kissing in the blue dark
2 Reduce me to Tears
Notas iniciais
Um nó se formou na garganta de Aurélio.
—Você tem certeza que aquela é a Rainha do Café?
—Tenho sim.
—Eu preciso... Com licença. – Aurélio se afastou de Jorge e do barão. Andou apressadamente entre as pessoas e entrou no primeiro cômodo que encontrou. Ele respirou fundo e tentou refletir melhor sobre o ocorrido. Por que Julieta não falou que era ela a Rainha do Café? Por sorte ele não era do tipo que falava das pessoas sem conhecê-las, caso contrário poderia ter cometido uma grande gafe.
—Aurélio... – A voz dela o tirou de seus pensamentos. — Eu queria pedir desculpas pela maneira como tratei você após...
Ele virou-se para ter certeza que era Julieta. Ela estava próxima a porta, seus ombros retraídos. Ainda tenso, ele sorriu.
—Está tudo bem. – Ele falou rapidamente – Também devo me retratar pela minha falta de controle. Não tive a intenção de tirar proveito da senhora.
—Sei que não. – Ela havia repassado todas as ações dos dois que antecederam o beijo e percebeu o quão despretensiosos e encantadores foram aqueles momentos. Resolveu então apenas correr até a festa para falar com Aurélio, não pensou muito para evitar que suas desconfianças a fizessem desistir.
Alguns segundos de silêncio desconfortável se seguiram. Eles se encararam. Julieta passou as mãos pelo vestido, buscava algo para falar, ponderava se devia fugir. Aurélio mirava a mulher a sua frente com encantamento. Não fazia ideia do que dizer, queria apenas poder desvendar todas a nuances dela, conhecer seus defeitos, qualidades e histórias. O nervosismo que havia se acumulado em seu peito aos poucos foi de dissipando.
—Bem, então creio que qualquer mal-entendido esteja resolvido... – Ele falou. — Acho que poderíamos conversar um pouco sobre o ocorrido.
—Claro, como você desejar. — Julieta se viu sem palavras pela primeira vez em anos. Afinal, o que dizer? Apesar do momento de intimidade que eles compartilharam, não passavam de desconhecidos. — Creio que... — Ela iniciou, mas não foi capaz de terminar a frase.
—Eu gostei do beijo, Julieta. Espero que você tenha gostado também.
—Eu... – ela gaguejou nervosa — Foi uma experiência agradável.
Ele riu.
—O que há? – Julieta perguntou um pouco irritada.
—Nada.
Ela sorriu involuntariamente. Eles se miraram em silencio novamente. Eram como um lampejo qualquer, como um clarão rápido e repentino. Julieta não esperava encontrar alguém que a fizesse sentir interesse. Ninguém jamais havia despertado qualquer interesse nela, nem a longo ou curto prazo. Pudera, ela havia se casado aos dezesseis anos, não teve tempo de se apaixonar. Não teve tempo de viver sua juventude, pois antes mesmo de entender a vida ela já tinha um filho, alguém que dependia dela para tudo. Tinha que cuidar daquele menino, tinha que rezar para que o marido não acabasse com sua vida em algum momento de raiva, tinha que impedir que o filho conhecesse o lado mais tirano do pai. A sobrevivência era mais importante que qualquer coisa, durante a juventude de Julieta. Mas aquela fase havia passado, graças ao bom Deus. Agora ela era dona de si mesma e de um império, que ela mesma havia construído. O título de Rainha do Café era um adorno que ela ostentava com prazer, como prova de sua vitória. Ela ditava as regras, ela era muito mais poderosa que o falecido marido jamais foi. Isso era algo que ela sempre levaria consigo, o sabor do sucesso que conquistou com tanta luta, o respeito que impunha a todos por conta de sua posição. Porém tudo tem seu preço e a Rainha do Café sentia o peso de sua nobreza diariamente. O temor que fazia todos sentirem a deixava solitária, apesar de que jamais fosse admitir isso. Ser uma mulher de negócios numa sociedade em que apenas os homens tinham direitos compelia Julieta a usar uma armadura que fazia seus ombros doerem, principalmente porque ela nunca a despia. Ter em mãos um patrimônio como o seu exigia todo seu tempo e esforço. Porém, naquela noite, ela havia se permitido ser apenas Julieta, sem sobrenome algum ou deveres. Aurélio não sabia quem ela era, não tinha os olhos direcionados para uma parceria lucrativa. Era algo inocente e descompromissado. Julieta sentia falta de relacionamentos verdadeiros, de momento sinceros. E ela havia tido isso naquele dia, infelizmente escondendo quem realmente era.
—Muito bem, creio que devemos voltar para a festa. — Julieta disse timidamente.
Aurélio não queria voltar, temendo a reação do pai ao falar com Julieta. Ele sabia que o barão estava profundamente irado com a expansão dos negócios dela e com o fato de uma mulher estar ganhando cada vez mais espaço em um mundo que ele, um homem de confiança do Imperador, dominou por tanto tempo.
