Damon bateu em retirada atrás de Elena. A encontrou nos fundos da lavanderia, sentada no chão, com as pernas dobradas, os braços amparados no joelho, e segurando o rosto. Havia um papel em sua mão. E ela estava... Estava chorando?

Damon: Elena? – Perguntou, sua raiva apagada como uma vela ao vento. Ela estava feliz a minutos, porque agora chorava? Elena se sobressaltou ao vê-lo ali, levando os olhos azuis, momentaneamente desarmados, até ele.

Você não está só,
Juntos permaneceremos ♫


Damon: Você se machucou? – Perguntou, preocupado. Elena negou com a cabeça, se levantando e secando o rosto. Os olhos continuaram úmidos.

Elena: Não foi nada. – Respondeu, rouca.

Damon: Que papel é esse? – Pediu, confuso, estendendo a mão.

Epa.

Elena: Não é nada, senhor. – Damon revirou os olhos.

Damon: Me deixe ver. – Pediu, avançando.

Elena: Não! – Disse, recuando. Damon realmente não estava entendendo – Damon, por favor, não. – Pediu, com a carta as costas. Ele hesitou. Pelo menos ela o chamara pelo nome. Ele assentiu, recuando um passo, em sinal de paz.

Eu estarei do seu lado,
Você sabe, eu segurarei sua mão ♫


Damon: Me diga o que foi. – Pediu, sem atacá-la. Elena dobrou a carta e guardou no decote. Ele observou levianamente o ato.

Elena: Era uma carta... Da minha mãe. – Ela não mentiria pra ele ainda assim. – Eu... Eu pedi para ir embora, para voltar pra casa.

Damon: Porque fez isso?! – Perguntou, exaltado. Elena ergueu a sobrancelha, olhando-o – Aliás, porque achou que eu permitiria? – Algo sobre ter Elena longe de seu domínio o esfaqueava.

Elena: Não te preocupes, ela não me quer de volta em casa. – Damon respirou fundo, virando o rosto por um momento pra se acalmar.

Damon: Por isso choravas. – Disse, agora que o susto passara, penalizado. Não gostava de vê-la sofrendo.

Quando estiver frio, e parecer o fim
Não há lugar pra ir, e você sabe que eu não vou ceder
Eu não vou ceder... ♫


Elena: Eu disse que era bobagem. – Disse, olhando o chão – Eu... Eu preciso voltar a trabalhar. Hope está só. – Disse, caminhando.

Damon: Espere. – Disse, puxando-a pelo braço.

Mas ele não a beijou, nem tentou nada do tipo. Apenas a abraçou. Um abraço que dava força, o mesmo abraço que ele deu a ela enquanto ela chorava pela morte do pai. Elena ia repeli-lo, mas não agüentou. Chorou. Se abraçou a ele e chorou. Esse tipo de situação acontece na vida real: Você está magoada, machucada, mas o único lugar que parece servir de conforto são os braços de quem a fez mal.

Continue agüentando firme!
Porque você sabe que nós conseguiremos, nós conseguiremos... ♫


Damon: Shhh... – Disse, alisando os cabelos dela, enquanto o outro braço a mantinha firme em seu abraço – Vai passar. – Prometeu, meio que ninando-a. Sentiu o ombro de sua camisa se molhar com as lágrimas dela.

Elena: Porque você fez isso? – Perguntou, a voz tremula pelo choro e pelos soluços que vinham. – Meu Deus, eu confiava em você!

Damon: Me perdoe. – Pediu, os olhos fechados, o nariz no cabelo dela, aspirando o perfume que continuava o mesmo.

Elena: Eu não consigo. Eu não confio mais em ti. Eu não posso. – Disse, aproveitando os segundos que restavam nos braços dele.

