(in) esquecível
31 Sobre como você supostamente entrou para a família
Notas iniciais
Sobre como você supostamente entrou para a família
Os olhos mantiveram-se fechados, tão contraditoriamente pesados quanto leves, mesmo enquanto Heiwajima Shizuo reconhecia no som que o acordara a batida forte, bem forte, da porta de seu quarto. Seu pulso não alterou-se, contudo, nem sua respiração acelerou-se, nem seus pensamentos agitaram-se. O homem mais forte de Ikebukuro permaneceu quieto, apenas os pés a deslizarem preguiçosos, bem devagar, pelo lençol macio, a denunciarem que não mais dormia.
Assim, tão silencioso tão inerte, foi fácil outra vez deixar-se embalar pela respiração quente que batia suave de encontro a seu pescoço e flutuar leve no limiar consciência e inconsciência. Fácil, tão fácil, foi permitir-se acalentar pelas ondas que as costas magras moldavam de encontro a suas mãos a cada inspiração do rapaz adormecido em seus braços. E, ainda que absurdo, também fácil foi inspirar fundo em quase pequeno agradecimento e entregar-se ao ritmo ditado pelos pulmões dentro do peito colado ao seu. Como se naquele pequeno espaço entre o colchão coberto pelos lençóis brancos desarrumados e o teto gelo manchado por poeira todas as prioridades invertessem-se e batida alguma na porta, por mais intensa e repentina que fosse, pudesse de alguma forma competir com o deslumbramento de acordar com Orihara Izaya, ainda nu, adormecido em seus braços. Como se naqueles pequeninos poucos metros tornassem-se as pernas entrelaçadas juntas e calores trocados de nudez à outra tão mais importantes do que o já quase esquecido fato de que havia alguém em seu apartamento.
Era o sono, contudo – e ele já tão culpado sentia-se por manter-se ainda de olhos cerrados que já até mesmo escolhera sua desculpa.
Era a inconsciência, portanto – e ele negaria que poderia não ter sido – a preencher de suspiros silenciosos ambos os seus pulmões enquanto ainda mais próximo aconchegava-se a seu pior inimigo. Assim como era inconsciência a fazê-lo abrir os olhos apenas para encontrar o rosto adormecido do rapaz deitado sobre seu peito.
Ainda que fosse, dessarte, também contradição. Uma piada sobre um rapaz inconsciente de olhos abertos. Uma piada sobre o homem mais forte que não tinha forças sequer para cerrar pálpebras.
Não que ele importasse-se.
Izaya dormia pesado demais, exausto demais, profundo demais para que se importasse.
Respiração sonora, expressão tranquila, pelos arrepiados pelo frio, mãos pousadas tão suaves em seu peito, pernas enlaçadas às suas, marcas avermelhadas pontuadas pela pele pálida: fosse alívio fosse surpresa fosse orgulho, Shizuo deixou que um pequeno sorriso ascendesse a seus olhos ao lembrar-se do porquê de o rapaz aconchegado a seu peito dormir tão cansado. E, fosse sono fosse loucura fosse embalo, deixou mais uma vez seus próprios olhos fecharem-se e mais uma vez seu corpo entregar-se ao contraditório calor daquele início de noite de segunda-feira que normalmente tão gelado seria.
E teria, sem dúvidas, assim permanecido pelo restante da noite – talvez acordado em momento para cobrir a nudez de ambos, talvez acordado outra vez para de novo aconchegá-las juntas – não fosse um novo baque, alto mesmo através da porta cerrada. Novo baque que, ainda que mais baixo do que o primeiro, fez remexer desconfortável o rapaz em seus braços.
Izaya acordaria.
E, de repente, isso era o bastante para que seus olhos abrissem-se em definitivo e fixassem-se na porta que separava seu pequeno quarto do restante do também pequeno apartamento. O fato de que havia, em definitivo, alguém em seu apartamento finalmente ganhando a importância que devia.
Desviar do abraço de Izaya sem acordá-lo foi tarefa que exigiu do homem mais forte de Ikebukuro todo seu orgulho. Não havia, afinal, justificativa válida para o que fazia enquanto esticava-se para alcançar um travesseiro e cuidadosamente acomodava-o entre os braços de Izaya além de “O pulga está dormindo tão gostoso e parece tão cansado”, justificativa que, verdadeiramente, sono algum ou inconsciência fingida alguma poderia convencê-lo ser boa – não, ao menos, boa a Heiwajima Shizuo. Ao mesmo tempo, contudo, manter intacto o já pequeno orgulho não parecia coisa tão necessária quando o rapaz nu na cama se contraia de frio, e poderia, portanto, ser mais uma vez sacrificada enquanto, ainda nu, pescava do chão os cobertores e os jogava sobre a cama com menos desleixo do que planejava.
Quando, já vestido, o homem mais forte de Ikebukuro cruzou com ímpeto a porta de seu quarto, quem quer que fosse que invadira o apartamento nunca conseguiria sequer suspeitar que o dono da tal expressão irada – capaz de baixar ainda mais a temperatura já pequena dos termómetros – dedicara ainda mais alguns instantes a cerrar as cortinas do quarto e a velar o sono do rapaz adormecido apenas para garantir que, aquecido, dormisse o restante da noite. Não que, de alguma forma, o invasor tivesse levado seus olhos até o rosto do dono da pequena sala-de-estar-corredor na qual estava para encontrar nele alguma expressão. Fosse por incapacidade de, naquele momento, encará-lo ou por dedicação à tarefa que, naquele momento, realizava, o não tão silencioso suposto arrombador de apartamentos manteve os olhos bem baixos, fixos na confusão de grãos de arroz, peixe e legumes que espalhava-se pelo chão do pequeno cômodo.
Também não foi de imediato que o dono do apartamento cuja sala recém havia transformado-se em um perfeito caos alimentício encontrou seu invasor. Encontrou, primeiro, em surpresa que quase por completo suprimiu a raiva que até então invadia seu peito, uma série de caixas de leite dispostas em pequena sacola sobre seu sofá. Depois, aquilo que provavelmente era até instantes antes um bentô a espalhar-se por todo o chão. E só então, com os xingamentos e rosnados já enfileirados nos pulmões, reconheceu em meio à confusão de comida, abaixadinho na tentativa de recolher o que provavelmente seria deles o jantar, um rapaz de cabelos castanho-escuros lisos perfeitamente arrumados.
O engasgo em sua garganta fez-se tão audível que arrancou de seu visitante um pequeno pulo surpreso.
— Kasuka? – perguntou, mais confusão do que dúvida a preencher sua voz alta demais.
Os olhos castanho-escuros que se fixaram em seu rosto, abertos aos limites, denunciavam que, assim como ele, o filho mais novo da família Heiwajima também surpreendera-se com o encontro. E isso, ainda que não devesse, acendia em Shizuo uma faísca de desconforto que já crescia a proporções absurdas antes mesmo de notar como o irmão desviou o olhar rapidamente.
— Nii-san. – a voz, baixinha, ainda mais baixinha do que normalmente, não tinha a calma que normalmente carregava.
Calma que, verdadeiramente, também não tinha, naquele momento, o homem mais forte de Ikebukuro. Não quando, progressivamente, bem devagar, percebia a possível relação entre a recente batida em sua porta e a presença do irmão claramente envergonhado no meio de sua pequena sala-de-estar-corredor.
“Ele viu!”, pensou, o pulso em desespero.
— Tudo bem? Não sabia que vinha. – resmungou através da garganta seca.
