rEVERSE - O conto da primeira estrela
11 Festival Cultural: Preparações/ Segunda parte
Notas iniciais
(Sakura) Festival Cultural: Preparações/ Segunda parte
—Vamos lá! Tire a roupa – disse Tomoyo – Você está com o melhor corpo da escola, não me diga que não tirou nem uma casquinha?
Corri para longe antes que ela terminasse de arrancar minha blusa outra vez. Se a mãe de Tomoyo entrasse no quarto dela naquele momento, a cena seria completamente desapropriada e iriam pensar que a garota era uma pervertida. Aliás, desde que nos duas estivemos sozinhas ela tem passado a mão em mim para descobrir se o corpo de Syaoran era tudo o que diziam na escola. Ela era uma pervertida sim.
—Tomoyo! Pare com isso, o corpo é dele, mas quem está desconfortável sou eu! – Disse eu me encostando no outro canto do quarto, cobrindo o lugar que antes habitava dois pares de seios.
Ela sorriu, colocou as mãos na cintura e balançou cabeça, dando-se por vencida e guardado a câmera.
—Tudo bem, você ganhou, mas só porque essa situação é muito estranha! Pensando bem, você pode dizer o que quiser, mas a história era bem diferente quando vocês dois estavam na enfermaria – riu ela.
Meu rosto novamente entrou em combustão, lembrando-se daquele fim de tarde. Eu tinha perdido a cabeça? Por um pequeno instante realmente havia perdido o controle e queria beija-lo. Foi insuportável ver Syaoran abalado daquela maneira quando saímos da sala do diretor, estava indignada pela responsabilidade ter caído toda em seu nome mais uma vez – apesar de que era eu que estava em seu lugar agora – eu queria anima-lo, mas. Quando me vi, acho que foi eu que me animei. Quase o beije, ele devia pensar que eu era uma pervertida. A cena repassou em minha cabeça diversas vezes, mas com os papeis nos lugares certos, sentia um arrepio subir e descer toda vez.
Desconcertados, ficamos sem reação na frente de Tomoyo, por isso demorou um tempo até explicarmos toda a história. Tive que dar inúmeros fatos de quando estava com Tomoyo sozinha para provar que eu realmente era a Sakura – como a viagem no campo que fizemos juntas com sua mãe, já que minha mãe falecida era amiga da dela, ou o primeiro namorado de Tomoyo, Erioul, e como ela ainda gosta dele – depois disso, ela não largou do nosso pé e ralhou comigo por não ter confiado nela.
A história teria terminado bem, se a Daidouji não exigisse que eu fosse dormir na casa dela. Obviamente, Syaoran enlouqueceu, pois ele já estava ganhando fama de pervertido ou gay, já que andava somente com meninas e – de acordo com ele – tinha ganhado um certo rebolado. Mesmo assim, a teimosia de Tomoyo é inata e imbatível.
Olhei para Tomoyo por algum tempo, não me sentia bem como estava me sentindo fazia muito tempo, eu finalmente tinha minha amiga de volta, e ela sabia exatamente quem era eu.
Foi uma noite como as outras nos tempos normais. Fizemos nossos cabelos – amarrei duas chiquinhas nos cabelos de Syaoran, como eu fazia antigamente no meu – pintamos nossas unhas dos pés e mãos, escolhendo uma cor bem chamativa de propósito. Tomoyo me arranjou uma antiga camisola de mangas longas, florida e decotada, que estava em seu armário desde a última vez que vim dormir aqui. Era para ser uma camisola grande, mas em Syaoran ficou do tamanho de uma blusa normal. E para finalizar, tiramos muitas fotos de lembranças para que um dia víssemos esse momento para rir bastante.
—Me diz uma coisa Sakura – começou Tomoyo – você não deu nenhuma espiadinha?
Por um momento, não entendi as palavras de minha amiga, mas após uma piscadela, meu rosto entrou em combustão, não porque eu não havia pensado nisso, mas sim porque já tinha se tornado um hábito. Era como se tivesse sido pega no flagra. Não teria a coragem de admitir isso mesmo para Tomoyo.
