rEVERSE - O conto da primeira estrela

13 O que éramos no passado e o que seremos no futuro


Notas iniciais
Boa noite pessoal. Que vocês estejam em suas camas quentinhas, com a chuva caindo de fundo para dar um clima especial. Me desculpem a demora, mas passei o final de semana trabalhando na fic. Espero que gostem e tenham uma ótima leitura.

(Sakura) – O que éramos no passado e o que seremos no futuro

Era uma vez, um pequeno príncipe herdeiro que tinha o sonho de ser arqueólogo. Porém, por conta de seu destino de liderar sua linhagem, ele não tinha outra escolha a não ser estudar para se tornar um líder melhor que o anterior. Seus ensinamentos eram rigorosos, apesar de nunca ter frequentado escolas antes. Ele estudava arte marcial para que pudesse vencer qualquer desafio e protegesse a família. Caligrafia e literatura, para conhecer sobre os negócios do exterior exercer diferentes idiomas, para estender seus horizontes com o mundo.

Um príncipe imperador perfeito.

Até que um dia, para testar sua autonomia, a família o mandou para o Japão por conta própria. Pela primeira vez ele se envolveria com outras pessoas e tomaria conta de si mesmo. Se falhasse, não estava pronto para carregar o nome da família ainda. Seria julgado impotente.

E por algum motivo aparente, eu estava presa no corpo desse príncipe não tão encantado.

Olhei para Syaoran, que aguardava minha reação depois de me contar toda sua história. Eu tive certeza que ele estava apenas brincando comigo, então comecei a rir, mas ao ver seu olhar repreendedor, o calafrio da espinha subia ainda mais.

Só poderia ser uma piada.

Quando recebemos a notícia de que a mãe do chinês o procurava, ele me arrastou diretamente para o túnel do amor, onde era um ambiente escuro e fechado. No entanto, não acho que ele estava muito afim de mais alguns beijos, pelo contrário, parecia desesperado. Nos sentamos no chão, perto de uma pequena luminária largada que acendemos, e depois de ele se acalmar, explicou a situação para mim.

—Sakura, ela não pode nos ver assim! – Exclamou ele – ela não pode nos ver dessa forma.

—não precisa ficar preocupado, basta a gente fingir, como fizemos com minha família.

—não! Não é tão simples! Você não a conhece! – Ele estava aflito, depois de tudo o que me contou, ainda era difícil de acreditar. Nunca vi Syaoran Li com medo de ninguém, mas pela primeira vez, ele estava com medo de uma mulher. Se não fosse pela pequena luminária, nunca teria reparado no rubor em suas faces.

—você está com vergonha! – Disse eu, observando-o atentamente. Seu rosto ficou mais vermelho – está com vergonha de ser visto nessa forma!

—o que você esperava? Faz anos que não a vejo, só conversamos por telefone. Sempre treinei para ser o herdeiro perfeito, um homem de verdade, ser visto dessa maneira...

Eu não podia culpa-lo. Ao invés disso, queria apoia-lo, era como se ele tivesse sempre que cumprir com suas obrigações e responsabilidades, e não poderia ter falhas, e se falhasse, não seria perdoado, sendo visto como um inútil. Percebi que esse era o maior medo dele.

— O que ela estava fazendo aqui logo agora? – Refletia ele – Deve ter algum motivo. O diretor ligou para ela? Mas não recebi notícias de que também ligaram para seu pai, seu irmão com certeza teria falado algo. O que ela quer?

—Syaoran, porque não simplesmente encara essa situação? Porque essa aflição? Você já enfrentou muito mais coisa do que isso.

—se ela está aqui, depois de nunca ter feito uma visita, só pode significar uma coisa. Ela deve estar querendo que a gente volte para China. E se isso acontecer, quem você acha que vai no meu lugar?

