Como era esperado, o inverno veio. Em uma manhã fria e calada os primeiros enviados de Lorenzo vieram, seguidos pelos de Alaric. Era costume mandar enviados, como mensageiros, o que avisava que a realeza estava a caminho. Elena estava angustiada ao máximo... Até que algo a atropelou.

Klaus: Damon. – Damon ergueu o rosto da xícara de café. Elena, que o servia, não deu atenção – Nunca pensou em casar-se novamente? – Perguntou.

Tanto Damon quanto Elena endureceram na hora. Cada um por um motivo diferente. Ela porque não suportaria ter que dividi-lo com outra, ou pior... Perdê-lo. As opções para ele eram mulheres finas, educadas, ricas, bonitas, refinadas, mulheres que ele podia exibir ao seu lado. Princesas. Enquanto ela, Elena, não passava de uma criada, pobre, e com um segredo que a sufocava nas costas. Damon se paralisou porque nunca nem cogitara a idéia. Só havia Katherine, sempre fora assim, logo ela morrera e ele se adaptara a solidão. Então Elena entrou em sua vida, figurativamente como um raio de sol, e ela estava em todos os lugares. Ele se acostumara a isso, sua vida era tão perfeita desse modo que ele nem se tocara de que ela ainda era sua amasia. Era como se fosse sua esposa.


Klaus: Não quis ofender, é claro. – Continuou, interpretando o silencio e a expressão de Damon.

Damon: Não ofende. – Ele secou a boca com um guardanapo – Não, nunca o pensei.

Klaus: Faz idéia de quanto nos ajudaria, não faz? – Perguntou, brincando com a mão de Caroline.

Damon: Não consigo ver em que. – Elena continuava uma estatua de sal, parada no mesmo lugar.

Caroline: Se me permitem... – Damon e Klaus a olharam. Elena havia perdido os sentidos do corpo, exceto a audição. – Madison comentou sobre isso certa vez.

Klaus: Comentou? – Caroline assentiu – Nunca me disseste nada.

Caroline: Não achei que o assunto viria a pauta, Damon é tão... Perdão. – Ela avaliou as palavras – Nunca pensei que Damon sequer pensaria no assunto, logo não pensei ser relevante.

Klaus: O que ela disse? – Perguntou, observando-a. Damon se manteve calado.

Caroline: Me contou que em uma visita a Alaric o assunto surgiu.

Damon: Minha vida pessoal está em pauta agora? – Perguntou, se recostando na cadeira.

Klaus: Seja razoável. – Dispensou – Continue.

Caroline: Madison ouviu em conversa Lorenzo e Alaric comentando o quanto ajudaria se Damon tivesse uma esposa. Segundo ela ter uma imagem só não é útil quando se quer apoio, principalmente em uma guerra. – Resumiu – Segundo eles seria mais fácil tomar uma decisão se você fosse casado.

Damon: Porque mais fácil? Se eu tivesse uma esposa ela iria ao campo de batalha, em nome de Deus?

Klaus: Já mandei se acalmar. – Damon revirou os olhos – Caroline tem razão, já tinha dito antes e tu o sabes.

Damon: Não havia pensado nesse aspecto.

Klaus: Alfonso, já os temos aqui para um baile civil. – Disse, se inclinando na mesa – Emende esse convite para um baile de escolha. Mantenha-os aqui até o baile, escolha uma princesa qualquer, mantenha-os aqui até o casamento! – Klaus tinha aquele tom excitado pré-briga na voz outra vez. – Elena achava que ia vomitar. É claro que ele ia negar, é claro que...

Damon: Posso lidar com isso. – Ela tinha certeza de que ia vomitar – Não preciso dar uma resposta oficial agora, ou tenho?


Kalus: Eu já tenho a resposta que precisava. – Ele sorria. Isto era péssimo.

Caroline: Algum problema? – Perguntou, de cenho franzido, delicadamente curiosa, olhando Elena parada. Damon virou o rosto em um choque: Esquecera que Elena estava ali. Ela estava branca feito papel.