“A batida foi na porta do meu quarto, não foi?! Ele abriu e viu! Izaya estava em cim- pelad-... Caral-”
O silêncio do irmão, que nunca verdadeiramente o havia incomodado e ao qual já estava para além do hábito habituado, arrepiou cada pelo de seu corpo. E, ainda que normalmente não esperasse respostas do Heiwajima mais novo – em especial a perguntas que quase nunca a exigiam, como um “tudo bem?” claramente retórico –, mal podia conter o impulso de forçá-lo a olhá-lo diretamente. A incapacidade, contudo, de definir se preferia que Kasuka o contasse sobre tê-lo flagrado nu com Izaya ou se preferia continuar sua atual tentativa de convencer-se de que nada daquilo estava acontecendo o mantinha estático, em pé diante do irmão ajoelhado, inapto para mexer-se nem que apenas um dedo.
— Mamãe, – começou o rapaz, surpreendendo-o, os olhos ainda sem fita-lo diretamente, ainda fixos na confusão de comida no chão – fui ver a mamãe hoje e ela comprou muito em uma promoção. Me pediu pra levar e te trazer. Insisti que não, ela insistiu que sim. – os olhos castanho-escuros encontraram a sacola plástica sobre o sofá e as caixas de leite dentro dela enfileiradas. Shizuo quase se permitiu rir, aquilo era tão típico de Mamiko e ao mesmo tempo tão absurdo em relação a sua atual situação que não pode evitar ainda mais desesperar-se. O que pensaria a mãe sobre a possibilidade de sua cria mais nova ter acabado de topar com o primogênito agarrado ao suposto pior inimigo em uma cama, dormindo calmamente, nu? – Trouxe também comida. Pro jantar. Mas derrubei.
O homem mais forte de Ikebukuro tentou fixar-se na felicidade de ter o irmão aberto na lotada agenda uma noite para jantar com ele e esquecer dos prováveis motivos pelos quais tal jantar encontrava-se arruinado sobre seu piso. O efeito, contudo, de fitar tão intensamente a comida no chão foi o exato contrário do que esperava: ao reconhecer na caixa do bentô o logo de um de seus restaurantes favoritos, intensificou-se ainda mais o aperto em sua garganta.
“Ele não viu! O que bateu foi a porta da frente! Ele derrubou a comida porque estava pesada. Tem muito. Muita comida! Somos só em dois, Kasuka, pra que tanta comida?!”
— Tudo bem. Obrigado. – respondeu, tão baixinho que sequer teve certeza se fora ou não ouvido.
“Não viu nada. O Kasuka não abriria assim a porta do meu quarto. Acabou de chegar, com certeza”: ainda que seguidamente repetisse em sua mente as tentativas de se convencer de que não fora flagrado pelo irmão, ajoelhar-se junto a ele para ajudar na limpeza não era que ação que conseguia persuadir-se a fazer. Aproximar-se dele, engolir as possibilidades, ignorar que ainda nu sobre sua cama estava Izaya não era algo concretizável quando, verdadeiramente, mal podia conter o ímpeto de cuspir todas as explicações pelas quais o irmão sequer pedira.
— Você não gosta de campainha. – recomeçou o ator, a voz soando progressivamente mais insegura – Então bati, ninguém atendeu. Mas tinha luz. Daí entrei. – os olhos castanho-escuros permaneciam ainda no chão, mas, desta vez, Shizuo sentiu-se grato por isso – Desculpe.
— Tudo bem. – retrucou de imediato, incapaz de desviar-se das expressões prontas às quais seus lábios já pareciam acostumados e incapaz de pensar no absurdo de sua resposta pronta. Dentre todas os adjetivos que o homem mais forte de Ikebukuro poderia eleger para um “tudo”, “bem” era, em definitivo, dos piores.
Poderia ignorar, de fato, que havia um “tudo”. Kasuka provavelmente não insistiria no assunto, nunca o fazia, afinal. E entregar-se, por fim, ao impulso de pensar ser preferível fingir que o “tudo bem” era a melhor resposta a um “desculpe” que, então, significaria apenas arrependimento pela entrada em seu apartamento sem sua permissão. Nada demais. Kasuka nunca precisava de permissão, então não havia necessidade de pedido de desculpas e então estava tudo bem. Lógica perfeita.
Poderia, perfeitamente, portanto, ignorar o fato de que havia um “tudo”. Perfeitamente.
Poderia.
Poderia.
Se não fosse aquele rapaz abaixadinho, de olhos e voz baixinhos, seu irmão mais novo. Quando do outro lado havia Heiwajima Kasuka, não havia forma de Heiwajima Shizuo ignorar o que quer que fosse. Não poderia aceitar desculpas por algo pelo qual o Heiwajima mais novo não tinha culpa. Não poderia aceitar que incerteza – e, vergonhosamente, também acanhamento – manchasse a relação entre eles. Não quando o irmão tivera tanto trabalho visitando-o e buscando para eles o jantar.
— Oe, Kasuka, – chamou-o, abaixando-se até pousar ambos os joelhos no chão, tentando manter firme a voz mesmo quando os olhos castanho-escuro claramente envergonhados fixaram-se em seu rosto – me diz... voc-
— Booom dia-noite, Shizu-chan. Cheiro de comida. Tô com fom-Ow!
Não virou-se. Não respirou. Não piscou. Heiwajima Shizuo permaneceu ajoelhado, sem mover sequer um músculo, enquanto a voz melodiosa de Izaya espalhava-se por todo seu pequeno apartamento, tão animada que não seria exagero pensar que era ela a responsável por, naquele momento, sugar qualquer animação que ainda restasse no inesperado encontro entre os dois filhos da família Heiwajima.
— Ow caramba! Hanejima Yuuhei em carne e osso!
Não teria virado. Não teria respirado. Não teria feito nada. Heiwajima Shizuo teria permanecido ajoelhado, estático, se soubesse que ao levantar-se junto ao irmão – seguindo impulso dele, não o próprio –, encontraria Orihara Izaya vestindo uma de suas camisas de trabalho. Apenas.
— Wow! Você é ainda mais bonito pessoalmente! E assim de perto é mais fácil perceber como parece com Shizu-chan! As sobrancelhas, o contorno da boca... o nariz de vocês é igualzinho! Wow! Vocês são mesmo irmãos, como ninguém percebe isso?!
Cabelos desgrenhados, pernas desnudas, camisa a mal cobri-lo as coxas, tantas, tantas marcas visíveis no colo que três botões abertos deixavam exposto, sorriso tão largo, voz tão empolgada, olhos tão atentos correndo de um irmão ao outro: Izaya moldava-se tão plenamente em excessos que Shizuo, ainda que entendesse a situação a desenrolar-se diante de seus olhos, não era capaz de reação alguma que não fita-lo intensamente. E, fosse por surpresa, por vergonha, ou por incapacidade de acreditar, permaneceu quieto mesmo quando o suposto mais perigoso informante de Ikebukuro e Shinjuku, a exata pessoa que durante anos esforçou-se para manter afastado de sua família, aproximou-se de seu irmão mais novo e estendeu-lhe a mão com um sorriso. E teria, verdadeiramente teria, assistido, sem mover nenhum músculo, um cumprimento entre os dois rapazes se, segundos antes do aperto, Izaya não recolhesse de súbito a mão, olhando-a com expressão misto de vergonha e diversão.
— Ah! É... espera um pouquinho, Hanejima Yuuhei-san. Eu, na verdade, preci-
— Kasuka.
— Quê?
— Kasuka, pra família.
