Notas iniciais
Espero que vocês gostem desse novo capítulo.

(Syaoran) O Grande Dia

O festival cultural sempre foi algo que eu deixava de lado, apenas cumpria minhas obrigações que eram escritas em uma folha de papel e deixadas em minha mesa. Ninguém tinha muita coragem para me dizer o que fazer, pois achavam que eu iria ataca-los se virassem as costas.

Mas a muito não me divertia.

Ajudei todo tipo de pessoa que me pediam conselhos e opinião. Eu me sentia útil. Os dias de preparações haviam acabado, todos fomos para casa cansados, mas ansiosos. Sakura caminhava a meu lado em silencio, com certeza pensando no que fazer. Eu não sabia dizer se essa historia de vidente tinha ajudado ou ela confundido mais ainda.

De qualquer forma, minha mão ainda estava com uma espécie de textura quente, as palmas suadas, como se eu ainda estivesse de mãos dadas com ela. Suspirei, tentando me acalmar, mas fazendo-a olhar para mim.

—Amanha vai ser o grande dia, não fique desanimada assim por muito tempo – disse eu para anima-la.

—Ue, foi voce que falou para não ser muito animado, ou as pessoas iriam estranhar.

—Eu disse – por algum motivo olhei para a mão dela de novo, era estranho ver uma mão maior que a minha, mas ainda assim, eu queria segura-la mais uma vez – mas se isso for deixar você para baixo, apenas se concentre em dar o melhor de si.

Ela me encarou como se nem tivesse me ouvido.

—Tem alguma coisa em meu rosto?

Suas faces ficaram vermelhas e ela desviou o olhar. O que ela diria se eu segurasse sua mão novamente? Eu estava agindo como um idiota.

—Esta tudo bem!

Caminhamos em silencio o restante do caminho novamente, hora olhando para as mãos um do outro, hora se encarando e desviando o olhar.

****

O dia não começou da melhor maneira que eu imaginava, pois não era nem oito da manhã e eu já estava com aquele maldito uniforme de líder de torcida colado em meu corpo. Como é que elas conseguiam andar com a barriga de fora daquele jeito? Além do mais, o short por baixo da saia pinicava e eu tinha que tirar da bunda toda hora.

Por outro lado, aquilo distraiu Sakura, pois ela rolava no chão de rir vendo meu desconforto. Tive sérios pesadelo durante essa semana de aparecer na frente do público com essa roupa em forma de homem. Mas aparentemente, tudo aquilo parecia normal para outras pessoas, ninguém percebia que eu, na verdade, era um garoto.

A barracas de comida estavam postas na entrada, assim como barracas para jogos de dados e argolas. As pessoas começavam a chegar aos montes, tiravam fotos com o coelhinho gigante com flor e se dividiam entre o palco e a entrada do prédio da escola. Nossa peça seria mais a tarde, depois de diversas apresentações de show de talentos e comédias. Dentro da escola, as salas tinham muitas atrações, como o labirinto do mistério feito pelo primeiro ano – soube que tinha grandes chances de ganhar o prêmio de melhor temática – os maids café e host clubs – Que eram cafés servidos por mulheres fofas vestidas de empregadas ou homens bonitos servindo sobremesas, eles tinham feito mesmo isso? – e também o túnel do amor.

Minha apresentação começou na abertura, dando início ao festival. Esperamos o público estar um pouco maior até tocarmos as trombetas e marchar entre a multidão no meio das barracas, como era planejado. Durante a marcha, girávamos o bastão e jogávamos para o ar, tudo sincronizadamente. Fazíamos saltos e acrobacias enquanto seguíamos em frente, dando um verdadeiro espetáculo, eu tinha que admitir. No final, fiz uma pequena surpresa, sabendo que comprometeria Sakura depois.

Corri para um salto mortal, mas em vez de somente saltar de costas e cair para a finalização, joguei o bastão no ar o mais alto que pude e muito mais para a frente do que devia, corri dando três saltos, no último rotacionando mais meu corpo para girar mais de uma vez no ar, como um verdadeiro ginasta artístico, e pegando o bastão antes que ele caísse no chão.

No mesmo momento, a plateia gritou e bateu palmas ensurdecidamente. A garota com o megafone quase esqueceu de falar:

—Bem vindos ao festival cultual da escola Tomoeda!

E assim começou o evento.

****

—Syaoran! – gritou Sakura enquanto pegava suas roupas de líder de torcida de volta e as dobrava – não acredito que você fez aquilo. Eu nunca vou conseguir fazer igual quando voltarmos, e elas com certeza vão ficar em meu pé.

