rEVERSE - O conto da primeira estrela
4 Na toca do demônio
Notas iniciais
(Sakura) – Na toca do demônio
Eu não podia acreditar, seria melhor enfiar minha cabeça debaixo da terra do que passar por aquela humilhação.
_Para de reclamar, o corpo é meu. Eu é que me sinto violado!
Eu estava pulando de tanto aperto, havia segurado a vontade de ir ao banheiro o dia inteiro, mas como faria isso dentro do corpo de um garoto? Era nojento. Mesmo assim, nos encaminhamos para os toaletes do colégio. Syaoran me impediu de entrar no banheiro feminino.
_Eu sou uma garota!
_Fica muito mais fácil se você usar o mictório. Além do mais, você não pode tocar em mim dessa forma, nem sabe como usar. E se você fizer algo estranho?
_E você vai espiar? – Disse eu indignada.
_Quem vai espiar é você! – Ele estava vermelho dos pés à cabeça.
Eu nunca o havia visto dessa maneira, ele caminhou de um lado para outro, bufando de frustração e passando as mãos nos cabelos que antes eram meus. Eu entendia seu lado, mas meu desespero para fazer xixi já estava no limite.
_Olha, não se preocupe, eu vou sentar e fazer como geralmente faço. – Parecia que ele ia explodir.
_Você não pode sentar, tem que fazer em pé.
_Mas assim vou ser obrigada a encostar, você não quer isso, quer?
_Sakura, santo Deus, não vai sair se você sentar, e mesmo que saia, você vai se sujar. Agora escuta o que estou te falando, vai para o mictório e eu ajudo você com....todo o resto.
_De jeito nenhum que você vai encostar em mim.
_Mas o corpo é meu!
_E eu estou alugando ele agora – eu bufei, minhas pernas já estavam tortas, se ficasse ali por mais alguns segundos eu iria fazer nas calças – TUDO BEM, mas vai logo, eu não vou conseguir segurar mais.
Desculpe pai, eu vou para o inferno, mas vou aliviada. Entrei pulando e me apertando, segurando na beirada da porta para evitar um acidente. Syaoran não queria encostar em mim, mas também não podia me deixar sozinha, eu entendia seu desespero, sabendo que não tinha passado pelo pior, mesmo assim, minha bexiga tinha um limite. Sem pensar duas vezes, puxei o zíper e desabotoei as calças, colocando tudo para fora. O Li colocava as mãos no rosto morrendo de vergonha, me instruindo a não olhar para baixo.
_Se você ousar olhar, eu te mato aqui e agora. – Disse ele – ei, cuidado para não sujar minhas calças, segura com as duas mãos.
_Não fala essas coisas, vai me fazer olhar – disse ficando vermelha – já está ruim o suficiente. Isso é muito difícil, o que eu faço agora?
_Senhor!
Saímos do banheiro, mas Syaoran não disse uma palavra. Eu sabia que tinha matado seu orgulho como homem e ser humano. Não tive coragem de dizer nada para consola-lo, eu seria a última pessoa que ele gostaria de ouvir alguma coisa. Quando ultrapassamos o parque do pinguim rei, paramos. Eu não poderia ir para minha casa.
_O que devemos fazer agora? – Disse eu, tendo cuidado de usar o tom de voz certo para não puxar briga.
_A única coisa que nos resta, eu vou para sua casa, me passar por você, e você irá para a minha. Amanhã vamos acordar e tudo vai estar ao normal.
Eu não tinha tanta certeza. Há dois minutos eu, literalmente, senti o corpo do Li em minhas mãos, e havia sido bem real. Minhas bochechas queimavam só de lembrar, como eu iria encara-lo de frente novamente? Estava exausta demais para pensar nisso.
Ele suspirou, chegou perto de mim e enfiou a mão direita em meus bolsos. Pegou todo o dinheiro que restou do almoço e entregou em minhas mãos. Me assustava quando ele fazia isso, mantendo uma intimidade tão grande comigo, mas o corpo era dele, eu também tinha o mesmo direito sobre o meu.
_Olhe, não sei o que vai acontecer amanhã. Mas por hoje, se sentir fome, compre algo com isso para se alimentar, apenas por hoje. Já foi um dia muito agitado. Amanhã decidimos o que fazer.
