Notas iniciais
Boa noite pessoal. Desculpa a demora imensa para postar o capítulo. Faz algum tempo que estou organizando alguns trabalhos,mas venho escrevendo a algum tempo. Espero que gostem. Boa Leitura!!!

(Syaoran) — Um dia de promessas

_Sakura, porque você está tão rígida?

Foi o que o pai de Sakura, Fujitaka, perguntou-me quando sentei à mesa de jantar. Não soube o que fazer no momento, apenas ri sem graça e cocei a cabeça. Apesar de já ter se passado uma semana, eu ainda não estava habituado a essa nova vida. Não pretendia me habituar, na verdade, iria voltar a ser eu logo.

Estranhava o quanto Sr. Fujitaka era atencioso. Ele colocou meu prato na mesa, e sorriu docemente, fazendo-me perguntar se ele sabia que eu não era sua filha Sakura.

—Não vai comer? – perguntou ele.

—Não temos que esperar... Esperar meu irmão? – era a primeira vez que eu chamava o irmão de Sakura de “meu irmão”. Isso era totalmente desconfortável. Sr. Fujitaka apenas riu.

—Ora, você nunca foi tão educada assim a mesa, apenas coma!

—Sim senhor... Digo, pai! Papai! – Também nunca havia chamado ninguém de pai antes.

Não podia deixar de me sentir incomodado, a família de Sakura era atenciosa demais. Na china, comíamos somente quando estávamos todos postos a mesa, aguardando a presença do líder dos Lis, que autorizava-nos a comer. Eu precisava me manter quieto até lá, com as mãos ao colo, sem fazer um pio. Mas aqui, mesmo durante o jantar, cada um deles ria a vontade e contavam como foram suas rotinas, não existia aquele silencio mórbido que sempre ficava no ambiente.

Eu estava fascinado.

Em um dia que cheguei em casa, o pai de Sakura me chamou para a cozinha. Ele estava com um avental rosa preso em sua cintura, segurando uma colher cheia de massa de bolo e uma bacia nos braços.

—Quer me ajudar a cozinhar?

Novamente, eu não sabia dizer se era para Sakura ou para mim que ele perguntava. Vendo uma figura de pai tão estranha e fascinante daquele jeito, como eu poderia dizer não? Nunca havia recebido tantos elogios de uma pessoa só, muita pelo contrario, apenas viravam o rosto dizendo ”poderia ter sido melhor”. Quando Fujitaka afagava minha cabeça, bagunçando meus cabelos, me sentia terrivelmente triste, pois não era meu nome que eu escutava.

—Bom trabalho, Sakura.

Eu estava com ciúmes.

Tentei não me apegar muito a esse sentimento de família feliz, sabia que era tudo falso, pois não eram a mim que eles falavam diretamente, e que logo eu voltaria a meu antigo eu. Havia outros problemas para me preocupar. Por algum motivo, fiquei habituado ao corpo de Sakura. Desde que eu não me encarasse ao espelho, sentia como se fosse meu – admito que por vezes ficava de frente ao vaso sanitário em pé, como de costume – por sorte, Sakura até que era bem atlética. Era fácil correr com ela, porém, não usava mais seus patins, já que nunca aprendi a andar. Tenho certeza que seu irmão percebeu.

_Você esta estranha! – disse ele para mim. Ele me encarava toda vez que me via, como se soubesse que era outra pessoa.

No entanto, a hora do banho eram as piores. Não tinha como não olhar para meu novo corpo. Eu ainda era um homem por dentro, não tinha como negar, o corpo de Sakura era lindo.

Depois de um banho, sentindo-me incrivelmente culpado, fiquei em frente ao espelho e deixei a toalha cair. Minha mente já não estava mais em mim, e as regras que havíamos feito foram para o espaço. Encarava cada curva daquele corpo esbelto e delicado, com seios macios e cintura bem curvada. Eu queria tocar, mas não poderia fazer isso com ela. Aquele corpo não me pertencia.

Pelo menos, não precisava ficar com consciência pesada sobre as regras, afinal, Sakura também não se lembrava delas. Syaoran Li nunca foi tão popular em toda sua vida, e eu devia isso exclusivamente a Sakura. Ela estava fazendo totalmente o oposto de mim, sendo... bem...ela mesma.

—E ai, Syaoran!

—Bom dia, Syaoran!

—Syaoran, tem um cigarro?

