(in) esquecível
33 Sobre como você conseguia ser mais teimoso do que uma pulga
Notas iniciais
Capítulo 33 – Sobre como você conseguia ser mais teimoso do que uma pulga
Izaya demorou exatos uma noite e um café da manhã para perceber que havia algo de muito errado com Shizuo, nem mais nem menos. Teria percebido antes, provavelmente, não fosse a desculpa boba que Shizuo tinha dado à própria carranca ao resmungar que discutira com o irmão mais novo e, portanto, não conseguira mais ficar na casa dos pais e voltara para casa antes do previsto.
Não era uma mentira completa, e, de certa forma, trouxera em si gravidade o suficiente para manter Izaya afastado durante o restante do anoitecer, o jantar e a noite toda. Não era estranho, afinal, que o homem mais forte de Ikebukuro rosnasse que dormiria no sofá, ele já havia feito isso algumas vezes antes para fugir de perguntas do informante. Nem era estranho que parecesse tão chateado e desnorteado, era sabido, no fim das contas, que ele se importava com sua relação com Kasuka mais do que se importava com qualquer outra coisa no mundo. Quando o sol raiou, contudo, para um sábado gelado mas estranhamente colorido, iluminando a mesa de café-da-manhã perfeitamente arrumada com suas comidas absolutamente favoritas e Heiwajima Shizuo continuou, mesmo assim, com a expressão de alguém que poderia botar a baixo o distrito inteiro com um soco e olheiras de quem não dormira sequer segundo, Orihara Izaya não teve dúvidas de que algo não estava, definitivamente, certo e que o problema não era só uma briguinha entre irmãos.
E ele tinha razão.
Ainda que não estivesse nos planos de Shizuo admitir isso.
Mas, na verdade, aquela era apenas uma das coisas, entre o monte delas, que Shizuo inegavelmente não queria admitir.
A menor delas, provavelmente.
Izaya fitando-o desconfiado e torcendo os lábios a cada vez que desviava dos olhos castanho-avermelhados o olhar não chegava, afinal, a ser um problema com o qual não conseguisse lidar. Se conseguira lidar com Izaya lançando facas pelos becos de Ikebukuro, Izaya fazendo careta enquanto bebericava uma xícara de chá, silenciosamente pressionando-o a contar o que o levara a dormir no sofá e desviar de seu beijo de bom-dia não era nada de tão terrível.
Era mais fácil do que lidar com tudo o que Kasuka havia dito para ele na noite anterior. Mais fácil do que lidar com a culpa que impregnava feito inverno nos seus ossos a cada vez que pensava sobre o quão longe havia ido com Izaya. Mais fácil do que lidar com a enjoo que travava sua garganta quando pensava que, se tivesse suas memórias, Izaya poderia não querer ir tão longe assim consigo. E mais fácil, definitivamente muito mais fácil, do que lidar com a realidade massacrante de que nada disso, absolutamente nenhuma dessas culpas, era o bastante para apagar nele a vontade de retribuir o beijo de bom-dia e perguntar o porquê de todos os machucados a mancharem a já tão marcada por cicatrizes pele de Izaya.
Porque elas sim – as faixas no tornozelo e no braço, a mancha no queixo e bochecha –, junto a todas as suas culpas, estavam crescendo em Heiwajima Shizuo o número de preocupações que não gostaria de admitir. Preocupações que nem a ausência de explicações por parte do informante e nem a noite inteira perdida na busca por razões para tais machucados conseguiram extinguir.
Não que ele realmente esperasse que isso pudesse acontecer. Que tudo pudesse ser solucionado em uma noite mal dormida no sofá pequeno. Ao amanhecer e encontrar o rosto de Izaya tão próximo ao seu, sussurrando carícias em seus ouvidos para acordá-lo, percebeu que não só haviam as culpas exponencialmente crescido desde o beijo da tarde anterior, como também haviam exponencialmente crescido as preocupações com os machucados que tão mais evidentes pareciam quando fitados à luz do sol...