—Tomoyo! – Engasguei com minhas próprias palavras, gaguejando como sempre faço quando estou mentindo na cara dura – Estamos nos apoiando um ao outro para superarmos esse trauma juntos, então tenho que respeitar a privacidade dele
Mas era obvio que ela me conhecia bem demais, caso contrário, nunca teria me reconhecido.
—Ah, pelo amor de Deus, né Sakura! Syaoran é homem, você acha mesmo que ele não olha para o que tem? – Disse ela enquanto penteava seus longos cabelos negros – além do mais, vocês dois já possuem um histórico grandinho, né? Ele pode não olhar por interesse, mas curiosidade com certeza.
Mais uma vez, me senti ressentida com o chinês. Assim como Tomoyo, eu também não imaginava que Syaoran fosse uma boa pessoa. Me senti na obrigação de concertar a imagem dele, ou a que criamos sobre ele.
—Sobre isso, Tomoyo, eu confio completamente nele – aleguei – ele é desse jeito, quero dizer, julgamos o livro pela capa. É gentil, pois cuidou de mim desde o início quando estávamos perdidos, eu nem sabia o que fazer. É altruísta, pois tentou fazer as coisas certas e acabou julgado por isso. E também, ele é bonito, apesar de eu nunca ter admitido.
—E também é ele a causa desse seu sorriso bobo.
Balancei a cabeça, tentando sumir com qualquer expressão que tinha aparecido.
—Claro que não, mas fico feliz que nos tornamos amigos de verdade, sem aquela rivalidade besta – não acrescentei a ela de como era divertido discutir com ele, tem coisas que eu queria manter somente para mim, por enquanto. Senti que estava sorrindo novamente.
—Fico feliz por você, Sakura. Mas o que será de vocês dois agora? Como foi que isso aconteceu?
—Eu não faço a mínima ideia, tentamos e estudamos tudo, mas não descobrimos a causa...ou se é possível reverter.
Tomoyo ficou quieta por um momento, encarando o chão por um tempo. Ela estava em sua cama e havia acolchoado o chão para mim. Quando pequenas, montávamos barracas improvisadas entre a cama e a escrivaninha, como se estivéssemos acampando. A lembrança me passou na cabeça por um momento e imaginei nós duas em um acampamento agora. Seria muito esquisito, agora eu entendia o porquê de Syaoran ter ficado nervoso.
_Se não é algo que possa ser explicado cientificamente, e se passarmos para o plano espiritual?
Eu sempre precisava de um momento a mais para entender coisas complicadas, Tomoyo percebeu minha confusão em meu rosto.
—Na escola, terá uma sala que vai fazer um tema voltado para assombrações e mistérios. Eles pediram para que eu ajudasse com as maquiagens.
—Você está ajudando todo mundo, hein!
—A questão é que eles abriram uma sessão para esse tipo de coisa. Uma garota que trabalha com a mãe dela nisso vai ler as mãos das pessoas, e se dermos uma olhada para tentar descobrir alguma coisa?
—Essas coisas são pura mentira, Tomoyo – disse eu – não acredito que isso possa ajudar em alguma coisa.
—Ela leva realmente a sério – ela sorriu marotamente – e o pessoal está interessado por que ela vai ler o amor, você sai ganhando alguma coisa no final das contas.
Novamente, levei uns dois minutos para entender suas palavras e um instante para sentir meu rosto esquentar. No fundo, não deixei de ficar ansiosa para o dia do festival. Joguei uma almofada na cara de Tomoyo e encerramos a noite rindo, mas em nenhum momento minha mente tirou as palavras dela de minha cabeça.
****
Era o ultimo dia antes do festival cultural e por isso todos estavam afoitos, correndo de um lado para o outro. As salas estavam cheias de mateais teatrais – uma cabeça de cavalo feita de papel marche, uma torre de papelão, um tear com ponta de agulha improvisado – nos cantos haviam os figurinos criados e costurados pela própria Tomoyo e um recanto somente para a sessão de maquiagem. As outras salas também estavam muito bonitas, enfeitadas e arrumadas para quando abrissem os portões e o público passeasse pelo prédio.