Por onde eu passava as pessoas falavam alguma coisa, como se já fossemos colegas. Assim como nas outras vezes, arrastei Sakura para a sala de musica vazia e fechei a porta.

_Porque aquele cara me perguntou se eu tinha um cigarro? – disse eu quase explodindo – alias, porque todo mundo esta me chamando pelo primeiro nome? Desde quando eu fiquei tão legal assim?

—Você não é o delinquente juvenil da escola? É normal às pessoas acharem que você fuma, eles até acham que você é líder de uma gangue.

—Eu não fumo! E não sou líder de gangue nenhuma. – disse eu entre dentes.

—Ei, relaxa, eu não tenho nada a ver com isso, essa foi à impressão que você deixou.

—Mas as pessoas não eram tão simpáticas!

—Você esta se socializando, isso é uma coisa boa, não é?

—Sakura, eu não quero me socializar, quero ser apenas eu mesmo, literalmente – como aquela era uma mulherzinha teimosa – mas tudo bem, se é assim...eu vou agir mais como eu mesmo...

Abri o colarinho de minha camiseta, o suficiente para ver a entrada de seus seios, sentei-me em uma das cadeiras e coloquei os pés para cima, sabendo que estava mostrando a ela uma visão privilegiada de sua calcinha.

—Esta bem, tudo bem – disse ela, exasperada – acho que podemos rever meu comportamento masculino.

—Por favor!

Na hora do intervalo, depois de entregar o almoço de Sakura, feito por seu pai, para a verdadeira Sakura, resolvi comprar algumas coisas na cantina. Era sempre uma batalha árdua, pois eu era baixinho em comparação aos outros, nunca conseguia sequer enxergar a tia do lanche. Antes que eu me desse conta, alguém havia agarrado meu pulso, me puxando para trás da escola.

Era Kamui novamente.

Corri dele a semana inteira, mas ele era mais grudento do que chiclete, como Sakura conseguia aguentar um cara assim? Eu já estava cansado daquele nariz empinado correndo atrás de mim toda vez que eu passava no corredor.

—Eu estou esperando a um bom tempo, sabe! Queria saber quando você pode me dar sua resposta.

Era irritante estar envolvido nesse assunto, não era como se eu pudesse dar um fora nele – pode apostar que eu daria – já que eu não sabia quais eram os sentimentos de Sakura por esse cara. Tínhamos que resolver logo essa questão, pois isso já estava me incomodando, e se ele tentasse me beijar?

—Olha, estou bem envolvida na produção do festival cultural, você já viu com quem estou trabalhando? – achei que ele me daria um desconto por conhecer minha reputação.

—Acho que esta envolvida até demais, Sakura! As pessoas estão comentando sobre o tempo que vocês passam na sala de musica. Vocês estão sempre juntos.

Eu me engasguei mesmo sentindo a garganta seca, não acreditando no que estava escutando. Não é como se tivéssemos escolhas, pois tínhamos que relatar tudo um ao outro antes que nossas vidas fossem por agua a baixo por conta das escolhas erradas. Imagina Sakura ficar rebolando pelos corredores no meu corpo?

—Quero dizer, antes vocês não podiam passar pelo mesmo corredor sem bater de frente um com o outro, mas agora ficam presos em todos os cantos, cochichando e mandando olhares estranhos um para o outro. É obvio que esta rolando alguma coisa, você gosta dele?

—NÃO...quero dizer, estamos trabalhando nosso relacionamento para não termos problemas depois, por isso conversamos bastante, mas eu não gosto do Syaoran! Quero dizer, é o Syaoran! – eu não acreditava que estava rebaixando minha própria pessoa, mas o que poderia dizer para esse cara largar do meu pé? A hora do almoço estava acabando.

—Então porque não saímos juntos na hora de ir embora?

—Eu tenho que ficar depois da aula.

—Com o Syaoran...de novo.

—Sabe como é, festival cultural – disse eu, correndo antes que ele me encurralasse novamente.

Fiquei grudado em Tomoyo o restante das aulas, tentando não olhar para Sakura, atento nas conversas para descobrir se realmente havia alguma historia sobre nós. Mas a nanica parecia um cachorro abandonado, vendo todas suas amigas conversando e eu fazendo parte delas. Ela não fazia ideia de como eu gostaria de estar em outro lugar.

Após as aulas, mandei um olhar para a nanica que ela entendeu. Iriamos esperar todo mundo sair.