...e cresciam ainda mais, absurdamente mais, enquanto assistia Izaya mancar em direção à mesa do café da manhã, enquanto o ouvia gemer baixinho ao usar a mão machucada para pegar uma caneca, e enquanto notava que o roxo no queixo ainda mais feio parecia em contraste com um prato de panquecas.
O fato era que Izaya estava machucado do jeito que normalmente pessoas não se machucam. Não sozinhas, ao menos. Não era o machucado de uma queda. Nem machucado de alguma batida. Shizuo passara tempo demais nas ruas para saber que só havia uma forma de conseguir machucados como aqueles: Izaya se metera, inegavelmente, em algum tipo de briga. E em uma séria. Não precisava de explicações extensas para concluir isso, mas, ainda assim, realmente esperou que em algum momento Izaya fosse se explicar.
Conseguia, afinal, imaginar centenas de situações que levaram o antigo Izaya, informante e grandíssimo bastardo, a envolver-se em brigas. E, ainda que ele mesmo tão poucas vezes tenha conseguido ferir o tal bastardíssimo informante, conseguia imaginar uma porção de pessoas que poderiam se juntar para causar o estrago que a sua frente passava geleia em uma torrada. Mas não conseguia, nem se esforçasse muito, imaginar o que levaria o desmemoriado e quase infantilmente bobalhão Izaya meter-se em uma briga tão intensa ao ponto de deixá-lo a gemer ao levantar uma xícara de chá...
... a não ser que ele não tivesse, essencial e literalmente, metido-se em uma briga.
Os olhos castanhos-mel piscaram aturdidos, a caneca de chocolate-quente pendendo dos dedos até quase derramar enquanto o homem mais forte de Ikebukuro chegava a outra explicação para o que via a sua frente.
— Pulga!
— Pronto pra aceitar aquele beijo agora, Shizu-chan?
As sobrancelhas castanho-claro franziram-se de leve. Izaya não desviara o olhar da xícara de chá para fitá-lo.
— Seus machucados...?
— Ou será que está pronto pra contar o que aconteceu de verdade pra você ter chegado com aquela cara ontem?
— Não foi uma briga, foi?! Foi alguém que te bat-?
— Ah, já sei, você quer me contar direitinho por que você e o cunhadinho brigaram, né?!
— Não, pulga! Me ouve, caralho! Só quero saber por que você está todo machucado! Porque se algué-
Os olhos castanho-avermelhados fixaram-se firmes em seu rosto e, ainda que involuntariamente, Shizuo baixou os olhos, calando-se ao perceber o quão alta, quase como grito, sua voz soara.
— Ah! Entendi... você quer me contar o que aconteceu e depois quer ouvir o que aconteceu comigo, não é?! – o homem mais forte de Ikebukuro não precisou focar a atenção no rosto de Izaya para saber que os olhos castanho-avermelhados estavam ainda firmes – Não? Ah... bem... que pena, então. Me pareceu que você queria compartilhar coisas... Mas não... Que pena, né?! – ele calou-se por um instante e Shizuo realmente acreditou, com o peito fervendo em chamas, meio ira meio culpa, que ele se calaria. Estava enganado – Eu caí, Shizu-chan. Tropecei e caí. Nada com o que você precise se preocupar... Estou perfeitamente bem! Se bem que... eu não recusaria um beijinho pra sarar mais rápido.
A voz de Izaya, contrariando o quão firme e irritada havia no início soado, reduzira devagar, ao fim abrindo-se sorridente e doce. E talvez exatamente por conta do quão suave ela alcançara seus ouvidos, Shizuo demorou a entender tudo o que havia por trás dela, resmungando um baixinho xingamento para o pedido de beijo e bufando pelo tom de voz tão sarcástico que o informante no começo usara.
Devagarinho, contudo, os resmungos e bufos ruíram, dando lugar a lábios levemente separados e olhos arregalados piscando confusos.
Izaya estava mentindo!
Aqueles machucados nunca seriam de uma queda, sabia disso tão bem quanto sabia que aqueles olhos castanho-avermelhados ferozes fitavam-no esperando que algo dissesse.
