rEVERSE - O conto da primeira estrela
3 Um dia infernal
Notas iniciais
(Syaoran) — Um dia infernal
—Eu não sei o que esta acontecendo, mas eu vou te matar, Sakura!
Disse a fina voz de Sakura saindo de mim, enquanto escutava a minha própria do outro lado da linha. Eu sabia que era ela, quando é Sakura, sempre há problemas no meio, e eu estar coincidentemente em seu corpo, também seria o contrário, certo?
Quando eu havia acordado hoje de manha, estranhei o teto rosa e um barulho alto e irritante ressoando em meus ouvidos. Levantei esfregando os olhos e soltei um palavrão. Onde eu estava?
O quarto era todo rosa e completamente desorganizado. Cheio de roupas em todos os cantos, mochila e materiais jogados, e um gato grande e gordo dormido na beira de meus pés. O chutei para o chão.
Que diabos estava acontecendo?
Levantei da cama me sentindo estranho, de alguma forma, meus pés estavam menores, eu vestia um pijama rosa florido. Senti a raiva subir, será que alguém estava zoando com minha cara? Mas em meio aquela bagunça, eu avistei o rosto de Sakura em um espelho. Pulei para trás de susto, pronto para gritar com ela, mas tinha algo errado. Quando cheguei perto, aqueles olhos verdes brilhantes me encaravam, mas tinham uma expressão horrorizada. Aquela Sakura era eu? Levantei minha mão para ver se o mesmo acontecia ao reflexo. Qual não foi meu horror ao ver que aquela imagem também fazia a mesma coisa.
Me afastei do espelho, caindo no chão sentado. Aquilo não podia ser real. Belisquei meu rosto para ver se não era um sonho. Não era. Engatinhei para perto do espelho, sem acreditar no que estava vendo. Onde estava o meu corpo? Uma duvida martelou em minha cabeça, mas não sei se teria coragem de fazer isso, ela ainda era uma garota.
Aquilo não poderia ser real, então mesmo assim, levantei as mãos até o pequeno volume que fazia em meu tórax. Estavam ali. EU TINHA PEITOS. Deveria olhar?
—SAKURA! VOCE VAI SE ATRASAR! – Gritou uma voz estranha do andar de baixo.
O que eu faria? Meu coração batia rápido, levantei me afastando do espelho. Um barulho irritante tirava minha concentração. O maldito despertador ainda estava tocando, como ela conseguia acordar com esse barulho? Desliguei antes que o atacasse pela janela.
O gato olhava para mim com um olhar fixo. Ele era meio amarelado, com algumas listras em laranja, tinha as orelhas maiores que o normal e duas asas de plástico presa em sua coleira. Kerberos, estava escrito. Ele olhava para mim desconfiado.
—O que é? – murmurei.
Alguém bateu na porta e abriu. Eu não sabia o que fazer. Era um homem alto e de ombros largos, olhos pretos e cabelos castanhos escuros. Ele olhou para mim com uma cara de interrogação.
—Se você não descer agora, vai se atrasar no café da manha – tinha dito ele, mas parou me encarando – o que há com você monstrenga, esta com uma cara engraçada.
Sem saber o que fazer, apenas assenti. Ele arqueou a sobrancelha e saiu do quarto. Sentei na cama sem acreditar. Eu tinha me tornado Sakura.
Aquele quarto já estava bagunçado antes de eu aparecer, não me importei em bagunçar mais ainda procurando as roupas que Sakura usava diariamente. A saia branca e a blusa com o colete escuro estavam dobradas na cadeira da escrivaninha dela. Eu não acreditei, estava mesmo fazendo isso?
Retirei as calças do pijama e vesti a saia, evitando olhar para baixo. Era uma sensação muito estranha, pois estava mais ventilado que o normal lá em baixo. Preferia não descobrir como era usar uma saia. Tentei não prestar muita atenção no que estava fazendo, não queria fazer nada constrangedor, mas pior que aquilo não poderia ficar. Quando comecei a desabotoar a blusa florida, engoli em seco, era impossível não prestar atenção, a nanica não era tão tabua assim.
Fiquei perdido quando vi o volume por baixo da blusa, ela usava um sutiã branco com detalhes. Aquilo era mesmo real? Caminhei para o espelho novamente, Sakura tinha um corpo em forma digno de qualquer garota, eu sempre soube, mas ver tão de perto assim me deixava sem ação.
