rEVERSE - O conto da primeira estrela
10 O festival cultural: Preparações
Notas iniciais
(Syaoran) O festival cultural: Preparações
O que eu deveria fazer quando aqueles olhos azuis profundos ficavam olhando para mim com tanta intensidade que eu perdia a coragem. O que você diria se ouvisse seu amigo falar “então, sabe, deixa eu contar uma historia engraçada, eu acordei de manha e estava em outro corpo”, acho que não.
Tomoyo me encarava com aquele olhar desconfiado dela desde o primeiro momento que botou os olhos em mim, assim que eu e Sakura havíamos trocado de corpos, mas dessa vez, ela me encarava descaradamente.
Passei a noite inteira pensando em uma maneira de contar a Tomoyo. Primeiramente, pensamos em traze-la até a sala de musica, onde sempre passávamos o intervalo, e contar juntos. Depois de um pesadelo terrível em que eu estava sendo mandado para um hospício, achei melhor contar como se eu fosse Sakura mesmo.
Decidi que era melhor eu almoçar com Tomoyo sozinho, pedindo para Sakura esperar mais ao fundo. Como eu poderia começar?
—Tomoyo, primeiramente, peço desculpas por estar agindo tão estranho ultimamente – comecei, deixando meu almoço de lado – mas tem um bom motivo. E por você ser uma pessoa importante, não quero te deixar de fora.
Esperei para ver sua reação. Seus olhos escaparam brevemente para trás de mim, eu sabia que ela tinha visto Sakura, que tentava se esconder atrás de uma arvore, mas estava muito ansiosa para conseguir. Ela voltou seu olhar pra mim e ergueu uma sobrancelha.
—Eu sei exatamente o que esta acontecendo!
—Sabe? – disse eu assustado.
—Era impossível não perceber!
—Sério? Estava tão na cara?
—Claro! Você se apaixonou por Syaoran e não queria que ninguém soubesse, afinal, é o Syaoran Li de quem estamos falando. Seu eterno rival.
Eu suspirei novamente, seria mais difícil do que eu imaginei.
—Quando você dizia aquelas coisas do Li, eu imaginei que tinha alguma coisa por trás. Você ficava horas e horas falando dele.
—Eu ficava? – senti um pequeno sorriso escapar de meus lábios, mas balancei a cabeça e me concentrei novamente. – Não, não é isso! Olha, algo muito sério aconteceu e nos queríamos que você nos ajudasse!
Tomoyo de repente fez uma cara horrenda e levou às mãos a boca. Ela teria deduzido? Levantou com as mãos na cintura, determinada e furiosa. Caminhou em direção a Sakura com passos rápidos, lhe trazendo a força, puxando pela orelha. Meu deus, ela havia descoberto.
Quando a Daidouji obrigou Sakura a sentar conosco, ela manteve-se de pé e ficou olhando para nós dois. Eu olhava de Sakura para Tomoyo, enquanto a japonesa sentada a meu lado embolava os dedos, envergonhada.
—Eu não acredito que vocês foram tão irresponsáveis a esse ponto – ralhou ela – Eu poderia esperar isso do Li, mas você Sakura...
Pera, ela ainda estava falando comigo. Como assim esperava irresponsabilidade de mim? Sakura fazia a mesma cara que eu.
—Como serão seus estudos agora? – disse ela apontando para Sakura e depois para mim – e como você sustentara a criança? Vão ter que casar, lógico.
Meu queixo caiu e Sakura ficou vermelha como um pimentão. Tentamos explicar, mas nossas palavras se embolavam uma na outra e falávamos ao mesmo tempo. Tomoyo continuou.
—Eu sempre falei para você se prevenir e ainda assim, logo na primeira vez, você de descuida dessa maneira?
—O que?! Não!
Não sabia mais com o que eu ficava impressionado, pelo fato de Tomoyo estar trocando as pés pelas mãos ou descobrir que Sakura era virgem. Antes que pudéssemos explicar direito, o sinal bateu, interrompendo nossa conversa de outro mundo. A morena agarrou minha mão e virou para Sakura.
—Essa conversa ainda não terminou!