Foi minha vez de ficar em desespero. Estávamos há tanto tempo no corpo um do outro que eu sempre esquecia das circunstancias. Eu era o príncipe herdeiro Syaoran Li, no momento pelo menos. Seria levado para China e ficaria longe de minha família e amigos. Senti um suor frio descer per minha testa.

Antes que pudéssemos dizer algo a mais, ouvimos passos pelo corredor. Eles eram calmos e contínuos. Senti o chinês endurecer a meu lado, como se já soubesse quem era. Corremos para sair da sala, atravessando o túnel do amor e saindo pela segunda porta, o final do túnel. Syaoran me puxava, tentando não fazer muito barulho ao correr, mas tamanho nosso desespero, já nem importava mais.

Nos encaminhamos para os banheiros masculinos onde nossa sala havia feito de camarim mais cedo. Ainda havia muitas peças de roupas e cenários soltos lá, encostados a parede. Syaoran pediu para que eu me escondesse em algum lugar, fuçando em todos os cantos, procurando onde saber enfiar um cara de 1,80 de altura, sem que de na cara dura.

—ela já nos ouviu, não adianta mais se esconder – disse eu.

—não, não adianta, mas ela ainda não pode ver você. Fique aí debaixo que eu me viro.

—mas...

Não tivemos tempo, os passos se aproximavam. O rei demônio me empurrou para debaixo de um monte de entulho de cenários e jogou o máximo de figurinos que conseguia para me cobrir.

—não de nenhum pio.

E assim, na sala se fez silencio. Eu sabia que o chinês estava desesperado, pois podia ouvir sua respiração pesada. Ouvi a porta correr e alguém entrar.

—Boa noite! – Disse ele.

Como o silencio se fez presente mais uma vez, espiei para ver se foi uma pessoa diferente. Mas me surpreendi por um momento, parecia que eu estava vendo uma princesa de contos de fada em minha frente. Seu rosto era sereno, com uma maquiagem básica, avermelhada nos cantos dos olhos. Sua pele era clara e seus cabelos negros, presos em lindos enfeites de ouro em sua cabeça. Trajava uma veste tradicional de sua cultura, em tons verdes e dourados. Nunca havia visto mulher tão bonita. Ela falava japonês?

Ela fez uma leve mesura, sem abaixar muito a cabeça, não sabia dizer se era por sua hierarquia ou se porque sua cabeça estava pesada demais para isso. Diferente de Syaoran, que continuava em sua reverencia formal. Achei que ele estava exagerando, mas dei um desconto, fazia anos que ele não via a mãe. Devia estar nervoso, esquecendo-se que no momento, ele era outra pessoa. Observei que sua mão tremia, mas ele conseguia esconder muito bem, fingindo estar dobrando os figurinos que agora a pouco havia jogado da arara para cima de mim.

—Boa noite! – Respondeu a mulher com sua voz melodiosa, ela nunca seria vista como uma mãe, não parecia ser tão velha – estou procurando meu filho, Syaoran Li. Você o conhece?

—si...sim senhora – disse firmemente. Não era melhor ele ter mentido? Mas quem não conhecia o rei demônio afinal?

—você o viu por aqui? Escutei algumas pessoas no corredor e me disseram que ele estava em sua sala.

—Não Senhora!

Ela parou observando bem o rosto vermelho de Syaoran, não sabia dizer se estava reconhecendo o filho ou se só estava curiosa sobre a patética garota vermelha dos pés à cabeça que não conseguia olha-la nos olhos, a não ser para o chão. Ela sorriu e olhou ao redor.

—foi um belíssimo festival!

—você assistiu?! – Explodiu Syaoran, assustado, olhando-a nos olhos pela primeira vez, mas logo voltando a encarar os próprios sapatos.

—sim, apesar de não ter acompanhado ele todo. Não consegui assistir à peça.

Eu não conseguia mais ver a expressão de Syaoran, mas por um momento, achei que ele tinha suspirado de alivio. Ela entrou, fazendo o rapaz se encurralar contra a parede, parecendo um gato escaldado. Eu nunca o tinha visto assim.

