rEVERSE - O conto da primeira estrela

7 Pela nossa imagem, mas eu não vou usar...


Notas iniciais
Mil perdoes para os leitores que estão acompanhando. A faculdade estava passando muitos trabalhos e eu tinha que me concetrar totalmente neles, foram noites sem dormir. Mas aqui está mais um capítulo. Prometo não demorar no próximo. Boa Leitura!

(Syaoran) – Pela nossa imagem, mas eu não vou usar.....

O céu estava claro e limpo aquele dia. O bastão voou tão alto que vi perfeitamente o momento em que minha mão o alcançou. No entanto, eu não tirava os olhos de Sakura, pois sua cara de abismada me fazia rir.

Havíamos começado os malditos treinamentos de líderes de torcida. A apresentação seria no início da outra semana, e eu teria que usar uma roupinha muito curta e ridícula. Ainda bem que minha família estava na China.

_você tem que se movimentar mais – disse ela, ameaçadoramente com o outro bastão na mão – gira muito bem para um garoto, mas tem que mostrar mais coreografia.

Ela fez uns movimentos de arco com os braços, jogando os pés de um lado para o outro de uma forma que nunca entenderia. Eu me dava bem com o bastão por conta de meus treinos de artes marciais, mas com a dança, parecia que eu tinha nascido com dois pés esquerdos.

—Sakura! As pessoas estão vendo você! – Reclamei – isso é ridículo.

—Eu não me importo com que as pessoas pensam – disse ela, repetindo os mesmos passos de dança – você está indo bem, só falta mais molejo.

—Voce não se importa, mas eu sim, afinal é Syaoran Li que está fazendo esses passos, não você! Eu quero meu corpo!

Para me provocar ela colocou as mãos na cintura e dançou, girando de um lado para o outro. Eu ia bater seriamente nessa garota. Só para garantir, peguei o bastão e ataquei o a poucos centímetros dela, assustando-a e fazendo-a rir.

Me deitei na grama com as mãos na cabeça. Estava cansado de toda essa correria. Havíamos feito reuniões em sala de aula, separando e organizando as responsabilidades de todos, recolhemos o dinheiro para as compras de materiais, e agora ainda mais essas aulas idiotas de meninas que eu tinha que aturar. Tinha saudades de sair para treinar, estava correndo o risco de ficar enferrujado, não podia me dar o luxo de sair para correr na presença do irmão de Sakura, ela era quase uma sedentária, e ele já me olhava feio, imaginando que eu estava passando pela puberdade. Não que Sakura já não tenha passado, é só olhar para o corpo dela para descobrir. De qualquer forma, por conta da rotina ocupada, quase esquecemos os problemas um do outro. Quase.

Em minha cabeça ainda havia um grande galo por conta do empurrão que Sakura me deu. Ela estava duas vezes mais forte com meu corpo, me pegando desprevenido. A tensão entre nós havia desaparecido, mas eu ainda estava tomando cuidado para não a deixar mais abalada do que já estava. Tentava envolve-la nas conversas dos outros, mas meu eu antigo dava medo às pessoas. Será que isso é um carma meu?

Sentia uma culpa interna gigantesca por conta dessa garota. De fato, como ela havia dito, eu estava aproveitando um pouco. As pessoas conversavam comigo por vontade própria, eu tinha pais amorosos e estava livre de uma responsabilidade gigantesca em meus ombros, eu não era mais herdeiro do clã Li. Mas Sakura estava endoidando, desde o começo, eu sabia que seria muito a aguentar. Por isso, sentia uma necessidade estranha de protegê-la e ficar a seu lado, fazendo o possível para devolver sua vida de volta. Jamais a deixaria carregar esse meu fardo em suas costas.

Ainda estava impressionado de como o céu estava bonito. Como estávamos alguns minutos antes das aulas, tudo estava silencioso e tranquilo. Fechei os olhos, esquecendo por um momento que estava em uma confusão sem respostas. Como estariam as estrelas hoje à noite?