Tudo estava indo bem, menos quando olhei para a cara de Syaoran com aquela carranca que não ficava nada bem em meu rosto. Quando vi ele chegando perto, meu corpo fez o movimento automático de se afastar e sumir de vista, pois eu me lembrava de todas as palavras que havia dito a ele antes de Tomoyo nos descobrir. O que teria acontecido se ela não tivesse aberto aquela porta? Eu ouvi ele me chamar, mas mesmo assim, dei a desculpa de que precisava terminar o ensaio, então puxei minha parceira de palco e corremos para o corredor, nos afastando o máximo possível. Eu não estava pronta para encarar ele ainda.
O restante do dia foi dessa forma, entre ensaios, conversas e fugas. Era só Syaoran chegar perto que eu arranjava algo para fazer. Não tive que me preocupar muito depois, fui designada para ajudar a construir o palco e Syaoran de montar as barracas de comida, ficamos separados por todo o restante do dia.
Peguei minha espada falsa e ergui sobre a cabeça, pronunciando as palavras do roteiro que eu havia memorizado.
—Pela minha honra, salvarei a princesa de seu terrível destino. O pesar cai sobre meus ombros ao pensar em tal proveito desta situação, mas com um beijo – minha mente escapuliu novamente por um instante, de quando segurei o rosto de Syaoran e o beijei no canto de sua boca, meu coração deu um salto e meu estomago se contorcia – mas..co...com um beijo... irei livra-la da morte.
Ainda me sentindo quente, me reclinei sobre Matsumoto, minha parceira de palco que atuava como a bela adormecida, fingindo dar-lhe o beijo final. Como sempre, beijei sua bochecha enquanto cobria com a mão para que o público não visse que o beijo era falso, mas que pensasse que aconteceu. Todos aplaudiram a cena final e encerramos o último ensaio. Dei meus parabéns para Matsumoto, mas seu rosto ficou engraçado, com a pele clara ficando rosada sobre o mar de cabelos pretos. Ela estava mais para branca de neve do que bela adormecida. Se eu não fosse uma garota, nunca iria reparar, mas eu sabia que o vermelho em suas bochechas era por conta da aparência de Syaoran. Quando ele não botava medo, deixava elas envergonhadas.
Olhei em volta procurando pelo chinês. Me sentia aliviada por ver que ele não se encontrava ali, mas também decepcionada por ver que não estava. Ajudei Matsumoto a se levantar e antes que eu pudesse me afastar, ela me puxou para o canto da sala.
—Li, obrigada por tudo, você me ajudou e incentivou bastante.
—não precisa agradecer – disse eu sorrindo – nos dois estávamos errando bastante, mas com a ajuda de todos conseguimos chegar ao fim.
—eu peço desculpas, pois no início eu tinha tanto medo de você, tentei até trocar de papel e ninguém quis aceitar. Mas estávamos errados, você é mesmo legal.
Eu não sabia se ficava feliz pelo elogio de ser legal ou ofendida por saber que ela tentou trocar de papel e ninguém mais aceitou.
—está tudo bem.
—sabe Li – iniciou ela novamente, suas mãos apertavam distraidamente a barra da camiseta, suas bochechas mais vermelhas do que antes – Eu poderia almoçar com você, se não for incomodar muito?
Eu reconhecia aqueles gestos de muitas outras garotas que vi tentando chamar Syaoran para sair – antes de descobrirem que ele era um rei demônio – Porem, Matsumoto nunca foi uma menina de se conversar muito em sala, eu nunca tinha visto ela falando mais do que algumas palavras, então fiquei surpresa com sua coragem. Um lado meu queria ser egoísta e dizer não, mas eu não tinha direito de escolher as garotas que Syaoran Li poderia conversar. Além do mais, sentia um pouco de pena de Matsumoto, ela teve que criar muita coragem para fazer a peça, e eu não queria destruir isso.
