(in) esquecível
32 Sobre como você se tornou proibido para mim
Notas iniciais
Capítulo 32 – Sobre como você se tornou proibido para mim
Quando, depois de três longos dias foras, finalmente girou a maçaneta da simples porta de entrada de seu pequeno apartamento, Heiwajima Shizuo não acreditava, realmente não acreditava, que as coisas pudessem ficar piores do que já estavam.
Era uma ingenuidade? Talvez fosse. Uma enorme delas, provavelmente. A vida do homem mais forte de Ikebukuro, afinal, há muito o havia ensinado que nunca haveria situação tão ruim que bastasse. Nunca, absolutamente nunca, ele aprendera desde bem pequenino, existiriam limites para o quão inacreditavelmente desagradáveis seus dias podiam tornar-se. Mas naquele dia em especial, com seu nariz quase congelando mesmo que enfiado dentro do cachecol e o guarda-chuva vermelho quase todo branquinho de neve, apesar de tudo o que aprendera ao longo dos seus vinte e poucos anos, Heiwajima Shizuo esperava, realmente esperava, que mais nada de ruim estivesse espreitando perigosamente do lado de dentro do apartamento pequeno, mas quentinho, do qual sentira tanta falta.
E ele tinha motivos para acreditar nisso. Se levados em contas os três últimos dias de sua vida, o homem mais forte de Ikebukuro tinha motivos de sobra pra acreditar que nada poderia acontecer que já não tivesse acontecido.
Ele estava enganado, claro.
Terrivelmente enganado.
Mas qualquer um no lugar dele talvez também se enganasse.
Qualquer um que tivesse deixado aquele mesmo pequeno e quentinho apartamento há três dias com um bico insatisfeito nos lábios, uma mochilinha com roupas numa das mãos, uma sacola de presentes na outra, e o peito pesado com inquietações sobre o rapaz que deixava para trás, adormecido em seus lençóis, para comemorar na casa dos pais o que viria a tornar-se o pior Natal de todos os tempos também estaria acreditando com toda a fé disponível que a tragédia de seus dias já havia sido gasta.
Mas não que tudo tivesse sido ruim desde o princípio.
Não, não foi! Definitivamente não!
O início fora um suspiro. Pôr-se porta em direção à aconchegante casa dos pais, apesar do bico inquieto e do peito insatisfeito, havia sido quase um alívio. Uma cortesia de Orihara Izaya, inegavelmente. O possivelmente desmemoriado informante tornara o já pequeno apartamento tão absurdamente sufocante nos dias posteriores à inesperada visita de Heiwajima Kasuka que Shizuo não pôde nem sequer disfarçar a animação enquanto enfiava na pequena mochila as roupas que usaria durante os cinco dias que planejava ficar fora.
Não que Izaya tivesse feito algo de errado... A questão fora a exata contrária.
Orihara Izaya, depois de reaparecer diante de sua porta, os olhos tão firmes quanto as afirmativas de que não tinha motivos para ir embora, havia ficado por lá.
Dormiu em sua cama, aconchegado em seus abraços. Arrancou de seus lábios um beijo preguiçoso pela manhã, arrastando-o para um café da manhã bastante admirável. Vestiu uma de suas camisas, perfumando de shampoo e sabonete que em sua pele não tão doces pareciam toda sua pequena saleta-corredor. Enroscou-se travesso entre suas pernas para um boquete que deixou Tom esperando-o durante quinze minutos em frente à casa de um devedor. Esperou-o, com um sorriso sacana e o número de uma pizzaria discado no celular, voltar do trabalho. Sentou-se em seu colo para assistir TV apesar de suas reclamações. Despiu com ímpeto suas roupas, o quadril coberto apenas pelos lençóis tão marcados por seu cheiro num convite silencioso de arquejos. Arrastou-o para um banho risonho. Beijou-o sonolento, aconchegando-se outra vez em seus braços mesmo que tanto tivesse com ele ralhado. Perguntou sobre seu dia mesmo que tanto o tivesse mandado calar-se...
...E então novamente acordou-o, um sorriso farto e a mesa quentinha, apenas para fazer novamente o que havia feito no dia anterior...
...Exatamente da forma que fez no dia seguinte....
...E que fez nos dias depois daquele...
Pelos quatro dias que seguiram a visita de Kasuka, Izaya continuou por lá, os mesmos olhos obstinados e as mesmas afirmações silenciosas de que não planejava ir embora. Sem fazer absolutamente nada de diferente, sem falar sobre a visita do Heiwajima mais novo, sem comentar a proximidade do Natal, sem sequer dar indícios de que se importara ou que se magoara com o que fora naquele mesmo apartamento há tão poucos dias dito. Sem pressionar, sem perguntar, sem reclamar. Cinco dias com o mesmo sorriso, o mesmo café da manhã quentinho, a mesma disposição para fazê-lo atrasar-se para o trabalho, os mesmos abraços apertados, os mesmos beijos a sussurrar ofegos em seus ouvidos...
... e isso, Shizuo percebeu aos poucos, era o pior que Izaya poderia ter feito.
Izaya atrevia-se a agir como se absolutamente nada do aconteceu importasse enquanto ele inquietava-se. Ousava ostentar o mesmo sorriso bobo enquanto seu rosto contorcia-se de culpa por ter dito que não o levaria para o Natal. Continuava a enroscar-se a seu corpo em sono entregue enquanto seus olhos arregalavam-se insones. Tragava com beijos o ar de seus pulmões e nadinha de fôlego deixava para que perguntasse, gritasse, xingasse, quais diabos de planos tinha para o Natal que o impediam até mesmo de mostrar-se afetado pelo que acontecera há tão poucos dias.
Era muito, muito ridículo que Izaya continuasse o mesmo enquanto ele, Heiwajima Shizuo, se tornava alguém em quem já não conseguia se reconhecer.
Era injusto, muito injusto. E meio bobo, também. E indiscutivelmente ultrajante.