—É muito difícil ser você Li. – disse ela mais uma vez aquela semana – muitos garotos me odeiam e eu nem sei por quê. Você não se da bem com ninguém.

—Me desculpe por você ser eu! – disse com ironia. – precisamos dar inicio ao planejamento do festival, as pessoas estão comentando. Precisamos mostrar trabalho.

—Eu não tenho cabeça para pensar em nada agora, precisamos resolver essa historia primeiro.

—Não temos escolha Sakura! Prometemos viver a vida um do outro até tudo se normalizar, você tem que ter paciência.

Ela ficou quieta. Sabia que estaria pronta para chorar mais uma vez, foi assim a semana inteira. Eu e Sakura éramos pessoas totalmente diferentes, a popular e o antissocial, a líder de torcida e o entregador de garrafa, a burra e o inteligente. Agora, eu tinha amigos e ela não. Dei um desconto para ela, sentando-me virado para a janela, sabia que ela estava se sentindo sozinha, e a única pessoa para contar era eu, a melhor pessoa da terra.

Dei uma batida em suas costas, lhe confortando.

—Vai dar tudo certo, você vai ver – que palavras eu poderia dizer para uma garota solitária no corpo de um garoto? – o festival vai te distrair um pouco, e quando você menos perceber, voltaremos ao normal.

Ela fungou e riu um pouco.

—Eu não estou chorando!

—Eu sei...e isso é extremamente gay! – disse eu, fazendo ela rir novamente. Me senti um pouco aliviado.

—É a primeira vez que você esta sendo legal comigo.

—é porque agora, no momento, só podemos contar um com o outro, de que vale a pena brigar agora?

Ela não respondeu. Encarou o por do sol pela janela por um momento e depois se levantou, se espreguiçando.

—Muito bem, então vamos começar a trabalhar. Primeiramente, temos que começar o ensaio!

—O que?

—Eu sempre lidero a equipe de torcida na apresentação de show de talentos, e dessa vez, é você quem vai liderar, porque você sou eu! – eu devia estar fazendo uma careta bem engraçada, pois ela começou a rir do nada – não foi você que falou que temos que viver a vida um do outro? E que o festival cultural pode nos distrair um pouco? Essa é a chance perfeita.

—Nem pensar!

—Vai ficar lindo de uniforme de torcida.

Acho que era eu que precisava de consolo.

O restante da tarde, nós preparávamos para assumir nossos papeis perfeitamente em frente à sala de aula. Teríamos que pedir a opinião dos alunos e montar uma exposição temática juntamente com a sala, considerando os votos unanimes. Nos últimos tempos, havíamos feito um café cosplay e uma peça de teatro... e eu sempre havia ficado de fora...mas agora os papeis estavam invertidos, eu teria que mostrar participação querendo ou não. Será que eu conseguiria imaginar eu fazendo um discurso em frente ao clã Li? Acho que seria mais fácil.

Anotei todas as ideias de Sakura, discutimos quem da sala poderia ser eficiente com organização e quem não se importaria de ficar com a parte da limpeza. Montaríamos a equipe de compras de materiais e as de construção. Talvez o festival desse mesmo uma aliviada para nos dois, pois em nenhum momento entramos em briga e discutimos como fazíamos de costumes.

Isso até eu chegar em casa e ver a festa que Sakura tinha dado sozinha em meu apartamento.

—Você comeu meus pudins novamente!

—É que eu fico muito sozinha – riu ela.

—Que menina engraçadinha – disse eu ironicamente – é você que vai limpar tudo isso. Eu vou preparar a janta.

—Sim pai!

Aquele famoso clima mórbido também desaparecia quando eu estava perto de Sakura, e dessa vez, me sentia bem, pois eu estava sendo apenas eu mesmo.

****

No dia seguinte, eu pude sentir a tensão se espalhar assim que eu e Sakura entramos na sala. Era o dia de decidirmos nossas atividades culturais. Precisávamos ficar de frente a sala, pela primeira vez encenaríamos na frente de tanta gente.

Tínhamos ensaiado a noite toda. Sakura estava nervosa, ela não tinha se saído muito bem sucedida, por isso, estava um pouco preocupado. Quanto a mim, tinha que mostrar empolgação, afinal, todos sabiam que esse era um dos eventos favoritos de Sakura. Eu também não havia me saído muito bem.

Criamos uma boa técnica para caso um de nos começar a fazer algo errado. Ficaríamos próximos um do outro, avisando com sinais por baixo da mesa do professor.

