kissing in the blue dark

1 Look into my eyes


Notas iniciais
Olá!! Então gent, uma ficzinha do otp aurieta pra vcs... Espero que gostem!! Capítulo especialmente dedicado à Nayla, pq ela me aguentou enrolando semanas pra postar essa fic.

—O que está achando, mãe? – Camilo perguntou sorridente. Sempre tentava leva-la para festas, mas ela sempre se mostrava irredutível. Não ia a festas. Não interagia com qualquer pessoa mais do que era estritamente necessário. Agora ela estava ali, graças a uma pequena chantagem emocional, mas seu rosto demonstrava descontentamento.

—Não está tão ruim quanto eu pensei que estaria.

Camilo reprimiu uma gargalhada.

—Já é algo, não acha?

—Claro. – Falou em tom de deboche.

Ele sorriu.

—Por que a senhora não vai conversar com alguém? Não há nenhum cavalheiro por aqui que desperte algum interesse na senhora?

—O que? – Ela perguntou indignada.

—Foi apenas uma sugestão! A senhora não precisa fazer isso se não quiser. Apenas acho que a senhora devia procurar um novo amor... Amar lhe faria muito bem!

—Não creio que minha vida sentimental deva ser uma preocupação sua. No lugar de procurar um pretendente para mim, deveria se concentrar em encontrar uma namorada para você! Agora com licença, vou tomar um ar. Esse ambiente não me faz bem.

Camilo suspirou. Estava acostumado com a personalidade dura da mãe, apesar de que aquilo ainda doesse algumas vezes. Não havia nada mais que ele pudesse fazer, pois já tinha esgotado todas as suas tentativas de aproximação. Agora mantinha apenas a esperança de que algo, algum dia, a fizesse abrir seu coração.

**

Julieta olhou para o céu estrelado. Já era hora de pedir para o motorista leva-la para casa. Ceder a pequena chantagem de Camilo havia sido um erro. Agora ali estava ela, isolada na varanda enquanto todos festejavam dentro da casa. Uma perda de tempo ter vindo. Ninguém se aproximava dela, a não ser para falar sobre negócios. Ela detestava tudo aquilo. Todos aqueles homens se aproximando para falar de suas ambições, a tratando como se fosse um deles ou como se fosse oferecer algo a mais para eles. Não havia respeito, nem humanidade. Era apenas dinheiro e terras. Mas ela estava acostumada. Algumas vezes ela era obrigada a reprimir suas lagrimas, mas sempre saía por cima. Encostou-se numa das colunas e suspirou. Era uma vida difícil, mas havia seus retornos.

—Olá. – Um homem falou lhe causando um pequeno sobressalto.

—Olá.

Ele foi até próximo a ela e apoiou sua taça no parapeito. Ficaram uns minutos em silencio. Julieta observou o perfil dele, a linha forte do nariz e do maxilar. Teve vontade de entrar novamente e carregar Camilo para casa.

—A senhora também não estava se sentindo confortável com a festa? – Ele perguntou.

—Não me sinto muito bem em ambientes cheios de pessoas.

—Entendo. Também não sou chegado em festas grandes como esta. Minha filha adora, vive organizando bailes como este, mas nossa cidade é menor, logo não temos tantos convidados.

—Meu filho também gosta.

—Mas essa em particular está insuportável, todos não param de falar da Rainha do Café... meu pai está ficando doido, não sendo ele o foco da festa.

Julieta olhou para ele mais interessada. Não era novidade que todos falassem dela, mas ninguém nunca havia admitido isso em sua presença.

—E o que tanto falam dela?

—Que ela é uma negociante voraz.

—Já ouvi a fama dela... creio que o senhor está sendo bondoso. – Ela disse esperando que ele percebesse com quem estava falando.

Ele riu.

—Talvez. Mas não acho certo falar da mulher se nem ao menos sei seu verdadeiro nome.

—Creio que com a quantidade de nomes ofensivos que dão a ela não seja necessário que o senhor saiba seu nome.

—Duvido que metade daquelas pessoas a conheçam realmente para estarem difamando tanto a mulher. De qualquer forma... Não creio que nos apresentamos... Sou Aurélio.