—Parabéns pelo esforço. – Disse levantando a mão e passando sobre os cabelos de Syaoran – Se vir meu filho, diga a ele que o estou procurando. Precisamos conversar urgentemente.

Ela estava saindo quando Syaoran tomou coragem e disse:

—você vai leva-lo embora? – Ele deve ter mordido a língua, pois fechou a boca como se não quisesse ter aberto.

Senti meu coração saltar do peito. Queria saber a resposta tanto quando Syaoran. Mas quando a linda mulher a sua frente se virou para encara-lo, vi que seus olhos o analisavam dos pés à cabeça novamente. Syaoran tinha razão, ela não poderia me ver, iria saber que tinha algo estranho no próprio filho, apesar de ter ficado longe por tanto tempo.

—fico feliz que ele tenha uma amiga que se preocupe – sorriu ela brandamente – mas creio que chegou a hora de resolver algumas questões. Ele finalmente se transformou em um homem...

Eu e Syaoran engolimos em seco ao mesmo tempo e pelo mesmo motivo.

—mas, sim, teremos que ir embora.

O chinês já havia me dito aquilo, mas ouvir da boca dela fez meu chão cair, pois me toquei de uma segunda coisa. Mesmo que votássemos ao normal, Syaoran iria embora para sempre?

—desculpe-me pela intromissão – Disse ele fazendo outra reverencia.

—não se preocupe com isso.

Ela baixou a cabeça levemente e partiu, não antes de olhar Syaoran mais uma vez e sair em silencio. Esperei alguns minutos antes de sair debaixo das roupas, só para ter certeza de que ela não voltaria. Olhei para o chinês e vi que ele encarava o chão novamente, mas com seu olhar perdido. Ele estava pálido.

Eu também não sabia o que dizer ou fazer. Ele se sentia triste ou feliz ao ver a mãe? Estava preocupado por ir embora ou por ver que ainda estava preso em meu corpo?

—O que faremos? – Disse eu quebrando o silencio.

—por enquanto, vamos para sua casa.

Então sem discutir, saímos pelos fundos da escola e nos encaminhamos para minha casa. Syaoran entrou primeiro e me ajudou a subir pela janela. Era estranho ver aquele quarto após tanto tempo, estava impecável, cada coisa em seu lugar, até meu guarda roupa estava arrumado. Nem parecia mais meu, era como se tivesse viajado e voltado após muito tempo.

Syaoran subiu com um lanche, dizendo para eu comer em seu lugar, que eu tinha mais direito do que ele no momento. Mas também não estava com fome. Arrumamos o quarto com uma cama improvisada no chão, cheio de cobertores e almofadas. O chinês queria dormir por ali mesmo.

—faz tempo que você não aproveita sua própria cama, fique à vontade.

Ele parecia verdadeiramente preocupado, perdido em pensamentos, novamente com aquele olhar vazio. Queria dizer alguma coisa, mas não sabia o que, também queria conforto, de que tudo ficaria bem. Como eu poderia ajuda-lo assim? Precisávamos voltar para nossos corpos de uma maneira ou de outra.

Syaoran virou de lado, mas eu sabia que ele não estava dormindo. Ele devia estar quebrando a cabeça para descobrir como reverter a situação. Que mania de sempre querer fazer as coisas sozinho.

Me lembrei de seu beijo, de como foi macio. Encostei a ponta dos dedos em seus lábios. Queria pedir por mais, mas não era o momento – nem tinha coragem para isso.

—sabe, eu – começou ele de repente, me dando um susto achando que tinha sido flagrada no ato — eu sempre tentei fugir do destino de minha família. Mas pela primeira vez…quero voltar para ela desesperadamente.

Ele se virou para mim, apesar de as luzes estarem apagadas, podia ver um pouco do brilho de meus próprios olhos verdes.

