Era madrugada. Damon não saiu do quarto, não falou com ninguém. Havia matado Katherine . Mas o que ele podia fazer? Achou que ela estava morta, Deus, estava fria e sem pulsação! E ela pediu para salvar o bebê, ele tinha que obedecer! Dera a ordem do parto forçado (vulgo cesariana), sem ter a mínima noção de que ela sentiria todas as dores, todos os cortes, tudo. E ela o sentiu, sem poder se expressar. O remorso o corroia em todos os seus poros, tirava sua paz. E havia Elena. E a guerra. Deus, que inferno! E se Hope morresse em uma tentativa dele salvá-la? Enquanto isso, em outro quarto do castelo...

Lorenzo e Madison se aprontavam para dormir. Ele tinha o peito nu, estava de calça, descalço, e coçava o cabelo distraidamente, lendo algo. Tinha mania de fazer isso. Uma vez livre de todos os adereços, Madison parecia ter uma tonalidade meio cinzenta. Enquanto as mulheres ainda usavam camisolas de algodão, Madison usava seda pura, negra, tão pura que parecia flutuar. Enquanto as outras usavam gola alta, mas a dela eram decotadas. Os cabelos caiam, lisos, até a cintura, passando pelos braços pálidos, quando ela o abraçou pelas costas.

Lorenzo: Anjo. – Disse, simples, sentindo as mãos frias dela abraçando-o, tocando os músculos da barriga delicadamente.

Madison: Você decidiu ficar. – Concluiu, vendo ele soltar o papel.

Lorenzo: Vou apoiá-lo. – Disse, respirando fundo – Mandarei um ultimato pela manhã, avisando as tropas. Damon não é má pessoa, e agora que sabe sobre Katherine, depois que Elena morrer, estará tão vulnerável que Stefan o matará se partirmos. – Disse, acariciando a mão dela – Vamos ficar.

Madison: Lorenzo. — Ela beijou as costas nuas do marido, respirando fundo — Eu quero interceder por Elena. — Lorenzo virou o rosto, olhando-a.

Lorenzo: Como?

Madison: Eu não tenho voz no conselho, mas tu sim, e teu voto é o que mais pesa. — Ela beijou o ombro dele — Quero que quando chegue a hora, interceda por ela. Não permita que a matem.


Lorenzo: Não estou te entendendo. — Disse, olhando-a pelo espelho — Compaixão nunca foi uma virtude tua. Porque está intercedendo por ela?

Madison: Porque eu entendo a razão. Entendo o amor. Porque eu o faria por você, sem pensar duas vezes. — Ela beijou a orelha dele — Morreria por você, Lorenzo. — Ele se virou, abraçando-a.

Lorenzo: Está tudo bem. Se é o que você quer, não a matarão. – Disse, abraçando-a – Não permitirei. Você está sentimental. – Observou.

Madison: Apenas estou feliz pois o homem que eu amo é auto-suficiente. – Disse, sorrindo, e o beijou. Havia uma promessa ali.

No dia seguinte, quando o conselho se reuniu...

Alaric: Elena se tornou dispensável. – Observou, tamborilando os dedos – Aliás, se sobreviveu a noite é um milagre.

Damon: Eu fui vê-la. Está viva. – Disse, parado, olhando pro nada. Estava branco, e cheio de olheiras.

Klaus: Uma vez que ela já disse tudo o que sabe, não há porque se manter. Ela mentiu. – Disse, e não havia nenhum traço de sua felicidade ali. Eram dois votos contra. Nada bom.

Lorenzo: Ela será absolvida. – Disse, olhando o tampo da mesa. Parecia entediado.

Alaric: Porque absolvê-la? – Perguntou, confuso.

Lorenzo: Madison rogou por ela. – Disse, tranqüilo – Elena mentiu para sobreviver, não nos traiu, e não oferece mal. Não há motivo para uma execução.

Kalus: E os caprichos de tua mulher contam como voto agora? – Perguntou, debochado.

Lorenzo: Contam. – Disse, petulante, como se desafiasse Klaus ia protestar.

Alaric: Damon. – Chamou, e Damon o olhou. Ele precisava votar. – Você deve ser imparcial. – Lembrou.

Lorenzo: Não há como ser imparcial nesse caso. – Impôs. Se Damon votasse contra Elena Lorenzo teria que armar um motim para atender Madison. Se votasse a favor, teria ganho.