Izaya estava mentindo para ele!
Mentindo sem hesitação nenhuma!
Mentindo!
Shizuo só percebeu que havia levantado da mesa quando sentiu o amargor do cigarro na boca e o vento frio da janela gelar suas bochechas. E, ainda que bastante óbvio que estivesse agora longe, ainda lançou à mesa de café da manhã – à panqueca inacabada, ao chocolate-quente quase cheio e ao rapaz ainda de olhos firmes – um último olhar antes de outra vez arregalar os olhos em indignação pela mentira recém-ouvida.
E, ainda que com os recentes acontecimentos já melhor acostumado devesse estar a situações inesperadas, Shizuo realmente não sabia como devia lidar com o intruso pensamento de que aquela era, provavelmente, a primeira vez, desde que o conhecera, que via Izaya descaradamente mentir para si. Devia desmascará-lo? Gritar que aquele tipo de machucado nunca seria causado por quedas? Confrontá-lo? Provocá-lo dizendo que devia ter sido uma queda definitivamente exótica para machucar o pé esquerdo, a mão direita e o queixo? Os olhos castanho-avermelhados firmes estavam desafiando-o a retrucar ou aquilo que via neles era realmente um pouco de nervosismo e medo?
Outro cigarro foi aceso, ainda na brasa ardente do recém-terminado, e um longo trago foi puxado para dentro dos pulmões do homem mais forte de Ikebukuro, mas isso foi tudo o que ele fez.
Se por algum instante, nem que mínimo, Shizuo levou em consideração o quão injusto estava agindo ao ficar tão indignado com a mentira de Izaya sendo que ele mesmo havia mentido no dia anterior e sustentado a mesma mentira durante a manhã? Não, em instante algum ele pensou que Izaya poderia também ter seus motivos para não dizer a verdade. Em instante algum pensou que Izaya talvez contasse a verdade se também ele fosse sincero. E, inegavelmente, também em momento algum Shizuo pensou seriamente que a afirmação de que ele não "precisava se preocupar" fosse verdadeira e o que olhar receoso de Izaya pudesse realmente ser medo de ser desmascarado.
Tudo o que Shizuo fez foi fumar até o fim o segundo cigarro, acender outro, encarar feio Izaya, reclamar em voz alta que aquele era um domingo e que, portanto, teria que ficar em casa, e ligar a TV para assistir a qualquer coisa que estivesse passando só para que pudesse fingir sucesso em ignorar o rapaz ainda sentado à mesa. E mesmo que tenha espiado com o canto dos olhos quando Izaya levantou-se e começou a limpar a louça, que quase tenha se levantado para ajudar ao vê-lo mancar novamente, e que tenha pensado em sair do sofá quando Izaya acomodou-se tão próximo na almofada ao lado, em momento algum da manhã o homem mais forte de Ikebukuro fez nada além de fingir prestar atenção aos sucessivos programas que revezavam-se diante de seus olhos.
De toda forma, por algum motivo que não conseguia explicar, era contraditoriamente bem mais fácil não pensar em tudo o que tinha que pensar – em conversas com o irmão, em culpas ou em mentiras – quando Izaya estava rindo baixinho ao seu lado.
Por várias vezes, inegavelmente, a pergunta sobre a mentira insinuava-se para seus lábios, coçando a garganta como alergia, mas a lembrança do olhar castanho-avermelhado firme e a clara mensagem de Izaya sobre só falar sobre os machucados quando Shizuo falasse sobre o Natal eram o bastante para manter todos os questionamentos do guarda-costas apenas para si mesmo. E, no fim, por mais que realmente quisesse afastar a perna que Izaya em algum momento no meio de algum programa ruim pousou em seu colo desleixadamente e quisesse desviar do carinho displicente e meio avoado, quase como uma provocação, que o informante de vez em quando entregava a seus cabelos, as poucas horas dormidas durante a noite e a inegável satisfação por poder continuar fingindo que nada era um problema foram o bastante para pesar os olhos do homem mais forte de Ikebukuro num cochilo sem sonhos.
