t e m p o r á r i o
4 A Padaria
Os balcões de vidro com doces e salgados são uma tentação para qualquer um.

Mas, desde que foi morar sozinha e ser "independente" em outra cidade, Cecília só via números. O preço das coisas, para ser mais exato.
E ela achava absurdo um pastel murcho custar 4 reais. E achava um assalto um pão de queijo mediano custar 3 reais e 50 centavos. E uma piada um folhado de frango de três dias atrás custar 5 reais.
Mas ela tinha que comer. Porque já fazia dois dias que ela havia decidido que não comeria fora outra vez, e essa era apenas uma exceção. Porque agora eram 18h. Ela estava saindo do trabalho, com fome e querendo um banho. E seu estômago reclamava por mais do que Clube Social.
Sentiu alguém parando atrás de si na fila até então inexistente da padaria, no balcão dos salgados. Não querendo atrapalhar o andamento das coisas, resolveu pedir o mais barato e tragável.
— Um pão de queijo, por favor.
A moça da padaria pegou e empacotou o pedido.
— Mais alguma coisa?
— Só isso, obrigada.
— Disponha. Próximo.
Ao se virar, Cecília quase passa reto pela pessoa, só não o faz porque ela lhe chama antes disso.
— Oi, Cecília.
A voz ela conhecia. Olhou para ela, a mulher fardada que esperava, e a viu sorrindo, aquele sorriso discreto de policial militar.
— Oi, soldado Schimidt. — Cecília disse, um sorriso surgindo no seu rosto.
A segunda das duas pessoas com quem tem mais "contato" na cidade.
— Fazia tempo que não te via.
— Ah, sim. Muito trabalho. — Ela respondeu simplesmente. Embora fosse agradável conversar com a soldado Schimidt, hoje Cecília só queria ir para casa. — Tchau.
— Tchau. — A soldado respondeu, mais baixo e rápido que Cecília.
Foi depressa para o caixa, pagou o assalto do pão de queijo e saiu da padaria apenas para lentamente caminhar pela calçada, tentando lembrar exatamente o trajeto para seu apartamento, já que não era boa com nomes de ruas, principalmente com ruas pouco conhecidas em uma cidade grande desconhecida.
E tudo o que ela sentia era o cheiro delicioso do assalto na sacola plástica em sua mão. Estava quentinho, pelo menos. Esperava que o pão de queijo pelo menos fosse bom, com queijo e não feito de ar.
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