—Não esquenta, eu te ensino – disse eu vestindo minhas roupas e mais o avental, pois ficaria nas barracas de comida agora. Depois teria um intervalo para assistir a peça de Sakura – ou você fala que torceu o pé.

Eu ri, mas ela me deu um tapa, quase me derrubando no chão, usando força mais que o necessário – Sakura nunca soube usar todos os atributos de meu corpo direito – mas ainda continuei rindo.

Tomoyo entrou afobada na sala, apesar de ainda faltar duas horas para a peça, ela corria de um lado para outro, conferindo se tudo estava certo e pedia para levarem tudo até o palco. Naoko, uma garota de óculos e cabelos médios corria de um lado para o outro, foi ela que tinha escrito o roteiro adaptado e estava enlouquecendo mais que Tomoyo. Ela agarrou todo mundo encaminhando-os para o camarim improvisado – o banheiro masculino, pois era o mais perto, já que teria troca de roupas entre as cenas – não tive tempo de desejar boa sorte para Sakura, pois Naoko arrastou-a pelo colarinho.

Fiquei impressionado com aquela garota, ela não demonstrava ter nem um pingo de medo de mim. Tentei esconder um pequeno sorriso no canto de minha boca.

O dia estava quente então prendi bem os cabelos de Sakura para o alto com uma liga e grampos. Amarrei uma bandana na cabeça e peguei a espátula. Eu faria okonomiaki. Sempre ficava com essa função em todos os festivais, mas da ultima vez, era yakissoba. Gostaria de dizer que foi fácil, mas minha barraca era a que estava sempre mais cheia, não sabia dizer se era porque estava gostoso ou se era para observar a famosa Sakura Kinomoto e suas habilidades de culinárias.

—Ela daria uma boa esposa!

Ouvi alguém dizer, um grupo de rapazes que estavam na fila esperando o pedido ser atendido. Deixei o pedido deles queimar mais do que deveria pra dar um gostinho melhor.

Eu não sabia quanto tempo estava lá, apenas que não parei por nenhum momento. Quando a fila acabou, por um instante, alguém me jogou uma lada de suco gelada, dizendo “bom trabalho”, antes que a próxima fila se formasse e voltássemos para o fogão novamente. Estava muito quente mesmo, mas eu me sentia pleno e satisfeito, por alguma razão. Era o último festival cultual de nossas vidas, e eu estava muito feliz.

Alguém cutucou meu ombro dizendo para fazer meu intervalo. Olhei para o relógio no pulso – peguei em minha casa, ninguém notaria que o relógio era meu – faltava 20 minutos para a peça, tempo suficiente para eu ir tomar algo gelado e ir para o auditório aberto.

Joguei o avental de lado em meu armário e comprei um refrigerante, observando a multidão que passeava na entrada do prédio. Eu, Sakura e Tomoyo combinamos de passar entre as salas temáticas mais tarde. Enquanto eu procurava uma lata de lixo, ouvi a voz de Tomoyo gritar meu nome de longe.

—Syaoran! – levei um susto, imaginando que alguém tivesse descoberto nosso segredo, até ver a morena correr em minha direção. Eu ia ralhar com ela por ser tão descuidada, mas sua expressão trazia desespero e preocupação – estamos com problemas.

Tomoyo me arrastou sem explicar nada até os camarins. Passamos pela entrada do auditório que estava lotado de pessoas aguardando o inicio da peça. Entramos no banheiro pedindo licença para todos da sala, que já estavam caracterizados com seus figurinos e maquiagens, porem eles estavam em volta de alguém. Senti uma pontada de preocupação, imaginando encontrar o pior cenário, mas o alivio bateu ao ver que Sakura estava bem, ou quase. Ela estava sentada em um banco, com as mãos pousando nos cabelos, mantendo os olhos fechados.

Olhei para baixo entendendo o porquê.

Suas belas roupas de príncipe, feita especialmente por Tomoyo, estavam os farrapos. Desde a gola bufante até o terno azul claro, tudo estava cortado e rasgado e tiras na parte da frente, como se alguém tivesse dado vários golpes com uma tesoura. Os botões haviam desaparecido, deixando vários fios pendurados, pois foram arrancados impossibilitando de fechar a roupa. Sakura estava praticamente seminua, a calça era a única que continuava intacta.