Se eu tocasse, seria real? Minhas mãos se moveram sozinhas, segurando o volume macio de sua pele. Eram seios de verdade, eu tinha peitos, isso era um absurdo. Esse pensamento me fez retirar a mão imediatamente. Vesti a blusa rapidamente e desci.
A casa de Sakura não era tão difícil de desvendar, o andar de cima era apenas os quartos, eu ia parar direto na entrada da cozinha ao descer as escadas. Havia o mesmo homem que eu tinha visto antes, lendo um jornal e tomando café, enquanto tinha outro com um avental de cozinha e uma espátula nas mãos.
—Fiz Woffles – disse-me ele.
Corei por algum motivo e sentei rapidamente a mesa, por um instante, achei que ele não iria me reconhecer, mas agora eu era Sakura. Sem saber o que fazer ou reagir, tentei me distrair observando os detalhes da casa. Era bonita, clara e ventilada, eu podia ver a sala de estar de onde eu estava, havia uma sala de jantar mais ao fundo. Havia um pequeno retrato a mesa, era uma linda mulher, com os mesmos olhos de Sakura e cabelos cinzentos longos.
—O que há com você? – Disse o homem em minha frente.
—Hã?
—Esta estranha. Acordou no horário e nem deu bom dia para a mamãe.
—ah, desculpe-me...- me senti meio envergonhado ao falar isso ao retrato, ele não ia me responder – bom dia.
O homem bebericava o café enquanto me observava, com aquela sobrancelha arqueada novamente. Apenas fiquei em silencio, rezando para tudo aquilo acabar e eu voltar a ser o Syaoran que era antes. O homem mais velho colocou um prato em minha frente, meu estomago roncou alto e em bom tom, não sabia que estava com tanta fome.
—A mesma monstrenga de sempre, você não tem vergonha de sua barriga roncar desse jeito, até eu escutei.
—Desculpe!
Ele baixou a xícara na mesma hora, perplexo, eu havia falado algo errado.
—Você esta doente? Nem discutiu comigo.
—Acordei não me sentindo muito bem – inventei. Espera, não era invenção, eu acordei e não era eu.
—Se esta se sentindo angustiada, não seria melhor ficar em casa? – Perguntou o homem com os woffles.
Isso me fez pensar, eu deveria ficar e resolver essa situação? Eu estava no corpo de Sakura, mas onde Sakura estava? No fundo, eu sabia a resposta, senti um calafrio percorrer meu corpo. Se fosse isso, eu tinha que encontra-la o mais rápido possível.
—Não, tudo bem, eu vou para escola.
Não precisei falar mais nada, eles se ocuparam com o café da manha enquanto conversavam. Descobri que o homem dos woffles era o pai de Sakura, mas não sabia seu nome. Enquanto o outro era Touya, o irmão mais velho. Eu já o tinha visto antes, em algumas reuniões escolares, mas fazia muito tempo, ele sempre me encarava quando eu estava perto da nanica.
Terminei o café, disse que pegaria minhas coisas e sairia, pois precisava chegar cedo. Subindo de volta para pegar a mochila, avistei um telefone no corredor de entrada. Se eu ligasse para mim mesmo, quem iria atender? Tocou por bastante tempo, mas quando ouvi minha própria voz tremula do outro lado da linha, sabia que era ela. Contei até dez mentalmente e disse:
—Eu não sei o que esta acontecendo, mas eu vou te matar, Sakura!
Ouvi um barulho estranho do outro lado, como se ela tivesse engasgado.
—HOEEE, é voce li?
—Claro que sou eu, quem mais poderia ser?
—Eu não sei o que esta acontecendo. Quando acordei eu era o li, e estava em um lugar diferente O que esta acontecendo?
—Como é que eu vou saber? Só sei que acordei e estava aqui! Isso não é obra sua, né?
—Eu sou bruxa por acaso? Como eu faria isso? E porque eu faria isso logo com você? Parece mais um castigo! Não foi você que aprontou algo?
Respirei fundo. Não adiantava me irritar com ela agora, eu nem poderia levantar a voz para não chamar atenção. Ela estava tão confusa quanto eu.
—Olha, vamos nos acalmar. Se arruma e vem pra escola, me encontra na entrada. Vamos ver se a gente resolve isso.
—Me trocar? Mas onde estão suas roupas? E seus materiais? O que eu vou comer? Eu não sei mexer em nada.