...mas... o café da manhã era gostoso. E não podia negar que naquele frio de início de inverno era aconchegante dormir com pele tão próxima a sua. Nem podia negar que já não se importava tanto que seus lençóis cheirassem tão forte a Izaya. Nem era mais tão terrível que parte considerável de seu salário fosse posto à mesa de café. Nem parecia grande problema que tão mais rápido seu shampoo acabasse e tão entediantes fossem os programas de TV transmitidos à hora da janta. E, definitivamente, Izaya era habilidoso o bastante com a boca para que também as enfáticas broncas de Tom não importassem tanto assim. Habilidoso o bastante para que até mesmo esforçasse-se um pouquinho para suportá-lo falando quando se deitavam para dormir, o peso dele em seu peito e os cabelos negros fazendo cosquinhas em seu nariz a cada riso provavelmente infundado que alguma história boba arrancava dele.
E se, então, isso que antes tanto importava já não mais tão importante assim era... talvez o resto também já não fosse assim de tanta importância.
Assim, mesmo que soubesse que era obrigação sua expor o que estava incomodando-o, mesmo que soubesse ser um dever seu conversar sobre o que acontecera no domingo, sobre o que o levara a dizer tudo o que dissera e sobre tudo o que insinuara seu irmão mais novo, Heiwajima Shizuo decidiu nada dizer. E aquilo era, definitivamente, também algo novo para ele: esconder uma angústia bem escondidinha dentro do peito, sem nada fazer para matá-la ou matar quem a causava, era algo totalmente desconhecido. Mas seria sacrifício que faria, talvez também por precisar... Não era confortável a ideia de conversar com Izaya sobre a visita de Kasuka e as coisas ditas durante ela. Se Izaya ia agir como se não fosse grande coisa Kasuka ter aparecido e o convidado para o Natal da família Heiwajima para ser apresentado como seu namorado, então não seria Shizuo a mostrar-se afetado por isso.
Se não era grande coisa para Izaya, não seria grande coisa também para Shizuo.
E, não bastasse seu orgulho a rugir isso, a repetição de tão confortável rotina por quatro dias foi mais do que o suficiente para que Shizuo conseguisse se convencer de que não se importava nem um pouco
... não foi nadinha difícil, portanto, ele se convenceu, não perguntar nada sobre os planos de Izaya para o Natal. Não era relevante, afinal, o que Izaya faria ou deixaria de fazer enquanto estivesse longe
... nem foi complicado continuar-se a deitar-se todos os dias com Izaya, ouvindo-o comentar sobre programas na televisão e fofocas estranhas de Shinra, e permanecer em silêncio mesmo que o estômago gritasse para vomitar para fora tudo o que o afligia
... nem foi difícil abandonar a cama quentinha e os braços do rapaz nu sobre ela na manhã da quinta-feira chuvosa véspera de Natal para enfiar-se em um trem até uma casa bonitinha, de cercado de madeira branca e tapete de boas-vindas, em um distrito ao lado de Ikebukuro sem nem ao menos saber o que faria durante sua ausência o rapaz deixado para trás....
... nenhum biquinho chateado formou-se em seus lábios ao trancar a porta e nenhum xingamento baixinho deixou sua garganta enquanto descia as escadas com a mochila nas costas
Se estava tudo bem para Izaya, afinal, estava tudo bem para ele também!
E, no fim, “foi melhor assim” foi tudo o que ocupou a cabeça de Shizuo quando, seis quatros de hora depois, foi recebido com um abraço apertado por uma mulher de cabelos castanhos como os seus seriam se não os tingisse. Era melhor que Izaya não quisesse estar ali consigo, era melhor para ele, melhor para Izaya, melhor para a mulher sorridente e melhor pro homem com uma carranca mal-humorada carregando uma caixa de enfeites de Natal que acenou em sua direção quando entrou na casa depois de trocar os sapatos molhados por suas pantufas preferidas no mundo todo. E, mesmo que o olhar que Kasuka tenha lhe lançado ao chegar horas depois tenha sido o mais reprovador que já vira no rosto sempre tão inexpressivo, Shizuo não mudou de opinião: a presença de Izaya naquela casa era impossível.
Não havia espaço para Izaya lá. Não havia espaço para Izaya entre os sorrisos de Namiko. Não havia espaço para Izaya na mesa cheia de comida quentinha. Nem havia espaço para Izaya nas conversas animadas. Mesmo que, indiscutivelmente, algumas vezes ele fosse chamado de repente ao assunto...
“Sua noiva não pôde vir, Shizuo?!”, “Ela precisava ficar com a família no Natal?”, "Ou ela não comemora o Natal?" “Ouvi dizer que ela cozinha. Kasuka disse que a comida dela é gostosa... até fiz um pudim especial pra ela experimentar...”, “Você tem certeza de que convidou ela direitinho, Shizuo?! Foi educado? Disse que eu queria conhecê-la”, “Mas quando vou conhecê-la, então?!”, “Vocês até estão morando juntos e eu nem sei o nome dela, Shizuo...”, “Ela trabalha com o quê?”, “Onde vocês se conheceram?”, “Ela é de Ikebukuro?”, “Será que conheço a família dela?”
... e mesmo que, de vez em quando, mesmo sem ser chamado, ele aparecesse de supetão e sem convite na cabeça do homem mais forte de Ikebukuro...
Com os sorrisos que o deixavam a pensar se não eram parecidos com os de Namiko. Ou com uma certeza de que ele teria gostado daquela torta de legumes de nome estranho. Ou quando imaginou o sorriso debochado que seria lançado a si ao servir-se da terceira porção de pudim. Ou quando pensou que a conversa fluiria muito mais fácil se Izaya ajudasse Namiko a manter o assunto correndo. Ou quando entregou os presentes simples aos pais perguntando-se se deveria ter comprado pra Izaya aquele par de luvas que vira na mesma loja. Ou quando riu diante da possibilidade de que as piadas estranhas sobre elementos químicos que o pai fazia arrancassem de Izaya risadas gostosas. Ou quando recebia de Kasuka outro daqueles olhares estranhos que desde o começo da noite ele vinha lhe lançando...