Ela sorriu.

—Julieta.

—Muito prazer, Julieta.

—O senhor disse que vem de um lugar pequeno, fiquei curiosa.

—Eu sou do Vale do Café.

—É uma região muito lucrativa, imagino que o senhor tenha negócios por lá.

—Minha família possui algumas terras... – ele sorriu — Vejo que a senhora se interessa pelo mundo dos negócios.

—Acho uma área muito excitante.

—Então serei obrigado a dizer que a invejo. Nunca me interessei pelos negócios da família. – Ele riu — Papai diz que sou sentimental demais para discutir números, que faço bem em focar nas artes.

—Tivemos nossos desejos e aspirações trocados, então. Eu, como mulher, deveria gostar de artes, já o senhor deveria estar no mundo dos negócios.

—Pediria a Deus que resolvesse esse aparente problema que ocorreu com nossos desejos e aspirações, mas creio que isso vá de encontro com nossas personalidades. Ou seja: hoje em dia não há nada que se possa fazer.

Ela sorriu.

—Ainda bem. Não gostaria de ser desconstruída na idade em que me encontro.

—Eu não vejo problema em mudar, independentemente da idade.

—Eu acho que nós nos formamos até certo ponto, e após isso permanecemos estáticos no que nos tornamos.

Aurélio sorriu.

—A senhora se sente estática?

Julieta olhou para ele surpresa. De repente todo aquele dialogo tomou forma para ela. Havia tantos anos que ela não tinha uma simples conversa com alguém, uma conversa descompromissada, como aquela. Sentiu-se tão bem e livre.

—O senhor não se sente?

—Algumas vezes, sim. — Sorriram mostrando compreensão mútua – Gostaria de dar uma caminhada pelo jardim?

—Adoraria.

Ele desceu os poucos degraus da varanda e estendeu a mão para ajudá-la, o que ela aceitou com um sorriso.

—O senhor conhece a propriedade? – Perguntou soltando a mão dele.

—Não... – riu – estou acompanhando um amigo, nunca falei com a maior parte das pessoas que estão aqui.

—Então espero que os donos não se importem com dois estranhos andando pelos jardins da casa... O senhor está em São Paulo por qual motivo?

Eles iam seguindo uma trilha de pedras na grama verde, que parecia levar a algum lugar secreto.

—Estou apenas visitando um amigo com a minha filha. A senhora mora na cidade?

—Sim, já faz muitos anos. É uma boa cidade de se viver.

—Eu acho grande demais. Gosto da cidade pequena, de conhecer as pessoas.

—Já eu gosto de não ser tão reconhecida.

—Uma dama misteriosa. – Ele falou olhando para ela, reprimindo um sorriso.

Ela riu.

—Podemos dizer que sim. A sua esposa não se importa com o senhor interagindo com outras mulheres?

—Eu viuvei já faz alguns anos... – Aurélio disse tristemente.

—Sinto muito, não quis tocar em uma ferida.

Julieta imaginou que ele deduzira que ela também era viúva por suas roupas.

—Está tudo bem. — As feições dele rapidamente voltaram ao brilho anterior. – Será que há algum lugar interessante por aqui?

—Bem, aqui no jardim eu não sei, mas a festa aparenta estar mais animada. – Ela ergueu o dedo indicador como se para apontar para alguma coisa, apenas evidenciando o volume da música vinda da casa.

—Me concede essa dança? – Aurélio indagou parando subitamente. Ela não sabia se era uma boa ideia, porém ele não lhe deu muita chance de pensar. Pegou a mão dela com delicadeza e a colou sobre seu ombro. – A senhora sabe dançar, certo?

—Faz anos que eu não danço, provavelmente desaprendi.

—Sou um bom professor, sorte sua.