Elena: Nenhum, alteza. – Disse, recuperando a voz – Apenas me distrai, perdão.

Caroline: Está tudo bem? – Damon olhava o café na xícara, percebendo em que enrolada ele estava se permitindo envolver. Sua vida amorosa estava perfeita. Elena era perfeita pra ele, tanto na cama quanto fora dele, e ele não tinha do que reclamar. Não havia o que melhorar no que era perfeito.

Elena: Sim, senhora. – Disse, terminando de servir a bandeja, limpando as mãos no vestido – Com licença.

Elena saiu tranquilamente da sala. Caroline continuou seu café, tranqüila. Klaus estava empolgado demais para reparar em algo. Mas Damon ouviu. Ouviu os passos dela se acelerando de modo familiar, até que ela estava correndo e então o som estava distante demais para ser ouvido. Ótimo.

Damon terminou seu café e foi atrás de Elena. Não encontrou em lugar algum. Por fim procurou Hope, recordando que sempre que podia Elena estava com a menina. Ele ficou com a filha bem uma hora, brincando, conversando, até que não suportou.

Damon: Anjo. – Chamou, beijando o cabelo da menina. Ela estava em seu colo, colorindo um livrinho.

Hope: Hum? – Perguntou, dengosa.

Damon: Viste Elena hoje? – Perguntou, apoiando o livrinho pra ela colorir.

Hope: Ela esteve logo antes do senhor chegar. Parecia triste. Estava meio branca. – Observou. Damon olhou pra frente, respirando fundo.

Damon : Sabes pra onde ela foi?

Hope: Ela disse que ia tomar um ar, e depois ia na cozinha, e depois na lavanderia. – Respondeu, balançando com a cabeça. Damon sorriu do jeitinho dela.

Alguns minutos depois ele saiu novamente. Se ela havia ido dar uma volta, ele não tinha nem como adivinhar onde tinha ido; Elena nunca saia do castelo. Então passou a segunda opção e foi a cozinha, mas ela já havia passado por lá. A encontrou na lavanderia, em um tanque de roupas, lavando o que lhe lembrava ser um colete seu. A reconheceu pelo cabelo, não podia ver seu rosto de onde estava.


Damon: A procurei por toda a parte. – Comentou, se aproximando. Elena virou o rosto, na surpresa, para olhá-lo. Era verdade, estava pálida. – Onde estava?

Elena: Não me senti bem, fui até o rio. – Disse, voltando a atenção pro que tinha nas mãos. Damon suspirou consigo próprio. É claro, o rio.

Damon : O que há? – Perguntou, afastando o cabelo dela. Elena meio que se retraiu ao sentir seu toque. – Está me reprimindo. O que passa?

Elena: Só não me sinto muito bem.

Damon: Tu sempre fostes péssima mentindo. – Disse, virando o rosto dela para si – É por causa do que Klaus disse? Não dê atenção, sabes como ele é. Fará de tudo pra ganhar essa guerra, não importa o que.

Elena: Não é nada, já disse. – Respondeu, tentando soltar o rosto. Não podia usar as mãos que estavam molhadas.

Damon: Shhh. – Ele manteve o rosto dela, fazendo-a encará-lo. O toque de suas mãos era quente. – Não fique assim.

Elena: Damon, e se um dia eu quisesse partir? – Perguntou, agora sem desviar o rosto. Foi a vez dele ficar sem resposta.

Damon: Partir? – Perguntou, processando a pergunta.


Elena: Ir embora. – Continuou.

Damon: Porque? Pra onde? – Ele estava indignado só com a pergunta.

Elena: Me responda. – Pediu, encarando-o.

Damon: Porque? – Insistiu. Ele a encarou por um longo instante, os dois suspensos – Quer me deixar?

Elena: Se um dia eu precisasse. Se não houvesse opção. O que você faria?

Damon: Eu não permitiria. Não há outro lugar para ti. – Respondeu, a voz sem entonação.