Apenas seja forte
Porque você sabe que eu estou aqui por você, eu estou aqui por você ♫

Damon: Você sabe que eu não quero seu mal. Eu só me precipitei... Eu não soube como agir. – O vento frio que bateu nos dois anteriormente teria feito o cabelo dela dançar no ar. Agora, nada.

Elena: Já basta. – Disse, e ele sentiu ela afastá-lo. O rosto dela estava molhado de novo – Queres meu bem? – Damon esperou – Me deixa viver em paz, então. Esquece tudo. – Pediu, e antes que ele pudesse responder havia saído a passos rápidos, secando o rosto. Os braços dele sentiram falta do corpo dela, mas ele não a seguiu.

A cabeça de Damon só conseguia manter uma pergunta. Não importava agora o passado, ou Stefan, ou a guerra. Apenas uma pergunta: Como reverteria aquilo?

04 meses depois...

Elena: Teu pai deve vir te ver. – Disse, acomodando Hope – Se precisar de algo, grite. – Ela terminou de cobrir a menina – Tenha bons sonhos.

Hope: Teu cabelo está crescendo. – Disse, tocando o cabelo de Elena. Só crescera uns três, quatro dedos, mas era perceptível. A franja continuava lá. Elena sorriu.

Elena: Tu já disseste isso 05 vezes hoje. Durma, sapeca. – Disse, beijando-lhe a testa.

Hope: Boa noite, Lena.

Elena se bateu com Damon na saída. Acontecia com freqüência, mas os dois não se falavam muito. Damon mudara nesses meses. As olheiras pareciam permanentes, o rosto não tinha alegria. Ela o encarou por um instante e saiu, deixando-o com a filha. Passou pela cozinha para tomar um copo de água.

Rose: Eu creio que já estou ficando melhor. – Contou a cozinheira, se equilibrando pra se manter de pé. Elena ergueu a sobrancelha.

Elena: QUE NOTICIA BOA! – Disse, dando um tapa no ombro de Rose. No susto a outra se desequilibrou e caiu, gritando enquanto segurava a perna novamente fraturada. Elena gargalhou, desistindo da água e indo pro seu quarto.

Ela ainda sorria enquanto entrava no quarto, mas seu sorriso terminou em um esgar de choque. Havia alguém ali.

Klaus: Não grite. – Advertiu, sentado na cama dela.

Elena: Precisa de algo, senhor? – Perguntou, incrédula.

Klaus: Feche a porta. – Ordenou, se acomodando no travesseiro dela. Elena ergueu a sobrancelha – Eu preciso conversar com você, fique tranqüila.

Elena avaliou por um instante e fechou a porta. Quando se virou Klaus estava girando o livro dela na ponta do dedo. Elena fez uma careta.

Klaus: Se sente. – Pediu, apontando os pés da cama. Ela foi, hesitante – A propósito, não gostei do teu corte de cabelo. Preferia o anterior.

Elena: É o que a maioria diz. – Disse, dando de ombros. Klaus sorriu de canto. – Damon o mandou aqui?

klaus: Ele não manda em mim. – Disse, franzindo o cenho, e parando de girar o livro – Não, ele nem sabe que está aqui. E eu prefiro que continue sem saber.

Elena: Tudo bem, eu não estou entendo. – Disse, realmente confusa. Klaus se sentou direito, a encarando. Os olhos dele eram perturbadoramente claros.

Klaus: Em primeiro lugar, eu não estou aqui para defender Damon. Sou contra o que ele lhe fez. – Elena esperou – Mas eu estou vendo-o definhar dia após dia. Quando você passa vejo nos olhos dele a esperança de algum progresso, para logo voltar ao torpor. Se algo acontecer a Damon eu perco essa guerra, Elena. Eu não vim aqui para isso.

Elena: Eu não vou voltar para ele. – Disse, categórica.