—não posso deixar você segurar esse fardo, Sakura. As pessoas nem sempre são boas e gentis como seus amigos são.

Eu não sabia se minha agonia silenciosa era por imaginar o que me esperava ou se era por ser uma coisa que esperava por ele. Se ele queria tanto me livrar disso, porque ele tinha que suportar todo esse peso sozinho?

—vem pra cá – disse eu – por favor.

Ele ficou mudo por um tempo, mas ouvi sua movimentação e dei espaço para que ele se deitasse. Procurei sua mão para entrelaçar nossos dedos. Não iria acontecer nada naquela noite, ali, naquele momento. Não era assim que funcionava e nem vontade tínhamos. O que tínhamos no momento, era um problema que não parecia ter solução. Syaoran deve ter deitado um pouco mais para cima do que eu, pois ele passou o braço por minha cabeça, me puxando para mais perto.

Fechei os olhos, rezando para que acordássemos como éramos antes.

****

Acabe acordando primeiro que Syaoran. Como dormimos na mesma posição a noite toda, meu corpo estava dolorido. Olhei para seu rosto dormindo, ao contrário de mim, que babava enquanto dormia, ele era sereno. Tentei imaginar seu rosto dormindo, de como seria. Me levantei e me espreguicei. De frente ao espelho, tentando arrumar o cabeço bagunçado – não sei porque insistia, era impossível, apesar de eu achar ele muito mais bonitinho assim – olhei para os olhos castanhos que me encaravam.

Era um príncipe em minha frente, eu não podia acreditar. Se Syaoran voltasse para a família, ele seria como aquela linda mulher? Usando suas roupas da realeza e tendo uma aura tão difícil de alcançar? Estava me sentindo inferior, preferia esse rei demônio que eu poderia discutir todos os dias, era muito mais real para mim. Mas seria ainda mais insuportável se esse cara sumisse de minha frente.

Suspirei.

Estava brincando com Kero, meu gato, quando vi Syaoran acordar fazendo uma careta. Parecia que ele também não havia dormido bem.

—esse gato nunca gostou de mim, ele só gosta de você, mesmo nós estando trocados.

_ Ele tem instintos – disse eu rindo.

—parece que minha mãe também – murmurou o chinês.

— você acha que ela descobriu?

—não, mas deve ter visto alguma semelhança – ele passou as mãos no cabeço – não sei dizer, ela me encarava de uma maneira estranha. Analisando. Da mesma forma que fazia quando eu era pequeno.

—você acha que ela foi para sua casa?

—aposto que sim – disse ele se jogando na cama novamente – mas se isso aconteceu, então ela já deve achar que o filho é um desajustado, sendo severa com organização e tudo mais. Quando foi a última vez que você limpou a casa mesmo?

Fiquei em silencio, sentindo a vergonha subir. Era a primeira vez que me sentia envergonhada por ser desorganizada, e foi obrigado uma princesa chinesa vir ao Japão para isso.

—me desculpe – ele fez um gesto com a mão como se fosse para eu deixar isso quieto – mas e agora? Ela via estar rondando a escola te procurando.

—eu sei – ele ficou em silencio – se o ponto ficar crítico. Contaremos a verdade. Não vou deixar ela levar você para a China. Posso ser visto como uma falha para herdeiro, mas jamais deixaria você se envolver com isso. Aquela pressão....

—e você vai? – Deixei escapar antes de que pudesse fechar a boca – porque tem que aguentar isso?

— é minha obrigação. Não dá pra fugir...Além do mais, temos problemas maiores pra resolver.

Eu não sabia o que dizer. Queria ser teimosa, mas olha a situação em que estávamos, nem sabíamos se as coisas iriam se resolver.