Eu não poderia pular meu almoço sem encontrar Syaoran primeiro, pois ele que tinha ficado responsável por trazer as marmitas, mas me senti aliviada quando cheguei em minha carteira perto da janela e encontrei um bilhete junto com minha comida.
“Estou ocupado com as construções do palco, comece sem mim”
Estava escrito em um garrancho bonito, era a letra de Syaoran. Agradeci internamente por ter o almoço em paz naquele momento, pois meu coração já não estava se aguentando toda vez que ela aparecia.
Enquanto eu comia em paz, Matsumoto pediu licença para se sentar comigo. Conversamos bastante, mas a todo momento ela perguntava coisas que eu não achava certo responder por mim, pois era a vida pessoal de Syaoran.
—você aprendeu a lutar sozinho, Syaoran? – ela já estava me chamando dessa forma? – quero dizer, é obvio que você sabe lutar, pois suas brigas são muito famosas na escola.
—é mesmo?
—E você veio da China mesmo? Como é lá? E sua família? Você mora sozinho?
Para pensar, nem mesmo eu sabia sobre a família de Syaoran, ele nunca chegava a comentar e fugia do assunto. Provavelmente, deveria ser uma família muito dura, pois se invocou quando saímos da sala do diretor, quando vi aquela agonia em seus olhos, senti que deveria fazer alguma coisa. Meu rosto esquentou novamente, as pessoas iriam achar que eu estava com febre, se continuasse desse jeito.
—Eles estão bem – era só o que eu poderia responder.
—Puxa, você é tão incrível, poder falar duas línguas dessa forma – eu estava começando a me sentir incomodada com aquela conversa – mas me diga, é verdade esse boato de você e Sakura estarem namorando?
Ouvi um alarme em minha cabeça e ele queria me alertar sobre algo, eu apenas não tinha certeza do que. Estava incomodada ao olhar para essa menina em minha frente. Era assim que Syaoran se sentia com Kamui?
—Sim, estamos sim, começamos a pouco tempo.
Eu podia jurar que vi ela se encolher. O silencio ficou um pouco pesado. Não que Matsumoto fosse uma pessoa desagradável, mas eu não queria que ela ficasse me perguntando coisas que não lhe diziam respeito, ou a mim. Além do mais, era errado. Ela me encarava com aqueles olhos castanhos, que não conseguiam parar de piscar, enxergando Syaoran e não Sakura.
Eu tinha que tomar cuidado para não entrar em guerra com os garotos. Com as meninas, eu não podia me aproximar muito, ou elas poderiam confundir seriamente minhas intenções. E se eu exagerasse, era visto como gay enrustido.
Meus ombros pesavam de cansaço.
Dei uma desculpa dizendo que precisava achar Tomoyo para verificar o tamanho de minhas roupas. Antes que eu pudesse sair, ela segurou meu braço e olhou ao redor para verificar se tinha alguém olhando.
—Eu sei que você e Sakura não se davam muito bem no começo, já que brigavam como cão e gato. Descobri que você é uma pessoa tão legal... – começou ela, eu tive certeza de que não queria escutar o resto – sabe, se as coisas entre vocês dois não derem certo, pode me procurar se quiser. Digo, nos damos tão bem e você é tão legal...não quero que sofra com uma garota gritando em seu ouvido. A Sakura parece uma menina ótima, mas do jeito que vocês eram antes, eu acho que isso não vai durar, então se quiser conversar...
Eu não poderia escutar mais aquilo. Não estava acreditando, Matsumoto não parecia ser esse tipo de menina, ela deveria ser tímida demais para isso. Syaoran nunca ficaria com ela, ou ficaria? Ele tinha uma fama com algumas mulheres da escola, ou isso também era só história de outros?
—Eu agradeço muito Matsumoto, fico feliz que ouvi isso, mas eu estou compromissado com a Sakura – Eu não estava falando aquilo para ela desistir da ideia de correr atrás do rei demônio, com certeza, mas sim porque não poderíamos mais desmentir nossas mentiras, né? – Nós não nos conhecíamos direito, mas quando começamos a trabalhar juntos, percebi que poderíamos nos tornar bons amigos.