Klaus: Eu fui criado para não ter sentimentos. – Disse, sem parecer satisfeito com isso – E para que todos sentimentos fossem sobrepostos pelo bem maior. Eu fui criado para ser um rei.

Lorenzo: Antes de ser um rei é um homem. – Rebateu. Damon seguia quieto.

Damon: Não é só uma questão de sentimento, é uma questão de força. – Comentou, olhando para frente.

Alaric: Força? – Perguntou, confuso.

Damon: Como ter força para ordenar a morte da mulher que você mais amou na vida? – Perguntou, os olhos vagando. Lorenzo se recostou, satisfeito – Elena é a mulher da minha vida, não vou ordenar sua execução. Não sou forte o suficiente. Se isso me desqualifica, então eu sou um péssimo rei. Esse é meu voto. Ela vive. – Disse, se levantando.

Quando saíram da sala, encontraram as mulheres no corredor. Todas esperavam uma resposta, mas Madison encarava Lorenzo. Ele piscou para ela, discretamente, e ela sorriu, satisfeita. Damon abriu o cortejo em direção as masmorras. Tiraria Elena de lá. Todos foram atrás. Ele parou do lado de fora, puxando as trancas, e ouviram um tossido fraco, cansado. Quando abriu a porta ele gemeu. Havia quase uma poça de sangue em volta de Elena, que estava virada de lado, metade do rosto ensangüentada. Ela parecia ter vomitado sangue e engasgado de novo. Mas, infelizmente, alaric não estava lá para lhe erguer o rosto novamente. Ela estava imóvel. Imóvel demais. Damon se lançou ao chão, apanhando o rosto dela entre as mãos, sujando-se de sangue. Meu Deus, outra vez não, por favor.

Damon: Elena. — Chamou, a voz tomada de pânico. Ela estava branca, fria, rígida, mesmo sob as sacudidas fortes que levava. Damon estava no mais puro pânico — Elena , fale comigo. Acorde. Pelo amor de Deus, não morra. — A voz dele falhou.

Caroline: Ela está morta? — Perguntou, olhando o marido. Klaus apenas a abraçou.

Damon: ELENA! — Rugiu, sacudindo o corpo imóvel dela. Os olhos castanhos, antigamente cheios de alegria, estavam opacos, olhando o nada.

Alaric: Damon, deixe-a. — Pediu, meio penalizado.

Damon: NÃO! – Rugiu, apanhando-a nos braços – Ei, acorde. Você prometeu. Prometeu pra mim. Acorde. – Murmurou, se balançando com ela no colo. Elena não se moveu. Damon caiu no choro. Dessa vez não negou, ou ocultou. Ele apanhou o rosto dela entre as mãos, buscando algo, mas não havia nada. Ele ergueu a mão, os dedos trêmulos, e fechou os olhos dela, em seguida unindo as testas dos dois, soluçando em seu choro. Deus, o que havia feito?

Eu o amei desde o momento em que coloquei os olhos nele até o momento em que ele fechar meus olhos.”

Madison passou por Lorenzo, se ajoelhando junto a Elena, o vestido se sujando no sangue que havia no chão. A mão dela buscou o peito imóvel da outra, os dedos dedilhando algo. Alaric sorriu de canto, trazendo Jenna para si, e esperou.

Damon: Que está fazendo? – Perguntou, a voz rouca pelo choro, confuso. Então, parecendo encontrar o que procurava, Madison deu impulso contra o peito de Elena com a mão. Uma vez, duas, três...

Madison: Sopre ar para ela. – Ordenou, parando o movimento. Damon nem pestanejou: Levou os lábios aos dela, lhe dando tudo o que seu pulmão tinha. Quando a deixou seus lábios estavam cobertos de sangue, e Madison já impulsionava contra o peito de Elena de novo. Alaric deixou a cabeça cair pro lado, como se aguardasse ouvir algo – De novo. – Damon tomou ar e se abaixou de novo, unindo os lábios com os dela, enchendo-lhe os pulmões.

Madison forçou a mão de novo. Porém, na segunda vez, Elena tossiu. Alaric sorriu, tendo encontrado o som que procurava, pouco antes do tossido. Damon olhou, meio suspenso. Lorenzo riu consigo mesmo. Madison investiu no peito dela seguidamente e rapidamente agora, como se quisesse que os batimentos cardíacos se acelerassem energeticamente. Pouco tempo depois Elena tossiu de novo, e abriu os olhos. Madison a largou, se afastando.