Os olhos castanho-avermelhados, até então levemente cerrados pelo riso divertido que ocupava os lábios do informante, abriram-se de imediato, inundados em surpresa. Amenizaram-se, contudo, tão rápidos quanto surpreenderam-se.
— Kasuka, então. Já volto. Vou só... lavar e... vestir...
A voz do informante, cada vez mais baixinha quanto mais ele afastava-se, preencheu o silêncio que invadiu a pequena sala-de-estar-corredor. Silêncio tão intenso que Shizuo sequer dispensou esforços na tentativa de convencer-se de que Kasuka não ouvia Izaya resmungar sobre como “primeiros encontros com a família Heiwajima são sempre interessantes” ou como “eu tô quase pelado” ou como “preciso pegar um autógrafo dele para as gêmeas” ou como “ele me chamou de família”. E sequer tentou chamar a atenção do irmão de volta para que os olhos castanho-escuros, assim como seus próprios olhos, não acompanhassem o caminho que Izaya fazia pelo corredor e, consequentemente, não fixassem-se na forma como Izaya apertou a barra da camisa branca nas coxas antes de abaixar-se para pescar do chão o que claramente era uma de suas cuecas. E como sequer procurou desculpas para a diversão que refletia-se em cada gesto de Izaya, a caminhar da sala ao quarto e então ao banheiro, rindo baixinho.
Estático, quieto, desconcertado, a atenção totalmente fixa em Orihara Izaya, o homem mais forte de Ikebukuro só despertou quando a voz baixa de seu irmão mais novo alcançou-o:
— Você parece bem, nii-san.
Leve, despreocupada, vagarosa: Shizuo não precisava de muito esforço para reconhecer na voz do irmão algo de felicidade e alívio. Poderia ter brigado, certamente poderia. Uma afirmação como aquela, feita num momento como aquele, seria mais do que o bastante para metê-lo furioso. Poderia ter negado. E ninguém o condenaria caso o fizesse, ninguém ousaria questionar o absurdo na declaração. Poderia ter ignorado, também. Desviado o olhar para longe do olhar de Kasuka e relevado todas as palavras e as insinuações por trás delas.
— Eu tô. – respondeu, contudo. Porque estava mesmo. Porque não havia razão para mentir para Kasuka. Porque Kasuka também parecia melhor, agora, olhando-o diretamente sem sequer traço do acanhamento que antes manchava sua expressão. Porque se era aquilo o que o irmão tinha a dizer depois de tudo, tudo tornava-se então, dessa vez, realmente bem – Fica pra janta? O pulga fez sopa ou algo assim...
— Não me chame de pulga pro seu irmão. E não chame minha comida de “algo assim” – cabelos molhados e um de seus moletons: parado no limiar entre o corredor e a pequenina sala, Izaya tinha ambos os olhos bem atentos nos dois – Espero que goste de cogumelos, Kasuka. Vou colocar um montão.
O rosnado de insatisfação estava prestes a juntar-se à careta que o homem mais forte de Ikebukuro direcionava ao sorriso cretino de Izaya quando, surpreso, Shizuo ouviu soar outra vez a voz de seu irmão:
— Nii-san não gosta de cogumelos, Orihara-san.
O Heiwajima mais novo não pareceu desconfortável com os dois pares de olhos confusos que fixaram-se em seu rosto, devolvendo o olhar na mesma intensidade.
— Esse maldito sabe disso, Kasuka. Ele tá fazendo de prop-
— Ele é adorável, Shizu-chan! – Shizuo não pode fazer nada além de inspirar surpreso quando, em menos de um instante, o informante correu até eles e tomou ambas as mãos de Kasuka entre as suas – Não vou colocar, então, Kasuka. Por você. E... Izaya. – ditou, soltando uma das mãos e mantendo apenas a direita entre as suas, em um aperto.
— Izaya-san.
— Izaya, só. Ou Izaya-nii-chan. As gêmeas chamam de Iza-nii.
— Izay-
— Kasuka, você não precisa chamar ele de nada. Fala pra mim que daí eu falo pra ele.
— Que rude, Shizu-chan! Duvido que essa tenha sido a educação que seus pais te deram! Isso tudo é ciúmes? Não vou roubar Kasuka de você, me contento em ter ele como cunhadinho. Irmãs já tenho as minhas e já é bastante! Muito! Kasuka, seu irmão é muito ciumento, não acha não? Um carentão que quer toda a atenção!
— Nii-san, não precisa. Você é o único nii-san. – os olhos castanho-escuros fixaram-se tranquilos em seu rosto antes de acenderem levemente em compreensão – E eu tenho a Ruri-chan.
O homem mais forte de Ikebukuro encarou firme o irmão, incapaz de decidir se o que franzia a cada segundo mais profundo seu cenho era vê-lo concordar com Izaya ou ouvi-lo cogitar que sentia ciúmes de Izaya.
Inspirou fundo, levando mecanicamente a mão ao bolso da calça em busca de um cigarro e rosnando baixinho ao perceber que não havia nada dentro dele. Diferente de como antes tinha feito, contudo, não hesitou sequer segundo antes de afastar-se do irmão – ainda que com isso o deixasse à mercê de Orihara Izaya – e meter-se em direção à cozinha, disposto a conseguir sua necessária dose de nicotina.
Primeira gaveta na segunda repartição do lado direito. Primeiro, o plástico. Depois, o papel. Então arrancar de lá um fino cilindro e acendê-lo na chama do fogão em um trago profundo. Tudo feito mecanicamente apesar do quanto que tremiam seus dedos.
— Shizu-chan, aproveita que está aí e que ligou o fogão e coloca de volta a sopa no fogo?
Outro trago. Ainda outro. Mais um, o quarto, antes de levar o olhar até o rapaz que o encarava ansioso no limiar entre a cozinha e a pequena sala-de-estar-corredor ainda a espera de sua resposta. Bufou em direção a ele antes de encaixar sobre a chama ainda acesa uma de suas panelas e espiar de soslaio o conteúdo dela. A pergunta sobre o que deveria fazer com o caldo ali, se devia mexê-lo ou nele acrescentar algo, foi mantida por birra dentro de seus pulmões. E, ao ouvir risinho baixinho na voz melodiosa do rapaz que até poucos minutos dormia nu sobre seus lençóis, teve certeza de que não era o único a saber sobre sua rebeldia infundada.
Estalou a língua sonoramente, marchando, sem segundos olhares na direção dos dois rapazes em sua sala, até uma das pequenas janelas de sua cozinha, fixando então a atenção na noite que já nascera e na progressão da brasa em seu cigarro.
“Leite? Posso guardar isso? Liberar o sofá pra você, Kasuka. Se bem que você provavelmente tem permissão de sentar no trono do rei. Foi presente seu, não foi?”
“Vai jantar com a gente, sim?”
“Quer alguma coisa? Ainda vai demorar uns 15 minutos...”
“Não se preocupa com isso, depois o Shizu-chan limpa. Relaxa.”
“Beber algo? Comprei uma chá novo hoje à tarde, quer experimentar?”
“Tem alguma coisa que você não coma? Come carne?”