****

Saímos cedo de casa – eu novamente pela janela – tomamos café na escola e encontramos Tomoyo. Explicamos a situação para ela, o que a fez endoidar. Juntos, iriamos a biblioteca novamente, após as aulas. Tínhamos uma pista muito pequena e incomum, mas era melhor que nada. “Os astros estavam brincando conosco”? Começaríamos por aí, seja lá o que fosse.

Diferente do que pensávamos, a mãe de Syaoran não estava por lá, então entramos tranquilo para a sala de aula. A qualquer menção de palavras que começavam com M, Syaoran travava imaginando que alguém anunciaria a presença de sua mãe ali.

O dia passou mais rápido do que imaginamos. No almoço, dentro da sala de música, eu, Syaoran e Tomoyo conversamos e debatemos nossas próprias teorias.

—a palavra astro esta interligado com estrelas. Vocês conhecem alguma constelação?

Era obvio que eu nem mesmo sabia onde ficava a ursa menor ou para que lado ela ficava, só sabia que existia. Syaoran mencionou algumas, mas não conseguia ver como o caso se relacionava com elas.

—temos que seguir pela linha espiritual. Alguma lenda ou algo do tipo, talvez?

—o que foi que a garota disse mesmo?

—que era raro essa mudança acontecer e que os astros não se envolviam muito com o mundo humano.

—estrelas não deveriam ser apenas bolas de ar quente? – Disse eu, sem conseguir acompanhar o raciocínio deles.

—então deve haver algo aí, alguém talvez. Só não consigo entender porque a gente! O que eu e Sakura tínhamos em comum para sermos ligados dessa forma?

Todos ficamos em silencio.

—bom. Vocês viviam brigando! – Respondeu Tomoyo desviando o olhar de mim – e Sakura só sabia falar mal de você.

Vi que Syaoran olhou de canto para mim e bufou. Sorri para ele marotamente.

—e quanto a você Li, não perdia uma chance de provoca-la – foi minha vez de dar língua para ele – talvez, vocês dois tenham sido feitos um para o outro?

—não estamos brincando Tomoyo! – Disse Syaoran.

—não estou brincando. Quero dizer, vocês brigavam tanto que devem ter incomodado alguém do além – ela fez aspas com os dedos na palavra além, mas senti um calafrio na espinha — Talvez vocês já se gostassem há um bom tempo e não admitissem.

Senti meu rosto corar e olhei para Syaoran, mas ele tinha virado o rosto para o outro lado. Estava pronta para discutir com Tomoyo, pois o Li gostar de mim era impossível, já que brigavas antes mesmo de respirar. Porém, ao ver suas orelhas vermelhas, senti um sorriso enorme abrir em mim e pulei para perto dele. Ele nunca admitiria.

—você gostava de mim? – Disse eu, chegando exageradamente perto dele, fazendo o mesmo se afastar para trás – você realmente gostava de mim antigamente? Mesmo com todas aquelas brigas?

—Sakura, sai fora.

E a prova foi seu rosto ficar rubro. Eu ri, querendo provoca-lo ainda mais até faze-lo admitir. Estava feliz da vida.

—quando começou? Desde quando? Era pouco ou era muito? Achava eu bonita?

Ele me afastava com as mãos, mas eu tinha seu corpo no momento, era a mais forte. E queria usar isso a meu favor.

—isso não quer dizer que você também não gostava de mim?

—você era um idiota de cabeça grande, como foi que eu fui gostar de você?

—E você uma teimosa de marca maior. Briguenta e tagarela. Além de tudo era gordinha.

—você não disse isso!

Tomoyo tossiu para lembrar que ela também estava ali. Mas e agora? Eu e Syaoran já havíamos praticamente demonstrado que um para o outro sobre nossos sentimentos antes disso, mas ainda estávamos fora do lugar.

—a questão é – disse ela – como fazer isso se reverter.

—se foi com as estrelas que começou, talvez seja com as estrelas que deveria terminar – Disse Syaoran.