Um bastão voou alto e atingiu minha cabeça, respondendo a minha pergunta quanto a ver as estrelas. Levantei com as mãos na testa, olhando para a autora do crime. Ela se preparou para correr, mas eu não ia deixar escapar tão facilmente. Em um minuto, derrubei-a em uma rasteira de costas e sentei em cima, fazendo peso para não ela não sair – era mais forte do que eu afinal – com o bastão que ela derrubou em mim, brinquei, ameaçando bater em sua cabeça.

Depois de quase engasgar de rir, Sakura pediu tempo.

—Sério, como você faz isso? Seu corpo é duas vezes maior que o meu, e mesmo assim você conseguiu me derrubar.

—é só uma questão de técnica – disse, brincando com o bastão em minhas mãos – o tamanho da pessoa não importa.

—Como você fez com o presidente do conselho de classe?

—Moleza, você tem que aprender a se defender Sakura, eu nunca fugi de uma luta, eles sabem disso e ainda vão correr atrás de você – disse eu, me perguntando porque não houve nenhum chamado a direção após todo o ocorrido.

—Então me ensine!

Olhei diretamente para ela, encarando seus olhos. Ajudei ela a se levantar e coloquei as mãos na cintura. Que tipo de movimento poderia ser eficaz a todo o momento, mas simples, para Sakura aprender?

—Muito bem, vou ensinar três pontos fracos que você pode atacar em qualquer pessoa, ainda mais se for maior que você.

Ela assentiu e fechou as mãos em punho, como se fosse começar a lutar.

—No seu caso, não precisa se preparar dessa forma – disse eu, abaixando dos braços dela — Eles não precisam saber que você está disposta a lutar também. Apenas fique alerta.

Toquei levemente do pescoço de Sakura e no estomago, um pouco abaixo das costelas.

—Pescoço e diafragma! São extremamente sensíveis, qualquer toque com pressão nesses pontos irá deixar uma pessoa tossindo ou sem ar. Você não precisa socar forte, mas tem que ser concentrado.

Dei um leve empurrão em Sakura, exatamente no ponto do diafragma que mencionei. Ela andou alguns passos para trás e caiu tossindo, surpresa. Abaixei para ficar a sua altura.

— O terceiro ponto você já conhece. – Soquei em direção as pernas abertas de Sakura, sem realmente acerta-la. Eu não seria louco disso – para você que é uma garota, isso é novidade, mas um chute bem aqui realmente dói, derruba qualquer um. Nenhum garoto vai se atrever a chutar você ai, é uma questão de honra entre homens, considerado covardia, mas como eu falei, você é uma garota, então é mais que justo. Mas por favor, a qualquer custo, evite ser acertada aqui, não é só você que vai sentir.

Ela olhava curiosa para mim, ainda na mesma posição em que caiu.

—Que foi?

—Como aprendeu tudo isso?

—Minha família, sendo chinesa, domina as artes marciais.

—Quer dizer que toda a sua família luta? Que incrível. E eu implicava com você todos os dias.

Achei melhor evitar de mencionar que todos lutavam pois éramos o clã mais famoso da China, e que eu era forçado a um treinamento rigoroso todos os dias, com pauladas de madeira se desobedecesse às regras.

—Pois é, o que uma nanica como você poderia fazer, né?

—Ora seu...

Ela avançou em mim, colocando o pé atrás do meu e usando as mãos para empurrar meus ombros para trás. Eu poderia facilmente derruba-la de volta, mas por algum motivo, quis deixar ela me derrubar. Era interessante quando ela ficava irritada e engraçada quando ficava convencida.

O sinal bateu e fomos para a sala juntos. As pessoas estavam comentando bastante sobre nós, mas como Sakura havia dito, o que era uma gota de água para quem já estava molhado? Não importava mais o que eles falavam. Eu e Sakura éramos amigos agora, e tínhamos problemas maiores para nos preocuparmos.