—Você esta mesmo pensando em comida uma hora dessas?
—Pra você é fácil falar, eu sei que meu pai faz o café da manha todos os dias. O que ele fez hoje?
—Isso não importa agora. Olha, tem um cabide dentro do guarda roupa preso a porta, minhas roupas estão penduradas lá. Meus sapatos estão em baixo da cama. Ele fez Woffles. Abre o segundo gabinete da esquerda pra direita, lá tem alguns pães, na geladeira tem suco de laranja. Vem logo Sakura. Tenho que desligar.
—Hei, não deslig....
Tive que desligar, pois ouvi passos, subi correndo para pegar as coisas dela e sai o mais rápido que pude.
****
Foi muito estranho ver meu corpo correndo em minha direção, eu ainda me perguntava se isso não era um sonho. Ela parou em minha frente, sem acreditar, encaramos um ao outro, confusos. Sem dizer nada, agarrei meu/seu braço e a arrastei para o pátio ao fundo da escola, atrás da arvore de cerejeira.
Como iniciar uma conversa assim? Ela também parecia que não ia dizer nada, mas estava estranha, com as bochechas avermelhadas. Ficamos nos olhando, encarando nossos próprios corpos. Agarrei sua bochecha e a apertei.
—Ei, isso dói.
—Isso só pode ser um pesadelo. Não é possível!
—Eu é que digo. Quando acordei, estava assim. Só pode ser um pesadelo.
—Você não fez nenhuma macumba ou vodu pra se vingar ou algo assim, fez?
Era muito estranho falar com meu próprio corpo, olhando de um ângulo mais baixo, Sakura era muito baixa.
—Já te disse, como eu poderia fazer isso? E porque eu faria isso se fosse atingir a mim também? Não seria você que estaria armando alguma pra cima de mim?
—Porque eu faria isso, é meu corpo.
—Eu digo o mesmo em minha defesa.
Passei as duas mãos pelos cabelos, frustrado. O que estava acontecendo? Encostei na árvore, respirando fundo, sentindo as pernas falharem. Como iríamos resolver essa situação? Olhei para Sakura, ela estava com um ar perdido, também sem saber o que fazer. Os nós de suas mãos, que antes eram minhas, estavam brancos, seu rosto estava meio pálido. Ela estava com medo. Era a pessoa mais irritante que eu conhecia, mas não conseguia evitar sentir pena por nos dois.
—O sinal vai bater daqui a cinco minutos.
—O que vamos fazer? Não podemos entrar na sala assim.
—Não temos escolha – disse eu, sabendo que me arrependeria de minhas palavras. Observei-a de cima para baixo, ela estava toda desengonçada, com o zíper da calça aberto e o cinto solto – olhe só para você, toda desarrumada. Abotoe essa calça Sakura.
—Eu não tive coragem para isso, não quero encostar no seu....
Ela ficou vermelha dos pés a cabeça. Senti meu rosto pegar fogo, ela não poderia ter mexido lá em baixo, certo?
—Não temos escolha – sabendo que era meu próprio corpo, não me envergonhei em segurar a calça e puxa-la, abotoando eu mesmo, mas Sakura soltou um gemido de susto – vamos para a sala, assistimos as aulas e não conversamos com ninguém, quando o sinal do fim do dia bater novamente, nos encontramos e veremos o que podemos fazer.
—Você também, trate de se arrumar direito, não quero que as pessoas achem que sou desajeitada – disse ela arrumando o colarinho da blusa que eu usava, passando as mãos em meus cabelos. Eu ia responder que não importava sua aparência, ela era desastrada de qualquer maneira, mas seus dedos se congelaram em minhas roupas. Olhou para mim desconfiada, tocando-se finalmente que eu havia mudado de roupa – você se trocou....
—E você também!
—Mas eu sou uma garota...
—E dai? Eu também tenho pudor.
—Por isso mesmo, você não teria se aproveitado de meu corpo enquanto se trocava, ou teria?
Senti minhas bochechas queimarem, lembrando-me de quando toquei os seios dela para saberem se eram reais. Mas o mesmo valia para ela.
—E você? Onde você me tocou? Aposto como achou que era um sonho e espiou alguma coisa.
—Cl...claro que não – disse ela gaguejando. Eu sabia que era mentira, ela nunca soube mentir. Mas ver meu rosto envergonhado daquela maneira me irritava. Deixei esse assunto para lá.