Quando acordou, a primeira impressão de Shizuo foi a de que horas haviam passado desde que adormecera. O corpo pesado, as costas doloridas, a boca amarga e a cabeça nublada: não fosse o sol a brilhar ainda intenso através da janela fechada e cortina aberta, ele teria certeza de que dormira a tarde toda naquele pequeno sofá de dois lugares. Por outro lado, contudo, a manta a cobrir suas pernas e a dor no braço sob seu corpo também não o deixaram acreditar que pouco tempo havia passado desde que adormecera. Algumas meia-horas talvez.
A TV, ainda ligada, reprisava um especial engraçadinho de Natal cuja reprise já havia visto com a família nos dias antes. E se o cheiro não denunciasse logo na primeira mais funda inspiração, a ausência de risinhos divertidos em direção à TV denunciaria com certeza o fato de que Izaya já não mais dividia consigo o sofá. Na verdade, depois de uma inspiração mais profunda e um espreguiçar exagerado e barulhento, Shizuo tive certeza de que tampouco no restante do apartamento o informante poderia ser encontrado.
Olhou ao redor mesmo assim, ainda que nada esperasse encontrar. O informante nunca fora, afinal, o tipo de pessoa que deixava para trás notas de esclarecimento.
Não encontrou nenhuma nota, como esperado, mas encontrou sobre o fogão uma panela cheia de água e sobre a pia alguns legumes.
Como reflexo correu os olhos para a soleira da porta e confirmou que nem o casaco nem a carteira de Izaya estavam por lá. As chaves ainda estavam, contudo, e, mesmo que um pouco bravo por perceber que o informante saíra sem elas, a deixar para trás o apartamento destrancado enquanto ele dormia no sofá, não pode evitar sentir-se um pouco aliviado ao concluir que Izaya provavelmente saíra não há muito tempo e com intenção de voltar logo. Teoria confirmada quando, ao tocar a panela, sentiu a água dentro dela ainda morna. Tinha certeza de que, se espantasse um pouco a preguiça e abrisse a geladeira, a encontraria vazia e com a mais absolutas das certezas poderia concluir que o desmemoriado informante apenas fora ao mercado.
Bocejou, espreguiçando-se novamente e cutucando um legume sobre a pia que tinha quase certeza ser uma abobrinha.
Ao menos a caminhada não era longa. Provavelmente não curta o bastante para ser indolor ao tornozelo enfaixado, mas, ainda assim, não longa o bastante para impedir o informante de prosseguir. De toda forma, já vira Izaya correr pela cidade com ferimentos bem mais graves do que os que no dia anterior encontra nele... E, sem sombra de dúvidas, se Izaya fora até o mercado ao invés de perturbá-lo para que fosse em seu lugar, os machucados provavelmente não eram assim tão sérios.
Sabia que logo mais ele estaria de volta, impregnando seu apartamento com cheiro de pulga e de comida caseira. Nada com o que precisasse se preocupar, portanto.
Muito mais preocupante eram as três chamadas perdidas de Kasuka, cinco de Shinra e oito de Celty que encontrou em seu celular quando ouviu-o apitar ao passar pelo quarto atrás de uma troca de roupa.
Mesmo assim ignorou todas elas, um bufar exasperado deixando seus lábios enquanto pescava no armário uma toalha limpa e um moletom que tinha certeza ter sido vestido por Izaya na sua ausência. Podia usar o sono desculpas e tentar convencer a si mesmo que retornaria as ligações quando saísse mais desperto do banho, mas a realidade era que não estava sequer minimamente inclinado a falar com nenhum dos três.
"Talvez com Shinra", foi o que concluiu enquanto a água quentinha batia em suas costas ensaboadas. Mas isso muito mais porque esperava arrancar dele alguma informação sobre os machucados de Izaya – talvez o informante o tivesse procurado para enfaixá-los, mesmo que pudesse fazer isso sozinho – do que por pensar que as cinco ligações dele e oito de sua noiva poderiam significar algum assunto urgente a ser tratado.