... ou quando, ao deitar-se na cama confortável de solteiro de seu antigo quarto com o irmão ressonando na cama ao lado, não conseguiu evitar um sorriso ao imaginar Izaya apertando-se em seus braços para que ambos coubessem na cama pequena, praguejando baixinho e sorrindo malicioso algumas propostas obscenas...
Quando acordou no dia seguinte – depois de uma noite cheia de sonhos estranhos sobre pudins, mesa cheia, luvas e Izaya sozinho em um bar – desprositavelmente apertado no canto da cama e com uma estranha e inafastável sensação de que faltava algo em seus lençóis, Shizuo tinha uma inexorável certeza: definitivamente havia algo de muito errado com aquele Natal e, sem sombra de dúvidas, havia algo de ainda mais errado com todas aquelas sensações estranhas que amargavam sua boca.
Foi a partir daí que, então, as coisas começaram a sair do controle e rumarem ao caos.
Começou devagar, com uma incomum calmaria. Kasuka olhando-o curioso com as sobrancelhas levemente franzidas, Namiko torcendo os lábios em silêncio, Kichirou desviando os olhos dos seus. O café-da-manhã, mesmo que tão farto quanto a ceia do dia anterior, estranhamento silencioso, sem as conversas animadas e sorrisos natalinos. As perguntas sobre a suposta noiva não pairando opressoras sobre a mesa...
...mas Shizuo não desconfiou de nada disso. A mãe, afinal, desde o dia anterior estava mais calma do que achava que estaria, com perguntas bem mais discretas do que julgava que seriam. E Kasuka estava olhava-o exatamente do jeito que olhava quando chateado, o que não era nada inesperado quando levados em conta os acontecimentos recentes. E, de toda forma, os pensamentos do homem mais forte de Ikebukuro estavam tão voltados para o quão estranho era ter um café da manhã sem a companhia de Izaya que nem mesmo se quisesse poderia ter percebido como uma tempestade parecia formar-se – intensa e poderosa, ainda que lenta, espreitando e reconhecendo terreno – também do lado de fora de seu peito.
Mas, mesmo que se formasse devagar como se juntando forças e que naquela altura parecesse tão menos importante do que o temporal que revoltava seu peito a cada vez que um riso de Namiko soava parecido com o de Izaya, ela, a tempestade, definitivamente estava por lá. E Shizuo não podia ter sido leviano o bastante para se dar ao luxo de não perceber os indícios. Ainda mais os tão nítidos quanto a bem baixinha, ainda que levemente irritadiça pergunta
“Shizuo, você já ligou pra sua noiva para desejar Feliz Natal? Quando ligar, posso falar um pouquinho com ela?!”
o que talvez não fosse totalmente culpa dele. Não havia nada demais na pergunta, afinal. Ainda que revelasse segundas intenções, ela parecia tão inocente que, normalmente, não seria o tipo de pergunta que desencadeia tempestades. Mas isso, claro, se, e apenas se, não houvesse sido Heiwajima Namiko a fazê-la.
Porque se há algo importante a se saber sobre a família Heiwajima – que é desconhecido por todos, até mesmo os mais bem informados informantes de Tóquio e os mais empenhados paparazzi – é que ela é totalmente, absolutamente e indiscutivelmente controlada por Heiwajima Namiko, a mulher de sorriso doce e voz baixinha. E isso, ainda que explicasse com perfeição a expressão levemente apavorada que surgiu no rosto do homem mais forte de Ikebukuro ao ouvir a mãe, certamente faria perder dinheiro um monte de gente em Ikebukuro que apostava que o humor de Shizuo era herança do carrancudo e monossilábico pai.
Mesmo que devesse, portanto, por conhecer a família como ninguém, ter dado mais atenção à Namiko, Shizuo não fez nada além de sorrir sem-graça e desconversar, resmungando que precisava tomar banho e que ligaria mais tarde.
Esse foi o primeiro erro dele. O primeiro passo em direção ao centro da tempestade.
Ninguém, absolutamente ninguém, desconversava alguma conversa de Namiko. Ainda mais uma Namiko sorridente, feliz por reunir a família para o Natal, preocupada com sua cria mais velha e animada diante da perspectiva de receber em casa as noras.
Então, enquanto Shizuo inocentemente enfiava-se no banheiro pequeno do corredor, metendo shampoo com cheiro de lavanda no cabelo e resmungando sobre como gostaria de fugir para fumar, a tempestade ganhava mais força, cada vez mais, nas mãos da mais poderosa de todos os Heiwajima.
Tudo piorou ainda mais quando Ruri chegou. Um pouco atrasada, mas com a desculpa muitíssimo bem fundamentada de que estivera em um especial de Natal, um bolo de nozes absolutamente apetitoso em mãos.
Ruri era linda, Ruri era educada, Ruri sabia segurar com quase maestria uma faca, Ruri dedicava alguns olhares recriminadores ao noivo, Ruri segurava a mão de Kasuka quando achava que não tinha ninguém olhando e Ruri fazia Kasuka sorrir de formas que normalmente não sorriria, o que, absolutamente, tornava Ruri a nora perfeita diante dos olhos brilhantes de Namiko e que, inquestionavelmente, colocava Shizuo em uma situação ainda pior conforme a mesa enchia-se de cada vez mais comida e perguntas cada vez mais íntimas preenchiam o farto almoço.
Izaya era bonito, sim, sabia disso. E recebera educação, sem sombra de dúvidas, ainda que não a usasse com a frequência adequada. E lhe lançava olhares recriminadores todas as vezes que tinha a oportunidade. E segurava sua mão, de vez em quando, principalmente se fosse para levá-la até seu traseiro. E o fazia rir de formas diferentes, também, ainda que em especial de desespero. E, acima de tudo, Izaya definitivamente sabia como manejar uma faca, ainda melhor do que sabia Ruri! Mas nada disso, absolutamente nada disso, era algo de que ele pudesse se gabar em voz alta.