Ainda que não ouvisse a voz do irmão responder, tinha certeza de que o fazia. Não era estranho a ele, contudo, que o caçula Heiwajima o fizesse. Diferente dele mesmo, Kasuka era bom com conversas casuais, ou, ao menos, bom para os padrões de Heiwajima Shizuo. E, ainda que não fosse, conhecia – infelizmente – Izaya bem o bastante para entender que monossilábicos não seriam problemas para ele. Convivera o bastante com o provável mais perigoso informante de Ikebukuro para saber que o silêncio não seria um empecilho, se Izaya era, afinal, capaz de manter um diálogo até mesmo consigo e seus rosnados, não teria problemas algum caso Kasuka reagisse o mínimo necessário. Havia, claro, um lado seu que via nisso um problema, uma culpa que amargava ainda mais a nicotina em sua língua por deixar o irmão à mercê das incontroláveis e infinitas palavras de Izaya. Havia, contudo, outro lado que preenchia-se com um pouco de alívio ao ver Kasuka acenar simpático para Izaya enquanto recebia dele um copo com o tal chá de aspecto nojento. Um lado dele que poderia perfeitamente assisti-los a noite toda, sem participar, apenas mantendo-se ao lado de ambos. Lado que, ele admitia, entrava em contradição com tudo o que até poucos meses pensava. Lado que o fez acender mais um cigarro enquanto assistia relaxado Izaya remexer o conteúdo da panela no fogo e Kasuka acomodar-se em sua poltrona. Lado que devolveu o olhar atento do irmão com uma leve piscadela e um acenar de sobrancelhas. Lado que o fez apenas revirar os olhos e lançar a Izaya uma careta quando perguntado sobre o segundo cigarro em seus lábios. E, por fim, lado que o fez apagar tal cigarro e se aproximar do fogão com falsa curiosidade apenas para enlaçar firme a cintura de Izaya logo Kasuka levantou-se para atender uma ligação.
— Ele é um doce. Sem querer ofender minha sogra enviadora de caixas de leite, mas... tem certeza que ele é seu irmão?
— Cala a boca, pulga, as gêmeas também não parecem suas irmãs. Não são tão insuportáveis.
— Falando nelas... Elas vão pirar quando souberem que jantei com ele. Vão me obrigar a preparar esta mesma sopa até o fim de nossas vidas, que, provavelmente, será curta e terminará por intoxicação por caldo de legumes. E então se espalhará por Ikebukuro a trágica história do dedicado irmão mais velho que matou as adoráveis irmãs mais novas com comida. Os jornais vão amar. Todos falarão por décadas do ocorrido. A fama me espera. – estalou a língua, resmungando sobre o quão demais falava o rapaz em seus braços antes de soltá-lo e recostar-se à pia, arrancando dele um riso baixo – E você não negou.
— Neguei o quê?
— O ‘minha sogra’. – explicou, o riso baixo transformando-se em sorriso malicioso tão diferentes dos sorrisinhos solícitos que até instantes antes entregava a seu irmão mais novo – Nem o ‘meu cunhadinho’ de antes.
Sorriso que, ainda que lutasse contra e apesar de toda sua luta, não pode evitar espelhar. Ainda não entendia o que era aquilo que o impulsionava ao rapaz no fogão, aquilo que o fazia desejar mais uma vez aproximar-se, que o fazia não apenas desejar relevar as besteiras que ouvia, mas também somar suas próximas a elas. Não saber, contudo, não o impediu de deixar-se levar por o que quer que fosse aquele sentimento e ceder ao impulso de provocar o rapaz que ainda segurava entre as mãos a longa concha de metal.
— Só porque você diz, não significa que seja verdade, Izaya-kun. – ditou lento, satisfação que reconhecia como suja correndo sua espinha ao ver arrefecer por um instante o sorriso que abria-se cada vez mais largo no rosto de Izaya.
Apenas um instante, contudo, apenas um breve instante, permaneceu a malícia do suposto mais perigoso informante de Tóquio apagada. Com rapidez cortante dele, o sorriso retornou, ainda mais largo.
— Outch, que afiado esse tal filho da minha sogra. Mas... ainda assim... veja só, ele ainda não disse nada sobre ser mentira.
— Não disse. – confirmou, umedecendo devagar os lábios curvados no sorriso que já tornara-se tão ferino quanto o do rapaz que agora aproximava-se, os olhos fixos nos seus e a concha de metal já esquecida sobre a chapa livre do fogão.
— Hm... não disse. E eu acho que é uma boa ideia não dar a chance para ele dizer, não acha, Shizu-chan? – Izaya não esperou por uma resposta sua, de fato, mas, se esperasse, se só um segundo a mais tivesse esperado, teria ouvido Heiwajima Shizuo concordar sem hesitação. Não esperou, contudo, e, provavelmente não teria esperado nem se soubesse o que viria. Ou, ao menos, foi tudo o que conseguiu pensar ao sentir o sorriso malicioso pousar sobre seus lábios: que Izaya já não mais por nada esperaria. Que Izaya, sem dúvidas, já esperara demais.
Por isso o beijo com tanta pressa.
Por isso a respiração tão acelerada e por isso as mãos tão urgentes em seus cabelos.
E, ainda que bobo, gostou de pensar que o rapaz agora em seus braços estivera durante todo aquele tempo esperando, ansioso, para beijá-lo. E este pensamento poderia – certamente poderia – tê-lo levado à conclusão de que tão tardio fizera-se o beijo porque não estavam sozinhos. O que levaria em consequência à conclusão de que tal contato não poderia aprofundar-se ou estender-se porque a qualquer momento Heiwajima Kasuka cessaria a ligação que o prendia ao pequeno corredor ao lado. E, por fim, à conclusão de que a ausência de sons no restante do apartamento significava que tal ligação já encerrara-se. Ou talvez até mesmo à conclusão de que perfeitamente encaixaria-se à personalidade perturbada de seu declarado pior inimigo – ou, ao menos, à versão memoriada dele – intensificar ainda mais o beijo, intensificar ainda mais o contato entre seus corpos, intensificar ainda mais o aperto em seus cabelos, apenas para que Kasuka os visse daquela forma.
Heiwajima Shizuo, contudo, não chegou à conclusão alguma.
Não chegou à conclusão alguma porque, sem dúvidas, também tinha pressa por aquele beijo.
E, exatamente por à conclusão nenhuma chegar, não pode prever que estaria certo ao considerar que Kasuka terminara a ligação. Que estaria certo ao desconfiar que o irmão já retornara à sala. E que, independentemente de quais os motivos que o levassem a isso – fosse a personalidade distorcida ou incapacidade de, naquele momento, afastar-se –, estaria certo ao acusar de Izaya de já saber que tinham naquele momento um par de olhos castanho-escuros arregalados fixo neles.
E, sem conclusão alguma na mente totalmente submersa no beijo sabor sopa de legumes, não pode evitar se surpreender, em susto que por pouco não o levou a cravar os dentes na própria língua, ao escutar um sonoro limpar de garganta.
Os olhos castanhos-mel correram, então, surpresos até a origem do som e, se até o momento, apesar das sequência de tantas acontecimentos constrangedores, não havia corado, o homem mais forte de Ikebukuro não conseguiu evitar que ambas as bochechas queimassem como se fosse seu rosto, e não sua panela, a aquecer-se na chama suave do fogão.
— Sinto atrapalhar, nii-san, mas acho que está queimando.
Era um exagero, de fato, descrever o atual estado da sopa como “queimando”, seria, contudo, o que aconteceria se por mais alguns minutos ela não recebesse a devida atenção, o que, inquestionavelmente, era algo consideravelmente bizarro quando o prato em questão compunha-se por, em sua maior parte, água. Não era como se, entretanto, Shizuo pudesse de alguma forma reverter a situação da panela, não naquele momento, não quando as bochechas de Kasuka coravam-se quase tanto quanto as suas. Sendo assim, foi com quase alívio que sentiu Izaya virar-se em direção ao fogão e ditar com voz limpa ordens para que separassem as cumbucas e colheres.
