O pátio estava movimentado, iluminado. Damon, Klaus e Alaric aguardavam em seus postos, parados na escadaria. Após a corte toda uma carruagem maior e mais luxuosa se aproximou da escadaria, puxada por cavalos negros. Um criado se apressou, indo abrir a porta. De lá saiu um homem forte, pálido, de cabelos escuros. O corpo estava coberto por uma capa, mas podia se ver de longe seu porte físico. Os detalhes do rosto eram negligenciados pela escuridão e distancia. Elena estava tonta. A terceira (e ultima) nuvem de flechas foi disparada, cobrindo a luz da lua por instantes e caindo ao relento. Elena observou o criado abrir a outra porta da carruagem. O homem, Lorenzo, ofereceu a mão a alguém. Uma mulher. Ela apanhou a mão dele delicadamente, descendo da carruagem de modo gracioso. O vestido que ela usava era de um negro que parecia aveludado, apertado que doía só de olhar. Os cabelos, igualmente negros, caiam pelas costas. Mas havia algo diferente nela. O tom da pele, talvez. Era tão branco que parecia não ser natural. Parecia branco gesso. Ela olhou em volta, aparentemente conhecendo o local e parecendo muito a vontade com a noite, e Elena pôde jurar que em um momento os olhos das duas se encontraram. De outro modo não teria como saber que os olhos da outra eram assustadoramente negros, contrastando com todo o resto. Por fim ela encarou o marido, sorrindo de canto, e os dois caminharam uns passos, se aproximando. Ela parecia totalmente a vontade com toda aquela cerimônia, a vontade por estar de mãos dadas com o marido. O nome dela era Madison Malarkey.

Damon: Sejam bem vindos. – Recebeu, com um sorriso de jubilo no rosto. O vento varreu a cena, levando os cabelos de Madison, mostrando o pescoço branco, exposto.

Elena não ouviu o que Damon disse. Ela não podia ouvir dali. Ela só sabia de algo, com tudo isso: Seu fim acabara de começar.

–--*


Damon: Vim o mais depressa que pude. Estava preocupado. – Disse, abraçado a ela, na cama.

Elena: Foi apenas um mal estar. – Disse, erguendo o rosto para beijá-lo. Damon retribuiu o beijo dela docemente, até que sentiu ela estreitando o corpo ao seu, intensificando o beijo.

Damon: Não. – Murmurou, e ela suspirou, frustrada.

Elena: Porque não?

Damon: Porque você está esgotada. Quero que descanse. Venha. – Ele a acomodou em seu abraço, e ela deitou a cabeça novamente em seu ombro, aspirando seu perfume – Durma. Eu estou aqui. Vou cuidar de você.

Elena: Eu sei que vai. – Disse, a voz rouca de sono, e sentiu os lábios dele em sua testa.

Nada mais foi dito. O próprio Damon dormiu antes que ela. Era claro, a consciência dele estava tranqüila, ele estava em paz com a vida.

Ela ficou lá, aspirando o perfume dele e sentindo o tamborilar de seu coração debaixo do peito. Por quanto tempo ainda teria aquilo?

–--*

Elena dormiu pesadamente... Assim que conseguiu dormir. Damon saiu na manhã seguinte e avisou que cortaria o pescoço daquele que interrompesse o sono dela. Assim foi. Tanto que ela se sobressaltou na hora em que acordou. Deu um pulo na cama, se aprontando de qualquer jeito, mas Hope já havia tomado seu café.

Elena: Eu dormi. – Disse, derrotada, e Hope sorriu – O que há? – A menina olhou – Está triste, anjinho?

Hope: Não sei. – Disse, confusa consigo mesma.

Elena: Se você estivesse, porque estaria?

Hope: Hoje é meu aniversário. Eu acho. – Disse, franzindo a sobrancelha – Não tenho certeza. Acho que esqueci. – Elena ergueu as sobrancelhas.

Elena: E... Oh. – Ela hesitou com o choque. Como assim era aniversário da princesa e ela estava só? – Hey, meus parabéns! – Disse, apanhando a menina no colo e lhe dando um beijo apertado. Hope sorriu. – O que quer fazer hoje?

Hope: Se for meu aniversário eu não posso sair. – Comentou, franzindo o cenho.