Quando fomos chamados à frente, caminhamos tentando mostrar tranquilidade, mas eu sabia que minhas pernas estavam tão bambas que eu poderia cair a qualquer momento. Rezei para que Sakura também não tropeçasse.

Os olhos de todos estavam voltados a nós. Eles pareciam tensos, mas era de se esperar. Sakura e Syaoran estavam um ao lado do outro sem iniciar uma discussão, tenho certeza que eles esperavam que um de nós explodisse a qualquer momento.

Senti o suor descer pela testa, engolindo em seco. Não era a mesma coisa que fazer um discurso para o clã Li. Eu havia sido preparado à vida toda para isso, então porque eu estava me sentindo tão nervoso? Sakura me deu uma cotovelada.

—Muito bem...pessoal...hora de fazermos os preparativos para o festival cultural. Somente para relembrar, ficamos em 7° lugar no ano passado com o café cosplay, mas perdemos posição em questão de trabalho em equipe....

Por baixo da mesa, senti Sakura puxar a borda de minha blusa, era sinal de que eu estava fazendo algo errado. Comecei a me perder em minhas próprias palavras, enroscando a ordem das ideias.

—Bom,,,Precisamos iniciar a elaboração de projetos para não ficarmos atrás nas outras salas. As melhores ideias de roteiros, como casas assombradas, teatros, cafés e outras coisas sempre são escolh...Ahhhhh

Sakura beliscou a lateral de minha perna, se ela estava tentando apenas puxar a roupa para avisar, deveria ter cortado as unhas antes. Olhei para ela, que balançava a cabeça levemente e depois apontava para a sala. Todos estavam meio assustados, o motivo eu não sabia dizer!

Eu tinha começado alguma coisa errada ou esquecido de algo? Não conseguia entender o motivo de ela estar tão agitada. Olhei para minhas próprias roupas, tentando ver se havia esquecido o colarinho aberto.

_Nós deveríamos fazer o melhor projeto, para ganharmos das outras salas.- disse Sakura – espero que todos ajudem e se divirtam bastante. Vamos fazer alguma coisa bem legal e emocionante, já que é nosso ultimo festival.

Não tinha entendido o porquê da interrupção. Ela segurou meu braço e me puxou para perto, falando em meu ouvido.

—Você esta usando palavras muito complexas. Está muito sério! Tem que mostrar empolgação.

—Você me beliscou só por isso? Doeu! – disse eu sussurrando – bem, você também esta assustando eles, eu não sou empolgado assim.

—Cala boca.

Viramos novamente para a sala, todos em silencio, espantados. Eu segurava o braço de Sakura e ela segurava o meu. Eu a beliscava por baixo da mesa como vingança.

—Bem, alguém tem alguma ideia legal do que poderíamos fazer esse ano? – disse eu dando um riso forçado.

****

—Uma peça de teatro? Sério que você apoiou isso? Seria legal uma casa mal assombrada ou um café, peças são tão sem graça!

—Não reclama não. Você não é o príncipe!

Eu coloquei dois pratos a mesa e sentamos um de frente pro outro. A sala havia escolhido uma peça para o festival, todos concordaram com a bela adormecida, e realizamos um sorteio para os personagens. Sakura pegou o papel do príncipe. Os alunos que não foram sorteados trabalhariam em barracas de comida e bebida. Eu era um deles por sorte.

Viemos para minha casa e eu fiz um jantar para nós dois, após ter feito Sakura arrumar todo o apartamento novamente.

—De certa forma, eu sou sim! – disse pensando nas trocas de corpos – minha reputação vai para o espaço. Syaoran Li, como príncipe encantado.

—É mais fácil você assustar a princesa – disse ela rindo – e sua reputação nunca existiu, eu estou fazendo ela para você agora.

—Eu mereço!

—Amanha começaremos os ensaios.

—Do que?

—Das líderes de torcida! Você tem que aprender a coreografia para o festival.

—Achei que você estava brincando!

—Eu tenho que participar, já que sou a líder. Mas, se você não quiser fazer, eu vou assim mesmo. – comentou ela dando uma garfada boa na comida – você já esta com a reputação no fundo do poço mesmo, como você falou.

—Quando voltarmos ao normal, eu faço questão de nunca mais ver a sua cara.

—Um brinde a isso.

Levantamos os copos e brindamos nossas promessas.

Notas finais
é isso pessoal,até próxima. Prometo não demorar como antes.