Nós olhamos em silencio, encarando nossos próprios rostos. Era como ter duas de você mesmo. Eu simplesmente não sabia como interagir ou o que falar com ele, havíamos batido boca por todos esses anos, e agora estávamos presos um ao outro, sem saber o que falar.
_Não vá fazer nada estranho quando chegar a minha casa – começou ele, desconfiado – e pelo amor de Deus, não use o banheiro de novo.
_Li, uma hora ou outra, você também vai ter que usar. Além do mais, você não quer tomar um banho? Há quanto tempo está com meu corpo?
_Está mesmo me pedindo para tomar banho? Sério?
Minha mente divagou por um tempo, até eu lembrar da complexidade da situação. Era um garoto, quase um homem completo, em meu corpo. Me senti no lugar de Li, sentindo-se violado.
_Tem razão, eu não estava pensando – disse, sentindo minhas bochechas inflamarem, quantas vezes isso já tinha acontecido aquele dia? – Pelo menos, se arrume antes de vir para a escola amanhã. Não esqueça de trazer o almoço que meu pai geralmente faz amanhã, você não vai ter dinheiro todos os dias.
—Amanhã vai estar tudo normal Sakura, eu em minha casa, e você na sua. – Disse ele. Pela primeira vez na vida, rezei para que Syaoran Li estivesse certo.
****
Cheguei na casa de Li, mas como era habito, toquei a campainha. Por quê? Não havia ninguém em casa. Peguei a chave em baixo do tapete como ele havia descrito e entrei no apartamento que não era meu. Estava escuro e sinistro. Coloquei a sacola de comida congelada na cozinha e olhei ao redor. Ele morava sozinho mesmo?
O rei demônio havia me dado algumas instruções por precaução. Ele avisou sobre a escova de dente no banheiro – quem estaria usando de verdade, Sakura ou Syaoran? – Sobre onde estavam suas roupas e de como guarda-las, os sapatos e seus pertences pessoais do dia a dia. Nada de mexer na TV ou nas coisas de seu quarto. Era chegar e dormir o mais breve possível, para que esse pesadelo acabasse.
Depois de comer, não sentia sono algum. Estava solitária naquele lugar imenso e sentia falta de meu gato gordo para me fazer companhia.
Ele havia me dito para não mexer em nada, mas justamente por ter proibido parecia interessante. Estava tendo a oportunidade de descobrir o lado podre de Syaoran Li, e isso era bom demais para ser verdade.
Comecei pela cozinha. Havia comprado a comida, mas não havia olhado o estoque ainda, não era justo aquele imbecil ter os melhores almoços de meu pai, com comida pronta na mesa, enquanto eu varava de fome. Abri os armários, mas havia apenas enlatados. Não havia salgadinhos ou bolachas escondidas, apenas alguns pratos e copos, o suficiente para apenas uma pessoa. Ele não se preparava nem para as visitas? Panelas velhas em um dos armários, alguns utensílios de cozinha, nada revelador.
Decidi passar para a geladeira, mas estava vazia. Ele não se alimentava? Nem mesmo restos. Olhei no fundo, onde havia um embrulho de alumínio em uma das gavetas baixas. Peguei o pacote e o coloquei sobre a mesa, curiosa. Parecia a única comida da casa. Qual não foi a minha felicidade ao ver três potes de pudins fechados, geralmente comprados em lojas de conveniência 24h. Peguei uma colher e me dirigi para o quarto, pronta para fazer bagunça.
Com uma curiosidade sem fim, olhei para seu guarda roupa, que ocupava uma parede inteira do quarto. Me preparei para não ser soterrada, como acontecia com o meu, mas olhei abismada ao ver tudo separado e organizado por sessões. Touya geralmente deixava algumas balas e moedas perdidas nos bolsos das calças, mas não havia nada nos de Li. Estava começando a ficar frustrada. Ele era durão e empunhava medo, parecendo um gangster, mas aquela casa organizada parecia mais de gente bom moço. Puxei os casados dos cabides e as jaquetas, haviam armas penduradas no fundo do guarda roupa. Ora, ele realmente era um gangster, do tipo alinhado, mas com um lado psicopata.
Retirei uma espada de cabo longo, com um enfeite pendurado na ponta. Levantei da bainha, surpresa ao descobrir que era de verdade, e como estava polida e afiada. Um pouco mais para a esquerda, havia uma lança de cabo longo, cruzada de uma ponta para outra na madeira, mas seria preciso retirar todas as jaquetas, então decidi deixar onde estava. Eram todas armas chinesas, ele havia mencionado que seus pais moravam na China, mas onde ele usava tudo aquilo?