Antes que alguém pudesse responder, o sinal bateu. Voltamos para a sala, cada um preso em seus próprios pensamentos. Porém, eu estava radiante e não conseguia parar de sorrir ao lembrar de todas as brigas e lutas que já tive com Syaoran, mas em um ângulo diferente. Ele gostava de mim. Parecia que todos os problemas tinham se resolvido.

Ou assim eu imaginei que fosse.

—Pare com isso, tá parecendo um esquisito assustador – disse ele na entrada da sala, ainda com o rosto virado para o outro lado e as orelhas vermelhas.

A tarde passou e as aulas acabaram. Fiquei todos os períodos pensando como seria se tivéssemos nos dado bem desde o início. Syaoran pediu para eu esperar ele na entrada da escola antes de ir embora. Ele iria demorar um pouco mais. Por um momento assustador, imaginei sua mãe aparecendo ali e me arrastando para a China a força. E ela provavelmente conseguiria, pois eu tinha ficado tão encantada com sua beleza que ficara hipnotizada.

Syaoran apareceu me assustando e começamos nossa caminhada. Ele não quis me dizer porque tinha demorado tanto, mas me parou na metade do caminho. Ali havia sido o último lugar em que nos encontramos com nossas formas normais, e havíamos dito como nos odiávamos. Que ironia.

—Sakura – ele me parou, inspirando e me encarando de volta.

Ele estava sério. Passei um tempo interpretando suas ações, ele queria dizer algo importante pela sua expressão. Iria voltar para a China com meu corpo? Ou fugiríamos para ninguém nos achar? Conversaríamos com sua mãe sobre a verdade?

—você é uma tonta!

—ei – esse cara não tinha salvação mesmo.

Bufei. Ele me puxou, ficou rapidamente na ponta dos pés e me deu um selinho surpresa. Era o suficiente para minha boca ficar formigando.

—mesmo sendo uma tonta, mesmo sendo uma cabeçuda – ele desviou os olhos, envergonhado – da próxima vez que eu te beijar. Será como um homem de verdade, então é melhor se preparar. Não vou te deixar fugir.

Senti meu corpo arrepiar dos pés à cabeça e minhas pernas ficarem bamba. Meu coração saltava ansioso por aquele momento. Eu apenas pude assentir com a cabeça. Olhamos para cima, observando o céu anoitecendo. Não havia muitas estrelas, apenas uma na verdade, quase invisível, que havia acabado de surgir.

A primeira estrela da noite.

Rezei para ela que tudo se acertasse. Que voltássemos ao normal, mas que também ficássemos juntos para sempre.

—Syaoran...eu

—Sakura, eu....

Antes que pudéssemos dizer algo a mais, escutei um estampido alto e uma dor lancinante em minhas costas. Não entendi o que estava acontecendo, apenas senti meu corpo fraquejar e cair em cima de Syaoran.

Como ele era menor, não conseguiu sustentar meu peso, então caímos juntos. Minhas costas queimavam, como se algo tivesse sido atirado com toda a velocidade em mim. O que estava acontecendo? Via o rosto de Syaoran em cima do meu, desesperado, chamando meu nome, mas sua voz estava sumindo. Um zunido tampava meus ouvidos. Minha mente girava. As mãos de Syaoran estavam cobertas de sangue. Ele havia se machucado? Ou era eu?

Ouvi outras vozes chamarem o nome de Syaoran ao fundo, mas muito distantes. Tudo estava longe, ficando embaçado. Mesmo sem me mexer, senti que estava caindo em algum buraco fundo e escuro. Estava difícil de respirar, meu peito queimava. Minha visão escureceu e o mundo se apagou.

Ouvi uma última voz gritando.

—Sakura....Pelo amor de deus...NÃO!

Notas finais
Espero que tenham gostado. Quero muito que a fic esteja satisfazendo a todos que a leem. Muito obrigada por tudo e até a próxima - boa chuva e sem sapatos molhados na semana pra vocês