Tomoyo me arrastou de volta pelo caminho da sala, cheia de resmungões e broncas. Era por isso que eu era contra a ideia de contar a ela, mas agora, seria uma questão de princípios.
****
Não poderíamos deixar Daidouji ir embora sem saber a verdade, ou eu viraria pai de mentira – ou mãe, olhando a circunstancia – portanto, disse a morena que precisávamos conversar, ela, Sakura e eu.
Porem, havíamos esquecido que hoje eram as preparações para o festival. Após as aulas, reunimos todos da sala para organizar as tarefas e dividir as funções. A escola inteira estava se movimentando, todas as salas preparando os materiais para as devidas atividades do dia no festival. O primeiro ano iria fazer um café maid, portanto, eles estavam na correria para comprar os ingredientes e arrumar uma sala adaptada. O segundo iria fazer um Show de talentos no mesmo palco que o nosso, assim poderíamos dividir serviço, facilitaria as coisas. Nossa peça de teatro também estava dando o que falar, pois o assunto mais comentado era quem iria fazer o príncipe, Syaoran Li. Todos os participantes da peça que atuavam diretamente com Sakura estavam com medo de dar alguma opinião, eles gaguejavam e saiam correndo quando Sakura ficava em silencio mórbido, o que eles não sabiam era que ela estava nervosa com seu papel, afinal, não havia decorado fala nenhuma.
—Eu não me lembro de nada, não sei o que fazer, quando tenho que falar alguma coisa, simplesmente travo. – disse ela desesperada para mim.
—O que você ficou fazendo durante as tardes após as aulas?
Ela não me respondeu, apenas soltou um sorriso amarelo e voltou a enfiar a cara no roteiro. Tomoyo, que estava encarregada de customizar as fantasias, nos encarava o tempo todo, como se tivéssemos cometido um grande pecado, ela se distraia e enfiava a agulha em alguém por acidente.
Eu não tinha tempo nenhum para ajudar Sakura. Fiquei encarregado de juntar materiais para começarmos a construção do cenário, como caixas de madeira, papelão, jornais, pregos e martelos. Fiquei correndo de um lado para outro, com todas as pessoas me perguntado o que deveriam fazer e se estava bom o suficiente. Ficava alucinado, pois nunca tive tanta proximidade com outras pessoas, elas falavam comigo o tempo todo, pedindo opiniões e querendo me mostrar o ótimo trabalho que estavam fazendo.
Carregando uma caixa pesada cheia de livros velhos e tecidos rasgados que usaríamos como decoração do castelo da bela adormecida, passou Kamui ao meu lado de cabeça baixa.
—Puta!
Resmungou ele baixinho para que eu ouvisse. Senti a raiva ferver e quase larguei a caixa, pronto para me virar e socar aquela cara. Mas algo me impediu de continuar. Da entrada de nossa sala, altas risadas saiam pela fresta da porta aberta, me certifiquei para ver se aquela era a entrada certa. Fiquei mortificado de vergonha ao ver uma Sakura rindo, coçando a cabeça enquanto todos rolavam de rir. Eles estavam ensaiando com o roteiro em mãos.
Fiquei tentando entender o que estava acontecendo, olhava para todos, que riam e aplaudiam. Por um instante terrível, pensei que estivessem zombando dela, mas vi que ela ria também. A cena era meio estranha, pois quem estava rindo ali era a minha pessoa, e eu nunca tinha sorrido daquele jeito.
—Syaoran, você é mesmo muito desastrado – comentou alguém do fundo da sala.
—Estava só fazendo pose é, colocando medo na gente.
—Se você entrar dessa forma, a peça vai mesmo fazer sucesso, a plateia vai rir muito!
Eu estava assombrado.
—É que eu sou tímido! – comentou Sakura ficando um pouco vermelha e virando-se para a garota com quem estava atuando – me desculpe, eu não tive muito tempo para decorar as falas, estava estudando.
Ela sorriu e até chegou mais perto, sem medo ou reprovação nenhum no olhar. Como ela havia feito isso? Como em apenas um instante, Sakura havia conseguido inverter todas as opiniões sobre mim na sala? Ela conseguia interagir tão bem com todos que assustava.