A calça do moletom já havia sido vestida e a toalha era esfregada descuidadamente nos cabelos descoloridos quando o cheiro de Izaya invadiu, forte e inconfundível, o pequeno apartamento.
Shizuo inspirou fundo, quase retirando todas as roupas para outro banho apenas para não precisar encarar de novo o informante, antes de com pressa vestir o blusão e ansioso puxar um cigarro do maço que deixara no bolso da calça jogada ao cesto junto a roupas negras dois números menores do que as suas.
Estava decidido a fumar no quarto, abrindo as janelas para que as reclamações de Izaya quanto ao cheiro não o ensurdecessem mais tarde, quando um barulho estranho chamou sua atenção.
As sobrancelhas castanho-claro franziram-se, confusas e o cigarro pendeu intocado enquanto até mesmo a respiração de Shizuo sustia-se, silenciosa.
Móveis arrastados. Gavetas abrindo. Um resmungo dolorido. Algo pesado caindo ao chão. Água corrente. Outro resmungo. E então o sutil som de um suspiro.
Shizuo alcançou a sala, com o coração acelerado e os olhos bem arregalados, a tempo de ver os lábios de Izaya ainda separados pelo suspiro desconfortável.
E foi, então, a vez do homem mais forte de Ikebukuro de separar os lábios.
A mesa da cozinha parecia uma zona de guerra. Torta, tirada do canto até quase tapar o caminho para a porta, os pés parecendo a qualquer momento dispostos a ceder, a superfície coberta de pequenas caixas, comprimidos e frascos que, se não se enganava, da última vez que checara estavam muito bem organizadinhos dentro de umas das gavetas que agora jazia sobre a pia, largada em cima de um legume esmagado. A panela, antes ainda quentinha sobre o fogão, fazia companhia a uma faca de cozinha e a um pano de prato no chão inundado em água morna. Água morna que, mesmo que translúcida, um pouquinho manchava-se de um vermelho intenso, espesso.
Onde a água não podia alcançar, o vermelho pintava ainda mais colorido o chão. Um pequeno caminho de gotinhas que estendia-se do finzinho da cozinha, através da pequena saleta, até o pequeno sofá de dois lugares, ao pé do qual os pingos vermelhos uma pequena poça formavam.
Engoliu em seco, piscando firme antes de traçar o caminho contrário das gotinhas rubras.
A primeira coisa que encontrou, como se chamado por eles, foram os olhos que tão vermelhos quanto as gotinhas, abertos ao máximo como se pegos em uma travessura muito grande, brilhavam surpresos. Só depois de encará-los até que eles dos seus olhos desviassem, desceu a atenção ao par de mãos imediatamente abaixo deles, que tão pequenas pareciam perto do imenso pano outrora branco cobriam o rosto do rapaz sentado no sofá de dois lugares.
Piscou algumas vezes, bem rapidinho. Os lábios fechando-se secos e a língua umedecendo-os ansiosa.
Aproximou-se devagar, inicialmente, como se tivesse medo de assustar o rapaz trêmulo no sofá. Depois correu até ele, unindo suas próprias mãos às dele e apertando com mais força do que o necessário o pano enrubescido.
Um gemido baixinho obrigou-o a novamente afastar-se e, assim afastado, em desespero que normalmente não sentia correu os olhos do pano molhado em sangue até as gotinhas vermelhas no chão.
A faixa branca no pulso continuava ali, assim como continuava a faixa no tornozelo. Mas, mesmo que elas parecessem, até poucas horas atrás, o bastante para cobrir todos os machucados do corpo de Orihara Izaya, agora não mais pareciam bastar. Um ralado feio no antebraço descoberto pela camiseta negra arregaçada até o cotovelo, um rasgo na calça negra na altura do joelho esquerdo, o estranho ângulo do osso pulso direito e o pano cada vez mais sujo sobre o rosto de expressão dolorida: as duas faixas branquinhas definitivamente já pareciam mais o bastante para conter os machucados do informante.
