias especiarias. Era saboroso. Então engoliu o supressor, uma pílula pequena que anulava os efeitos do cio. Antes, não controlava com tanta assiduidade, sempre esquecia uma ou duas vezes no mês. Agora ele tinha consciência de que esse erro não poderia ser cometido.
Por fim pegou a cadeira e sentou-se à escrivaninha, tirando um pergaminho e um pena-tinteiro da mala (a qual fingiu não precisar desfazer e arrumar tudo) e começou a escrever uma carta. Tinha prometido que faria isso constantemente e ia cumprir! Escreveria para a mãe e para Shino, mantendo-os a par do que acontecia.
Não tinha muito o que contar do fim da viagem, da boa recepção de Gaara e algumas impressões sobre Sunagure. Guardou para si detalhes sobre a revelação do Kazekage a respeito de sua verdadeira missão ali, assim como não escreveu nada sobre o suposto estado mental debilitado de Kankuro. Por enquanto não viu necessidade de expor algo tão pessoal, que poderia ser considerado sigilo da missão.
Enrolou os dois pergaminhos e amarrou cada um deles com um pedaço de fitilho, como estava acostumado a fazer. Guardou no bolso e respirou fundo. Devia ser quase nove horas da manhã quando resolveu sair do quarto e enfrentar o novo dia.
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Seguindo as instruções de Gaara e lembrando bem do tour de apresentação da residência, Kiba conseguiu chegar até a cozinha, indo levar a bandeja com os utensílios sujos.
— Bom dia — cumprimentou uma Beta que guardava algumas louças — Sou Inuzuka Kiba, vim trazer isso...
— Bom dia — a mulher respondeu — Sou Sayako, serva da casa. Pode deixar sobre a mesa. Obrigada, Inuzuka-san. O Kazekage-sama está prestes a começar a refeição na sala de jantar.
— Sei onde fica! — Kiba sorriu. Tinha sido informado que aquela serva trabalhava apenas durante o dia, assim como outros. À noite eram dispensados.
Não teve dificuldade em encontrar o lugar onde eram feitas as refeições, descobrindo os três irmãos reunidos.
— Bom dia — cumprimentou. Não era de cerimonias.
Os três se voltaram para ele.
— Bom dia — Kankuro sorriu.
— Bom dia — Gaara devolveu com menos euforia.
— Olá — a jovem Beta loira sorriu. Era Temari, irmã mais velha e com que Kiba tivera pouquíssima interação até então — Junte-se a nós. Seja bem-vindo a Suna. Você fez boa viagem?
Kiba aceitou o convite. Estava ainda satisfeito pela refeição no quarto, mas o cheirinho de comida quente o fez compreender que ainda cabia mais um tiquinho.
— Sim! A viagem foi ótima — ele respondeu enquanto se servia. Logo emendando em uma narrativa empolgada. O clima estava agradável, ele podia sentir acolhimento, ainda que leve tom de preocupação pairasse pelo ar. Talvez aquele velho dito fosse certo, a luz do sol tinha mesmo o poder de esvaecer os medos mais secretos (ou nem tão secretos assim).
Quando terminavam de comer, Gaara tomou a palavra.
— Gostaria de discutir sua agenda — disse para Kiba — Suna não difere de Konoha na restrição de atividades que um Ômega pode desempenhar. Não espero que nos ajude a refazer prédios ou restaurar áreas danificadas. Nossa vila teve pouco prejuízo físico, felizmente.
— Mas perdemos outro tipo de patrimônio — Temari falou com tristeza — E o deserto é cruel com sua casta. Nosso número de nascidos Ômega é a menor taxa do continente.
Por isso pedir ajuda a outros países sempre esteve em pauta. Gaara sabia que mais cedo ou mais tarde precisaria lançar mão desse acordo de colaboração, ainda que não pretendesse algo tão cedo. Muito menos para alimentar as próprias esperanças de que a influência de um Ômega pudesse salvar seu querido irmão.
— Vamos passear muito por Suna — Kankuro recostou-se na cadeira, o olhar distraído de quem tem a mente longe dali — Hospital, Asilo, Favela... vou te levar a lugares cheios de dor e desesperança.
A última frase causou arrepios nos três que ouviam. Intencional ou não, soou da pior forma possível.
— Somente no período da tarde — Gaara demorou dois segundos a mais do que deveria para responder, recuperando o sangue frio que lhe era característico — E apenas de segunda a sexta. O resto do tempo pode usar como bem lhe convier.
— E saiba que estou aqui para te ajudar no que for preciso — Temari afirmou. Quase completou com “meu quarto fica ao lado do seu, pode me procurar a qualquer momento”. Mas essa oferta nunca foi dita.