—só bons amigos? – Disse ela com uma pequena chama de esperança visível.
—Bom, mais que isso. – disse eu martelando o prego final – olha, eu realmente preciso ir agora. Tomoyo precisa ajustar algumas roupas minhas.
Eu sai, deixando ela sozinha, sei que parecia errado fazer isso, mas também parecia errado ficar ali e deixar que ela chegasse mais perto. Ela não conheceu Syaoran, ela conheceu Sakura no corpo de Syaoran. Me pergunto se mais alguém irá se declarar para mim hoje, de acordo com a fama do bendito chinês.
****
Eu não precisei procurar Tomoyo, ela me achou. Vinha correndo das salas do primeiro ano, onde estava ajudando com as preparações, mas no momento, pensei que ela que precisava de ajuda. Chegou sem folego, pediu um minuto e tomou ar, antes que eu pudesse falar alguma coisa.
—Sakura!
—Syoran – disse eu beliscando ela.
—Syaoran! A vidente! – Disse ela sem folego novamente – A vidente disse que pode nos atender agora, aproveitar que a sala estava fazia. Além do mais, ela quer que você avalie a temática.
—Tomoyo, ela é do primeiro ano, tem certeza que é confiável? Pode ser somente um monte de bobagens para atrair clientela.
—Se você falar isso na frente dela, ela vai se sentir ofendida. Ela está levando a sério, vem do ramo da família, pode nos ajudar em alguma coisa – disse ela me puxando em direção a sala – além do mais, não precisamos dizer nada sobre a situação, apenas deixe que ela olhe sua mão.
E assim, fui arrastada para uma sala sinistra e escura. Haviam colocado cortinas pesadas nas janelas e divisórias usando as carteiras como apoio para separar as sessões. Estava bem criativo, eu tinha que admitir, e por isso mesmo eu já estava com as pernas bambas de medo.
A sala começava com um guia turístico, que apresentava os mistérios da vida e nos desafiava a entrar após os dez primeiros passos da porta, avisando para não tocar nas paredes sob qualquer circunstância. Era como um labirinto de mão única, mas que fazia diversas curvas. Me agarrei no braço de Tomoyo sem me importar nem um pouco do que as pessoas poderiam dizer se vissem um grandalhão agarrado ao braço de uma garota.
Mas foi mais interessante do que imaginei, havia alguns enigmais para resolver e tentar seguir adiante, nada complicado se até eu conseguia entender, era mais como charadas, e acabávamos nos divertindo bastante.
O prêmio era a leitura de mão por ter chegado a sala da vidente. O espaço era maior, mas nem muito pequeno, o suficiente para três pessoas sentarem na mesa redonda que foi posto no centro, com uma bola de cristal. Havia uma garota mais baixa do que eu, de cabelos escuros e turbante na cabeça. A ambientação estava muito bem feita, iluminando somente o rosto dela. Me toquei que o brilho vinha da bola de cristal, fiquei surpresa por ver que era trabalho de primeiro ano e senti vergonha de nossa peça tola.
_Aproximem-se mortais – disse ela – conseguistes chegar até o fim do túnel usando a inteligência, agora façam seus pedidos...o que vocês acham dessa fala, ficaria legal para receber o público?
Ela retirou o turbante de sua cabeça e o colocou na lateral da mesa.
—puxa, isso faz calor. Obrigada por tudo Tomoyo, acho que você tem razão, esse tecido é muito grosso e pesado para ficar usando o dia todo.
—fico feliz que vocês gostaram dos concelhos, tenho certeza que vocês ganharão o prêmio de melhor temática.
—está jogando no time adversário? – Disse eu para Tomoyo.
—Claro que não, a ideia foi completamente deles, eu apenas aconselhei na escolha das cores e tecidos. Estou sendo honesta.
Eu dei de ombros, estava realmente muito bom, e nem mesmo eu botava fé em nosso trabalho. Minha atuação era muito tosca mesmo.
—esse é seu amigo que você falou? – disse a garota – ele parece meio assustado.
—Ele não acredita muito nessas coisas, mas eu sei que podemos contar com você.