– Izaya... – chamou-o baixinho, a voz rasgando através de sua garganta.
Os dois olhos castanho-rubro fitaram os seus por alguns segundinhos antes de desviarem-se novamente. O impulso de perguntar o que acontecera tocou sua língua, mas, talvez por saber que Izaya nada diria talvez por desesperadamente sentir que isso não era o mais importante, engoliu-o de volta, deixando-o pousar desconfortável no fundo de seu estômago, decidido a, antes de mais nada, limpar e medicar o rapaz a sua frente.
Com menos suavidade do que pretendia, afastou o braço machucado para longe do pano a cobrir o rosto sangrento e sem hesitação alguma rasgou o tecido na altura do ombro. Izaya limitou-se a um pulinho assustado, mas em momento algum reclamou por ter sua blusa arruinada. Analisou com cuidado o corte antes de levantar-se, caminhar rapidamente até a cozinha e de lá voltar com uma bacia com água, alguns chumaços de algodão, algumas faixas de gaze e um antisséptico.
O informante gemeu baixinho quando esfregou a ferida para limpá-la, mas permaneceu quietinho enquanto checava se precisava de pontos e aplicava a medicação.
Felizmente não era um machucado feio. Apenas, realmente, um arranhão. Encarou o rosto que o encarava de volta, analisando com evidente curiosidade todo seu trabalho de limpeza, antes de optar por não enfaixar.
— Não fica mexendo. Melhor deixar respirar pra cicatrizar mais rápido. – resmungou, ganhando um aceno afirmativo como resposta.
Ouviu um gemidinho baixinho quando levantou-se para trocar a água na bacia. Mas não se deu ao trabalhou de virar-se em busca do motivo. Tinha a impressão de que se falasse, mesmo que a mais mínima das palavras, não conseguiria ir até o fim. A sensação, ainda que por princípio devesse ser parecida, não era sequer minimamente semelhante ao que sentira quando ajudara o febril Izaya há um tempo que parecia longínquo demais para ser real. Desta vez, alguma coisa fervia em suas veias, uma raiva que não sabia explicar de onde vinha mas que, se não cuidasse, se se distraísse, seria todinha jogada em cima do rapaz que tentava ajudar.
Já tinha entre as mãos o tecido grosso da calça jeans negra, novamente ajoelhado diante do informante, quando ouviu pela primeira a voz dele:
— Shizu-chan... – a voz era baixinha, receosa como pouquíssimas vezes a havia ouvido, abafada pelo pano ainda a cobrir seu rosto – eu tiro. Não rasga minha calça.
Afastou ambas as mãos, fitando ansioso o botão da calça a espera de que ele se abrisse. Como nada aconteceu, contudo, desviou, impaciente, o olhar até o rosto do informante.
— Shizu-chan... na verdade... você...
Por mais inadequado que fosse, um nasalado risinho escapou do homem mais forte de Ikebukuro, aliviando um pouquinho da estranha raiva que sentia. Izaya realmente devia estar bastante machucado para pedir, envergonhado, para que tirasse suas calças. O informante que nunca perdia a chance de provocá-lo e nunca perdia o sorriso ao pedir para ter as calças despidas gaguejando baixinho era o bastante para fazer com que as mãos cheias de calos do guarda-costas deixassem de tremer um pouco.
— Bizarro... Talvez eu devesse checar também sua cabeça, pulga, deve ter algo de errado com ela.
Não deu chance à Izaya de rebater sua provocação antes de iça-lo com uma das mãos do sofá, mantendo-o sustido enquanto a outra mão habilidosamente desabotoava a calça e a deslizava pelas pernas brancas demais, agora levemente arrepiadas.
Por um momento, pensou se deveria buscar no quarto um cobertor. Ao perceber, contudo, a quantidade de sangue que por causa do movimento brusco começara a escapar do joelho já ensanguentado, decidiu que isso poderia esperar.