Klaus: Não sou um cupido, não vim pedir isso. Mas você precisa entender o lado dele. Precisa ver pelo ângulo que ele viu a situação. – Disse, e ela esperou – Elena, nós, reis, temos uma criação muito diversificada da tradicional. Quando eu tiver filhos não vou cria-los do modo como eu fui criado. É errado e prepotente, mas somos criados para sermos reis, não humanos.

Elena: O que quer dizer com isso? – Perguntou, confusa.

Klaus: Um homem normal é criado para honrar sua mulher e filhos. – Exemplificou.

Elena: Um rei também, suponho. – Disse, irônica. Klaus assentiu, sorrindo de canto.

Klaus: Certamente. Só que nós fomos criados sob um ângulo diferente. Em minha adolescência meu pai me disse inúmeras vezes que eu poderia amasiar quantas criadas eu tivesse vontade, porém que minha esposa ou qualquer outra pessoa jamais deveriam saber. Eu seria rei, logo, eu poderia passar por cima dos outros.

Elena: Que adorável. – Disse, novamente irônica.

Klaus: É, adorável era o nome do meio do meu pai. – Debochou, coçando a sobrancelha – Alguns de nós, como Damon e eu, aprendemos a ter dignidade sozinhos. Eu nunca tocaria outra mulher que não fosse Caroline, por mais que apareçam mulheres encantadoras a minha volta. – Disse, insinuador. Elena riu. Conversar com Klaus chegava a ser leve.

Elena: Por favor. – Pediu, revirando os olhos, e ele sorriu.

Klaus: Do mesmo modo como Damon jamais olhou outra mulher a não ser Katherine. Nem após sua morte, 05 anos depois, ele manteve o celibato e nunca quis outra mulher. Até que você apareceu. – Narrou, girando a aliança no dedo – E algo em você o derrubou em sua convicção. Ele a tornou sua amante. Mas ainda assim, é importante que isso fique claro, ainda que morta, até que ele despose outra mulher, Katherine é a esposa oficial. – Elena o encarava, quieta – É uma basbaquice, mas é assim que funciona. A cama dele está vazia, mas a esposa dele é ela.

Elena: Não entendo onde quer chegar. – Disse, passando a mão no cabelo.

Klaus: Quero chegar no ponto em que você não o entendeu. Damon estava feliz tendo a você, até que aconteceu. – Elena ergueu a sobrancelha – A criança que você carregava no ventre era uma ameaça explicita. Se chegasse a conhecimento publico, e você sabe que isso podia acontecer, Damon sofreria por ter tido um filho, com todo respeito, bastardo. A descriminação, as criticas, até que perderia o trono. Perderia o trono em meio a uma guerra. Você consegue adivinhar quem seria o primeiro a assumir o trono dele?

Elena: Stefan. – Disse, dura.

Klaus: Exatamente. Ele se viu diante dessa situação e não soube o que fazer. Não poderia ir até você e dizer: “Querida, você não pode ter nosso bebê.”. Seria patético, e você não aceitaria.

Elena: Tu fazes isso parecer engraçado, quando não é.

Klaus: Acho que é um dom. – Disse, pensativo – O fato é, quando você apareceu grávida ele se viu com uma bomba nas mãos. Nada sabia sobre isso, então tentou se recordar do que lhe fora ensinado. Eu mesmo recebi ordens de que se um dia uma de minhas amasias engravidasse, ou ameaçasse revelar a verdade, ela deveria ser morta. No caso da gravidez, morta ela e a criança. Meu adorável pai cansou-se de repetir isso. Acho que por tanto ele repetir até hoje o ventre de Caroline se nega a gerar um filho meu. – Disse, fazendo uma careta.

Elena: Você está mentindo. – Isso era absurdo.

Klaus: E o que eu ganho mesmo mentindo para defende-lo? O assunto de vocês não é problema meu. – Lembrou – Damon recebeu as mesmas instruções, e isso era o certo a se fazer no caso dele. Pelo menos foi assim que fomos criados. Ele não soube o que fazer e matar você seria o mesmo que suicídio. Então fez o que fez, em uma medida desesperada. Se arrependeu amargamente, como se vê hoje, mas não havia outra alternativa, Elena.