Ela riu e apontou para a mesa, indicando para me sentar. Tomoyo permaneceu atrás de mim, aguardado pacientemente. Estendi minha mão e a garota segurou. Ela fez eu abrir bem os dedos e depois fecha-los, passou os dedos dela pela minha palma e puxou para mais perto da luz. Sua cara estava séria, não sei quantos minutos ela ficou olhando, quando começou a fazer careta, imaginei que estivesse com problemas para enxergar.
—Bom, primeiro deixe-me explicar uma coisa – disse ela ainda segurando minha mão e analisando a palma, passando os dedos sobre as linhas desenhadas – leitura de mão não é uma coisa precisa, então não adianta perguntar quando ou como, e até mesmo o porquê.
Ela ficou concentrada novamente em minha mão estendida, como se estivesse lendo novamente só para ter certeza.
—Olhe, ler as mãos das pessoas vem do ramo de minha família, portanto não digo que estou mentindo, mas se qualquer outro olhasse....
—O que está dizendo?
—Bom, para começar, elas não dizem nada, mas as linhas formam seu passado, presente e futuro, além da linha da vida e do amor – meu coração deu um salto – suas mãos são bem traçadas, com a maça alta e uma curvatura muito boa, são fortes apesar de tem muitas cicatrizes. Isso só mostra como seu passado foi difícil e ainda carrega esse fardo consigo nas costas. Você tem um destino que não pode fugir.
A casa vazia de Syaoran me veio à mente, o motivo do porque ele está no Japão sem a família, aguentando essa diferença cultural sobre os ombros sozinho. Mas porque?
—Voce tem a marca do lobo, é uma coisa rara, as pessoas que possuem essa marca são valentes, aquentam as situações mais difíceis, e ninguém pode te aprisionar. Sempre possuem forte impacto nas outras pessoas. Você é durão, hein!
Meu coração saltou novamente, me lembrando de seus olhos penetrantes, de como eles poderiam ser desafiadores e selvagens. Nunca vi Syaoran sorrir, mas tinha certeza de que ele poderia ser lindo. Repare tarde demais que ela estava lendo a sorte de Syaoran, e não a minha. Era correto eu me meter dessa forma na vida dele?
—A sua vida...ela vai ter muitas escolhas que você terá que fazer e consequências cairão em seus ombros. Mas, tem uma coisa que me intriga. Estranho, as linhas não podem ser confundidas, pois elas não podem mudar, mas você…Você é estranho. Parece que...trocaram de lugar.
Senti um gelo descer por todo meu corpo, arrepiada. Tomoyo olhou para mim e eu olhei para ela. Minha mão continuava presa a mão pequena da garota vidente.
—seria coisa dos astros? – Ouvi ela murmurar.
—que astros? – Disse eu impulsiva. Aquela era a única pista em um mês inteiro, eu tinha que me agarrar a isso.
—quando as linhas ficam confusas assim, é porque tem alguma coisa diferente, algo sobrenatural. Algo dos astros, como minha família chama. Mas isso...é como achar uma agulha em um palheiro. Eles não costumam intervir.
—Astros? Espíritos? Fantasmas – era um absurdo, mas nosso caso também era – isso existe mesmo?
—mas é claro! – Ela soltou minha mão, bufando pelo nariz – os astros não são nada do tipo que voce imagina. Sabe aquelas coisas de constelações, estrelas...o zodíaco...bem, é tudo isso. Nem mesmo eu entendo. Quero dizer, é como se essas linhas nem fossem suas, apesar de estarem desenhadas. Parece que os astros estão brincando com você. Quem voce andou irritando?
Eu sabia que não tinha muito o que argumentar, ela parecia mais confusa do que eu. Os astros estavam brincando com a gente? O que isso queria dizer? Não veio de mim nem de Syaoran, o que tínhamos feito para isso acontecer?
—e quanto a linha do amor? Tem alguma coisa em especifico? – Disse Tomoyo, vi ela secretamente piscar para a garota em minha frente, mas ela parecia mais entretida em observar minha mão. Inconscientemente, virei a palma para baixo.