Damon: Você voltou. Graças a Deus. – Ele encostou a testa na dela de novo.

Elena: Voltei? – Perguntou, meio confusa. Se sentia dormente.

Damon: É claro que voltou. – Madison se levantou, dando privacidade aos dois.

Elena: Eu prometi. – Disse, forçadamente orgulhosa. Damon riu, tremulo.

Lorenzo: Você é teimosa. – Repreendeu, vendo Madison voltando para ele, vitoriosa.

Madison: Eu não aceito perder. – Disse, simples. – Eu disse que ela vive, logo, ela vive. Preciso me trocar. – Comentou, divertida, com seu vestido todo manchado de sangue.

Lorenzo: Meu pequeno demônio. – Disse, carinhosamente, abraçando-a e selando seus lábios.

Damon: É claro que você prometeu. Eu vou tirá-la daqui. – Disse, passando a mão por baixo dos joelhos dela com cuidado.

Elena: Você não ia me matar? – Perguntou, parecendo levemente intrigada.

Damon: Não vou mais não. – Elena tentou rir, mas terminou tossindo – Cale a boca, antes que eu mude de idéia. – Blefou e ela assentiu uma vez, fraca. Ela gemeu de dor quando ele a carregou – Vai passar. – Prometeu, e ela assentiu. Ele desviou dos outros, saindo dali apressadamente.

E nada mais ocorreria naquela masmorra.

Elena não soube para onde estava indo. Estava tonta, seu corpo doía. Havia apanhado TANTO nos últimos dias! Todos os seus músculos pareciam empedrados, e os ossos deslocados. Seu rosto... Deus, seu rosto! Estava tudo dormente, inchado, os olhos inchados, a pele sensível, machucada. O auto estima dela doeu e ela passou a língua nos dentes, conferindo-os. Quase sorriu ao senti-los todos inteiros e no lugar. Ela ouviu Damon pedindo pelo medico dele (o médico que atendia a realeza) e comida, então subiram escadas. Houve barulho de água caindo. Ele a colocou sentada em um banquinho, e suas roupas foram rasgadas. Todas elas. Uma vez nua, ele a colocou em uma banheira. Elena gritou ao sentir a água em seus cortes, ardendo, queimando.

Damon: Shhh. Vai passar logo, eu prometo. – Elena gemeu, mas não disse nada.

Ele deu banho nela com cuidado. Precisou trocar a água varias vezes. Alguns cortes recomeçavam a sangrar ao serem lavados. Ele trouxe água aos cabelos dela, que gemeu novamente ao sentir a água em seu couro cabeludo. Pareciam haver cortes em todos os cantos. O cabelo desgrudou do rosto, e aos poucos o banho fluiu. Elena se sentia um pouco melhor. Damon não. Podia ver os roxos enormes, a boca, o nariz e a sobrancelha partidos.

Damon: Por favor, diga que me perdoa. – Pediu, torturado.

Elena: Continue me banhando assim, e eu perdoarei. – Brincou, e ele riu de leve.

Damon: Estou falando sério. Fiquei cego de fúria pela mentira, não consegui pensar. Você sabe, sou uma anta. – Elena sorriu.

Elena: Eu sabia que esse dia aconteceria. Agora me sinto leve. Eu não tenho mais nada para esconder, estou livre. – Disse, olhando a água – E no final eu nem morri.

Damon: Eu não seria capaz de matá-la. Apesar de tudo eu amo você. – Elena sorriu, olhando a água. Então...

Elena: Me trouxe pro seu quarto? – Perguntou, olhando em volta. Era a sala de banho da torre de Damon.

Damon: Você precisa se recuperar. – Justificou. Ele terminou de massagear os cabelos dela com todo o cuidado do mundo e o enxaguou. Ela reprimiu o gemido. Damon apanhou uma esponja, levando ao rosto dela, lavando tudo. Elena queria tocar a espuma, mas estava tão fraca... – O médico está chegando. Você sente algo?

Elena: Levei uma baita surra, estou moída. E tenho fome. – Damon sentiu, com uma pancada de remorso, que ela não comia há dias.

Damon: Eu serei levado a julgamento. – Comentou, esfregando o braço dela sutilmente com a esponja. Elena o encarou.