Seu olhar fugiu rapidamente para mim, ela entendeu completamente meu olhar de aviso. “Cuidado como você esta agindo, eu não sou uma garota”!
Outra pessoa que também estava assombrada era Tomoyo, pois olhava para Sakura como se finalmente estivesse enxergando a pessoa dentro daquele corpo. A japonesa devia ter mesmo uma personalidade única, passei o ultimo mês inteiro com ela para comprovar isso.
Fui puxado novamente para concentrar nas atividades. O restante do dia inteiro foi de trabalho duro, começamos a montar o fundo do cenário, uma das garotas de artes da sala desenhou o fundo de um castelo alto, que recortamos e começamos a pintar. Também montávamos uma cama falsa, onde iam colocar a bela adormecida para dormir. Tomoyo me puxava a todo momento para ajudar a segurar os pontos das fantasias, toda vez que alguém pedia para eu carregar alguma coisa, ela interferia dizendo que precisava de ajuda e devolvia uma agulha de costura para minha mão.
Decidimos fazer um intervalo rápido, pois todos estavam se esforçando. Eu devia ser honesto, pela primeira vez, também estava me divertindo. Eu e Sakura discutíamos como ser um devido príncipe, ela dizia que sua atuação estava de bom tamanho, pois era um príncipe moderno, eu dizia que ela tinha que ter mais etiqueta.
—um príncipe deve ser cortês, ele tem que manter postura mesmo durante as batalhas – disse eu fazendo uma reverencia profunda – ainda mais em frente às damas.
Tomei sua mão e a beijei, numa brincadeira. Acho que fiz algumas pessoas rirem, pois Sakura estava beijando a mão de Syaoran e isso era imperdível. A japonesa corou e desviou o olhar para a janela.
— como é que você sabe como ser um príncipe – ela puxou a mão de volta, colocando-as nas costas.
Senti uma ironia naquilo, como eu saberia ser um príncipe? Gostaria de não saber. Um rápido fleche me veio a mente. Todas as aulas de etiqueta, piano e violino, esgrima, os sermões de como deveria agir, seguindo uma rígida conduta de como deveria ser o príncipe herdeiro do clã Li. Para minha família, eu nunca havia sido Syaoran Li, mas sim o príncipe herdeiro. Por sorte Tomoeda era uma cidade tão pequena a ponto de nem lembrar da existência da família imperial chinesa.
Fiquei feliz pela ignorância de Sakura.
Sorri alegremente, peguei sua espada de madeira falsa e a desafiei para um duelo, chamando a atenção da classe inteira sem perceber. Ela sorriu para mim e aceitou com boa vontade, pegando a outra espada. Ficamos brincando assim por breves minutos, fazendo boa parte da sala rir, pois eu fazia Sakura de boba desviando e roubando-lhe sua espada o tempo todo. Quando fiz ela tropeçar e bati com o corpo da espada em sua bunda, ela gritou sem perceber.
—Syaoran!
Congelei e ela também. Algumas pessoas nos olharam confusos, perdendo um pouco da graça.
—Quero dizer, eu sou Syaoran, Syaoran é demais – disse ela tentando se explicar.
Por sorte, todos já haviam perdido o interesse. Peguei a espada e bati na cabeça de Sakura, fazendo ela se encolher, como punição. No entanto, percebi que Tomoyo ainda nos encarava com uma cara muito confusa, olhei para ela e fiz um sinal de silencio. Se ela estava começando a entender, conversaríamos depois.
Quando o ensaio terminou, o restante da turma ajudou a construir os cenários e montar as barracas de comida e bebida no pátio da escola. Tomoyo trouxe três bebidas, entregando os outros dois para mim e Sakura. O silencio se instalou no mesmo instante, pois ninguém sabia o que estávamos pensando. Tomoyo conhecia Sakura bem demais para não ter notado sua personalidade, mas se ela ainda estivesse pensando na historia do bebe....
—Syaoran – começou ela, meu nome saiu de sua boca de forma estranha, pois não tínhamos tamanha intimidade para isso – eu comprei leite de morango sem querer, não gosto muito, você quer trocar?