A melhor alternativa era inventar alguma história aleatória, ele sabia. Criar alguma garota que fosse parecer agradável aos padrões estranhos da mãe. Pontuando aqui e ali algum defeito. Talvez inventar que ela compartilhava seu vício por cigarros ou que fazia dietas malucas todo início do ano. Mas o olhar acusatório de Kasuka não o permitia ir nessa direção.
Teria, claro, insistido na ideia e inventado algo – apesar da expressão do irmão e do quão ruim fosse com mentiras – se, em algum momento de distração em que enfiava um pedaço enorme de bolo de carne na boca para fugir de outra pergunta indiscreta sobre Izaya, Kasuka não tivesse dito que Namiko conhecia a pessoa com quem Shizuo estava.
Foi a partir desse momento, então, que, com o peito dividido entre desmentir o irmão e assassiná-lo, Shizuo começou a acreditar que tudo já tinha dado tão errado quanto possível.
Era apenas metade do dia, ainda, contudo.
Nas horas que restavam daquele dia de Natal tão frio, com chuva fininha caindo para além da janela e chocolate-quente constantemente sendo despejado em canecas, Shizuo teve razões o suficiente para arrepender-se por não ter percebido antes o quão pior que o clima do lado de fora estava tornando-se o clima do lado de dentro da confortável casa bonitinha.
As tentativas de desconversar progressivamente tornaram-se resmungos aleatórios de “sins” e “nãos”, as sobrancelhas franzidas e sorrisos que procuravam sondar verdades tornaram-se lábios repuxados e bicos chateados, a felicidade tão doce da noite anterior queimou tão amargo quanto o bolo de frutas que Kichirou esqueceu no forno. E, provavelmente, se não fosse pela regra número um da família Heiwajima a proibir brigas dentro de casa e a esperança de que o Natal não fosse totalmente arruinado, Shizuo provavelmente teria, em algum momento entre a limpeza das louças e o especial natalino na TV, se descontrolado e ido para casa.
Mas não foi. Ficou por lá mesmo, pouco a pouco entendendo o olhar de pena que o pai lançava em sua direção e os dois tapinhas amistosos que ele deixava em seus ombros todas as vezes que passava ao seu lado. Ficou, talvez mais por medo de encontrar seu apartamento vazio do que pelo medo de que Namiko pensaria sobre sua fuga.
Não que não entendesse Namiko. Entendia perfeitamente bem o porquê das atitudes dela.
Namiko nunca havia conhecido nenhuma pessoa com quem saíra, nunca o havia ouvido falar sobre uma namorada, nunca soubera nada sobre sua vida amorosa e, de um dia para o outro, descobria que estava morando com alguém e assistia-o negar-se a dar informações sobre quem era. Ela estava preocupada, e com razão. Mas tão bem quanto sabia de tudo isso, sabia que seria pior ainda se cedesse à pressão e contasse quem era a pessoa morando consigo.
E isso estava enlouquecendo-o.
Kasuka dividindo-se entre ficar calado, fitando apaixonado o rosto de Ruri, e jogar informações aleatórias sobre Izaya para a mãe – que ele e Shizuo haviam estudado juntos, que a mãe sabia sim quem eram os pais, que a noiva de Shizuo tinha duas irmãs mais novas, gêmeas, que manejar facas não era um problema. Kichirou vagueando mal-humorado pela cozinha para consertar o bolo enquanto resmungava a Shizuo que ele devia contar de uma vez quem era a tal noiva. Ruri reagindo às informações jogadas por Kasuka com “Sério, Shizuo-niisan?! Essa pessoa?! Tem certeza de que vai dar certo?”. Namiko mostrando-se a cada instante mais frustrada com a relutância do filho mais velho em contar sobre sua vida pessoal, prometendo, chateada, que não faria nada, que não se meteria na vida deles, que só queria saber com quem ele estava, que estava preocupada, apenas.
Tudo, absolutamente tudo, deixando-o a cada instante mais fora irritado, mais incomodado e mais fora de controle.
Talvez se tivesse saído para fumar. Ou talvez se o bolo do pai tivesse dado certo e pudesse se afundar em doces. Ou talvez se Ruri não fosse tão gentil com sua mãe e Kasuka não a olhasse tão doce. Talvez se não estivesse já tão enlouquecido por não saber onde estava Izaya. Talvez se paradoxalmente não quisesse que Izaya estivesse ali naquele exato momento para tirar sarro do quão tensos todos estavam.
Talvez
Talvez
Talvez
Talvez se outras fossem as circunstâncias Shizuo não teria se descontrolado ao ponto de, com um grunhido quase como rugido, arrancar com ímpeto o celular do bolso, encontrar com as mãos trêmulas de raiva o contato "pulga" na agenda, e resmungar entredentes para que Namiko fizesse o que achasse melhor enquanto entregava a ela o aparelho.
Se ele se arrependeria? Sim! Heiwajima Shizuo se arrependeria dessa decisão como de poucas coisas em sua breve vida se arrependia. Sabia, afinal, mesmo que ensandecido com a pressão criada pela tempestade na aconchegante sala-de-estar, o quão desastrosa seria uma conversa entre Namiko e Izaya. Nem mesmo um louco seria ingênuo o bastante para crer que aquilo terminaria bem. Mesmo sabendo disso, contudo, e mesmo sabendo que só havia cedido porque era egoísta o bastante para desejar que Izaya enfrentasse primeiro a fúria de Namiko por conta do estranho relacionamento deles, o homem mais forte de Ikebukuro nada fez para impedir que a mãe pegasse de suas mãos o celular, franzisse o cenho para a tela e colasse o aparelho à orelha com um pequeno sorrisinho satisfeito nos lábios, repreendendo-o por dedicar à suposta noiva um apelido tão estranho.