Elena: Porque? Eu... Ah, é claro. Seu pai. – Ela respirou fundo e Hope assentiu – Deixa comigo. – Disse, pondo a menina na cama.

Hope: Ele vai brigar. – Avisou.

Elena: Eu sei como lidar com ele. – E piscou para a menina, saindo do quarto.

Elena caminhou pelos corredores direto a sala de reunião. Isso era impossível, o aniversário de Hope era tão desprezado que ela própria estava esquecendo a data! Isso com 6 anos! Ela freou no corredor, ouvindo as vozes na sala. Não podia entrar, mas precisava chamar Damon. Ela parou perto da porta aberta, tomando coragem. Quando tomou impulso recuou. Um par de olhos negros a olhava. Elena encarou Madison por um instante, o coração doendo pela rapidez com que batia. Como era possível alguém ter olhos tão negros? Madison, porém parecia tranqüila. Suas feições eram calmas, e havia um meio sorriso no canto de sua boca. Ela sustentou o olhar de Elena por um longo instante, então virou o rosto pro lado do marido, se inclinando sutilmente para dizer algo a ele.

Lorenzo ergueu as sobrancelhas, e ela assentiu. Elena a essa hora estava em pânico, mas nenhum dos dois falou nada. Foi então que o olhar de Damon recaiu sobre o dela. Ela fez sinal, chamando por ele, que pediu licença, se retirando. Algo era diferente hoje: Ele usava preto. A camisa, o colete, tudo. É, era aniversário de Hope.

Damon: Queres permissão para que?! – Perguntou, no corredor, em tom baixo e incrédulo.

Elena: É aniversário dela! – Lembrou, exasperada.

Damon: E quer que eu dê permissão para fazer uma festa comemorando o dia em que a mãe dela morreu? – Perguntou, debochado e irritado.

Elena: Não, quero permissão para que ela comemore o dia em que ela sobreviveu! – Rebateu, e em seguida respirou fundo. Bater de frente com Damon nunca funcionava. – Hope não consegue andar. Não tem mãe. Ainda assim ela é adorável, ela sorri e ela é amável, ela sobreviveu a tudo o que lhe ocorreu com o rostinho erguido. – Damon estava impaciente – Por mais que lhe doa falar sobre isso, assim é. Crianças normais tem uma festa e presentes no dia do seu aniversário. Crianças normais. Porque Hope, que é tão especial, não pode ter?

Damon: Elena...

Elena: Não quero dar uma festa. Você nem precisa ir. – Insistiu – Me permita apenas levar um bolo, alguns doces, essas coisas que crianças gostam. Comemorarei com ela sem fazer algazarra alguma. Irei até a vila e trarei dois presentes, ou três, levarei tudo pro quarto e estaremos de portas trancadas, apenas para que ela se sinta feliz. – Ele ficou calado – Não a prive disso. Damon, por favor. – Pediu, entregando todos os argumentos que tinha.

Ele ficou em silencio por um minuto. Ia contra todos os seus instintos qualquer tipo de alegria no dia em que Katherine se fora. Mas por outro lado o que Elena dizia era verdade. Ele nem nunca visitara Hope no dia de seu aniversário.

Damon: Tem minha permissão. – Concedeu, em voz baixa. Elena sorriu.

Elena: Obrigada. – Ele assentiu, quieto. Elena podia sentir o peso da dor sob seus ombros. Não seria um dia fácil.

Ela caminhou até a porta da sala onde estavam, fechando-a, sob o olhar dele. Voltou e o abraçou pelos ombros, lhe beijando. Sentiu as mãos dele em sua cintura, apertando-a durante o beijo, e lhe acariciou os cabelos. A verdade era que Damon ainda era em demasiado jovem e já havia sofrido demais, ainda tendo uma guerra sob as costas.

Elena: Eu amo você. – Murmurou, nos lábios dele, e abriu os olhos pra se debater com os olhos dele perto demais dos seus, em um mudo “eu também”.

Elena o beijou mais uma vez, levemente, e deu as costas, saindo. Damon a observou sumir pela porta, e passou a mão no rosto enquanto se perguntava: Haveria alguma coisa que ela pedisse que ele seria capaz de negar?