Sakura nem respondeu, apenas trocou seu suco de laranja, agitou a embalagem e com os dentes arrancou o canudo, postando-se a beber concentradamente. Tomoyo deixou sua latinha cair e olhou para mim, chocada. Eu sorri, ela havia entendido!
Apenas Sakura parecia não ter percebido a reação, ela estava feliz bebendo seu leite de morango de caixinha que havia trocado com Tomoyo. A morena olhava para a menina e para mim abismada, sem conseguir dizer uma palavra sequer. Mas no final das contas, nem precisou, pois fomos interrompidos pela ombrada que Sakura recebeu, fazendo-a cair de joelhos.
_Ah, já sei – disse eu com raiva, ajudando-a a se levantando – isso foi só porque eu te dei um fora é?
Ele parou na mesma hora, encarando de volta. Mantinha a cabeça erguida, pois todos que estavam por perto haviam prendido sua atenção ali.
—Não ficaria me vangloriando. Acha que a escola inteira não esta sabendo? Que você e esse viciado não estão transando as escondidas?
Eu nunca matei ninguém, mas sempre havia uma primeira vez. Sakura parecia igualmente irritada, pois já estava de pé novamente com os nós dos dedos brancos.
—é melhor você tomar cuidado com a língua, cara! – ameacei.
—Vocês escutaram essa? Ela disse para eu tomar cuidado com a língua – riu ele se dirigindo para o pessoal da sala, eu sabia que muitos estavam preocupados, pois todos gostavam de Sakura, mas minha raiva subia ao ver que havia alguns trouxas rindo também – não sou eu que fico enfiando minha língua na boca de qualquer um.
Eu estava avançando para cima de Kamui, quando Sakura levantou a voz, fazendo eu levar um susto, pois ela havia imitado o timbre da minha voz direitinho, como se fosse eu pronunciando. Ainda agarrou meus cabelos e trouxe minha cabeça para mais perto, passando um braço em volta de meu pescoço, olhando para Kamui disse.
_Você está é com ciúmes, Sakura não quis ficar com você em momento algum pois ela gosta de mim – para enfatizar, ela me deu um selinho – o gosto dela é ótimo e somente meu. Ninguém aqui tem coragem de encostar a mão nela comigo de guarda. Você só esta com inveja.
Kamui estava ao ponto de explodir. Eu também estava em choque, pois não acreditava no que estava escutando. Sakura comprovou a todos perante a sala nossa relação, e eu só conseguia pensar em como foi estranho aquele Celinho com meu rosto tão de perto.
—ela estar com você só prova o quanto é uma vadia – ele riu – vocês dois se merecem. Essa vagabunda fácil fica com qualquer um que apareça e não vale nada.
Todos estavam impressionados com a língua afiada do rapaz, afinal, ele sempre se passava por bonzinho pelos corredores.
—Ei, Sakura –ele continuou – o quanto você cobra por uma boa transa?
E no instante seguinte meu punho estava na boca dele antes que saísse mais alguma idiotice. Contei exatamente quantos murros dei para deformar aquela cara perfeita. No terceiro, alguém já estava me puxando para longe antes que eu quebrasse mais um dente dele.
Tomoyo segurava um de meus braços e Sakura o outro, como meu corpo era leve, facilmente elas me levantaram e arrastaram para longe da confusão. Não antes de Sakura voltar e chutar as costelas de Kamui uma ultima vez.
Enquanto as duas meninas estavam exasperadas a meu lado sem saber o que fazer, recompus minha postura sentindo uma leve dormência nos dedos. Olhei para eles e vi que estava sangrando, ao me lembrar de que eu estava cuidando do corpo de outra pessoa, me senti um completo idiota.
Não demorou muito para acontecer exatamente o que eu esperava. Um dos professores representante da turma veio a seus passos apressados, dizendo.
—Syaoran, Sakura, para a direção por favor – ele virou-se para um dos estudantes – você, por favor, ajude o aluno caído no chão e depois dirija-a até a sala do diretor também.