Na porta da sala, vi Tomoyo olhando de longe para mim e voltando seu olhar para “Syaoran”. Eu estava em sérios apuros quanto a Tomoyo. Nos últimos meses que se passaram, descobri que Tomoyo não era como as outras garotas esquisitas e irritantes, ela tinha dialogo para qualquer coisa. Era a garota mais inteligente da escola. Por esse motivo, eu estava enrascado, pois assim como o irmão de Sakura, para a Daidouji também não descia minha atuação. Eu também estava começando a me sentir culpado pela garota, pois tinha pegado simpatia por ela.

Olhei para Sakura, que estava fazendo uma cara triste e desviando o olhar. Era muito obvio, eu tinha certeza que se Tomoyo fosse perguntar, ela faria a pergunta certa. Me senti culpado novamente por algum motivo, como se tudo isso fosse culpa minha. Teria que resolver esse assunto logo. Ela conhecendo Sakura como ninguém, o que aconteceria se colocássemos ela, Sakura e eu em uma mesma sala?

****

Na hora do intervalo – que eu havia deixado de passar com as amigas de Sakura, inventado uma desculpa sobre o festival cultural, e infelizmente, isso incluía Tomoyo também – eu andava com alguns lanches nos braços, pois agora alimentava duas bocas e minha mesada estava indo embora. No corredor, avistei a pessoa que eu menos queria ver naquele dia. Kamui conversava com algumas garotas, apoiado em seu próprio armário, enquanto fazia elas rirem, colocando o cabelo para trás das orelhas delicadamente. Clássico sinal entre as meninas, que estavam começando a se apaixonar por Kamui. Senti uma certa pontada de raiva subir, porque ele ficava em cima de Sakura se paparicava outras garotas na cara dura? Tinha que lembrar de não falar mais mal de Sakura, ela não era tão fácil assim quanto eu imaginava.

Ele percebeu que eu o encarava com uma careta no rosto, veio andando até mim, me cercando antes que eu conseguisse fugir. Provavelmente, imaginando que eu estaria com ciúmes, e não que minha cara era de nojo. Eu não sabia se sentia pena de mim ou de Sakura.

—Não precisa ficar com ciúmes, meu bem. – disse ele com a mão em meu queixo, eu tinha certeza que agora minha cara estava azeda – Depois da escola! Quero conversar! Você me não escapa!

Estava de saco cheio desse cara. Tive que me segurar para não atacar meus lanches em sua cabeça, mas seria desperdício de dinheiro e comida.

—Kamui, eu já falei, não é uma boa hora agora!

—Voce já me deixou esperando por muito tempo Sakura, e eu não aceito não como resposta. Quero te mostrar o que é estar com um homem de verdade.

Essa foi a gota dágua. Ele podia estar falando mal de mim, mas eu não ia deixar esse cara pensar que Sakura ficava com quer um. Eu estava pronto para largar tudo e socar a cara perfeita do zé mané, mas já poderia ter trazido problemas o suficiente para Sakura com a brica anterior, seria mais uma pedra num saco de areia de problemas.

Dei uma ombrada em kamui, quase caindo ao invés de empurra-lo, mas saindo com orgulho. Tinha que me livrar desse cara.

—Sakura, estramos encrencados! – disse eu entrando na sala, assustando-a. Peguei-a em flagrante, olhando dentro da blusa que estava vestindo, ela pulou do lugar e tratou-se de se movimentar, para fingir que não estava fazendo nada. Mas eu estava tão afoito que deixei para lá.

Estávamos novamente na sala de música, havia virado nosso recanto, mas ultimamente, percebi que havia mais pessoas passando em frente, espiando pela porta, conferindo para ver se os boatos eram verdadeiros. Aprendemos a falar mais baixo depois de algum tempo.

—Kamui não para de te seguir – digo irritado – sério, ele está enchendo o saco!

—Ele tem seus probleminhas, mas não é de todo mal!

—Não é de todo mal? – Perguntei abismado – por acaso gosta dele?

—E você por acaso está com ciúmes? – Disse ela rindo.

Não tinha pensado nessa hipótese, mas senti o rosto esquentar quando ela falou. Tossi para limpar a garganta e não gaguejar com as palavras. Não era ciúmes!

—Não é ciúmes, mas ele está tentando te beijar, fica passando a mão em mim como se eu fosse uma garota. Isso não é legal, não é você que vai sentir.