Elena: Porque?

Damon: Primeiro, porque pedi você em casamento. Depois, porque no conselho votei contra sua execução. – Explicou, lavando o colo dela. Ele ignorou os seios, tão delicados, com manchas roxas. Quando os lavou usou todo o cuidado para não machucá-la.

Elena: O que vai acontecer com você? – Perguntou, olhando-o.

Damon: Eu não sei. Ninguém em minha linhagem foi a julgamento. Talvez eu perca a coroa. Talvez me exilem. Talvez até me matem, por ato indecoroso perante a coroa. – Elena franziu o cenho. – Consegue se erguer?

Elena se afastou um pouco e ele a lavou com a esponja delicadamente por sua nuca e as costas.

Elena: Não quero que se prejudique por mim. – Apesar da dor que sentia, Elena estava estranhamente feliz por não ter mais o maldito segredo entre os dois. Porém ela também reparara que os dois não eram mais um casal, como antes. Algo estava ausente ali.

Damon: Eu não me importo. – Disse, apanhando uma das pernas dela, lavando-a.

Damon lavou todo e cada pedaço do corpo dela, livrando-a do sangue e das lembranças. Ele se reprimiu ao lavar-lhe a intimidade e os seios, como uma criança que vê seu brinquedo favorito mas está proibido de brincar. Por fim a enxaguou. A água ficou vermelha, e ele puxou o ralo.

Elena: Posso escovar os dentes? – Perguntou, quieta. Estava com sono.

Damon: Eu sou muito obtuso. – Comentou, se levantando.

Foi engraçado Damon escovando os dentes de Elena. Ela ria as vezes, ele ralhava com ela, e ria em seguida. Depois que ela estava totalmente limpa, o corpo, o cabelo e os dentes, ele encheu a banheira com água quente e óleos perfumados, deixando-a relaxar. Damon só saiu por um instante: Para buscar roupas para ela. Quando voltou, a carregou para fora da banheira, secando-a e vestido-a. Em seguida foi outro processo: Pentear-lhe os cabelos. Elena tinha os cabelos longos, e estavam embaraçados. Damon não tinha o menor jeito com isso, mas não desistiu até ver os cachos úmidos cuidadosamente penteados. A surpresa dela foi quando ele a colocou em sua cama, bem no meio, após afofar os travesseiros. Elena suspirou, satisfeita, ao ser acolhida na cama. O medico veio e a consultou, recomendando alguns chás para dor. A medicina era muito obsoleta naquela época, não tinha como diagnosticar nada direito. Depois que o medico se foi, Damon levou uma bandeja enorme de comida a Elena, que comeu, satisfeita. Depois lhe deu o primeiro chá que o medico receitou. Era pra ser uma xícara, mas Damo levou um copo enorme. Elena estava empanturrada no final. Não sentia mais fome, ou sede. Só doía quando ela se mexia. Ele se aproximou, puxando os cobertores pra cima dela, e em seguida foi atiçar o fogo da lareira. Elena estava quase dormindo quando ele se virou para ela.

Damon: Se sentir alguma coisa, qualquer coisa, apenas olhe para mim. – Disse, puxando uma cadeira.

Elena: Não seja... – Ela bocejou – Tolo. Deite aqui, a cama é enorme. – Disse, cada vez mais sonolenta.

Damon: Você não me odeia? – Perguntou, olhando-a. Os cachos caíam sob os travesseiros brancos, e o rosto tinha grandes manchas roxas, estava inchado e meio partido.

Elena: Não. Juro que não. – Damon a observou – Você devia ter me matado. Qualquer um teria me matado. Klaus,Lorenzo,Alaric... Teriam me matado do modo mais doloroso. Mas não tu. Eu menti para você, e você me deixou viver. Eu sou grata por isso. – Ela estava quase dormindo – Eu o puxaria para cama, mas não tenho força. – Disse, derrotada.

Damon tirou os sapatos, as meias, o colete, desabotoou o cinto e alguns botões da camisa, passando para debaixo dos cobertores, junto a ela. Quando a olhou ela já dormia, exausta. Ele apanhou a mão dela, que graças a Deus não estava roxa, e a beijou levemente. Como havia encontrado uma mulher assim, entre todas no mundo? Como permitira que a raiva o cegasse a ponto de deixar que a machucassem naquele ponto?

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