—Olha, na hora do almoço vou dar uma desculpa e nos encontramos na sala de musica, vai estar vazia.
—Como você sabe que a sala de musica vai estar vazia?
—Não importa – O sinal bateu, nosso tempo havia acabado – só me encontre lá. Vai caminhando na frente, eu vou depois.
—Porque, o que você vai fazer com meu corpo?
—Nada burra, você sempre chega atrasada ou em cima da hora, o que as pessoas vão achar se entrarmos juntos na sala?
Ela tinha ficado quieta, nem mesmo ela teria forças para brigar agora, estávamos ambos assustados e sem saber se esse dia iria terminar tudo bem ou não. Ela apenas assentiu e saiu caminhando para a sala. Lembrei-me de ultima hora.
—E não diga oi para ninguém, eu não sou tão alegre de manha.
Rezei para que ela tivesse me ouvido.
****
O dia nem havia começado e eu já estava odiando ser Sakura. Todos que passavam por ela davam bom dia, e eu me sentia obrigado a responder sorridentemente, para que ninguém perguntasse. Porque ela era tão popular? Entrei na sala e lá estava a nanica, com uma cara estranha. O Syaoran Li que todos normalmente viam era mal humorado, fechado com todos pela manha, ele apenas sentava em sua cadeira e colocava os fones de ouvido, com as mãos nos bolsos da calça, com a cara fechada.
Era obvio que aquele não era eu.
O meu “eu” estava sentado com as costas eretas, as mãos repousando nos joelhos, olhando para todos os lados com uma cara extremamente nervosa. O que ela estava fazendo? Tomoyo, que sentava um pouco mais a frente, retiravam seus materiais para a primeira aula, Sakura constantemente olhava para ela como se pedisse socorro.
Ela olhou para mim e baixou a cabeça, encarando sua mesa vazia. Caminhei apressado até ela, colocando minha bolsa sobre a mesa a frente, onde ela normalmente sentava.
—O que você esta fazendo – sussurrei – pelo menos tire seus materiais.
Levei um susto com Tomoyo que segurou meu ombro, chamando-me de Sakura.
—Sakura, você não ouviu eu te chamando? – disse ela – Bom dia. Para você também Li.
—B..Bom dia – disse Sakura com lágrimas nos olhos. Eu me alarmei.
—Li, você esta bem? – perguntou Tomoyo.
Mandei um olhar de repreensão para Sakura e intervi, abaixando sua cabeça para que ninguém visse Syaoran Li chorar.
—Ela...quero dizer, ele...ele não esta se sentindo muito bem.
Tomoyo ficou assustada, só não sabia se era com o fato de me ver chorando ou de Sakura confortando Syaoran Li. Dei um sorriso amarelo para ela e puxei Sakura para o canto da sala
—Vê se segura, eles vão estranhar se me verem chorando – disse eu sussurrando.
—Desculpa, é que quando vi Tomoyo não aguentei, não pude nem dar bom dia – disse ela, esfregando os olhos – porque você é tão antissocial Li? Não pude falar com ninguém.
—Cala a boca e engole o choro. E o que você teria para falar? Que você não é Syaoran Li? Vai dar uma de louco!
—Ta doendo!
—O que? – me dei conta que era eu segurando o pescoço dela, fazendo ela se curvar bastante para ficar em minha altura – opa, desculpe.
—Como vamos resolver isso? Quem sabe Tomoyo poderia nos ajudar.
—Nem pense nisso, agora sente em seu lugar e fique quieta, se não consegue segurar o choro, pelo menos finja que esta dormindo sobre a carteira.
Ela consentiu e sentou-se, abaixando a cabeça. Nunca a tinha visto tão obediente. Por sorte, o restante do primeiro e segundo período foi tranquilo. Mas quando havia os intervalos entre as trocas de aula, eu me perdia completamente. Muitas garotas vinham até mim, conversando sobre coisas que eu não fazia ideia. Começava a gaguejar e olhava para Sakura, que espiava de cabeça baixa, me mandando um olhar que eu traduzi “diga alguma coisa errada e eu mato você”. Tentava apenas acenar positivamente para tudo o que elas diziam e dizer “é verdade”.
—Sakura, você não vai dar uma resposta para o Kamui? – perguntou uma menina de cabelos ruivos.
—Eu...Kamui?