Ela suspira e pega um dos lanches que eu trouxe, por um momento, diria que ficou decepcionada. Enquanto mordia um pedaço, sem me encarar, ela diz.

—Então saia com ele!

Eu não sabia se tinha ouvido direito. Senti a raiva subir, pois achava que Sakura havia esquecido um pequeno detalhe sobre mim extremamente importante. Andei até ela, roubei seu pão e coloquei meus braços na lateral de sua cabeça, minhas mãos bateram nas teclas do piano com força, era a primeira vez que notas tão bruscas saiam de minhas mãos.

—Acho que você esqueceu que eu também sou homem!

Ela sabia que eu estava sério. Tinha ficado extremamente irritado, pois sentia meu orgulho ferido. Meu rosto estava tão perto dela que podia sentir seu hálito. Era como dar uma bronca em mim mesmo. Sakura gaguejou algumas palavras que não saíram de início, mas logo se apressou de explicar.

—Não é isso, você não entendeu. O melhor método de alguém parar de gostar de você é sair com ela para que a realidade caia de uma vez. É só você ir a um encontro com Kamui e agir exatamente como antigamente. Seja Syaoran Li.

Pisquei perplexo, surpreso por ela pensar em um plano assim. Não achei a ideia ruim, na verdade, era perfeito.

****

Tudo bem, nem tudo era perfeito. Sakura me fez acordar cedo, dizendo que me ajudaria sob a regra de que eu faria tudo o que ela mandasse sem questionar. Colocou uma carta escrita por ela mesma no armário de Kamui, explicando a situação e pedindo um último prazo até o dia seguinte, para que eu pudesse “preparar meus sentimentos”. Ainda bem que ela não me deixou ler, pois teria jogado fora no mesmo instante.

Falei que eu mesmo escolheria uma roupa para usar, peguei as mais largas do meu guarda roupa, desta vez, meu próprio guarda roupa mesmo. Era muito bom vestir minhas próprias, mesmo que estas ficassem extremamente largas.

—E se alguém da escola ver você? – Perguntou Sakura sentada no sofá enquanto me observava me trocar, não tínhamos mais problemas com isso, afinal o corpo era dela mesmo, no entanto, ela não permitia eu fazer isso em frente ao espelho.

—Foi ideia sua, agir como o próprio Syaoran Li.

—Eu sei – disse ela, desviando o olhar – mas quem vai ficar com a imagem ruim será eu, e Kamui é o tipo de pessoa meio vingativa. Ele vai espalhar por toda a escola falando mal de minha pessoa.

Imaginava isso. Uma de nossas regras é que nenhuma das duas partes iria prejudicar a imagem do outro. Ela colocou as mãos entre as pernas, apertando-as com os joelhos, mas eu não conseguia leva-la a sério, não quando estava vendo uma versão feminina minha ficar retraída. Meu deus, tínhamos que destrocar logo nossos corpos.

—Sakura, estou fazendo isso por você, ele vai ficar na sua cola o tempo todo. O que acha que ele vai fazer quando você estiver sozinha com ele? – Disse eu, repreendendo-a – ele é do tipo que te leva para cama primeiro e pergunta depois.

—Não diria que é por mim que você está fazendo isso – ela riu baixinho.

—Ah é? E quando voltarmos ao normal?

Ela ficou em silencio, consentindo com a cabeça. Tentando parecer despreocupada, esfregou o braço e coçou os cabeços na nuca. Um gesto bem parecido com o que eu fazia antigamente.

—É que, assim como você não gostou de eu estar dançando, pois não queria ser ridicularizado na escola, eu também não quero parecer desleixada e não conseguir mais arrumar ninguém.

—você não precisa se preocupar com isso, mesmo que Kamui fale mal de você, não tem não se ap....quero dizer – disse eu sacudindo a cabeça antes que dissesse algo que não devia – sempre vão haver garotos por aí para gostarem de você.