—bem, a sua linha do amor é a única coisa clara. É como uma via única, você vai ter apenas um único amor na vida, eu diria até que já o encontrou, mas não sei informar mais que isso. Há um laço entre vocês que os mantem presos. Sendo bonitão desse jeito, aposto como já conheceu a sortuda.
Eu estava ficando confusa antes de Tomoyo fazer a pergunta, mas minha cabeça havia dado pane no sistema de vez com esse novo comentário. De repente, a sala começou a ficar muito quente e pequena demais. Eu precisava sair para tomar um ar.
****
Tomoyo comprou um suco para mim na lanchonete. Minha cabeça girava um pouco tentando processar as novas informações, que pareciam fazer com que a gente apenas desse a volta e aparecesse de novo no início. Afinal, qual era a razão de tudo isso?
—eu não entendo, tudo o que eu mais quero é voltar ao normal! – Reclamei eu, quando ela me entregou a lata.
—Talvez voce não precise pensar nisso agora. Talvez, vocês voltem ao normal com o tempo. As coisas podem se ajeitar sozinhas.
—Ou talvez fiquemos assim para sempre.
Eu sabia que Tomoyo estava tentando ajudar, mas parecia que eu estava segurando a ponta de um emaranhado de corda sem fim.
—Olha, Sakura, eu sei que a situação parece confusa agora, mas quem sabe se voce apenas relaxar as respostas venham sozinhas. Comece pensando em como voce se sente com toda essa confusão e depois que passos deveria tomar.
Por mais confusa que eu estivesse, nosso intervalo tinha se estendido por muito tempo, as pessoas da sala ainda precisavam de ajuda. Corremos de volta e acumulamos nossas tarefas, Tomoyo precisava ajustar todas as roupas da peça, eu tinha que ajudar no termino das construções do cenário, algumas peças tinham se soltado com o uso nos ensaios, e eu ainda não tinha visto Syaoran o dia inteiro. Fiquei o tempo todo fugindo dele, mas agora queria vê-lo mais do que nunca.
Tomoyo havia mencionado sobre começar pensando em mim, mas aquela frase não saia da minha cabeça. Os astros estão brincando com vocês. O que eram astros mesmo?
Perdida em pensamentos, senti uma grande explosão na ponta de meu dedo. Eu estava segurando o martelo e não havia visto que estava pregando minha própria mão. Corri até o banheiro para lavar e aliviar a dor, a unha estava ficando completamente roxa.
Eu estava começando a ficar de mal humor, era assim que Syaoran se sentia o tempo todo? Eu não deveria estar parecendo muito amigável agora, com o martelo na mão. Estava pronta para procurar pelo chinês quando dei de cara Matsumoto novamente. Ela parecia que estava me aguardando durante todo esse tempo.
—Syaoran – disse ela segurando minha mão – o que aconteceu com seu dedo?
—Estou bem, bati com o martelo sem querer.
—Coitadinho.
Ela tinha segurado meu dedo e estava prestes a fazer o que eu estava imaginando que ela faria. Quando chegou com a boca perto e abriu para chupar o machucado, puxei minha mão antes que fosse tarde demais.
—Eu estou bem, sério. – Disse eu me afastando antes que ficasse encurralada.
—Bom, fico feliz – ela começou a enrolar a ponta do cabelo com as mãos, as garotas são tão chatas assim quando ficam no pé de alguém? – Estou tão animada para amanhã, tenho certeza que seremos o melhor casal.
—não vai ter somente nós atuando, sabe. – Decidi comentar.
—Bom, verdade, mas estamos nos dando tão bem. Quer ensaiar a cena do beijo?
Ela se aproximou de mim lentamente, preste a agarrar meu rosto como eu havia feito na enfermaria com Syaoran. Um impulso dentro de mim me fez correr para o outro lado no mesmo momento, mas não era porque eu não queria ser beijada por uma garota e sim porque eu não queria que Syaoran fosse beijado. Avistei meu corpo ambulante atravessando um dos corredores ao fundo e foi minha chance perfeita para escapar.