Assim como nada fez enquanto assistia-a esperar a chamada ser atendida. Como nada fez enquanto as sobrancelhas castanhas fininhas franziam-se. E como nada fez quando Namiko afastou o celular e apertou novamente o botão para reiniciar a chamada.
Estava cansado. Cansado do quanto pensara durante a semana anterior que o certo era manter Izaya longe daquele natal. Cansado do quanto apesar de tudo Izaya parecia estar presente em cada mínimo momento do dia. Cansado do quanto naquele Natal sua vida pessoal parecia ter sido o principal assunto, cansado dos olhares repreensores que Kasuka lançava em sua direção, cansado do quão persistente Namiko estava sendo sobre descobrir com quem estava saindo, cansado de assistir os pais e irmão e a cunhada como casais, cansado de não poder socar nada e cansado de disfarçar a frustração por não poder simplesmente ir para casa fumar. Cansado de tentar manter escondidinhos no fundo dos pulmões a sensação de que talvez tivesse sido melhor ter trazido Izaya consigo para que, então, todo o cansaço fosse recompensado pelo menos com uma cama mais quentinha no fim do dia.
Ainda que, contudo, achasse não restar em si mesmo nada de cansaço, um suspiro de um alívio e quase felicidade escapou de seus lábios, gostoso e leve, quando percebeu que Namiko mais uma vez afastava o celular do ouvido, visivelmente contrariada. E, ganhando pouquinho de espaço, empurrando para longe parte do cansaço, um sorriso quase ganhou seus dentes quando a mão pequena e suave da mãe estendeu em sua direção o celular.
Izaya não havia atendido o telefone!
O pequeno sorriso começou a se infiltrar, intrometido e ingenuamente satisfeito, nos cantos dos lábios de Shizuo...
Izaya não havia atendido o telefone! Não havia atendido!
... o sorriso, contudo, mal teve tempo de lá fazer morada. No lugar do riso que Shizuo pretendia deixar correr livre pelas paredes da aconchegante e confortável casa cheinha de porta-retratos, o som baixinho dois apitos seguidos de uma pequena vibração fizeram-se ouvir.
Ao assistir a delicada mão de Namiko outra vez para longe afastar-se e o par de curiosos olhos castanhos-mel primeiro fitarem atentamente o celular, depois arregalarem-se ao máximo e estreitarem-se no que Shizuo não hesitou momento algum julgar fúria, o homem mais forte de Ikebukuro soube que, ao não tomar para si antes o celular havia, pela terceira vez no dia, cometido um erro enorme.
“Desculpe, Shizu-chan, não posso atender agora. Estou com a boca ocupada... ;)” e “Mas Feliz Natal. Espero que esteja se divertindo com a familiazinha... eu estou, com certeza, ainda que não com a familiazinha” foi o que leu na tela depois que, com os olhos baixos, Namiko o entregou de volta o celular.
E ele teria notado, definitivamente teria notado, o quão contraditoriamente raivosos e amáveis estavam os olhos da mulher baixinha quando ela os levantou para encará-lo, se seus próprios olhos castanhos-mel tão parecidos com os dela não tivessem se cerrado bem firmes enquanto o celular ia de encontro à parede e um “puta que pariu” raivoso rasgava sua garganta.
Namiko não voltaria, naquele dia, a incomodá-lo com perguntas sobre Izaya, mas Shizuo, naquele momento, realmente desejou que não fosse aquele o desfecho.
Quando, horas mais tarde, voltou para dentro da aconchegante casa dos pais, Shizuo o fez bem quietinho, esfregando as mãos no casaco com força para afastar a sensação de estar a congelar.
Nevava do lado de fora. Pequenos flocos acumulando-se sobre as árvores, cintilando brilhantes junto as bolas coloridas que as enfeitavam aqui e ali.
Era uma bonita noite, ele tinha que admitir, mais do que o normal, mesmo quando levava em conta que ainda era dia 25 de dezembro, ainda que já quase não mais. Se estivesse com um casaco melhor, provavelmente teria ficado fora durante a noite toda, aproveitando sua beleza até não poder mais fazê-lo.
Não estava, contudo. Saíra da casa dos pais apenas com a malha fofinha que Izaya insistira em infiltrar para dentro de sua mala mesmo que odiasse a cor, apressado demais para meter a mão no porta-chapéus e arrancar de lá roupa melhor. E talvez fosse exatamente por isso que voltara: o frio da rua era demasiado, até mesmo para o mais forte dos homens de Ikebukuro em meio a uma crise de raiva como há muito não era vista.
Ele não queria ter voltado. Definitivamente não. Ainda não estava preparado para encarar os pais e o irmão. Não estava preparado para ouvir os comentários que eles provavelmente planejavam fazer sobre as mensagens que recebera de Izaya. Mas, levando em conta que talvez nunca estivesse, que seus cigarros tinham acabado, que estava sem sua carteira e que estava morrendo de frio, Heiwajima Shizuo não teve outra escolha que não voltar, ainda que na ponta dos pés e torcendo para estarem todos dormindo.
Não estavam.
Tão logo deixou a soleira da porta, encontrou todos, pai, mãe, irmão e cunhada, sentados no sofá, a TV ligada baixinha em um canal aleatório que reprisava algum especial de Natal, dois pares de canecas fumegantes sobre a mesinha de centro.
A mãe foi a primeira a levantar-se, e, ao mesmo tempo em que um cobertor foi colocado em seus ombros e uma caneca quentinha em suas mãos, a pergunta sobre onde esteve alcançou seus ouvidos.