A obediência sem questionamentos de Kasuka foi o bastante para fazê-lo seguir também em silêncio em direção ao armário. Não havia, afinal, nada que pudesse ser dito. Se Kasuka até então só desconfiasse de sua relação com Izaya – coisa na qual ainda tinha esperanças, ainda repetindo a si mesmo que o irmão não abrira a porta de seu quarto –, com aquele beijo o ator teria, sem dúvidas, sua confirmação. E, exatamente por saber que já não havia nada a ser negado ou confirmado, dedicou ao irmão mais atenção.
Mãos habilmente equilibrando três tigelas medianas azuis enquanto com cuidado empurrava a porta ainda aberta do armário, olhos baixos a escolher três colheres de formatos e tamanhos iguais, dedos finos com unhas bem cuidadas a alisarem com cuidado a pequena toalha colorida sobre a mesa, três pequenos copos e três pequenos guardanapos de papel distribuídos por em três espaços diferentes, garrafa de chá pousada no centro da pequena mesa: o filho mais novo da família Heiwajima executava suas funções com a calma e delicadeza de sempre. Sem mãos trêmulas, sem bochechas coradas, sem olhos furtivos: passado o choque inicial, nada havia em Kasuka que denunciasse incômodo.
— Nii-san, falta uma cadeira.
— Tem um banquinho no canto, Kasuka. Bem ali perto da geladeira, vê? Você pode pegar enquanto sirvo? Aparentemente, o Shizu-chan sofreu um curto por excesso de pensamentos ou descarregou por falta de alimentação.
— Oe, Kasuka, escuta... – chamou, engolindo em seco, hesitando ao voltarem-se em sua direção dois pares de olhos castanhos, um bem escuro, outro avermelhado, e calando-se, sem mais nada acrescentar, ao notar como ambos os rostos abriram-se em sorrisos discretos.
— Tudo bem, nii-san. – voz melodiosa, tom baixo, sorriso ameno nos lábios: Shizuo não pode fazer nada ao ver tal expressão no irmão que não expirar aliviado.
— Não foi a primeira vez, Kasuka. E isso torna tudo ainda mais engraçado... ao menos pra mim. Teve um dia que seu irmão me fez queimar um monte de filés de peixe. Foi uma vez que o Dota-ch-Kadota estava aqui, nem me lembro o que ele estava fazendo aqui.... você se lembra, Shizu-chan? Enfim, ele estava aqui e eu estava grelhando alguns peixes e, por algum motivo desconhecido, seu irmão achou que era um bom momento para flertar comigo. Quer dizer, talvez seu irmão tenha um pouco de ciúmes do Dota-chin, o que é bobagem... O Dota-chin também já tem alguém, ou, ao menos, está em processo de ter, pelo que me contou... enfim... foi tipo um animal marcando território, sabe? Ele chegou perto e começou a se esfreg-
— Cala a boca, pulga.
— Tudo bem, Izaya-nii-san. Informação demais.
Os olhos fixos no rosto do irmão impediram o homem mais forte de Ikebukuro de perceber o olhar nada satisfeito que Izaya lançou em sua direção ao ter os lábios tapados rudemente por sua mão. A surpresa mista com diversão no olhar que o Kasuka o devolveu foi o bastante para que também seu olhar preenchesse-se com diversão e acabasse, por fim, rindo sonoramente enquanto soltava o rosto do rapaz a se remexer duramente na tentativa de se soltar.
— Você fala demais! – acusou, apontando para ele o indicador ao ter em seu rosto o indignado e ofendido olhar castanho-avermelhado.
— Vocês falam de menos! A família Heiwajima tinha um gatinho que comeu a linguinha dos filhinhos?
— Não. Pai era alérgico. – o ator declarou, visivelmente desanimado.
— Kasuka, ele só está provoca-
— Eu sei. Mas não tivemos mesmo. Uma pena.
O riso alto, divertido, de Izaya invadiu o pequeno cômodo. Inicialmente pensou em xingá-lo por rir da seriedade sempre tão reta de seu irmão mais novo, estancou, contudo, ao encontrar nos olhos castanho-avermelhados que fitavam a eles algo bastante diferente de deboche.
— Fome, vocês dois? Vamos comer?
Se ao invés da sopa comessem o bentô trazido pelo irmão. Se ao invés das pequenas cumbucas azuis comessem diretamente nas caixinhas do restaurante. Se ao invés de sentarem-se à mesa sentassem-se no sofá. Se ao invés da voz melodiosa de Izaya preenchesse o cômodo os sons da TV. Se ao invés da invés da ritmada conversa sobre Yuigadokusonmaru marcasse a refeição o silêncio de sempre. Se ao invés da perna de Izaya esbarrando quando em quando na sua a cada vez que ele animado se mexia tivesse a frieza de sua poltrona. Se. Se. Se. Se não ciente de todos os ‘ses’, talvez Shizuo agora pudesse realmente aproveitar a refeição e não tanto se apegar à inquestionável pequena chama daquilo que agora já não podia evitar chamar felicidade a queimar em algum lugar em seu peito por estar naquela noite acompanhado daquelas duas exatas pessoas.
Era ridículo sentir aquilo. Principalmente por ser ele quem era e ser Izaya quem era. Era também, contudo, aparentemente tarde demais para tentativas de evitar.
— Você devia vir mais vezes, Kasuka, acho que nunca vi a carranca do Shizu-chan parecer tão feliz.
— Não é por minha causa só, Izaya-nii-san.
— Tá feliz porque não coloquei cogumelos na sopa, Shizu-chan? É isso? Se soubesse que era tão importante para você não teria insistido tanto. – a clara falsa solicitude na voz de Izaya: Shizuo tentou nela fixar-se para eficientemente ignorar a declaração anterior do irmão. O entendera plenamente, afinal, mesmo antes de encontrar seus olhos com os dele. Lembrava-se com perfeição como estivera nas duas semanas anteriores ao reencontro com Izaya e como o irmão questionara seu mau-humor não apenas uma vez – Oh! Na verdade, mais importante que isso, Kasuka. Estou para te perguntar isso desde o começo: estou errado em supor que você já me conhecia? Você disse meu nome antes de eu me apresentar.
Um arrepio frio correu a espinha do homem mais forte de Ikebukuro. Não esperava por aquela pergunta, de fato. E nada podia fazer para impedir que, diferente do que supostamente acontecia com Izaya, suas próprias memórias remexessem-se com a resposta àquela pergunta.
Kasuka assistindo-o correr, enquanto jovem, por Ikebukuro atrás de Izaya.
Kasuka ajudando-o com os ferimentos causadas pelas lâminas de Izaya.
Kasuka pagando a fiança de sua soltura da prisão quando fora preso por causa de Izaya.
Kasuka comprando uniformes para incentivá-lo a permanecer no emprego que perdera por causa de Izaya.
Kasuka assistindo, há poucos meses, mais uma perseguição entre eles.
Pela primeira vez desde o encontro entre eles, fitou o irmão com surpresa e curiosidade. O curso conturbado e inesperado dos acontecimentos não o deixou antes pensar sobre, mas, agora, com a questão de Izaya tão fresca, era impossível que não lembrasse-se de como, mais de uma vez, o irmão mais novo declarara desgosto pelo rapaz que, sorridente, olhos castanho-avermelhados ansiosos, ainda esperava por resposta.
Involuntariamente, toda a interação entre Kasuka e Izaya correu sua mente, desde o momento no qual os dois apertaram as mãos até o olhar intenso que agora Kasuka devolvia a Izaya. Não havia, por mais que procurasse, algo que denunciasse que o irmão mais novo estava incomodado com a presença de seu suposto pior inimigo e isso, ainda que reconhecesse as habilidades do ator em demonstrar apenas o que quisesse, o chocava o bastante para esquecer-se totalmente da sopa já quase fria em sua tigela.