****
Eu conhecia de cor e salteado a sala da direção, foi ali que nossa historia começou, mas dessa vez, eu e Sakura estávamos lado a lado, de cabeças baixas. Sakura olhava para mim tentando dizer algo, mas morria no meio do caminho, eu estava furioso comigo mesmo e envergonhado por deixar suas mãos naquele estado.
—Me desculpe – comecei, indicando os machucados – eu geralmente me controlo.
—Não me venha falar isso, conheço você de outras brigas passadas, sei bem como você é – me encolhi um pouco com suas palavras, ressentido – Voce não machucaria uma mosca Syaoran! Mas, sinceramente, se você não tivesse feito eu o teria. Acho até que demorou demais, bateu muito pouco.
Olhei para ela surpreso e dei um pequeno sorriso. O diretor entrou e pediu que aguardássemos a vinda de Kamui. Ele chegou não muito depois com um olho roxo e o nariz quebrado. Todos entraram e antes que eu pudesse dizer alguma coisa o diretor começou.
—Bem, eu esperava vocês aqui novamente, mas não dessa forma – comentou ele – o que aconteceu? Achei que estivessem ocupados com o festival.
Não tempo de dizer uma única palavra, Kamui fez as honras.
—Eles começaram diretor, o professor viu tudo – disse Kamui apontando para o homem de óculos e o garoto que ajudou a carrega-lo mais ao fundo – Syaoran sente inveja de mim por causa da Kinomoto, ela ficou muito mais violenta depois que começou a conviver com ele.
Eu sabia que a historia ia pesar em meu nome novamente, pois das outras vezes foi da mesma forma, mesmo que eu tenha tentado ajudar alguém. Me sentia tão indiferente naquela escola quanto em minha própria casa.
_Eles dois já vieram causando problemas faz um tempo, diretor – disse o estudante ao fundo da sala – também fui alvo há poucos dias e eles ainda me deixaram desmaiado no chão sem nem mesmo oferecer ajuda.
Eu o havia reconhecido pouco antes de entrar na sala do diretor, era o mesmo garoto anterior que eu havia derrubado defendendo Sakura, sabia que não ia demorar muito para essa historia aparecer. A situação estava bem feia para meu lado, pois o professor não simpatizava comigo de jeito nenhum, ele olhava para Sakura como se fosse um verme que precisava ser extinto da face da terra.
Minhas palavras morreram, não haveria espaço para desculpas. Era um péssimo habito que eu havia me acostumado por causa de minha família. Mesmo que eu questionasse, a culpa iria parar inteiramente em mim, como sempre. Emburrei a cara, cruzei os braços e fiquei olhando para o relógio, esquecendo brevemente que Sakura que pagaria meu castigo.
_Alem do mais, a Kinomoto era tão mais educada anteriormente – comentou Kamui com uma das mãos no olho inchado – mas olha só agora, parecendo uma p....
—Por favor senhor Kamui, deixe me ver se entendi a historia, quem bateu em você mesmo?
Kamui não sabia responder, ele olhava para mim e Sakura, tentando decidir em quem jogar a culpa. Eu ri internamente, pois o idiota havia apanhado de nos dois e não queria admitir.
—Syaoran começou tudo diretor! A culpa é dele por se intrometer em meus assuntos.
E agora era só deixar a bola rolar! Era vergonhoso demais dizer que uma garota havia quebrado seu nariz.
—Ele me agrediu nos corredores – disse o rapaz ao fundo, eu sabia que ele só estava aguardado a vez para me ferrar de vez.
Sakura fazia uma cara abismada, não sei se por conta de que a culpa estava caindo inteiramente nela ou pelas mentiras deslavadas de Kamui e do representante. Mas, o professor deu a palavra final.
—Meu senhor, se me permite a intromissão – disse ele dando um paço a frente – Syaoran já vem dando problemas em outras ocasiões, durante as aulas. Ele saia sem permissão, respondia com falta de educação e olha só agora, suas notas caíram terrivelmente, aposto que como ficou ocupado com o festival cultural, não teve mais tempo de ameaçar ninguém a fazer seus deveres e atividades.
Sakura levantou de supetão olhando diretamente para o professor. Ela parecia nervosa e suas mãos tremiam.