—Olha, Matsumoto, eu tenho que ir – disse eu afastando os braços dela de mim – assuntos a tratar com minha namorada.
Disse eu enfatizando no “namorada”. Corri para longe e arrastei um Syaoran perdido pelo braço antes que fosse tarde demais.
Olhei para aquela carranca maravilhosa dele, mesmo estando em meu próprio rosto, de braços cruzados. Senti um grande alivio por estar em sua companhia depois de um dia tão estressante.
Sem que eu percebesse, eu o tinha puxado para a sala de música, que graças aos céus estava completamente vazia. Parecia ser nosso refúgio. Me sentei no banquinho do piano e respirei fundo. Syaoran estava em silencio, apenas me observando.
—não vai dizer nada?
—não sei, estou avaliando para ver – disse ele chegando mais perto – voce parece que não quer conversar.
Balancei a cabeça e pedi que sentasse comigo. Mais do que ninguém, ele era a única pessoa que eu precisava ali. Ele sentou-se a meu lado, nossos ombros quase se encostando. Estava perfeitamente ciente do contato, e era muito agradável.
—Kamui de novo? – Disse ele se alarmando.
—não, pelo contrário.
Não consegui evitar de rir, contei para ele toda a história, dede o começo na sala do primeiro ano com a vidente e sobre Matsumoto e o que ela sentia por ele. Achei que ele fosse ficar convencido devido a sua fama com as mulheres, mas ele apenas suspirou e colocou as mãos na cabeça.
—é por isso que eu não queria que voce fosse gentil com ninguém – suspirou ele – agora ela vai ficar no seu pé o tempo todo.
—achei que fosse ficar feliz, quero dizer, o grande Syaoran Li e suas namoradas.
Ele levantou e me encarou de pé, com as mãos na cintura. Pareceria uma mulher de verdade se eu não o conhecesse.
—Sakura, essa história de minhas namoradas nunca existiu. Para começar, eu nunca namorei ninguém. As pessoas inventavam isso assim como os boatos de que eu era um gangster.
—Ue, e naquela vez que brigamos por voce ter me largado com os afazeres da sala, dizendo que tinha um encontro com uma garota?
—um encontro com uma garota, um encontro com minha prima, eu literalmente ia me encontrar com ela quando ela veio me visitar no Japão – ele coçou a cabeça – eu não poderia deixa-la no aeroporto sozinha. Me senti mal por ter deixado você com toda a responsabilidade.
Ele sentou novamente e ficamos em silencio.
—quanto ao que vocês ouviram – ele olhou para a própria palma da mão – não precisa se preocupar com isso agora, as coisas vão se acertar. Além do mais, ela leu a minha palma da mão e não a sua.
Meu coração batia pelos confortos das palavras de Syaoran, e também porque era algo mais. Eu queria ficar perto dele o tempo todo, queria seus conselhos e seu conforto. Mas eu queria ver ele em minha frente e não eu mesmo. Segurei a mão e ele encarava e entrelacei meus dedos nela, não importava para mim o que ele pensasse. Eu tinha desistido dessa guerra. Queria ficar ao lado dele. Eu estava apaixonada, estava apaixonada a muito tempo.
Olhando agora, era muito obvio.
Todas as nossas implicâncias, toda vez que eu me sentava com Tomoyo para reclamar, é porque já não conseguia parar de pensar dele. Ri ao ver como eu era infantil. Me lembrei da linha de amor de Syaoran, era uma mão única, ele teria apenas um amor em sua vida e eu sabia que não deveria ser eu, brigamos por tempo demais para que eu soubesse que ele não se sentia da mesma forma. Ele já teria encontrado essa pessoa? Eu não queria ouvir a resposta agora, por isso não iria perguntar.
Quando ele fechou os dedos ao redor dos meus, senti como se fosse um pequeno incentivo. Encostei minha cabeça no topo da sua, sentindo o leve aroma de meu antigo xampu, ele passou o braço em volta de mim, me aconchegando para mais perto. Não estávamos confortáveis, mas eu queria ficar ali pelo maior tempo que eu pudesse.
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