man D' cine
2 Fila e Comida
Notas iniciais
Que saco, ali está dizendo que já dar oito horas, eu não aguento mais. É muita enrolação me fazer sair de casa só pra socializar, eu estou bem, sempre estive e sempre estarei, não sei que porra é essa. Ela ainda fez o favor de me deixar aqui, minha mãe é foda. Ah, lá está ele. Nossa, até que ele até que bonito.
– Boa noite João.
– Se demorar mais fica de madrugada... Boa noite.
– Cadê a sua mãe?
– Ela tem compromissos.
– Então é só nós dois.
– É... Então?
– Vamos comer que eu to morrendo de fome.
Fomos até a praça de alimentação e ele não fez cerimonias. Pediu coisas atrás de coisas e foi me empurrando pra comer junto. Eu não gosto muito de comer fora de casa, ainda mais essas comidas gordurosas.
– Vai comer não? Mesmo?
– Eu to cheio.
– Fraco.
– Eu não sou FRACO, é que eu não gosto de comer fora e...
– Tá bom. Vou comer tudo sozinho então?
– Se comer você explode, mas você é gordo mesmo, não faz diferença.
– Eu não sou tão gordo assim. — Ele olha pra baixo em direção do peito com uma cara depressiva.
– Relaxam, gordinhos também são bonitos.
– Eu sou um deles?
– Talvez.
Assumo que trocamos uma sinergia estranha... Caralho, não tinha mais ninguém na praça e ainda nem compramos o ingresso.
– Danilo, vamos logo pra fila, não quero sair daqui de madrugada.
– Beleza.
Já na fila quase vazia ele puxa minha atenção pra uma garota.
– Tá vendo aquela menina?
– Tô. — Uma menina baixa de cabelos curtos e pintados com jeans rasgados e tom de pele escuro compondo um estilo punk. Apesar da maquiagem meio pesada dava pra ver claramente que ela é bonita.
– Gata né?
– Sim.
– Faz teu tipo?
– Não.
– E qual é?
– Qual é o que?
– Seu tipo.
– Nunca parei pra pensar sobre isso. — Aquela respostinha básica pra desviar um assunto inconveniente.
– Entendo.
– Tá vendo o namorado da garota?
– Sim. — Ele é um pouco mais alto que ela e um pouco gordo, de pele clara e barba enorme.
– Ele faz meu tipo.
– Legal. — Eu fico um pouco surpreso, talvez ele esteja brincando e quer apenas ver minha reação. Ou não. Mas eu não esboço nada e ele olha indiferente.
– Agora tu espera aqui que eu compro os ingressos.
Com os ingressos na mão fomos até a sala escuro pra assistir o filme. Havia apenas passado os comerciais e o filme de verdade começou agora. Percebo que é um de terror e já alerto.
– Terror, sério?
– Uhum, algum problema?
– É que eu não curto e nem aguento ver sangue e coisas assim.
– Novamente, fraco.
– Cala a boca Danilo.
Depois de um tempo. Como eu disse, já não estou aguentando mais. Chega numa cena de agulhas e eu não suporto. Agonia extrema.
– Danilo, eu já volto.
Saio da sala escura tropeçando em tudo e todos e vou até o banheiro do shopping. Fico de frente ao espelho e vejo como eu to mal. Molho meu rosto e entro num cubículo fechado, tranco e sento no vaso.
– Eu realmente não sei o que eu estou fazendo aqui. Essa noite está um tédio.
– João, desculpa pela noite.
– Danilo? Tu ta aí desde quando?
– Eu não sabia que tava sendo tão chato pra ti.
– Não é verdade, é que...
– Vamos, eu vou ti levar pra casa.
– E o filme? Tu tem que fazer o "diagnostico".
– Que se foda o cine. Eu já tenho o suficiente.
– Mas Danilo, sério. Eu não posso deixar esse clima ruim...
– E nem vai ficar. Sai dai que eu preciso ti falar uma coisa.
Eu abro a porta do banheiro sem me levantar. Sentado e ele em pé na porta de frente pra mim, travando e hesitando.
– Sim. Diga.
Ele se ajoelha e chega perto do meu ouvido. Meu corpo para pra ouvir ele.
– Aquele cara não faz meu tipo. Você faz.
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