Coloquei tudo de volta no lugar e olhei para as colônias. Ele também não poupava no uso de desodorantes. Abri um de seus perfumes para sentir o cheiro, era gostoso. Senti meu rosto esquentar ao imaginar esse cheiro no Li, balancei a cabeça, tentando clarear a mente de ideias erradas. Passei um pouco nos pulsos e atrás das orelhas, só por hábito. Abri as gavetas de baixo, mas parei no meio do caminho ao ver as roupas intimas. Aquilo já era informação demais.
Frustrada por não achar nada comprometedor, observei melhor o quarto. Não havia fotografias ou pertences pessoais, não havia bagunça ou sujeira, era como se um fantasma vivesse ali. Senti um pouco de pena por ele, pois a casa não passava emoção nenhuma.
Liguei a televisão e passeei pelos canais, era TV por assinatura, colocando de lado um dos potes de pudim fechado. Pesquisei o histórico dos últimos programas assistidos. Eram apenas documentários. Hoe, ele era um garoto descente? Desanimada por não ter encontrado nada revelador para usar contra o diabo, coloquei em um dos filmes de desenho animado e comi quietamente minha sobremesa.
****
Acordei com um barulho incomodo, então imaginei que fosse meu despertador. Como sempre, apenas ignorei e virei de lado para dormir por mais alguns minutos. Não sei quanto tempo havia passado quando finalmente levantei, mas cai no chão ao tentar me espreguiçar. Eu estava em um sofá. Olhei em volta, lembrando do terrível pesadelo tive sobre usar o banheiro com o Demônio Rei.
Teria ficado feliz em comemorar, dizendo que tudo havia sido um sonho, mas senti meu coração falhar brevemente em ver o apartamento de Li, e que eu havia dormido no sofá com um pote meio comido de pudim caído no carpete, junto com a tv ligada.
O som que tinha escutado anteriormente ainda soava, vindo de algum lugar do quarto. Corri tentando achar de onde vinha, mas me detive na frente do espelho branco. Tinha sido tudo real. Eu não havia voltado ao normal. O som do alarme me distraiu rapidamente, então voltei a procura-lo. Não era um despertador, era um celular que estava caído no chão. O celular do Li? Meu coração bateu descompassado quando vi meu número na tela. Ele estava me ligando do meu próprio telefone. Atendi, com medo do que poderia ouvir.
_Syaoran Li está atrasado 15 min para escola. – Disse a voz feminina extremamente irritada. Minha voz.
Deixei o celular cair com a realidade me acertando na cabeça. Havia deixado de ser Sakura Kinomoto e agora eu era oficialmente Syaoran Li. Eu era um garoto.
****
Li entrou em seu próprio apartamento, deixando a bolsa cair no chão, desacreditado. Ele olhava para seu quarto e depois para mim. O que eu poderia fazer? Quando ele ligou avisando – gritando na verdade – que eu estava atrasada, remexi em tudo para descobrir onde estavam suas roupas. Sai sem nem mesmo olhar no espelho, eu sabia que era impossível arrumar seus cabelos rebeldes.
_Eu havia dito que estava no cabide, dentro do guarda roupa – ele tremia de raiva.
O dia não havia sido fácil para nenhum de nós. Os professores não davam créditos para o Li, pois ele sempre foi orgulhoso, apesar das boas notas, os meninos trombavam com ele pelos corredores de proposito e muitas meninas me paravam para me paquerar. Eu estava recebendo toda essa carga.
Enquanto ele, já não aguentava mais os papos e conversas femininas sobre os garotos da escola, almoços compartilhados e trancinhas em meus cabelos. Quem lhe deu trabalho mesmo foi Tomoyo, que prestava atenção em cada detalhe e perguntava se ele se sentia bem. Por vezes, puxando-o para cima e para baixo.
_Enquanto não resolvemos esse assunto, precisamos estabelecer algumas regras – disse ele, recolhendo as roupas jogadas ao chão – precisamos nos organizar para que não haja contratempos. As pessoas não podem suspeitar, e assim, não prejudica nós dois.