— Então vamos — Kankuro ficou de pé — Vou te mostrar a feira mais famosa do País da Areia, a tarde de hoje vamos para... o Asilo...? — a pergunta foi dirigida a Gaara, que concordou com um aceno.
— Vou providenciar um pergaminho com o horário completo — ele garantiu.
— Ah! Por falar em pergaminho — Kiba também ficou de pé — Eu preciso enviar umas cartas.
— Temos o melhor sistema de pombos correio que existe. Venha comigo, vou lhe mostrar.
O Ômega reclinou-se de leve em direção a Temari e Gaara e saiu junto com Kankuro.
A dupla seguiu para fora da residência, na parte de trás, onde havia um amplo galpão. Ali eram acomodados os cavalos, assim como servia de deposito de estocagem, com o anexo de um pombal.
— Onde estão as cartas?
— Aqui — Kiba tirou os pergaminhos do bolso e os entregou para Kankuro. Apenas para presenciar algo que jamais teria sequer cogitado. O rapaz desatou um dos fitilhos e começou a ler o que estava escrito.
— Ei! O que pensa que está fazendo, maldito? — a indignação foi indisfarçável.
— O que parece que eu estou fazendo? — Kankuro devolveu — Espremendo espinhas?
— Filho da...
— Entenda uma coisa — o Alpha ergueu o rosto e estreitou os olhos ao observar Kiba, com um olhar carregado com um sinal de alerta que paralisou o outro e cortou-lhe a reclamação — Eu vou fazer isso com todos os pergaminhos que enviar. E com todos os que receber. Não tente me enganar, Kiba. Não quero que... “palavras mal colocadas” abalem as boas relações entre Suna e Konoha. Compreende?
A pergunta não conseguiu tirar Kiba da paralisia. Ele não se viu vítima da Voz de Comando, nem de nenhum subterfugio próprio dos Alphas. Não. Era apenas a força daquele olhar, desprovido de qualquer sentimento, de qualquer emoção. Um olhar que parecia sem vida...
Naquele instante, era como se estivesse frente a frente com outro Alpha. Não com o Kankuro que conhecia.
— Compreende? — ele repetiu a pergunta no mesmo tom de voz, de um jeito que fez os pelinho da nuca de Kiba se arrepiarem de medo puro e instintivo — Kiba...?
— Sim — a resposta veio com custo, subiu raspando a garganta do Ômega e quase o fez gaguejar — Compreendo.
— Bom garoto — elogiou antes de terminar de ler a primeira carta, fechá-la novamente e repetir o procedimento com a outra. Ao terminar, parecia satisfeito.
Inuzuka Kiba nunca se sentiu tão grato na vida por escolher manter sigilo sobre o que acontecia e querer investigar melhor antes de contar para alguém. Não teve coragem de tentar imaginar o que aconteceria se tivesse escrito algo além das boas percepções que tivera e das boas-vindas recebidas.
— Sua letra é bonitinha. Eu nunca ia desconfiar — o Alpha elogiou e ergueu o braço, para que uma pomba cinzenta pousasse sobre ele — Nossos pombos são incríveis. E rápidos. Sua carta chegará sem perigo de extravio. Venha aqui.
Abriu um armário externo de onde tirou um pequeno bornal que prendeu ao corpo do pombo, de modo que não atrapalhasse enquanto o animal voava. Em seguida colocou um dos pergaminhos enrolados e o fechou.
— Para as Inuzuka em Konoha — orientou antes de agitar o braço e fazer o pombo alçar voo.
Repetiu o processo atraindo um pombo rajado dessa vez, seguindo o mesmo procedimento com a bolsinha de couro adaptada e guardando o pergaminho com cuidado.
— Para os Aburame em Konoha — indicou o segundo endereço — Prontinho. Suas cartas foram enviadas. Quer ir para a feira à cavalo ou prefere caminhar?
— Prefiro... — Kiba tentou forçar saliva pela garganta, mas a boca estava seca — Andar — precisava de tempo para se recuperar. Além disso, precisava conhecer o terreno ao redor. No dia anterior, quando veio para a residência, estava cansado, impactado pelas revelações de Gaara, não teve tempo para um reconhecimento mais detalhado.
Não que estivesse em melhores condições naquele instante. Ainda sentia os efeitos da ameaça velada de Kankuro. Nada na figura denotava perigo, nem o tom de voz, nem a postura corporal ou as palavras ditas. Mas aquele olhar recebido mexeu com a parte mais instintiva do Ômega. Estava claro como água: Kiba teria que ter muito cuidado com tudo o que fosse escrever.
Se havia alguma dúvida sobre a seriedade da situação, tal dúvida acabara de desaparecer.
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