Ele poderia ter dito que não fora longe. Que, na verdade, não fora a lugar algum em específico. Que só vagara por aí, fumando e calculando o quão seria ruim aos pais se destruísse algumas cercas e postes do bairro onde moravam. Isso provavelmente tranquilizaria a mulher baixinha que sondava seu corpo procurando por machucados derivados de alguma briga que ela tinha certeza que ele tinha se metido. No lugar disso, contudo, tudo o que saiu de seus lábios, em um tom baixinho e rude que apenas faria aumentar a dor e preocupação nos olhos castanhos-mel que encaravam-no expectantes, foi
“Eu não quero falar disso. Sobre nada disso mais.”
Não era uma mentira. Shizuo realmente não queria falar mais nada sobre Izaya ou sobre a suposta noiva que Namiko achava que ele tinha. Mas, ao mesmo tempo, sabia que estava sendo bastante injusto. Namiko caíra, as cegas e sem quaisquer prévias preparações, bem no meio de uma briga entre ele e o informante, justamente o que ele desde sempre, desde muito antes de permitir-se dividir a mesma cama com o informante, tentava evitar acontecer. Mas, mesmo sabendo disso, mesmo sabendo que ela merecia explicações, ele decidira deixá-lo no escuro, ainda que isso implicasse em Namiko colocando em si mesma e em sua insistência a culpa pela expressão tão furiosa e chateada no rosto do filho.
Porque, sim, ele sabia exatamente o que a mãe estava pensando e sabia, também, que ela estava enganada. Tinha certeza, afinal, que dentre todas as coisas que a mãe estivesse pensando sobre a mensagem lida, nenhuma delas seria que Izaya estava brigando com ele – em uma espécie de vinganças das mais infantis – por não ter sido convidado para o Natal. O que era compreensivo, na verdade, já que nem ele mesmo havia de início nisso pensado.
Quando saiu da aconchegante casa dos pais, bufando e xingando, tremendo tanto de raiva que mal sustentava entre os dedos o cigarro, Shizuo realmente o fez com a cabeça cheia da possibilidade de que Izaya estivesse espalhando pelo mundo sua inquestionável habilidade com a língua. As imagens de Izaya ajoelhado entre suas pernas estavam claras demais em sua memória, afinal, para que conseguisse evitar associá-las com a afirmação “boca ocupada” lida na primeira das mensagens. Era inevitável. E inevitável, também, não se sentir ainda mais enfurecido ao pensar que a mãe poderia ter também assim interpretado a mensagem.
A recordação do olhar cheio de raiva e pena que Namiko havia lhe lançado foi o bastante para que se convencesse de que, enquanto fumava e socava o que provavelmente era um ponto de ônibus, a mãe estava especulando com o pai e o irmão a possibilidade de que ele estivesse sendo traído pela suposta noiva. E essa certeza, acima de qualquer coisa, acima até mesmo do que a própria dúvida sobre o que Izaya estava fazendo para ficar com a boca ocupada, foi o que mais o fez demorar a entender o verdadeiro significado da mensagem recebida.
No fim, entretanto, a razão o venceu. Independentemente do quão frustrado e furioso estivesse, o homem mais forte de Ikebukuro não era ingênuo o bastante para esquecer que, dentre todas os adjetivos que podiam ser direcionados a Izaya, burro não era um deles. Se Izaya estivesse enfiando-se no meio de outras pernas para ocupar a boca com outro pênis que não o seu, a última coisa que ele faria seria mandar para Shizuo uma mensagem contando isso. Talvez o antigo Izaya, com as memórias intactas, fosse capaz de algo do tipo para irritá-lo, mas, ao mesmo tempo, o antigo Izaya nunca se ajoelharia entre seus joelhos e nunca ocuparia a boca com seu pênis. Com isso, a primeira conclusão, a possibilidade de que a boca de Izaya estivesse se ocupando por aí com o que não devia, por mais que pulsasse dentro do peito de Shizuo como a maior verdade do mundo, não era, definitivamente, possível.
Izaya não o estava traindo: concluiu ele seis cigarros depois de ter saído de casa.
Eliminada essa possibilidade, não foi difícil a ele – e a seus 12 cigarros restantes – concluir que fazê-lo pensar em traição era exatamente o plano de Izaya: o informante sabia o que ele pensaria ao ler a mensagem e estava, propositalmente, tentando enlouquecê-lo. Depois disso, não foi difícil concluir o porquê de Izaya querer deixá-lo louco.
Izaya estava vingando-se. E a menção à "familiazinha" só fazia reforçar a conclusão. Izaya estava, finalmente, mostrando que ficara afetado por não ter sido convidado para o Natal.
Não que isso, de alguma forma, o tenha feito sentir-se melhor.
Ainda estava bravo, ainda culpava Izaya pelo desastre que tornara-se o Natal com a família, e ainda tinha o peito fervendo de raiva por deixar Namiko imaginando sua suposta noiva em situações estranhas, mas, no fundo, saber que Izaya não estava com a boca em lugares aleatórios e que não ficara tão indiferente a tudo quanto fizera-o crer durante a semana anterior o deixava quase aliviado.
Ainda assim, realmente não queria explicar nada disso para Namiko. Não queria que ela soubesse que a suposta noiva não só não fora convidada, mas também expulsa da comemoração. Não queria ter que conversar sobre traição. E não queria, de maneira alguma, ter que pensar sobre o porquê da ideia de ser traído o incomodar tanto quando nem ao mesmo sabia que tipo de relação tinha com Izaya.
Já não importava mais se Namiko pensava ou não que estava sendo traído, só queria que ela não perguntasse mais nada.
E ela não perguntou.
Ela resmungou algo sobre terem jantado sem ele, sobre o jantar estar na geladeira e sobre os cobertores extras no armário do quarto de visitas, apenas, antes de retirar-se magoada para o próprio quarto com um “boa-noite” baixinho sem sorrisos. E por mais que culpa fosse o que devesse ter sentido, Shizuo só conseguiu sentir alívio. Se entenderia com a mãe no dia seguinte, quando estivesse menos irritado. Não era como se, no fim, não estivesse acostumado a assisti-la afastar-se magoada por algo que fizera. Tudo iria se resolver depois de uma noite de sono, como sempre se resolvia.