Alguém tinha ido buscar uma garrafa de água para Naoko, enquanto era abanada por uma toalha. As pessoas ao redor começavam a discutir, procurando o responsável pelo desastre. E eu sabia de quem era a culpa. Não importa o que acontecesse, sempre havia alguém caçando e procurando briga comigo, agora era Sakura que estava levando tudo nas costas mais uma vez.

Ninguém sabia o que fazer, faltava dez minutos para a peça começar. Decidimos tentar improvisar uma outra roupa com outros figurinos, não dava para reutilizar nada da anterior a não ser a calça panta curta preta de Sakura. Alguém entrou correndo desesperadamente.

—Gente, a bela adormecida sumiu!

Aquilo sim fez todos travarem de vez, como seria uma história da bela adormecida adaptado sem a bela adormecida para adormecer? Ninguém mais movia-se, apenas olhavam para a cara um dos outros esperando alguém aparecer com uma solução. Sakura ainda estava chocada por ter sofrido um atentado daqueles, estava acostumada a ser bem tratada por todos, nunca havia sofrido bulling. Tomoyo olhava para os figurinos na arara, sentiu um pequeno alivio ao ver que pelo menos a roupa da princesa ainda estava ali.

Eu tive uma ideia ousada que sabia que iria me arrepender.

Puxei Tomoyo de lado e pedi para ela arranjar alguns acessórios para mim, cochichando em seu ouvido o que deveria fazer. Ela sorriu e correu imediatamente para cumprir seu novo objetivo. Como todos olhavam para mim e Sakura, já que éramos os representantes, assumi a frente e ordenei a todos:

—Pessoal, a peça já esta atrasada e o auditório esta lotado, vamos improvisar com o que der, vamos todos para o palco, assumam suas posições. Nós vamos conseguir.

Com coragem transmitida a todos, eu me virei para Sakura e abaixei a seu lado. Coloquei a mão em seu joelho e ergui seu rosto.

—Ei, a peça tem que continuar, você pode!

—Mas, minhas roupas....as cenas....

—Todos acham que Syaoran Li é um bandido gangster a quem todos tem medo, e essa peça é uma adaptação, então vamos adapta-la mais ainda. Você vai ser verdadeiramente mal.

Ela olhou para mim sem entender. Corri até a arara de figurinos e puxei o vestido da bela adormecida, colocando sobre meu corpo.

—Voce acha que serve em mim?

Sakura sorriu transbordando alívio e gratidão. Eu tinha ensaiado com ela todas as noites, então sabia mais ou menos as falas, iria entrar no lugar da bela adormecida desaparecida. Não poderia ser tão difícil, eu só tinha que espetar o dedo em alguma coisa e dormir o restante da peça.

Tomoyo entrou correndo carregando o que eu tinha pedido, arrumamos Sakura o mais rápido que pudemos, pois a peça já tinha começado a abertura. No final, Tomoyo sorriu pra mim e demos um high five, aprovando as novas vestes de Sakura.

Um pirata, ou pelo menos era o que tínhamos conseguido improvisar.

As roupas de Sakura estavam rasgadas, ela não poderia mais ser um príncipe nobre. Então pegamos o tipo de personagem que é ao contrário de um nobre, bastou puxar a blusa rasgada para os ombros, prendendo com um tecido em enrolado em sua cintura. Rasgamos outra parte e prendemos em sua testa por baixo da franja grande, meu cabelo já era rebelde natural, então combinou muito bem.

—Ficou ótimo – disse Tomoyo – esta super gostoso! Sem ofensas Syaoran.

—Esta tudo bem, eu sei que sou gostoso mesmo.

Ela se referia ao peito aberto. Como a blusa estava rasgada, prendemos as pontas, deixando o peito a mostra. Parecia um cosplay de pirata modelo, bastava a espada.

—Agora é só transformar suas falas, Sakura- disse eu me vestindo – Coloque arrogância nas suas falas, seja egoísta e mal educada. Aja como eu normalmente. Você não vai salvar a princesa, vai sequestra-la. Vamos fazer uma comédia romântica, o pessoal vai improvisando em cima dos nossos erros.

Ela sorriu para mim girou a espada e disse:

—Yo, ho, ho! Sim senhor.

—Não faça isso, vai parecer um papai noel!

Tomoyo fechou o zíper em minhas costas no mesmo momento que alguém entrou para buscar a bela adormecida. Assim, eu fui empurrado para entrar em cena.

