t e m p o r á r i o
3 O Dia
4 meses e 3 semanas. Era o tempo que fazia que ela havia ido com a cara e a coragem para a cidade grande.
Não que ela fosse caipira. Não, pessoas de cidades pequenas não são caipiras. Ela apenas morava em uma cidade com menos de 100 mil habitantes, mas morava na cidade. Ela não era caipira, mas a cidade grande lhe assustava.
E ela levou 4 meses e 3 semanas para ver as coisas indo de mal a pior. Ainda no caminho, para falar a verdade. Não que ela tivesse um sexto sentido, porque se ela realmente tivesse um sexto sentido ela acertaria metade dos seus pressentimentos em vez de errar 99% das vezes, mas ela tinha um pressentimento de que as coisas não estavam tão ruins assim e... iriam piorar.
Estava na contagem. 4 meses e 3 semanas. As coisas podiam piorar.
E começaram neste dia.
O dia. O Dia. O Dia. O dia em que Cecília percebeu que ganhava menos que seus colegas de faculdade quando eram estagiários. O dia em que descobriu que a conta de luz estava muito alta. O dia em que percebeu que almoçar fora todos os dias era muito caro. O dia em percebeu que ela precisava continuar mentindo. Mentindo para sua família, que acreditava que ela estava feliz e bem, ganhando rios de dinheiro na capital.
Ela não estava. Ela ganhava 800 reais e alguns quebrados. Com isso, ela pagava o aluguel barato do apartamento no bairro perigoso. Pagava a luz e a internet. Pagava o condomínio. E até então, ela comia. No final, sobravam 59 reais. Ela tinha um dinheiro guardado, é claro, para emergências. Mas esses 59 reais acabavam se tornando 20, mensalmente.
E logo esses 20 não sobrariam, não para se tornarem 40 no mês seguinte e nem 60 no outro mês. Por algum motivo que ela ainda não parou para pensar, os 20 se tornavam 15 no mês seguinte, depois 30, e agora eram 20 outra vez.
Algo de errado não está certo.
Ela cometeu algum erro. Vários. Mas algum essencial na hora de fazer os cálculos. E então, ela já não tem mais um planejamento.

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