—Ele não faz isso – eu suspirei, pois ela estava fazendo novamente, confundindo os papeis – quero dizer, eu não faço isso! Diretor, esses dois também...
—Chega! – deu fim o diretor – independente do que aconteceu, Syaoran, eu já havia avisado para não se meter em mais confusões, havia te dado um ultimato. Agora, sente-se!
Fez se silencio na sala, menos por um barulho abafado de Kamui que tentava segurar a risada.
—Por favor, Senhor Kamui, Yamato – devia ser o nome do garoto mais fortinho, em que eu havia nocauteado – me digam exatamente quem foi que bateu em vocês mesmo?
E novamente fez silencio na sala, pois nenhum dos dois poderia dizer que tinham apanhado de uma garota. No entanto, o olhar deles os denunciou quando se encontraram com o meu. Dei um pequeno sorriso de encorajamento aos dois. O diretor suspirou, passando as mãos na cabeça.
—Tudo bem, saiam os três por favor – disse ele se dirigindo ao professor também, que mantinha um olhar feio na cara – Sakura e Syaoran fiquem, quero conversar com eles!
Eu sabia que meu dia tinha acabado ali. Não suportava aquele tipo de olhar que se mantinham no rosto daqueles três sujeitos saindo da sala, eles pareciam compor mais meu histórico escolar do que minhas próprias notas.
Sakura esperou eles saírem para desabar na mesa do diretor.
—Senhor, nós não fizemos nada! Kamui estava apenas enchendo o saco de Sakura, ela não queria sair com ele, o que eu poderia fazer? E o outro rapaz gordinho tentou me bater também, estava apenas me defendendo.
Ela olhou para mim e bateu em meu braço. Eu dei de ombros. O diretor olhou para nos dois e fez algo que eu não esperava, sorriu olhando para mim, eu, Syaoran!
—Belo soco de direita – esse homem estava bem? – me surpreende mais ainda uma outra coisa, começarem a namorar? Por essa não esperava mesmo. Até que formam um bonito casal. Um problema a menos então.
Eu não sabia o que dizer, apenas olhei para Sakura, que fazia o mesmo que eu. Porem, me lembrei rapidamente do selinho que ela me deu e desviei o olhar, sentindo as bochechas esquentarem. Ele tinha razão, eu e Kinomoto éramos como cão e gato, poderíamos dizer agora que somos até bons amigos.
—Porem, o que eles disseram até que faz sentido, suas notas caíram muito Syaoran – senti um calafrio na espinha – não estou dizendo que você obrigava ninguém a fazer as coisas por você, na verdade, muito pelo contrario, você é um dos alunos mais avançados, mas sinto que algo aconteceu....
Por um instante, achei que ele soubesse da verdade, meu coração acelerou um rápido alívio desceu por minhas pernas, algo me fazia confiar no diretor esquisito. Mas ele levantou e abaixou as sobrancelhas enquanto trocava olhares rápidos de mim a Sakura, indicando algo que fez meu rosto corar, assim como o dela.
—Diretor, não....
—Eu sei que vocês são jovens e possuem muito hormônios, e entendo que agora estão, como posso me expressar, se descobrindo.
Eu e sakura pulamos ao mesmo tempo, tentando justificar o mal entendido.
—Não, eu nunca encostei nela....
—Eu não sou assim com ele....
—Por deus, não chegamos a esse ponto....
—Não somos assim, sério....
O diretor riu novamente. Esse cara era uma figura, eu não o entendia. Pela terceira vez olhei para Sakura e ela para mim, sem entender o que estava acontecendo.
—Ok então – ele ficou sério – porém, não posso voltar a minha palavra e dar mais uma chance, já tínhamos conversado. Vou ter que ligar para seus pais para informar a situação.
No mesmo momento, meu sangue congelou e senti falta de ar. Levantei num salto e quase subi na mesa do diretor. Um pesadelo estava acontecendo, com certeza.
—Senhor – comecei – por favor, eu juro que manteremos as coisas nas linhas, vamos nos concentrar no festival, prometo, mas não ligue para nossos pais.
—Sakura, eu entendo que você é uma aluna exemplar, mas...