Por um momento rápido, nossos olhos se encontraram e por eles passou-se alguma coisa, algo que eu não entendi, mas me deixou com muita vergonha. Desviei o olhar e tentei trocar de assunto.

— Por agora, me ajude com isso, então – disse eu tentando mudar de assunto — não podemos deixar que Kamui ou eu destrua sua imagem, não é?

—Bem, precisamos de algumas roupas minhas! – Disse ela, levantando animada.

****

—Syaoran, eu não sei se isso é uma boa ideia – disse ela, hesitando enquanto eu a puxava pelo braço em direção a porta de sua própria casa.

—Sakura, eu nunca conseguiria pegar as coisas que você pediu, eu nem sei o que é um corretivo de rosto ou delineador. Além do mais, você estava com saudades de sua família, certo? É uma boa hora para vê-los, vou apresentar você como um amigo da escola.

Depois de algum tempo, nós nos tocamos que Sakura não tinha nenhuma roupa feminina que pudesse me emprestar para ir a um encontro. A única maneira era passar em sua própria casa para que pudéssemos pegar o que fosse necessário, mas havia um empasse, e ele se chamava Sakura.

—Eu nunca trouxe um garoto para casa, eles vão pensar besteiras.

—Vamos estudar para a prova de geometria, já que suas notas estão horríveis.

—As suas notas estão horríveis, as minhas estão impecáveis.

—Porque fui eu que fiz suas provas.

—Mas eles não sabem disso, além do mais, meu irmão é muito desconfiado, ele vai vigiar a gente o tempo inteiro.

—Então para fim de conversa você é meu namorado.

Antes que ela tivesse chance de dizer mais alguma coisa, eu a empurrei porta a dentro, fazendo-a trombar de cara o irmão mais velho. Péssima primeira impressão de minha pessoa, pois Touya olhou torto para Sakura, como se ela fosse um parasita invadindo sua casa. Ele cruzou os braços, bufou e olhou para mim.

—Quem é esse garoto?

Minha relação com o irmão de Sakura, desde que nos trocamos de lugar, nunca foi boa para início de conversa. Ele estranhava meus atos, como se não reconhecesse mais a irmã, e agora eu trazia um estranho para sua casa. Quando voltássemos ao normal, nunca mais iria poder cruzar o caminho desse cara novamente.

—Este é Syaoran Li. Ele veio me ajudar para as provas de geometria, estou um pouco perdida na matéria – o recurso de namorado falso era minha última e pior cartada. Touya deveria saber que Sakura era ruim nos estudos, então talvez eu não devesse me preocupar.

Esperei para ver sua reação, mas aquele cara era impagável. Ele apenas estreitou os olhos e apertou os braços que ainda estavam cruzados. Belisquei Sakura – uma regrinha nossa de “Se toca, olha o que você está fazendo” – para que ela se apresentasse normalmente, pois estava deixando o Syaoran Li com fama de mal-educado.

—B..Boa Tarde, sou Syaoran Li. Sou estudante de intercambio da China, obrigada pela hospitalidade. A casa é muito bonita, desculpe incomodar – ela começou a falar como se fosse um robô e sua placa mãe tivesse dado defeito, pois não parava de fazer o cumprimento tradicional de se curvar levemente. Segurei seus ombros antes que ela acabasse perdendo o controle e passasse por maluca.

—Nós vamos subir para nos concentrarmos melhor – disse eu já a empurrando, mas tratei de gritar antes, deixando ainda mais suspeitas – não estaremos fazendo nada de errado.

Sakura ganhou vida e entrou correndo em seu quarto, olhando em todas as direções e passando a mão em todos os moveis. Ela olhou para a cama e se jogou, dentando-se no colchão e travesseiro que antes eram seus.

—Se eles virem você assim, com certeza as coisas vão ficar feias para o nosso lado.

—É que estive com tanta saudade das minhas coisas – ela abraçou o travesseiro e ficou rolando na cama, como se não dormisse há muito tempo.

—Faça menos barulho, ou seu irmão vai subir.