Água, limpeza, antisséptico: o mesmo processo de antes repetiu-se. E, ainda que o machucado, depois de limpo, tenha se revelado um pouquinho pior do que o anterior, tudo o que Shizuo fez foi buscar na caixa de primeiros-socorros uma pomada cicatrizante e espalhá-la primeiro no machucado, depois na faixa de gaze que em seguida o cobriu.
Aquele machucado no joelho, pensou ao terminar, pelo menos era um que poderia ser justificado como resultado de uma queda. O único.
Alongou levemente as pernas ao levantar-se e apressado buscou no quarto um cobertor quentinho.
Izaya encolheu-se e aconchegou-se nele quando o passou por seus ombros.
— E esse rosto? – perguntou, sentando-se ao lado do informante no sofá e pousando sobre o colo a bacia com água recém-trocada.
— Meu nariz. – resmungou o informante, afastando um pouco a mão do rosto, ainda sem descobri-lo.
— Quebrou?
— Não quebrou, eu acho. Cortou. Sangrou bastante.
— É nariz, né?! Sangra. – esperou que o informante afastasse o pano do rosto, como, contudo, desviando os olhos dos seus novamente, Izaya não deu indícios de que faria isso, segurou a mão suja de sangue e afastou-a devagar – Deixa eu ver.
Apesar do sangue, que manchava de vermelho tudo abaixo das narinas, o nariz realmente não parecia quebrado. Mesmo assim, quando com o algodão embebecido em água o limpou, aplicou mais força do que o necessário apenas para checar se Izaya reclamaria ou não de dor. Não reclamou. Reclamou da falta de cuidado, reclamou da água gelada e choramingou para o quão vermelha a água ficava a cada vez que um algodão sujo de sangue era largado nela, mas de dor não reclamou em momento algum. O que, inegavelmente, era uma coisa boa.
— Parece que não quebrou. Quer ver Shinra amanhã? Como tá seu pulso? – os olhos castanhos-mel correram rapidamente pela cozinha antes de despejar na pia o conteúdo da bacia. Não tinha intenção alguma de limpá-la naquele dia, mas os mais de 60 segundos que demorou para achar um comprimido para dor na bagunça o fez pensar que talvez devesse fazê-lo. Sentou-se novamente no sofá, oferecendo o comprimido e um copo com água, bem no momento em que Izaya agitava o pulso.
— Não precisa. Acho que torci só. Amanhã já vai estar melhor.
Ouviu Izaya remexer-se no sofá enquanto pousava com cuidado o copo vazio no chão, longe de seus pés para que nele não tropeçasse ao levantar-se, e, quando recostou-se novamente, não surpreendeu-se sequer minimamente ao sentir o informante deslizar para seu colo. Um pouco desajeitado, a cabeça pendendo sobre seu peito e as pernas esticadas descobertas, escapulindo para fora do sofá pequeno. Remexeu-se, abrindo os braços com cuidado e girando o corpo para recebê-lo melhor.
— Dói mais alguma coisa?
— Não... – a voz era sonolenta, quase um sussurro – Mas eu não recusaria aquele beijinho para sarar mais rápido. – os olhos castanhos-mel se retorceram para a voz melosa, mas se arregalaram quando uma mão terrivelmente arranhada foi colocada diante de seus olhos.
— Oe! Esquecemos essa...
— Quê? Ah... isso... – o informante deu de ombros, aconchegando-se mais a seu corpo – Depois a gente vê isso...
Bufou alto, mas resignou-se a não contrariar o informante. Não naquela hora. Não quando ele estava tão confortável em seus braços. Se tivesse que admitir, também não queria se levantar para limpar aqueles arranhões naquele momento.
Sentia-se bobo por isso, mas não podia evitar o alívio ao sentir Izaya tão seguro, ao alcance dos seus braços.
Apertou, por fim, mais firme Izaya em seu abraço, ouvindo dele um resmungo de reclamação pela força, e, involuntariamente, sem poder sequer pensar em se parar, pousou um estalado beijo no topo dos cabelos negros e outro na têmpora direta do rosto cheirando pomada.