Nos sentamos um de frente para o outro na mesa da cozinha. Cada um com os braços cruzados, sem estar dispostos a torcer ou a dar o braço.
_Muito bem, este corpo é seu e esse é meu – disse ele apontando para mim – cada um com suas vidas. Vamos viver do jeito que fazíamos como antigamente.
_Porém, continuaremos trocados, mas aos olhos dos outros, seremos Sakura e Syaoran de sempre. – Terminei sua fala.
_Se vamos viver assim, precisamos aprender um sobre o outro. Vivendo nos limites do outro, de acordo com as regras e condutas do outro.
Eu assenti. Pegamos uma folha de papel para anotar todos os tópicos, incluindo horários e anotações importantes, como alergias, gostos e preferencias. Repassaríamos e aprenderíamos nossas rotinas e cronogramas à risca.
Syaoran acordava cedo todos os dias e saia para correr, de fato, ele treinava kung fu, tomava banho e ia para a escola depois de preparar o próprio café da manhã. Ele mantinha uma boa alimentação para manter o corpo saudável.
_Eu não vou conseguir acordar tão cedo assim! – Exclamei com ele.
_Pelo menos acorde no horário!
Na escola, mantinha suas notas acima da média, pois sua família o cobrava diariamente. Suas notas não podiam cair, e isso era um problema, pois as minhas não eram tão boas. Ele não parecia o tipo de pessoa que se importava com isso, mas me surpreendi quando ele frisou que eu precisava permanecer a cima da média. Por dentro, não passava de um garoto metido e perfeitinho. Durante a escola, eu deveria me manter fora de todos os assuntos e fofocas, nada de amizades alheias ou antigas. Ralhei com ele, falando que isso não faria bem para a vida social dele, mas ele nem respondeu. Iriamos compartilhar a comida, Syaoran tinha meu pai para fazer seu almoço todos os dias, mas eu nunca fui uma donzela da cozinha. Ele traria o almoço e trocaríamos as marmitas. O Li viria para seu apartamento todos os dias para cozinhar. Imaginei ele com um belo avental rosa na cintura e contive a vontade de rir.
_Não vá se aproveitando enquanto está aqui, na mordomia e eu ralando duro.
_Mordomia? Eu sinto falta da minha casa, seu apartamento é frio e vazio, muito solitário – disse eu – quem está na mordomia é você, quem tem meu pai cozinhando todos os dias.
_E será você poderia ser um pouco mais organizada? Que quarto é aquele? Uma montanha caiu em minha cabeça quando eu abri os armários E aquele gato gordo deita por todo canto.
_Eu só sou uma pessoa ocupada – respondi em minha defesa – além do mais, deixa o Kero fora disso.
_Kero? O nome daquela coisa é Kero? Porque eu ainda me surpreendo? Outra coisa, pelo amor de Deus, não rebole enquanto anda!
_Hoe, eu ando normalmente!
_Não Sakura, você rebola! – afirmou ele.
_Como você saberia se eu rebolo ou não? Por acaso você fica olhando, é? – era impressão minha ou o rosto dele havia ficado vermelho.
_Cl..Claro que não, mas isso é uma coisa que toda garota faz, não?
_Não é como se fizéssemos isso por que queremos.
Minha vez de passar a rotina. Diferente do Li, eu sempre atrasava para escola, então sabia que não tinha que me preocupar com isso, pois ele acordava cedo. Fiquei meio envergonhada ao perceber que não tinha muito o que exigir em questão de afazeres. Fazíamos as mesmas aulas, mas as notas dele eram melhores, eu nunca chegava no horário, enquanto ele até saia para correr. Eu nem mesmo teria uma boa alimentação se não fosse por meu pai, já ele fazia a própria comida. Talvez, a garota mimada fosse eu. O cronograma do Li era sempre certinho e apertado, ele estudava, cozinhava e limpava tudo sozinho, sem ninguém como tutor. Além do mais, o japonês nem era sua língua de origem. Ele dava duro, no fundo, senti uma apatia por ele, talvez eu o julgasse muito mal.
Minhas únicas exigências, era que comparecesse aos ensaios de líder de torcida, um clube que sempre participei. Torcíamos quando havia competições de jogos da escola, campeonatos e apresentações. Parecia coisa de garota mimada mesmo, mas não me importava, dávamos um duro danado nas coreografias. Foi onde fiz muitas de minhas amizades.