— Conhecia. – confirmou, por fim, a voz dura denunciando que a inexpressividade de seu rosto bonito não era tão verdadeira quanto supunha o guarda-costas – Há um bom tempo que conheço.
Assim como a ele, a dureza na voz de Kasuka não pareceu passar despercebida a Izaya e, de um instante para o outro, os olhos castanho-avermelhados ansiosos transmutaram-se em firmes.
— Oh! Entendo. – não hesitaram, não recuaram, não negaram, não baixaram: os olhos de tons rubros não tentaram de forma alguma disfarçar que Izaya compreendia o que havia por trás das palavras de Kasuka e isso, ainda que não devesse, meteu outra vez Shizuo surpreso. Por um instante, afinal, o guarda-costas teve certeza de que Izaya mostraria confusão enquanto a língua sempre tão afiada despejava centenas de perguntas sobre a seriedade e a extensão da afirmação feita pelo Heiwajima mais novo. Perguntas sobre o que dele sabia, o quanto sabia, o que dele pensava.
Nada, contudo, além da sustentação do olhar de Kasuka e das palavras que tanta compreensão denunciavam, vieram do rapaz sentando a seu lado esquerdo.
— Mas não importa. O médico me disse que você não se lembra. Não há motivos para falar disso, então. – o rapaz a seu lado direito deu de ombros e, por um instante, um breve instante, Shizuo pode jurar ouvir nele um tom ao qual não estava acostumado, não inexpressivo, não calmo, não sério, mas gélido, gélido ao ponto de incomodar até mesmo o fortíssimo de Ikebukuro – Falamos disso quando se lembrar, Orihara-san.
Uma ameaça.
Aquela era, claramente, uma ameaça. A reconhecia ainda que nunca houvesse ouvido do irmão uma. Nunca de Kasuka, nunca de seu Kasuka, seu precioso irmãozinho, sempre tão controlado e calmo.
Fitou-o surpreso, assistindo-o sustentar ainda por alguns segundos o olhar de Izaya antes de arrastar os olhos devagar até seu rosto, entregando-o um piscar longo e lento.
Kasuka havia ameaçado Izaya por sua causa.
Kasuka havia ameaçado alguém para defendê-lo.
Seu Kasuka. Seu irmãozinho.
O peito do guarda-costas batia tão rápido que ele mal podia manter-se quieto.
— Mas eu estou bem se o nii-san está bem. – declarou, por fim, metendo entre os lábios mais uma colherada de sopa e calando-se.
Shizuo assistiu, ainda, Izaya abrir os lábios mais uma única vez, mas manter-se em silêncio e baixar os olhos, mesmo que ainda tão intensos, até sua própria tigela.
Esperou. Esperou, mais por saber que Izaya não seria capaz de manter-se por muito tempo em silêncio do que por realmente desejar que algo fosse dito. Nada, contudo, veio novamente, de nenhum dos dois rapazes, a não ser os tilintares das colheres contra as tigelas e pequenos estalos nos lábios.
E, pela primeira vez na vida, Heiwajima Shizuo desejou que dali viesse mais. Que Kasuka voltasse a sua postura suave, que Izaya sorrisse outra vez e que ambos voltassem ao clima que tinham antes que a fatídica pergunta deixasse os lábios do informante, voltassem à conversa relaxada que o homem mais forte de Ikebukuro poderia assistir durante a noite toda e durante a noite toda expirar felicidade que nunca assumiria. Desejou, verdadeiramente, ainda que o desejo tenha feito apenas esfriar sua sopa esquecida na tigela e arrepio desconfortável correr sua espinha a cada vez que desviava os olhos de seu irmão a seu suposto amante. Desejou, desejou tanto que nem mesmo se surpreendeu quando ouviu sua própria voz quebrar o silêncio:
— Você falou com Shinra, Kasuka?
Os olhos castanho-avermelhados até então baixos fixaram-se em seu rosto e teve certeza, certeza que não deixava espaço algum a contestações, de que Izaya percebera o que pretendia. Que os olhos arregalados em surpresa haviam notado sua tentativa desesperada de fazer com que a única coisa gelada na pequena cozinha fosse sua sopa.
— Ruri-chan é amiga da esposa do médico. Elas sempre conversam. E o médico me ligou um dia.
— Quem é Ruri-chan? – não mais surpresos, não mais tensos: os olhos castanhos com tons rubros correram suaves na direção de Kasuka e Shizuo, ainda que nunca pudesse se imaginar agradecendo a Izaya por ajuda-lo em sua vergonhosa tentativa de mudar o clima na mesa, pegou-se suspirando silenciosamente em alívio...
— Minha noiva.
... alívio que remexeu-se, contudo, em desconforto no instante seguinte, quando, com ambos os olhos ainda no rosto de Izaya, assistiu-o pintar-se em latente curiosidade.
— Sua...?
— Noiva.
— Sua noiva?
— É.
— Sério? – olhos arregalados, voz dois tons acima do esperado à mesa, colher a pender desleixada de uma das mãos: ninguém que fitasse naquele instante a expressão no rosto de Orihara Izaya diria que há poucos instantes recebera uma ameaça – E como eu não sabia disso? A imprensa não sabe? Como não ouvi sobre isso em lugar algum? Ah! É... As gêmeas vão ficar arrasadas!
— Só família sabe.
— Ah! As gêmeas definitivamente ficarão mal. Não vou contar, Kasuka! Prometo que não. Até porque não quero que elas contratem alguém suspeito para te sequestrar e te manter em um galpão nos limites da cidade até que o Shizu-chan corra para te salvar. Shizu-chan ficaria arrasado!
— Tá falando demais de novo, pulga. – rosnou, incapaz de acompanhar a linha de pensamento de Izaya, incapaz de lidar com a súbita empolgação dele e incapaz de entender se aquilo era uma ameaça a Kasuka ou não – E não fale nada. Principalmente praquelas duas.
— Não conte, Izaya-nii-san. – pediu Kasuka, o rosto inexpressivo contorcido em uma careta – Você vai conhecê-la logo, no natal. – declarou, por fim, a última colherada da sopa deixando os lábios e pousando com cuidado sobre a tigela agora vazia – Nii-san, por isso vim, também. Mamãe disse que não aceita não.
Shizuo torceu o cenho, confuso com o rumo que a conversa estava tomando.
— Pra quê?
— Natal.
— Você não vai trabalhar?
— Não. Troquei. Esse ano meu especial é no ano-novo. Mamãe quer cozinhar e disse que não vai aceitar desculpas. Você sabe como ela é. Comprou uma árvore, ajudei a enfeitar ontem. Ela está empolgada.
Estalou a língua. Conhecia Mamiko bem demais para saber o que “ela está empolgada” significava. Não a culpava, entretanto. Ainda que seus planos de Natal nunca incluíssem ficar longe dos pais, não era sempre que conseguiam estar todos juntos, Kasuka incluso. Entendia, portanto, a proporção que um “ela que cozinhar” e um “comprou uma árvore” adquiriam nessas circunstâncias. Sua mãe devia estar realmente feliz com a presença do filho mais novo. E, verdadeiramente, não conseguia evitar também sentir-se um pouco mais animado com isso. Há anos não passavam os Natais juntos, todos. E, exatamente por entender a importância do evento, não compreendia o porquê de ouvir de Kasuka o recado de que ela não aceitaria um não como resposta. Não quando, de fato, não tinha motivo algum para declinar do convite.