—Ela ainda não deu a resposta? – perguntou outra de óculos para a ruiva e depois se dirigiu para mim – Você não pode fazer ele esperar muito tempo, Sakura!
Olhei pelo canto dos olhos para Sakura, que balançou a cabeça suavemente, em sinal negativo.
—Eu ainda não pensei sobre isso. – respondi apressadamente.
—Já vai dar uma semana, não o deixe esperando muito tempo.
—É que agora vamos estar muito ocupados – a ideia veio em minha cabeça para fugir do assunto – eu e o Li estamos encarregados pelo festival cultural, limpeza de sala, essas coisas. Vamos ter muito trabalho.
Todas elas olharam para meu corpo, que continuava de cabeça baixa, como se estivesse dormindo. Ela pelo menos era esperta para não olhar ninguém A garota ruiva olhou para mim com uma cara de pena, me deixando indignado, eu não era tão ruim assim, acho.
Por sorte o sinal bateu e a professora entrou. A aula decorreu normalmente até o momento do almoço. Sakura puxou minha blusa e cochichou.
—Eu não tenho bentou.
Como ela era capaz de pensar em comida uma hora dessas? Mas para falar a verdade, eu também estava com fome. Geralmente, eu mesmo preparava meu almoço, mas naquele momento, eu era Sakura. Passei as mãos pelos cabelos, como habito.
—Ei, não faça isso, é por isso que seu cabelo não fica no lugar.
—Desculpe. Vamos fugir antes que a Daidouji me puxe como de costume, e eu compro alguma coisa. – cochichei de volta.
—Mas eu não tenho dinheiro.
—Eu tenho.
—Espera um pouco, esse é meu corpo, você vai usar meu dinheiro? Isso não é justo.
—É o meu dinheiro, que esta em seu bolso, mas é meu. Esse corpo e essas roupas são minhas, estúpida.
—Estúpido é você!
—Vocês fizeram amizade bem rápido, né? O que estão cochichando? – Perguntou Daidouji se aproximando. Eu tinha perdido tempo demais, e preferia não ficar perto dela, pois era uma garota muito esperta, iria notar que tinha algo errado com a “Sakura” dela.
—Ah, é desculpe Daidouji, o diretor deixou algumas pendências para resolver, eu e o Li estamos encarregados pelo festival cultural, então tem muita coisa a fazer. Não vou poder almoçar com você hoje – disse eu puxando Sakura pelo braço – temos que entregar alguns trabalhos, né Li?
Sakura apenas sacudiu com a cabeça.
—Daidouji? – murmurou a garota.
—Bem, a gente já vai.
—Espere...
Corri puxando Sakura trás de mim, antes que alguém mais decidisse bater papo conosco. Empurrei-a para a sala de música e fui em direção à cantina comprar dois baguetes de pão.
Meu corpo era muito pequeno comparado com antes, fui empurrado e derrubado varias vezes. Quando estava decidido em começar a chutar as coisas, alguém me segurou pelos ombros e perguntou.
—O que você quer?
Era um garoto de cabelos compridos e pretos, com uma mecha vermelha na lateral da cabeça. Me olhava de um jeito estranho, tentando dar um sorriso sedutor, senti um calafrio no corpo todo, ele estava tão próximo que podia sentir seu hálito.
—Dois baguetes! – respondi, fazendo careta.
Ele me puxou contra ele, como se tentasse me fazer entrar em seu corpo, e atravessamos a multidão juntos. Eu queria morrer. Antes que percebesse, já estávamos do lado de fora da lanchonete.
—Prontinho. – disse ele sorrindo para mim e estendendo os pães.
—Obrigada. Quanto eu te devo?
—Não foi nada. Mas sabe Sakura, eu ainda estou esperando minha resposta.
Eu estava ferrado. Aquele era Kamui, o cara que havia se confessado para Sakura. Ele não poderia ter aparecido em pior hora.
—Ah, sobre isso, eu...- não poderia me meter nos assuntos de Sakura, por isso, não podia recusar e nem aceitar, como eu saberia o que ela iria responder? – estou um pouco ocupada, será que você pode esperar um pouco mais? Eu realmente tenho que ir.
Corri antes que aquele cara segurasse minha mão e eu desse um soco na fuça dele. Lembrar dele segurando meus ombros e me apertando era nojento. Sakura me esperava na sala de musica, no terceiro andar, já que as amigas delas costumavam ficar em baixo da cerejeira na hora do almoço. Subindo dois degraus de cada vez, senti o ar faltar em meus pulmões, geralmente, eu não teria problemas com meu corpo original, mas tudo estava fora do lugar naquele momento, literalmente.