_Você quer que eu use uma saia enquanto jogo um bastão para cima? Que coisa mais idiota!
_Não é só jogar o bastão, não fale assim do passa tempo dos outros – rebati – você também tem suas esquisitices.
Disse eu, apontando para as armas do guarda roupa, aquela apatia por ele tinha ido embora, ele não passava de um garoto com boca afiada.
Outro tópico importante da lista era a privacidade de cada um. Isso praticamente, não existia, pois não tinha como evitar de usar o banheiro e tomar banho – Além do mais, eu já havia tocado em partes que não gostaria, e teria pesadelos para o resto da vida – O trato foi que nenhum de nós olharíamos nossos corpos no espelho sem roupas, não tocaríamos em partes indesejadas ou passaríamos a mão em algum lugar indevido. Essa foi a única parte que tínhamos no acordo em comum.
_Só porque está com meu corpo, não vá inventando desculpas lavadas só para se aproveitar, viu! – disse eu para alerta-lo.
—você acha que eu sou o que? Além do mais, foi você que me tocou primeiro.
—Para de reclamar, não tem jeito, vai ser assim toda vez que eu for usar o banheiro. Tá com vergonha disso?
—Como você se sentiria se eu fosse tomar banho agora, tirasse seu sutiã e calcinha, sabendo que sou EU no seu corpo.
Não sei o que deu em mim para me sentir quente de repente. Um arrepio subiu pelas costas, onde geralmente fica o fecho do sutiã, e outro desceu pelas pernas, como se dedos invisíveis estivessem ali. Balancei a cabeça para tirar esses pensamentos.
—viu só? Então pare de falar de mim!
Um silencio constrangedor ficou na cozinha. Sabíamos que uma ora ou outra, isso não teria como evitar, ver o corpo do outro. Minhas bochechas ficaram vermelhas, mas de raiva, pois me perguntava porque uma coisa dessas estava acontecendo, e justamente com o Li. Eu não tinha coragem para mirar em meus próprios olhos. Me assustei quando ele levantou e caminhou até a pia.
_De qualquer forma, isso é temporário, uma hora ou outra vamos voltar ao normal. Vou fazer algo para comermos antes de voltar para sua casa.
_E você vai fazer o que? Sua geladeira está vazia!
_Não se preocupe, eu guardo o suficiente para mim, mas vou fazer compra amanhã. Assim, vai ter comida o suficiente para nos dois – disse ele abrindo a geladeira.
_Eu limpo sua casa então, não é justo comer da comida que você comprou. Estou apenas trocando favores.
_Idiota, seu pai cozinha muito, então também estou aproveitando muito be....Sakura!
Ele parou de pegar os ingredientes e temperos da geladeira, manteve a porta aberta enquanto encarava alguma coisa dentro. Eu apenas inclinei a cabeça, confusa.
_O motivo de eu conseguir manter uma dieta tão saudável é porque eu me reprimo de doces e outras coisas, mas tem horas, que não dá pra aguentar, então mantenho uma pequena reserva de doces na geladeira.
Senti o sangue gelar.
—Cadê meus pudins?
—Olha Syaoran – disse eu docemente, tentando acalmar a fera – vamos entender que eu não tinha muito o que comer ontem, eu estava com fome.
Ele caminhava em minha direção, de braços cruzados. Como seu corpo tinha uma altura maior que a minha, eu o olhava de um ângulo acima. Era ridículo eu ter medo de mim mesma, mas seu olhar feroz parecia de um tigre prestes a comer sua presa, mesmo com os meus olhos, ele ainda mantinha aquela característica de olhar penetrante.
—Vamos manter a calma, certo?
Seu olhar parou estático atrás de mim, olhei para trás para ver o que era e comecei a rezar por minha vida. Como a cozinha era aquelas do tipo americana, com uma bancada dividindo a cozinha e a sala, ela ligava para o quarto de Li, onde ficava a TV, e justamente onde, na última noite, eu dormi comendo o pudim do Li. O pote havia caído no chão, manchando o carpete com os restos que ficaram.
Li realmente agora parecia um demônio rei. Ele apenas olhava para mim, apertando os braços cruzados com força. Seu olhar parecia jogar mil facas invisíveis em mim.
—Eu vou limpar, juro – disse eu, sentindo o suor descer.
De alguma forma, eu sabia que seria um longo caminho pela frente.
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