Não posso dizer que tudo deu certo, mas sim que deu tudo errado, não de um jeito ruim. Primeiro, quem me empurrou fez eu tropeçar na barra do vestido e cair de cara no chão na frente de mais de 200 pessoas. Porque estava tão lotado? Eu gaguejava e mordia a língua a todo momento, travando mais do que a própria Sakura no primeiro ensaio. Esquecia a fala a todo momento, confundia e errava as palavras, fazendo todos rirem. Mas ainda assim, continuei sabendo que eu estava alegrando Sakura.

Quando ela entrou, foi um choque para todos. Tinha feito exatamente o que eu disse, era arrogante, agindo exatamente como eu na sala, mandando um olhar feroz. O roteiro foi esquecido e foi tudo na base do improviso, seguindo somente o contexto básico. Yamazaki, um dos amigos de Sakura e rapaz bem divertido na minha opinião, entrou no clima e invadiu o palco vestido de mulher, fazendo todos rirem. Quando ele começou a contar uma historia muito interessante sobre piratas, uma garota de tranças entrou também e o enxotou pela orelha.

Nos divertíamos bastante, toda vez que Sakura entrava em cena, garotas da plateia gritavam coisas que estavam me deixando envergonhado. Como eu era ousado, pequei outra espada e desafiei o príncipe/pirata para um duelo. Eu e Sakura fazíamos isso todas as noites, a cena já estava até coreografada por conta dos ensaios. No final, cai espetando o dedo na própria espada de Sakura mesmo e desmaiei. Yamazaki entrou com outro rapaz vestido de mulher, pegando meu corpo inerte e colocando em uma maca que fizemos de cama. Não antes de eles me derrubarem uma vez, fazendo com que eu batesse o nariz no chão.

Aliviado por ser a cena final, as luzes se apagaram deixando apenas um refletor em mim e Sakura.

—Ora, o que foi que eu fiz, yo ho ho – eu disse para ela não fazer isso – eu a queria por ser tão bela, mas meu egoísmo foi maior e agora eu a perdi. Pela minha honra, salvarei a princesa de seu terrível destino. O pesar cai sobre meus ombros ao pensar em tal proveito desta situação, mas com um beijo....

Ela voltou ao roteiro rapidinho, dando um toque especial na cena dramática. O que eu faria para deixar mais engraçado? Espirrar na hora do beijo? Mas Sakura segurou as laterais de meu rosto com as mãos, ela iria fazer o beijo falso mesmo. Então mantive os olhos fechados, seguindo sua linha se raciocínio.

Acho que raciocínio ela não tinha, pois me beijou de verdade.

Na verdade, foi pra valer, sua boca se aprofundou na minha fazendo com que eu abrisse meus olhos de espanto quando senti nossas línguas se tocarem, eu esqueci que estava em um palco e puxei sua cabeça para mim, tentando evitar que quando as cortinas se fechassem, ela se separasse de mim.

Ouvi quando todos gritaram e aplaudiram. As cortinas se fecharam e todos foram para o palco agradecer. Eu mantive Sakura ali comigo, sentada na maca com os braços ao redor de meu pescoço e eu no dela. Quem precisava agradecer?

Estávamos ficando quase sem ar, mas não queríamos nos separar, com os olhos fechados, era como se fossemos nos mesmos. Eu era Syaoran Li beijando Sakura Kinomoto. Me separei rapidamente dela para respirar, mantendo sua boca perto da minha.

—Syaoran... eu...

A puxei mais uma vez, parecia que eu estava me afogando. Calafrios subiram desceram por meu corpo, meu estomago rodopiou e meu coração explodiu. Mas eu queria mais.

—A culpa é sua – disse eu sussurrando colado em seus lábios – você me tentou aquele dia na enfermaria. Agora eu não consigo parar.

Sakura suspirou como se estivesse prendendo o ar por muito tempo. Ouvimos passos, então nos separamos o mais rápido que pudemos, vermelhos, como se fossemos pegos em algo vergonhoso.

—Ei, não estamos em romeu e julieta – disse Yamazaki – vocês não vão ajudar a levar as coisas de volta para a sala não?

****

Nossas atividades de palco estavam encerradas, demos lugar para o show de talentos do segundo ano. Tive que voltar para meu posto na barraca de comidas o mais rápido que pude, pois alguém estava cobrindo meu turno. Mas foi difícil.

Eu me distraia facilmente, quando lembrava de Sakura, meu sorriso se abria de orelha a orelha, sentindo minha boca formigar por conta do beijo. Queria chegar em casa somente para beija-la de novo, ou então, após o termino de meu expediente, em que eu poderia aproveitar o restante do festival, leva-la para um lugar mais reservado.