—Você não pratica esporte? – perguntei sem ar.
—Você não pode correr pelos corredores assim de saia – disse ela emburrada, enquanto pegava o baguete de minha mão – não faça mais isso.
Seus olhos estavam vermelhos, o que parecia ridículo, já que era eu, mas não falei nada. Também me sentia perdido. Sentamos um ao lado do outro, sem chegar perto demais, comendo nossos pães para matar a fome. O que seria de nós?
—O que você acha que causou isso? – perguntei.
—Desistiu de me culpar?
—Me sinto esgotado demais para isso, e o dia nem acabou!
—Eu não sei! Ainda estou rezando para ser apenas um sonho, e quando açodarmos amanha eu ser eu de novo.
—Já imaginou ficar assim nos próximos dias? Vai ser um desastre. Você não sabe ser eu, e eu não sei ser você.
Ela apenas concordou, encarando o chão. Olhei para as pequenas mãos que seguravam o pão meio mordido, as mãos dela eram mesmo minúsculas, me perguntei como ela conseguia ser tão bruta com mãos tão delicadas. Olhei para as minhas, pareciam às mãos de um estranho.
Repassamos nossos passos do dia anterior para entender o que havia acontecido, mas parecia ter sido um dia normal. Quer dizer, quantas pessoas no mundo já passaram por isso? A troca de dois corpos? Você já trocou de corpo com alguém hoje? Só rezávamos para acordar e tudo voltar ao normal. Frustrados, voltamos para a sala quando o sinal bateu.
O dia terminou de maneira exaustiva, Sakura se esforçava para manter distante das emocionantes conversas femininas, mas não evitava fazer caras e bocas. Eu tinha que repreende-la ou belisca-la toda vez. No fim da aula, depois do comprimento cerimonial, pedi desculpas para Daidouji novamente, dizendo que teríamos que ficar para começar os preparativos para o festival. Eu sabia que ela estava achando estranho, do dia para noite, eu e Sakura estávamos nos entendendo.
—Eu não queria ficar aqui, ele é insuportável, mas temos que começar o projeto. Só espero terminar logo – tentei imaginar o jeito que Sakura falaria mal de mim, não sei por que, mas foi bem fácil.
Eu a nanica tentando segurar o riso no fundo. Ela não conseguia nem esconder como seu corpo tremia com o esforço.
Daidouji foi embora. Fingimos que estávamos limpando a sala, até que ela ficasse vazia. Joguei-me na cadeira ao lado de Sakura e suspirei.
—Não aguento mais! Suas amigas falam demais.
—É você que é antissocial e não conversa com ninguém. Fecha essas pernas.
—Tanto faz – disse eu bufando, e apoiando o queixo na carteira – o que iremos fazer? Sei que você quer ir para casa, e eu também, mas estou falando de minha própria casa.
—Eu não sei cozinhar.
—Você não tem jeito.
—Mas, você parece morar sozinho Li. Não vi outros quartos em seu apartamento. Você nem tem idade para isso, sabia?
—O que você esperava, eu sou estudante de intercambio, minha família mora na China.
—Mas ninguém veio com você?
Eu não queria entrar em detalhes da minha vida naquele momento. Apenas suspirei e passei a mão pelos cabelos, me esquecendo de que eram de Sakura, o que era estranho, pois os cabelos dela era um pouco mais longos que os meus.
—É complicado. De qualquer forma, o que faremos?
Ela bagunçou a cabeça em negação. Ficamos olhando um ao outro, sempre suspirando, enquanto víamos sol se por. Me dei conta de que não haveria problemas eu ir embora, afinal, morava sozinho. Olhei para Sakura. Seria impossível, não poderia deixa-la sozinha com meu corpo. O que sua família faria com um garoto estranho entrando em sua casa como se morasse lá? E esse garoto estranho era eu.
—Li. – disse ela – acho que temos um problema maior agora.
—O que poderia ser pior que isso?
Ela ficou calada, com as bochechas vermelha. Suas peras estavam retraídas e as mãos apertavam os joelhos, repuxando a calça.
—Eu estou aguentando há algum tempo, mas não consigo segurar mais – disse ela, fazendo meu sangue gelar – eu preciso ir ao banheiro.
—Cristo.
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