Elena: Ele deveria ter me matado, é isso o que quer dizer?

Klaus: Sem hesitar ou pensar duas vezes. – Confirmou. – Essa criança era fruto da traição dele a memória de Katherine. Me perdoe pela franqueza, mas de um modo ou outro, tu concordando ou não, ela não podia vir ao mundo. Não no meio de uma guerra, não nessas circunstancias. Mas ele escolheu poupar a ti. Tua vida se manteve intacta.

Elena: É isso? Tudo isso é sobre dignidade?

Klaus: É sobre tudo o que mais for. Damon fez o que achou ser certo em um momento de desespero. Não o condene como está fazendo, é cruel. – Se resumiu.

Elena: Ele me traiu! – Exclamou.

Klaus: Traiu mas ele não sabia que isso era errado, nenhum de nós sabe! Quando se tem um reino em suas costas, muitos dos princípios são equivocados! – Rebateu – É isso o que tu precisas entender: Todos tem a distinção de certo e errado. Para nós, reis, o que Damon fez a ti está na lista do que é certo. A não ser porque ele a manteve viva.

Elena: Ainda assim...

Klaus: Ele se arriscou poupando você, Elena. Você poderia bem sair por ai gritando aos 4 ventos a verdade, e ele estaria condenado do mesmo modo. Mas ele poupou você; Ele preferiu encarar as conseqüências do que tirar tua vida. Pense nisso.

Elena parou, passando a mão no cabelo, e olhando pra frente. Se era assim... Não, de jeito nenhum. Ela se virou pra olhar, mas Klaus girava o livro no dedo novamente.~

Klaus: Quando uma criança está crescendo, seus pais lhe ensinam a não roubar, pois é errado. – Exemplificou – Quando um rei está se formando, seu pai o ensina a matar as amasias e os bastardos, porque é o certo. É difícil distinguir o certo do errado desse modo. – Disse, olhando o livro girar – Eu acho que era isso que eu tinha a dizer.

Elena: Dirá a ele que esteve aqui?

Klaus: Eu sou um rei, não um pombo correio. – Disse, franzindo o cenho, e Elena riu – Não estou pedindo que saia correndo porta afora e se atire nos braços dele. Seria melodramático demais. – Disse, girando o livro – Mas pense no que eu te disse. Quando você tem uma granada na mão não há muito tempo pra decidir o que fazer. Seu bebê era uma granada. Se ele não agisse, logo, iria estourar na mão dele. – Disse, e parou o livro.

Elena: Um ponto de vista agradável. – Disse, debochada.

Klaus: Eu também acho. – Disse, largando o livro – Mas se tu estás viva agora, foi porque ele realmente gosta muito de ti. Do contrário estaria morta, fria, com teu filho ainda no ventre, morto junto contigo. Pela piedade dele não está. – Disse, se levantando – Vou deixá-la dormir. Pense no que eu te disse.

Elena não viu Klaus se afastar, mas ele parou na porta. Ela o olhou, meio aturdida.

Klaus: Duas coisas. Primeiro uma pergunta. Aquela Rose... – Elena ergueu as sobrancelhas – Você já tentou a almofada de alfinetes dentro do sapato? – Perguntou, curioso, e Elena gargalhou.

Elena: Não, não tive essa idéia. – Disse, rindo.

Klaus: É infalível. – Sugeriu, e ela agradeceu com a cabeça – Mais uma coisa... Se tu disseres a ele que eu estive aqui, ou que te expliquei alguma dessas coisas, eu vou negar. – Elena revirou os olhos – Tenha uma boa noite. – E saiu, fechando a porta.

Elena colocou as mãos nas têmporas, cerrando os olhos. Uma coisa era certa:Klaus lhe dera muito em que pensar.