—Claro. — Ele não podia prender ela naquele escritório para sempre, apesar de que a ideia de passar um tempo com ela recluso fosse agradável. — Julieta, antes de irmos...
—O que há?
—Eu... Bem, eu não queria tocar no assunto, mas mais cedo, quando falei da Rainha do Café... Você não revelou que era você, eu gostaria de entender o porquê.
Julieta olhou para ele sem reação.
—O senhor sabia quem eu sou esse tempo todo?
—Não, fiquei sabendo agora, apenas...
Julieta respirou fundo.
—Creio que o senhor já está pronto para sujar meu nome com o que ocorreu entre nós.
—O que?
—O senhor escutou bem, tenho certeza. – Os olhos dela ardiam por conta das lágrimas que se acumulavam. Ela temia a difamação que poderia surgir após todos saberem que ela havia se deixado levar pela luxuria com um desconhecido.
—Escutei sim, mas não posso acreditar que você realmente cogite que eu usaria um momento como o que tivemos para difamar seu nome.
—Se as pessoas são capazes de usar mentiras para difamar o nome de alguém, por que o senhor não usaria algo que realmente aconteceu?
—Porque isso não é da minha natureza, Julieta. Fique tranquila, eu jamais falaria o que aconteceu para ninguém.
Ela adotou uma postura de superioridade, abandonado a fragilidade que subitamente a dominou.
—Espero que esse momento fique mesmo apenas entre nós dois, pois se algo chegar aos meus ouvidos o senhor pagará caro! — Dito isso ela saiu da sala sem olhar para trás.
Aurélio não a seguiu, entendia que ela não estava se sentindo bem com a situação e que insistir em uma conversa seria pior.
**
—Está tudo bem? – Camilo perguntou em voz baixa a Julieta. Esta estava absorta em seus pensamentos, seu olhar perdido nas casas que pareciam correr por conta do movimento do carro.
—Sim. – respondeu com um sorriso discreto. Não era verdade, ela estava se remoendo por dentro por conta do beijo, mas Camilo não deveria saber daquilo.
Camilo acariciou a mão de sua mãe. Ele havia visto ela e Aurélio. Um tempo após ela abandonar o baile ele foi procurar por ela, mas não achou em lugar algum da casa. Encontrou Julieta no jardim, dançando com um homem que ele jamais havia visto. Rapidamente ele voltou para a festa, não querendo se intrometer nos assuntos de sua mãe.
**
Na manhã seguinte Camilo esperava apreensivo por sua convidada. Tentava se distrair com um livro qualquer, mas estava animado demais com seus planos.
—Senhor Camilo, a senhorita Ema chegou. — A serviçal falou após adentrar na biblioteca onde estava o Príncipe do Café.
Camilo recebeu Ema com um caloroso sorriso. Havia conhecido a moça enquanto ambos espiavam, quase discretamente, o cômodo em que sua mãe e o pai dela entraram após voltar do jardim. Os dois começaram a conversar, ele tentou contar o que havia visto, porém sua mãe o chamou atordoada, dizendo que iriam embora. Camilo e Ema então marcaram uma reunião para continuar a conversa que estavam tendo.
—Olá, sinto muito se atrapalho sua leitura. — A moça falou sorridente.
—Você não atrapalha em nada, Ema, muito pelo contrário, apenas chega com soluções! – Ele fez um gesto para que ela sentasse na cadeira próxima a dele.
—Bem, ontem você ia me contar algo. — A jovem disse ao sentar.
—Ah, é claro! Não sei se deveria compartilhar algo tão íntimo, mas ontem eu vi seu pai e minha mãe dançando no jardim.
—O que?! – Ema riu – Isso é ótimo! Será que eles já se conheciam?
—É uma possibilidade... – ele ponderou — porém conheço minha mãe, ela jamais se envolveria com algum negociante.
—Já papai não se envolve muito com negociações, ele trabalha mais com o cultivo e cuidado dos cafezais.
—De qualquer forma, nós devemos nos preocupar mais com o que aconteceu após eles voltarem do jardim, a maneira como eles se conheceram não faz diferença agora.
—Eles obviamente tiveram uma discussão, pela maneira como saíram daquela sala.
—Tentar montar esse quebra-cabeça não vai nos levar a nada, Ema. Temos que entender de forma concreta o que há entre os dois. Eu quero que minha mãe conheça alguém que a faça feliz e, pelo pouco que vi naquele jardim, seu pai parece um bom candidato.
Ema sorriu.
—Sua mãe também me parece um ótimo par para meu pai. Desde que minha mãe morreu ele perdeu algo... uma alegria intrínseca que havia nele. Eu acredito que já é hora dele recomeçar a vida, encontrar alguém com quem compartilhar tudo. Por isso... Tive uma ideia! Camilo, se queremos saber o que eles têm, não há nada melhor do que forjar um encontro casual!
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