No entanto, minha alegria acabava quando ouvia alguém me chamar de Sakura, e eu lembrava que nem tudo era flores. Eu e Sakura estávamos sentados quase na mesma altura, mas e se fosse de pé? Quero dizer, eu gostaria se sentir sua forma feminina e gostava de ser a pessoa mais alta, isso me deixava receoso.

Ainda assim era um sentimento único, como se eu e Sakura fossemos um só, não deu tempo de lembrar que estávamos trocados, era como se isso nunca tivesse acontecido. Mas assim que eu abri os olhos, eu ainda era ela e ela ainda era eu.

Terminando meu horário, como eu era representante, fiquei por último. Fechamos a barraquinha quando já tinham acendido a fogueira, significava que o festival estava perto do fim. Todos bateram palmas pelo esforço e retiramos as coisas, as barracas seriam desmontadas no dia seguinte. Não deu tempo de passear como havíamos dito, pedi para Sakura ir com Tomoyo, pois iria cobrir outros turnos, mas a verdade era que precisava pensar.

Mais tarde, caminhei procurando por Sakura, calculei que ela ainda estaria com Tomoyo, mas a morena estava no pé da fogueira tirando fotos. Ela disse que a japonesa tinha ido dar uma passada na sala de aula, para guardar algumas coisas.

Subi as escadas, todas as salas temáticas já estavam vazias e as pessoas se encaminhavam para a fogueira. Encontrei Sakura na sala, sentada em sua antiga mesa, olhando para sua própria mão. Senti um pesar nos ombros, eu sabia o motivo daquilo, eu estava da mesma forma. Entrei devagar e quando toquei em seu ombro ela pulou de susto.

—Syaoran! O que esta fazendo aqui?

—O mesmo que você – disse eu sentando na cadeira a seu lado – sentindo falta do meu antigo eu.

Ela ficou em silencio, por um instante, vi seu rosto ficar vermelho, lembrando de nossos beijos. Eu ri, imaginando seu próprio rosto corar, sua pele era branquinha, então ficaria muito aparente. Deixei minha mão escorregar para a sua e entrelaçar nossos dedos. Ela segurou minha mão firmemente, mas não olhou em meus olhos. Porque ia querer olhar quando ia ver seu próprio rosto?

Ficamos assim por algum tempo, presos em nossos pensamentos. Não queríamos nos aproximar mais que isso por medo, mas queríamos ficar tão perto um do outro a ponto de não respirar. Pulamos quando ouvimos os fogos de artifícios. O céu por alguns instantes clareou a sala, jogando luz aos olhos de Sakura.

Por um breve momento eu via o rosto dela e não o meu ao ver seus olhos animados observando os fogos. Eu não pude resistir, queria ser eu mesmo novamente mesmo que fosse somente naquele momento, e só havia uma forma de fazer isso.

Me levantei ficando de frente para Sakura, enquanto ela estava sentada. Como seu corpo era mais alto do que o meu naquele momento, a altura ficou perfeita para que eu segurasse seu rosto com minhas mãos e me abaixasse para beija-la.

Quando a sala ficava em completa escuridão por conta dos fogos que se acabavam, eu me via segurando a própria Sakura, como se sentisse ela em meus braços. Imagino que ela sentia-se da mesma forma, pois suas mãos agarraram meus cabelos lisos pela nuca. Me separei por m breve instante passeando minha boca por suas bochechas até o lóbulo da orelha, quando desci por seu pescoço, sem realmente encostar, ela apertava mais meus ombros.

Ela se levantou, e me abraçou. Nossas respirações se misturavam, dava para sentir nossos corações baterem juntos, em um ritmo só.

—Syaoran, eu – começou ela – eu...

A porta se abriu e alguém tossiu discretamente para chamar a atenção. Era um dos alunos de nossa sala, com o rosto extremamente vermelho pediu desculpas por ter interrompido nosso momento.

—Desculpe interromper – disse ele, colocando a mão sobre a boca, eu sabia que aquilo daria fofoca no dia seguinte – mas há alguém procurando por você Li.

—Quem é? – Perguntou Sakura.

—Ela diz ser sua mãe.

E então meu chão caiu de vez.

Notas finais
Primeiramente, essas acrobacias de Syaoran são possíveis sim, elas fazem parde do Kung Fu Wushu - mas só deus sabe como eles fazem isso. Para quem não conhece nada de teatro, araras são aquelas grades moveis em que se pendura figurinos. Espero que tenham gostado e até a próxima.