Nenhuma tempestade, afinal, por mais forte de fosse, duraria uma madrugada toda: era o que ele pensava.
Só horas mais tarde, quando aquele 25 de dezembro já tinha há algum tempo se tornado 26, Shizuo descobriria por Kasuka que Namiko não havia pensado nada das coisas que achara ter ela pensado. Namiko não havia pensado em traição, nem em vingança e nem em nada assim tão trágico ou grandioso. A pequena mulher sorridente ficara chateada e brava não por antecipar alguma briga entre o filho e o namorado, ou por desconfiar do quão estranha a relação entre eles era, mas por ser mãe. Onde Shizuo viu traição, a mãe viu o filho sendo tratado como algo de menor importância. Onde Shizuo viu provocação, Namiko sofreu por sentir que sua cria não era prioridade para a noiva.
Namiko não antecipara nada ruim.
Namiko fora sua mãe, apenas, e preocupara-se com o quão desinteressada sua namorada se mostrou.
E Shizuo sentiu bastante bobo por ter pensado que seria diferente. Assim como se sentiu bobo ao descobrir que Namiko aceitara tão fácil não mais tocar no assunto não porque entendia a gravidade da situação, mas porque Kasuka havia conversado com ela depois que saiu descontrolado porta afora. Fora Kasuka a acalmar Namiko, explicando a ela o quanto podia explicar sobre o quão não-convencional era o relacionamento entre Shizuo e a pessoa que morava com ele. Sobre como as circunstâncias que os haviam colocado juntos eram especiais e que, portanto, ainda que já morando juntos, o relacionamento entre os dois ainda não estava sério ao ponto de ser apresentado como oficial na ceia de Natal. Que tudo ainda estava instável demais e que Shizuo ainda não se sentia confortável para falar sobre o assunto com os pais.
Kasuka, no fim, havia feito exatamente o que Shizuo devia ter desde o início feito: explicou, nem que um pouco.
Na verdade, naquela madrugada, Shizuo descobriu bastantes coisas que, supostamente, deveria ter descoberto mais cedo.
Foi, afinal, nela, com Kasuka a sua frente bebericando uma taça de vinho, o restante de sua família dormindo tranquilo e a neve do lado de fora caindo cada vez mais intenso, que a tempestade que se precipitava desde o início da tarde anterior chegou com força total.
“Shizuo, andei pensando sobre isso depois de ter visto vocês no domingo... Você não acha estranho estar com o Izaya sem memórias?” numa voz levemente embriagada, um pouco receosa e todinha sussurrada como se tocasse com cuidado terreno frágil:
foi essa a forma que a tempestade, agora em sua força total, assumiu
E talvez exatamente por tão baixinha e tão receosa, Shizuo não entendeu de primeira, torcendo o cenho e fitando em dúvida o irmão, pressionando-o, com um franzir exasperado de lábios, a explicar-se melhor.
“Você não acha que é errado dormir com o Orihara sabendo que, se ele tivesse suas memórias, provavelmente não dormiria com você?”:
foi a forma como, depois de mais alguns sussurros, mais insistência e alguns rosnados, a voz de Heiwajima Kasuka, mais firme e mais decidida, até mesmo um pouco exasperada, anunciou o pico da tempestade
Heiwajima Shizuo estancou, então, bem no meio dela.
Os olhos castanhos-mel piscaram, confusos. E por um momento, bem breve momento, o silêncio fez tão absoluto que não seria de se duvidar que até mesmo os que dormiam haviam sustido a respiração. Tão absoluto que nem mesmo batidas de coração deixavam-se ouvir. Tão absoluto que mesmo o vento e a neve, do lado de fora, pareceram dissolver-se.
Só um segundo, contudo, o silêncio durou.
No segundo seguinte, todo o barulho do mundo pareceu voltar de uma só vez. A chaleira apitou na cozinha, o pai ressonou no quarto, Kasuka estalou os lábios, o vento lançou pequenos flocos de gelo de encontro à janela. Os ouvidos de Shizuo, contudo, só perceberam todos os sons quando mais um se juntou a eles:
"Que?"
E, ainda que o tivesse ouvido, o homem mais forte de Ikebukuro demorou um pouco a perceber que haviam sido seus lábios a criarem-no.
O som de sua própria voz foi, entretanto, a última coisa que naquela noite ouviu. Tão rápido quanto voltaram, todos os sons outra vez deixaram-no.
Sabia que Kasuka estava falando porque via seus lábios moverem-se. Sabia que o vento continuava a soprar porque via os flocos baterem contra a janela. Sabia que a água continuara a ferver porque pouco depois uma caneca de chá fumegante fora pousada a sua frente. Sabia que não estava surdo. Sabia que a tempestade ainda estava ali, mais forte de que nunca, mas, no fim, era incapaz de ouvir.
Se ouvisse, talvez tivesse notado quando o tom de Kasuka tornou-se arrependido e preocupado. Talvez tivesse notado que o vento cessara. Tivesse notado que a caneca deslizara de seus dedos para rachar-se em mínimos pedaços no chão. Talvez tivesse notado que também sua própria voz recomeçara a soar, primeiro baixinha, depois quase ensurdecedora. Talvez, assim, se não incapaz de ouvir, Shizuo teria ouvido todos os desnorteados pedidos de desculpas que escaparam de seus pulmões.
Mas Shizuo não ouviu nada. Ele viu o olhar de Kasuka tornar-se urgente, e viu a mãe fitá-lo com os olhos arregalados e viu quando, de alguma forma, a tempestade recomeçou do lado de fora.
Logo, contudo, já também não era mais capaz de ver nada.
Com os olhos cerrados bem firmes, pela primeira vez em muitos anos e mais intenso do que jamais havia sido visto, o filho mais velho da família Heiwajima choveu, tempestuoso, bem no meio da sala-de-estar.