E assim, ela levantou e ficou ereta, como se sua cama estivesse pegando fogo. Antes que eu pudesse perguntar, ela mandou trancar a porta enquanto ia até seu próprio armário e retirava algumas roupas conjuntas que eu nunca cheguei a mexer. Uma saia rodada vermelha e uma blusa meio bufante em tons beges dourados.

Pegou uma jaqueta jeans e montou tudo em cima da cama. Retirou um par de sapatos não muito altos e colocou em baixo, no chão. Abriu todas as gavetas que aquele quarto poderia ter e retirou um monte de utensílios que para mim eram inúteis. Com as mãos na cintura, ela olhou para mim e riu com gosto.

—Isso vai ser a melhor experiência de minha vida, vamos lá, trate de tirar essas roupas.

Como homem, senti meu orgulho murchar e apodrecer. Ele foi arrancado de mim e enterrado a sete palmos do chão. Eu poderia morrer, mas ninguém nunca arrancaria de mim o fato de que Sakura me obrigou a usar uma calcinha de verdade. Entenda bem, eu havia trocado de corpo com Sakura, e sim, já havia me acostumado com o corpo feminino dela – ela não precisava saber que hora ou outra eu tocava em seus seios impressionado, mas com muito remorso – mas nunca, jamais, havia me disposto a usar roupas intimas femininas de verdade. Era minha ultima consciência masculina indo embora.

Briguei com ela, lhe perguntando o motivo de se arrumar tão bem para um encontro com Kamui, já que a intenção era afastar ele e não provoca-lo, mas ela disse que tinha uma reputação a zelar, assim como eu, Sakura Kinomoto era uma das garotas mais bonitas da escola, e ela gostaria de manter essa honra. Além de que, admitiu ela, ter a oportunidade de me maquiar de verdade era uma chance que ela não poderia perder.

Sakura me puxou para todos os lados. Me deixou sem ar, amarrando o laço da saia como se estivesse colocando um espartilho. Arrancou fios de cabelo meu, penteando e escovando, batendo a todo momento em que eu passava a mão, pois não podia deixar o cabelo oleoso com o suor da mão. Me fez andar de um lado para o outro do quarto para aprender a me equilibrar no salto que ela havia escolhido, mas tropeçava e torcia o pé a cada paço. Furou meus olhos com um lápis preto e arrancou meus cílios com um instrumento que parecia ser feito especialmente para torturar. Por baixo da saia, eu ainda usava a cueca samba canção, mas Sakura percebeu e mandou eu retirar imediatamente.

Eu e meu salto meio alto escapamos das mãos de Sakura, mas ela tinha minhas habilidades, e eu estava em desvantagem, parecia um pato correndo de um lado para outro com aquele treco pontudo no pé. Ela me aplicou o golpe que eu havia lhe ensinado, me dando uma rasteira de costas e me derrubando no chão. Ela ficou em cima de mim, tentando puxar a samba-canção enquanto eu me debatia como uma criança.

—Syaoran! O que as pessoas vão dizer se virem você usando essa coisa?

—Que falem o que quiser! Já estou passando vergonha o suficiente me arrumando para um encontro, eu ainda sou homem!

—Voce tem que usar!

—Não vou usar nada então, prefere assim?

—Seu idiota, assim o Kamui nunca vai sair de seu pé.

Sakura tentou pegar meus dois pulsos e tirar do caminho, mas eu estava me esforçando bastante, sabia escapar do aperto dela muito bem. Ela teve que se posicionar melhor para tentar puxar a única peça de roupa que me fazia sentir normal, suas pernas ficaram entre as minhas, enquanto ela segurava minhas coxas e tentava colocar uma das mãos para puxar a roupa, assim, ela não ia ter tanto problema comigo me debatendo. Eu não tinha tanta força como antes, estava sendo humilhado por uma mulher. Pela segunda vez, me senti violado pela Kinomoto.

Tenho certeza que não poderia haver uma situação pior para o irmão de Sakura entrar enquanto me ouvia gritar.

—Eu não vou usar essa maldita calcinha.

Notas finais
Espero que voces tenham gostado - para quem ainda esta esperando alguma coisa kkkk. Até a próxima - sem demoras.