Um suspiro surpreso inundou a pequena salinha-corredor enquanto o informante entrelaçava os dedos aos seus, apertando novamente o abraço.
— Nenhum beijo foi nos machucados, Shizu-chan...
— Cala a boca, pulga.
— Calo... mas é verdade. Tô decepcionado. Tenta melhor da próxima vez, tudo bem?! – um estalar deixou os lábios do homem mais forte de Ikebukuro, mas ele nada mais fez – Tá com fome?
— Não... você?
— Também não...
— Quer pedir? – sugeriu, a ideia de cozinhar no caos que se tornara a cozinha parecendo impossível o bastante para que até mesmo mais generoso com o gasto de seu sofrido salário se dispusesse a ser.
— Hm... sim... não consegui chegar no mercado...
Shizuo engoliu em seco, afrouxando o aperto dos braços e remexendo-se desconfortável.
— Pulga... – começou, sentindo-se estúpido por hesitar tanto – Oe, Izaya. – limpou a garganta, estalando os lábios ao ouvir um baixinho "hm?" deixar Izaya – Vai me contar agora o que aconteceu?
O silêncio de Izaya, que estendeu-se pelo que Shizuo podia julgar horas, era o bastante para que o homem mais forte de Ikebukuro entendesse que não teria sua resposta. Mesmo assim, a confirmação veio, maliciosa e divertida, quase suculenta, na voz do que suspostamente era o informante mais temido de todo o distrito:
— Você vai me contar o que aconteceu com você, então, Shizu-chan?
Bufou, mesmo que provavelmente não estivesse assim tão irritado quando soara.
— Teimoso pra caralho. – resmungou, estreitando outra vez o abraço quando um riso alto, travesso, deixou os lábios de Izaya.
— Eu? Tá bom, Shizu-chan... Eu!
— Oe, pulga... – recomeçou, quebrando o silêncio, agora estranhamente confortável, que havia se aconchegado junto a eles no sofá – Izaya! – insistiu, assoprando o cabelo negro até arrancar de Izaya uma resposta de atenção – Suas calças já estavam rasgadas, sabia?
— Que calç-? Ah! – uma gargalhada ressoou pelo apartamento, retumbando também dentro do peito do homem mais forte de Ikebukuro – E você diz isso agora... No fundo você estava com saudade de ver meu bumbum, então, né, Shizu-chan?
— Cala a boca, pulga. – riu para o informante, assoprando uma última vez os fios negros.
— Cala a boca você, Shizu-chan.
Naquela tarde, a modesta marmita entregue por algum restaurante qualquer da região foi comido, em silêncio, no sofá da sala.
E também no sofá apertado da sala o restante do dia foi passado. Ora com olhos atentos na TV, ora em algum cochilo meio desengonçado, ora em algum tipo de conversa estranha.
Somente no fim do dia, quando o sol há bastante tempo já havia se posto, os dois rapazes de lá saíram. Ainda juntos. Um com o cobertor enrolado ao corpo resmungando que não queria banho. Outro com o nariz dramaticamente tapado pelas mãos resmungando sobre cheiros de pulgas.
E, a partir de então, nenhum dos dois voltou ao sofá.
Um com a desculpa de que não queria dormir sozinho, o outro com a desculpas de que tinha que manter a compressa fria no lugar: os dois rapazes dividiram, naquela noite, os mesmos lençóis e alguns pares de beijos.
Um deles dormiu tão rápido que arrancou, pela primeira vez no dia, um riso alto do outro.
O outro demorou a dormir, as mãos deslizando sem pressa pelos fios negros, os olhos presos no rosto machucado adormecido.
Era quase manhã quando finalmente pegou no sono, uma das mãos ainda presa aos fios lisos, a outra apertando tão firme o aparelho celular que quase o trincava.
"Kasuka... Tudo bem se eu ficar com ele se ele precisar?", era a mensagem que, poucas horas depois, o filho mais novo da família Heiwajima leria, com os olhos piscando sonolentos, na mensagem assinada por seu irmão mais velho.
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