Quando, depois de três longos dias foras, finalmente girou a maçaneta da simples porta de entrada de seu pequeno apartamento, Heiwajima Shizuo não acreditava, realmente não acreditava, que as coisas pudessem ficar piores do que já estavam...
... isso, até encontrar Orihara Izaya adormecido, encolhido em seu pequeno sofá de dois lugares. A respiração tranquila, os fios negros bagunçados sobre a almofada, as mãos abraçando com suavidade o que mesmo de longe conseguia reconhecer como seu travesseiro, os pés descalços escapulindo para fora do cobertor, iluminados pelo sol fraquinho que naquele fim de tarde invadia o apartamento através da cortina aberta.
Ele estava lindo, ridiculamente lindo.
Tão lindo...
Tão lindo...
Tão lindo que só percebeu que se aproximou dele, perdendo suave um dos dedos por entre os fios negros espalhados pela almofada, quando um pequeno resmungo escapou por entre os lábios entreabertos.
Afastou-se, preocupado. Mas apenas um estalo baixinho e molhado de língua seguiu o resmungo.
Aproximou-se outra vez, ainda que desta vez com as mãos presas bem firmes no bolso do casaco.
Tão lindo...
Tão lindo...
Os olhos castanhos-mel correram devagar pelo rosto adormecido, pelos dedos saudosa e estranhamente cheinhos de anéis, antes de perderem-se nos pés medianos aquecidos pelo sol, que tão quentinhos provaram-se quando, sem perceber, segurou-os com ambas as mãos que, em algum momento, haviam escapulido dos bolsos.
A textura áspera chamou sua atenção mesmo antes de deter os olhos no pano branco que se enrolava em um dos calcanhares dos pés em suas mãos. Ataduras, reconheceu ao afastar com estranha delicadeza o cobertor e descobrir parcialmente as pernas aparentemente desnudas.
Os olhos castanhos-mel arregalaram-se, confusos e, agora com mais atenção, correram outra vez pelo corpo do rapaz no sofá.
Uma faixa igualzinha à do tornozelo enrolava-se também ao redor do pulso e, quando a tocou, o rosto adormecido remexeu-se para revelar um enorme roxo no queixo antes escondidos pela almofada.
Diferente da aspereza da faixa, a pele machucada do rosto de Izaya continuava tão macia quanto da última vez que a tocara, três dias atrás, e isso, ainda que não devesse, o surpreendeu. Sentia-se bobo pelo pensamento, mas não pôde evitar o ofego desengonçado que escapou de sua garganta ao perceber o quanto tocar em Izaya arrastava para dentro de seus pulmões uma assustadora sensação familiar.
Foi essa exata sensação familiar que o empurrou, antes mesmo de poder se conter, na direção do rapaz para pousar um pequeno beijo no queixo machucado.
Havia uma estranha urgência em tocar aquele rapaz. Tocá-lo de verdade. Beijar cada um dos machucados para os quais ainda não tinha explicação e então acarinhá-lo até que eles sumissem. Uma urgência tão grande que doía. O que era ridículo, verdadeiramente ridículo. Não devia nem ter se aproximado. Não devia ter tocado. Não devia sequer ter voltado a seu apartamento. Não devia fazer mais nada. Mas, mesmo que ridículo, provavelmente o teria feito, teria se inclinado e tomado nos braços o rapaz adormecido para beijá-lo do pulso ao tornozelo, não fossem os olhos castanho-avermelhados abrirem-se, um pouco preguiçosos um pouco divertidos.
— Uau, tudo isso é saudades, Shizu-chan?
A voz rouca de sono, o sorriso debochado, os olhos semicerrados encarando-o com um carinho para o qual não estava preparado: sabia que era sua obrigação afastar-se, sua obrigação colocar em prática todas as coisas que havia pensado ao ouvir o irmão na noite anterior. Sabia que era sua obrigação fazer o que era certo.
Então, num gesto que não devia tê-lo feito, mas o surpreendeu, se afastou. Primeiro o tronco, desinclinando-se para longe do sofá, depois a mão que ainda tocava o queixo machucado, depois um passo para trás. E ainda outro seria dado, não fosse um puxão parando-o.
— O que foi, Shizu-chan?
Fitou surpreso os dedos finos ao redor de seu pulso. A surdez outra vez insinuando-se para dentro de seus ouvidos.
O toque era leve. Os nós dos dedos mal esbranquiçando-se. Não havia força ali. Não, ao menos, o suficiente para mantê-lo preso. Aqueles dedos ao redor de seu pulso eram infinitamente mais fracos que seus próprios dedos, esses sim tão fortes que poderiam sem dificuldade alguma não só desfazer o aperto, mas também retribuírem-no com força o suficiente pra quebrar o braço daquele que insistia em manter-se agarrado a si. Um único movimento seria o suficiente para libertar-se, e, para isso, sequer precisaria de muita força.
Mas, ainda que aqueles dedos finos e longos daquele braço enfaixado não possuíssem força o suficiente para segurá-lo, via-se incapaz de soltar-se. Plenamente incapaz de recuar um centímetro sequer...
— Izaya, é melhor você ir embora.
— Eu achei que a gente já tinha superado essa fase, Shizu-chan.
... plenamente incapaz de impedir-se de ser puxado por eles novamente em direção ao rapaz no sofá
— É melhor ir embora.
... incapaz de impedi-los de afundarem-se em seus cabelos enquanto um beijo urgente era roubado de seus lábios.
Sabia que devia afastar-se. Correr para bem longe. Fugir. Esconder-se como animal desgovernado que era. Heiwajima Shizuo, contudo, ficou por lá. As pernas que deveriam correr acomodando-se no sofá. As mãos que deveriam afastar enroscando-se em abraço. Os lábios que deveriam gritar sorrindo amargos por, ridiculamente, perceber que Orihara Izaya era justamente o que mais precisava naquele momento.
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