A dúvida, contudo, foi sanada no instante no qual Kasuka mais uma vez pronunciou-se:
— Ela disse que percebeu que você está com alguém, mas disse que não vai te liberar e que você devia apresentar a pessoa que está com você. Papai está curioso, ficou me olhando ‘quero fazer perguntas’ ontem o dia todo. E mamãe, brava por não ter dito nada.
Piscou, confuso, incapaz de assimilar o que ouvira, sentindo a perna de Izaya esbarrar na sua e chacoalhar-se ritmicamente.
— Quê?
— Ela disse que faz muito tempo que você não aparece. Que uma vez ouviu alguém te chamar com carinho enquanto falava com você pelo telefone. Não confirmei nada, não precisava. – a voz do irmão mais novo, ainda que despida de emoções, invadia seus ouvidos como sentença inexorável – Você devia levar Izaya-nii-san para o Natal.
Silêncio, intenso como durante aquele dia em nenhum outro momento havia soado, nem mesmo durante a ameaça de Kasuka, preencheu o pequeno cômodo. Tão intenso que sonoro. Ensurdecedor, vibrante, sufocante.
Cerrou rápido os olhos, mais para fugir dos olhos castanho-escuros casuais e dos castanho-avermelhados ansiosos do que por realmente querer cerrá-los. Arrependeu-se no instante seguinte, contudo. Por trás de suas pálpebras pareciam estar estampadas todas as coisas que não queria, naquele exato momento, ver. E, ali dentro preso, nada podia impedi-lo de vê-las.
Viu o pavor da mãe por causa de seus ferimentos. Viu a indignação com as queixas a espalharem-se pelo distrito. Viu as gazes cobertas de sangue. Viu a tristeza. Viu a incredulidade. Viu a frustração. Viu tudo enquanto, tragado, ouviu o choro baixinho durante a madrugada, os apelos para que não mais brigasse, as acusações de descontrole, os soluços doloridos reprimidos na garganta. Ouviu como se sussurrados baixinhos ao pé de seus ouvidos. Trilha sonora perfeita para a escuridão colorida em suas pálpebras.
— Ela vai entender, nii-san. – ouviu para além dos sussurros a voz do irmão, invadindo seus tímpanos dolorosamente.
“Ela não vai”, “Ela não precisa”, “Não vou fazer isso com ela” – os pensamentos sobrepunham-se em sua cabeça, comprimindo-a, tornando-a pequena demais para suportá-los, para suportar o peso de todos eles, tão pequena que extravasaram-na. E, devagarzinho, a negação que começara apenas dentro de si ganhou espaço em seu corpo, primeiro acenos intensos, depois voz:
— Não. Não vou fazer isso. – rosnou alto, assustando, ainda que sem notar, os dois rapazes sentados a seu lado – Não ele! – sentenciou, os olhos fixos em Kasuka, o peito inflando visivelmente, a respiração audível, o nojo tão profundo na voz que até ele mesmo foi capaz de senti-lo – Não com ela... Não ele!
— Nii-san! – os olhos castanho-escuros arregalaram-se enormes e correram tão rápidos na direção de Izaya que o homem mais forte de Ikebukuro teve vontade de rir do irmão.
Sabia o que ele pensava, sabia mesmo que os olhos antes tão abertos tivessem mais uma vez se amenizado, calmos. Recriminava-o, certamente, o quão direto, o quão impulsivo, o quão descontrolado era. E, impulsionado pela frustração que percorria fria cada centímetro de seu corpo quanto mais especulava os pensamentos de Kasuka, tremia de vontade de confrontá-lo.
“Que hipócrita, Kasuka, estava ameaçando ele cinco minutos atrás, não finja que não sabe quem ele é. Não finja que não sabe o que a mãe pensa dele. Não finja que você mesmo não pensa um monte de merda dele.”
“É o Izaya, não finja que esqueceu disso.”
“Pode continuar brincando disso se quiser, mas, não fode, não vou fazer parte disso. Não vou ver a cara de decepção dela. Não de novo.”
“Não vou ouvir as merdas que ela fazer dizer dele.”
Nada disse, contudo. E, acima de sua respiração descompassada, de seu pulso disparado, a voz de Izaya, tão limpa, tão calma, tão diferente de como soaria a sua se pronunciasse-se, fez-se ouvir:
— Agradeço o convite, Kasuka, mas já tenho planos pro Natal.
Respiração descompassada, pulso disparado, pelos arrepiados em fúria, músculos contraídos em frustração: todos cederam de uma só vez. Sentado desconfortável na ponta da mesa pequena restou apenas um Heiwajima Shizuo com olhos abertos em excesso fixos no sorriso que progressivamente pintava-se nos lábios de Orihara Izaya.
Primeiro brando, apenas lábios. Depois malícia, tantas, tantos dentes. Depois diversão, a ponta da língua presa entre eles.
— Vê isso, Kasuka?! – a voz soou ferina – É até mesmo cômico, não é?! Num minuto rugindo, no outro me encarando com esses olhos enormes. Contradição demais, mesmo para um homem como ele. Vê isso, não vê?! Shizu-chan enlouquecendo para me perguntar quais são meus planos. Lutando pra conciliar o quão exaltado disse que não me queria no natal de vocês com a vontade que tem de saber o que farei. Lutando para encaixar o fato de que acabou de dizer que não quer ficar comigo com a vontade que tem de saber o que é que faço quando não estou com ele. É adorável, não é?! E é sempre assim. Me encara quando quer saber de algo, sem nunca, nunquinha, perguntar. E espera, provavelmente espera de verdade, que alguma solução seja entregue. Que eu diga tudo como se bastasse me olhar dessa forma para que eu ceda. Como se uma pequena pergunta, só uma perguntinha, exigisse dele todo o orgulho. E eu poderia, de verdade, poderia simplesmente aliviar pra ele e dizer, mas não farei isso. – os olhos fixos nos seus, tão afiados, o sorriso cortante destilando as palavras tão baixas, tão lentas, Shizuo não tinha escolha que não abrir ainda mais os olhos enquanto outra vez o peito descompassava-se – Não vou dizer nada que não me pergunte, Shizu-chan. Pergunta, vai, deixa de bobagem, somos dois adultos, não somos?! Pergunta quais são meus planos pro Natal. Me pergunta com quem são meus planos pro Natal. Pergunta, vai, Shizu-chan. Vai ser divertido. Me pergunta.
Um riso baixo, divertido, ecoou pela pequena cozinha e Shizuo, ainda que não tivesse sequer cogitado desviar a atenção que mantinha nos lábios envenenados do rapaz a sua frente, agradeceu silenciosamente quando Izaya o fez, direcionando os olhos castanho-avermelhados para Kasuka, a fonte do inesperado riso. Longe da intensidade daqueles olhos tão carregados de malícia e que, naquele momento, tanto pareciam-se com os que durante toda sua vida o provocaram, pode finalmente voltar a respirar normalmente.
Inspirou fundo, portanto. Sem preocupar-se em disfarçar a quantidade de ar enviada para seus pulmões ou o quanto dela precisava.
Sem hesitação, sem olhos ternos, sem piadas bobas, sem sorrisos suaves, sem carinhos afetuosos: aquele Izaya lembrava tão pouco o rapaz que na já longínqua ter-feira chuvosa bateu à sua porta pedindo por sua ajuda que não conseguiu evitar que seu peito disparasse como se louco. Não que não o conhecesse, aquele Izaya. O conhecia, e esse era o problema. Aquele era o Izaya dos mais de dez anos de perseguição por Ikebukuro. Aquela era a voz que o provocava até o caos. Aquele era o sorriso que recebeu durante a injusta prisão. Aquela era a postura que encarava-o com lâminas.