—Por favor, Syaoran vai subir o nível das notas dele novamente, as minha melhoraram....Nos dois estamos nos dando super bem, não tem com o que se preocupar. Não era isso o que o senhor queria?
Sakura olhava para mim desentendida. Ela não tinha noção do risco que estávamos correndo. O diretor olhou para mim sem dizer nada, como se estivesse pensando.
—Quero que voltem para suas atividades por hoje...terminem de ajudar os alunos e descansem – ele olhou para minhas mãos – por deus, e passem na enfermaria.
Fomos expulsos da sala sem mais uma palavra. Sakura olhava para mim preocupada, pois eu estava desolado. Se ele ligassem para nossos pais, seria o fim para nos dois. Eu e ela caminhamos em silencio até a enfermaria. Ela me fez sentar em uma das camas e pegou algumas bandagens, pois a enfermeira não estava lá, já que estava ocupada com a preparação do evento.
Em silencio, ela limpou as feridas e colocou band-aids em minhas mãos.
—Bom, poderia ter sido pior – disse ela tentando me animar – poderíamos ter levado suspensão ou algo assim.
—Preferia ter levado suspensão.
Sabia que ela estava com medo de perguntar porque, eu também não queria responder. Apenas suspirei novamente.
—Bom, já que vamos voltar, porque você não me ajuda a estudar as falas para a peça? Já esta tarde, e aposto como a bela adormecida foi embora.
Nem reparamos que já estava escurecendo.
—Não estou a fim Sakura!
Eu evitava a todo custo entrar em contato com minha família fingir um comportamento exemplar. Não podia mostrar um lado fraco, e se por acaso minha mãe decidisse fazer uma ligação para perguntar o andamento das coisas....preferia não pensar nisso.
—ora, vamos, esta com medo de ser a princesa? Ou que eu seja um príncipe melhor que você?
Desviei o rosto para mostrar que não estava a fim de conversa. Ela suspirou e cruzou os braços, desistindo.
Ou talvez não.
Ela puxou meu rosto para encarar o seu, que estava muito perto. Subiu na cama, me obrigando a deitar, colocando seus joelhos nas laterais de meu corpo.
—Então vou te beijar de novo!
Eu sabia que ela estava brincando, por isso apenas bufei e tentei me desvencilhar. Porem, ela aproximou o rosto mais ainda, ficando apenas a alguns centímetros do meu.
—Não foi estranho para você beijar a si mesmo? – disse ela – vai acontecer de novo, mas dessa vez, vai ser pior!
—Sakura, não vem com essa – disse eu tentando puxar os braços – não estou a fim dessas brincadeiras agora.
Ela beijou o canto de minha boca, era quase boca com boca, fazendo meu coração dar uma cabalhota de susto e um arrepio descer pela espinha. Tentei me desvencilhar ainda mais, pois eu sabia que essa menina estava louca.
—Não estou brincando. Vai me ajudar?
Meus braços estavam agarrados em sua blusa, tentando afasta-la.
—Sakura, para com isso, você não faz ideia do que...
Ela beijou o outro canto de minha boca, chegando ainda mais perto da boa inteira. O mesmo calafrio subiu e desceu outra vez. Meu coração estava acelerado, porque diabos eu estava assim? Afinal, era eu mesmo que eu enxergava em minha frente.
—Dessa vez vai ser certeiro.
Não tinha jeito, ela tinha enlouquecido. Minha mente ficava imaginando a imagem dela em cima de mim, fazendo minha respiração ficar falha. Se eu fechasse os olhos e a beijasse, perderia o controle. Engoli em seco. Suas mãos ainda estavam na lateral de meu rosto, ela viu que eu havia ficado quieto, porem mesmo assim, estava se aproximando novamente. Nos dois fechamos os olhos, querendo ver à imagem um do outro a frente.
Foi só um roçar de lábios muito rápido para meu gosto, quando a porta da enfermaria abriu e entrou uma Tomoyo totalmente vermelha.
—Vocês dois estão muito próximos mesmo, não é.
Desconcertados, eu e Sakura pulamos, saindo de perto um do outro.
—Muito bem, o que esta acontecendo?
Fale com o autor