Elena: E se eu quisesse ter uma vida? Uma casa...

Damon: Aqui é tua casa. – Interrompeu.

Elena: Um marido, filhos. – Pra isso ele não teve objeção. – Sabe que dentro dos muros do castelo não há futuro para mim. Eu vou definhar aqui, tal como estou agora. E se eu não quisesse isso? Se eu quisesse ir? – Levou quase um minuto até que ele respondesse. Agora ele estava pálido.

Damon: Se tua felicidade dependesse disso, então eu a deixaria partir. Seria minha morte vê-la se afastar, mas ainda assim eu viveria para desvanecer em ciúmes do homem que tu escolhesses para pôr em meu lugar. – Respondeu, quieto.

Elena: Se tivesse que escolher entre mim e a guerra? – Perguntou, e ele suspirou.

Damon: Elena...

Elena: E se eu pedisse para que tu fosses embora comigo? – Ele arregalou os olhos.

Damon: E largar tudo? – Ela assentiu – Sabes que é impossível, pequena. Não posso simplesmente dar as costas a tudo e fugir.

Elena: Poderia dar as costas a guerra, se quisesse. Poderia não se casar, poderia acabar com isso e ficaríamos juntos e em paz.

Damon: Não me peça isso. – Pediu, encostando a testa na dela. Elena tentou resistir ao perfume dele. Fracassou.

Elena: É tão importante assim? – Perguntou, tocando-lhe a maçã do rosto.

Damon: É mais importante a cada vez que eu vejo Hope entrevada naquela cadeira.

Elena: E a cada vez que olha sua cama e percebe que Katherine não irá voltar. – Completou. Damon a encarou. Ela nunca tocava no nome de Katherine.

Uma voz os interrompeu. A pessoa aparentemente freou ao ver a cena, sem reação.


Damon: Saia agora. – Ordenou, a voz alta e firme, como aviso do que aconteceria caso a pessoa não saísse. O criado tropeçou perante a ameaça e logo havia sumido – Porque está fazendo isso?

Elena: Eu só quero viver em paz.

Damon: Eu te darei paz. – Prometeu, encarando-a.

Elena: Terminará por me matar, meu amor. – Disse, com o semblante triste, tocando os lábios dele com o dedo – Acredite.

Damon: Não vou matá-la, eu te amo. – Impôs — Porque diz esse absurdo? – Mais uma vez foram interrompidos – EU MANDEI SAIR! – Ordenou, ao sentir a presença de alguém novamente.

Klaus: Só que você não manda em mim. – Damon e Elena se viraram para olhar – Desculpem interromper a cena, estava realmente lindo e eu vou arder no mais profundo inferno pela interrupção, mas é necessário.

Damon: O que queres?

Klaus: Ele está aqui. – Disse, com aquela alegria feroz no rosto novamente.

Houve um silencio rápido e intenso. Klaus e Damon se encaravam, ainda incrédulos com a situação. O chão de Elena havia sumido, ela sentia que podia desmaiar a qualquer momento.


Damon: Qual? Como? Quando? – Perguntou, sem se dar conta de que ainda segurava o rosto de Elena. Ela apenas olhava o ombro dele, quieta, querendo sumir.

Kalus: Alaric, trazendo a esposa. A cavalaria e a corte estão perto do castelo, mas a carruagem com ele acabou de passar a fronteira, eu mesmo dei a autorização. – Informou – Ande, se mova! Vocês terminam isso depois! – Disse, impaciente, dando as costas e voltando a andar.

Damon soltou o rosto de Elena. Ele caminhou uns passos, deixando-a para trás, então parou, se virando para olhá-la.

Elena: Vá. É o seu mundo te chamando. – Disse, a voz quase imperceptível. Ele ficou calado por um bom tempo.

Damon: Eu fugiria com você, se pudesse. – Disse, encarando-a. Então ele deu as costas e saiu, deixando-a ali.

Ele realmente iria, se pudesse. Pena que não podia.

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