E tudo isso, a voz o sorriso a postura os olhos, ainda que não devessem, disparavam ainda mais seu coração e arregalavam ainda mais seus olhos, fazendo tão suadas e trêmulas suas mãos, tão seca sua boca, tão coradas suas bochechas, tão arrepiados seus pelos e tão gelado seu estômago.
Precisava de ar. De muito. De todo o ar do mundo, se possível. Todo o fôlego, contudo, que intensamente roubava para dentro de ambos de seus pulmões enquanto tentava normalizar sua respiração foi dele novamente roubado por lábios afoitos e apressados.
— Ops, achei que a regra era que a gente se beijasse quando Kasuka saía da cozinha, me enganei? – um novo beijo foi plantado em seus lábios ainda inertes e ele nada pode fazer que não manter os olhos bem abertos e os pulmões trancados – Dessa vez foi uma ligação da nossa cunhadinha, mas ainda tenho minhas dúvidas se não foi só um pretexto para sair antes que você me agarrasse na frente dele. Você estava me encarando de um jeito bastante intenso, Shizu-chan. Não culpo o Kasuka, até mesmo eu fiquei envergonhado. – o sussurro, bem baixo, tão próximo seus lábios abertos em choque, soprava o ar roubado de volta a seu peito.
Inspirou fundo, cada centímetro de seu corpo gritando de forma ensurdecedora para que beijasse outra vez Izaya, cada centímetro de seu corpo gritando de forma ensurdecedora para que se afastasse de Izaya. Para que o tocasse. Para que o repelisse. A língua coçando em desejo na mesma proporção com a qual seus punhos formigavam em ira.
Cedeu, por fim, ainda que, verdadeiramente, só ao sentir o hálito de Izaya mesclar-se ao seu tenha percebido qual lado decidira seguir.
Um beijo. Outro. Ainda outro. E ele certamente, certamente, riria diante da ironia de que fossem aqueles, inegavelmente, beijos, se não estivessem seus lábios tão ocupados. Duros, doloridos, impacientes, mas, ainda assim, apesar de tudo, beijos. Beijos, não socos. Muitos deles. Seguidos. Úmidos. Estalados. Trêmulos. Beijos que significavam que escolhera, no fim, o exato caminho contrário do que escolhera há mais de dez anos e ao que desde então praticamente todos os dias escolhia. Beijos recheados da raiva que o impulsionou a perseguir Izaya durante anos, mas, ainda assim, ironicamente, beijos. Beijos, beijos de mãos bem relaxadas a encaixarem-se nos cabelos lisos e nos dedos longos cobertos de cicatrizes.
Beijos, não socos.
Beijos. Nenhum soco. Beijos com sabor da nostalgia de como teria sido se, desde o começo, beijos tivessem sido o caminho escolhido.
— Nii-san, tenho que ir pra casa. – a voz do irmão não o assustou como deveria ter feito e, diferente de como fizera quando da outra vez quando flagrado, não afastou-se de súbito nem corou. Afastou-se devagar, permitindo até mesmo que um último beijo, leve e casto, fosse depositado em seus lábios antes de impulsionar-se para longe e fitar no rosto o irmão – Tarde, já.
Os olhos castanhos-mel correram com preguiça na direção da janela enquanto desenlaçava os dedos dos de Izaya, ainda que não precisasse confirmar a afirmação do irmão e ainda que não fosse questioná-lo caso nem tão tarde assim fosse. Kasuka tinha, contudo, toda razão. A noite do lado de fora de sua janela era escura, sem lua sem estrelas.
Acenou de leve na direção dos olhos castanho-escuros fixos em seu rosto e pescou do bolso outro cigarro, levantando-se sob a vigilância constante dos olhos castanho-avermelhados e aproximando-se outra vez da janela, hesitando alguns instantes antes de abri-la e para além dela baforar a fumaça presa em seus pulmões. E foi ali, com o rosto voltado na direção da janela e a ponta do nariz a progressivamente avermelhar-se de frio que ouviu Izaya anunciar que iria também e que, inerte, assistiu-o, de canto de olho, combinar com seu irmão mais novo uma carona até a estação de Metrô...
“Não precisa, Kasuka”, “Está tarde, Izaya-nii-san”, “Tudo bem, mas só até a estação”, “Mas e em Shinjuku?”, “É bem perto da estação, não levo quase nada de tempo”, “Tem certeza?”, “Tenho sim”, “Tem guarda-chuva?”, “Tenho também”.
...sem tentativa alguma de impedir que os dois mais tempo juntos passassem, sem tentativa alguma de fazer com que passassem mais tempo consigo, a mente forçosamente vagando entre a vontade de fumar um novo cigarro após aquele e a comparação de altura entre Kasuka e Izaya.
E foi com o nariz vermelho e com um novo cigarro nos lábios que acenou uma despedida discreta na direção dos dois rapazes a atravessarem sua pequena cozinha em direção à porta de entrada de seu também pequeno apartamento. E com um trago profundo que espiou através da pequena janela o suposto pior inimigo entrar no carro de seu irmão mais novo. E com as sobrancelhas franzidas que assistiu estático o carro desaparecer pela rua escura demais.
Porque, verdadeiramente, sabia, sabia com cada centímetro de seu corpo que, se tivesse mexido nem que um dedo, se tivesse aberto a porta, se tivesse sorrido, se tivesse acenado, se tivesse apropriadamente se despedido teria, inexoravelmente, impedido que Izaya fosse embora.
Porque naquele exato momento, apesar da visita do irmão, tudo o que conseguia pensar era no sorriso malicioso de Izaya. Porque apesar dos cigarros seguidamente fumados, tudo o que conseguia sentir era o gosto de Izaya. Porque apesar de tudo o que dissera e tudo o que ouvira, todo seu corpo parecia ainda queimar com a contradição entre a vontade de expulsar Izaya para sempre e manter Izaya para sempre ao alcance de seus dedos. E porque apesar do tanto que devesse saber que o melhor era que Izaya fosse embora, não era capaz de convencer-se de que tinha um bom motivo para deixa-lo ir.
E foi exatamente por isso que, ao ouvir duas batidinhas sonoras em sua porta de entrada, não hesitou sequer segundo antes de correr para abri-la, deixando o sétimo cigarro – ainda quase intacto – cair ao chão. Porque sabia quem era, porque sabia o que ele queria. Porque queria o mesmo, porque não via motivo algum para não querer e porque sabia que não mais poderia segurar-se.
E por isso, exatamente por isso, sequer tentou.
Os lábios que encaixaram-se aos seus sorriam da exata maneira como sorriram em sua mente nos quarenta minutos que passara olhando para a noite escura demais e as mãos a deslizarem para dentro de seu moletom estavam exatamente tão geladas quanto o fundo de seu estômago.
— Voltou. – não era uma pergunta não era uma afirmação não era nada, mas, ainda que nada fosse, recebeu resposta mesmo assim. Um dar de ombros sutil, um sorriso cretino, uma piscadela lenta, um sussurro baixinho:
— Não vi motivos pra não ficar com você.
E, pela enésima vez, o coração do homem mais forte de Ikebukuro disparou tão louco quanto ele mesmo se sentia.
Aquela era a exata resposta que queria ouvir.
Aquela era a exata resposta que daria se perguntado o que fazia com os lábios outra vez colados aos de seu pior inimigo.
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