A mão dele pousou na cintura dela, e eles enlaçaram os dedos das mãos que estavam livres. Lentamente, Aurélio começou a conduzir a dança, sem se importar tanto com o ritmo. Os olhos dela fitaram os dele por alguns segundos. Eram tão lindos os olhos de Aurélio... Ela buscou outro ponto para se concentrar, mas as vezes seus olhos corriam rapidamente até fitar os dele novamente. Ela encontrava sempre as feições dele em puro encantamento. Alguém a olhando com alguma ternura, isso era realmente algo novo. Ele se aproximou um pouco mais dela, o que a fez encara-lo. As próximas ações dos dois ela nunca soube como se desencadearam. Vagarosamente, os dois se aproximaram até suas bocas se encontrarem, como se fosse algo natural. Julieta suspirou contra os lábios dele. Após isso, a única coisa que sabia era que estava sendo beijada com carinho e desejo tão inesperados, que ela quis apenas continuar ali, recebendo tudo aquilo. As mãos deles subiram pelas costas dela de maneira a deixa-la ainda mais perdida naquele momento. Julieta também o envolveu em seus braços, alegremente demonstrando reciprocidade.

Aurélio se afastou-se com delicadeza. Arrependeu-se de sua atitude não pensada. Não a conhecia o suficiente para tamanha ousadia.

—Julieta... — Havia algo na maneira dela de olhar para ele, algo indecifrável. Ficou com medo de ter estragado tudo por seu descontrole. – Está tudo bem? Eu não quis ofen...

Ela o puxou para um outro beijo, esse mais rápido quase agressivo, como se ela estivesse tirando uma farpa do dedo. Por fim ela o soltou e respirou fundo. Olhava para baixo, seu peito subia e descia rapidamente.

—Julieta...

—Está tudo bem.

—Me desculpe se fui inconveniente ou ofensivo... Não foi minha intenção...

—Não é necessário se desculpar. Acho melhor voltarmos.

—Então vamos.

—Pensando bem... Vá na frente, preciso ficar sozinha por um momento.

—Tem certeza que está tudo bem?

—Apenas me deixe sozinha. – Ela falou duramente.

Aurélio assentiu e foi em direção da casa. Arrependeu-se profundamente do beijo e de ter provavelmente magoado Julieta. Ela parecia ser uma mulher incrível, a única que realmente o cativou após muitos anos. Ele já havia conversado com outras mulheres depois da morte de sua esposa, claro, e também já havia estado intimamente com algumas. Porém com Julieta ele havia passado por cima de tudo, atropelado as coisas com aquele beijo. Era normal que ela não quisesse mais olhar para ele.

Julieta respirou fundo. Tentou compreender o que havia acontecido ali. Ela já não era mais jovem e iludida para acreditar em amor à primeira vista. Aquilo nem lhe passava pela cabeça, mas a sensação de estar nos braços dele foi tão... Ela não sabia explicar bem. Ele foi audacioso ao beija-la, mas de forma alguma ela viu aquilo como desrespeito. Pareceu natural. Para Julieta toda aquela situação era estranha, não sendo ela uma mulher de se dar a desfrutes. Na maioria das vezes o mais simples toque causava aversão, porém, naquele momento a delicadeza da abordagem dele a fez se sentir bem. Bem demais. Ela respirou fundo. Não, aquilo não estava correto, ela não podia ter beijado um desconhecido durante uma festa.

**

Já fazia um bom tempo que Aurélio estava na festa e Julieta não havia voltado ainda. Preocupado, ele resolveu ir atrás dela para se retratar.

—Aurélio, a Rainha do Café...

—Ah, Jorge, essa mulher de novo? Será que ninguém cansa de falar nela?

—Bem, você sabe que ela pode trazer complicações para vocês.

—Eu sei, mas estamos em uma festa.

—Uma ótima oportunidade de discutir negócios! – O barão falou irritado – Vamos ver do que essa tal Rainha é feita!

—Os boatos sobre ela não são bons...

—Bem, onde está essa mulher? Vamos conversar com ela de uma vez, pois preciso falar com uma pessoa.

—Ela está entrando agora. – Jorge disse, discretamente apontando para as portas da varanda. Aurélio olhou na direção indicada e a cor se esvaeceu de seu rosto. Quem estava entrando era Julieta, a mulher que ele havia acabado de beijar. – Aquela é Julieta Bittencourt, a Rainha do Café.