Considerando sua falta de experiência e conhecimento, ela tem um ótimo emprego.

Não importa se é formada e se tem a carteirinha, o que importa é que ela não sabe fazer o que a universidade e a Ordem dos Advogados disse que ela sabe fazer. Ela é boa sendo mediana. Foi sendo mediana que se formou na faculdade, conseguiu a carteira da Ordem e conseguiu esse emprego.

Bem, o primo da mãe tinha um amigo que conseguiu esse emprego para ela. Auxiliar jurídica. Ela sequer sabia o que estava fazendo. Felizmente, tinha um advogado para lhe dizer o que fazer.

Um homem já nos seus cinquenta ou sessenta anos com quem ela dividia a sala. Ele fazia os trabalhos complexos, ela fazia os pareceres jurídicos simples de contratos da empresa. Ela só precisava ver se estava tudo dentro da lei, afirmar que estava e dar para ele assinar. Ele confiava cegamente nos pareceres dela, porque ele parou de conferir depois que ela adquiriu um padrão monótono e correto de fazer os pareceres.

Dúvidas, ela perguntava a ele. Informações relevantes, contava a ele. Fora isso, sequer trocavam uma palavra. Ela era como uma estagiária. E não se importava.

Só havia uma pessoa com quem ela falava no trabalho.

O telefone de sua mesa tocou, um telefone com fio. O seu “chefe”, o advogado com quem trabalhava, a olhou do outro lado da pequena sala, depois voltou a olhar para a papelada em sua mesa.

Ela atendeu o telefone.

— Assessoria Jurídica. — Informou, como sempre.

— Oi, é o Daniel do RH. — Ele se apresentou, como sempre.

Daniel Martins, o único com quem ela falava realmente no trabalho. Basicamente, um psicólogo da empresa. Não, não era psicólogo, mas o RH era basicamente o setor de reclamações, as pessoas reclamavam de tudo e já aproveitavam para fazer uma terapia com Daniel.

— Oi, tudo bem?

— Tudo sim, e com você?

Cecília não reclamava com Daniel, não fazia “terapia” com ele, mas conversavam vez ou outra, porque... bem... ele era uma boa pessoa, aparentemente. Decente, prestativo. Bonito. E porque era uma das duas únicas pessoas com quem Cecília pode dizer que tem maior “contato” na cidade.

— Bem.

— Ótimo. Cecília, preciso de um favor. Você já fez o parecer daqueles novos contratos da Center OrtoPet?

— Ainda não.

— Antes de fazer, queria falar com você sobre isso. Quando não estiver ocupada.

— Pode ser agora se quiser.

— Agora eu vou entrar numa reunião com o chefe, mas me avisa quando tiver livre que dai eu vou aí. Beleza?

— Certo, vou ver aqui e te aviso.

— Obrigadão. Tchau tchau.

— Tchau. — Pôs o telefone no ganchou, olhou para o advogado, ele a olhava. — Daniel pediu para conversar sobre a Center OrtoPet antes de fazer o parecer.

— Hm. — Ele vocalizou. — Comigo?

— Ele disse que era comigo, mas acho que pode ser com você.

Ele abaixou a cabeça para sua papelada mais uma vez.

— Se não pediu pra ser comigo, então é só com você.

Ótimo! Ela adorava reuniões em que não sabia bulhufas do que estavam falando!