(in) esquecível

34 Sobre como você era uma história mal contada


Notas iniciais
Olá, olá, gente!!!! *.* Tudo sucesso? Mil desculpas pelo atraso, eu planejava postar semana passada, mas não consegui terminar o capítulo a tempo por motivos que, se quiser, pode ler nas notas finais. =) Também pelos mesmos motivos, não consegui responder a todos os comentários antes de fazer a postagem (porque não queria que o capítulo passasse de domingo pra não quebrar tanto assim o esquema de postagem), mas vou responder tudo logo que terminar de postar este capítulo e continuarei até amanhã se não conseguir terminar tudo hoje! *.* Mas li todos os comentário e putzgrila, eles me deixaram feliz pra caramba e animadona pra escrever! Obrigada por eles! Ah! É importante dizer que esse capítulo faz um monte de referências ao capítulo 13, então, se vocês estiver com um tempinho extra, aconselho a reler o 13 antes de ler esse. Se não tiver tempinho extra, o capítulo 13 é aquele no qual Shizuo encontra Izaya apanhando na praça, desarmado e sangrando, e entra na luta pra defender ele (e pisa na mãozinha dele! nunca superarei!). Enfim... espero que goste!!!!! E, caso queira, a música "Meadows", Wild Child, vai bem com a leitura! =) Nos vemos nas notas finais?



Sobre como você era uma história mal contada

Heiwajima Shizuo sabia que estava sendo contraditório. Bufando alto pelo distrito, encarando feio as costas de Tom, consultando o relógio com quase tanta frequência quanto mudavam os ponteiros, fumando cigarro atrás de cigarro em tragos profundos, pisando duro o chão: Shizuo sabia, sabia perfeitamente bem, que cada uma de suas ações não se encaixava como devia. Não quando há menos de vinte e quatro horas tudo o que mais desejava era estar exatamente onde agora estava.

A liberdade de andar livremente por Ikebukuro com o amigo a frente e uma lista de devedores a serem visitados no bolso da calça social: no dia anterior, tudo teria dado pela chance de afastar-se do pequeno apartamento. Quase ainda podia ouvir-se, reclamações sonoras, lamentando não poder sair. Quase podia ver-se, largado no sofá, cenho crispado em desagrado.

Lá estava, contudo, tão poucas horas depois, apertando os dedos nas palmas das mãos e os dentes uns aos outros, desejando fervorosamente que seu relógio girasse mais rápido pelas quatro horas que fora pedido para trabalhar.

Uma contradição perfeita, Shizuo sabia.

Contradição que, entretanto, Tom sequer podia imaginar.

Quando ligou para seu guarda-costas no comecinho do dia para avisar que de última hora surgira uma cobrança urgente e que, apesar de ter no fim da semana anterior dito que a segunda-feira seria livre, precisaria de ajuda porque era um caso sério, Tom não tinha ideia do quão difícil seria para Shizuo sair da cama e deixar para trás um adormecido e machucado Orihara Izara. Ele notou, claro, no momento no qual cruzou olhares com ele, que havia algo de estranho em Shizuo, mas, ainda assim, não tinha ideia da gravidade das inquietações que atormentavam o homem mais forte de Ikebukuro.

De início, pensou somente que ele estava estranhamente quieto. De um silêncio diferente do silêncio normal.

Não silencioso como quem não conversa. Não o silêncio quieto que só se quebra para um rugido contra um devedor ou um resmungo sobre fome. Não. Naquela manhã de segunda-feira nublada, o silêncio de Shizuo era um silêncio que nem mesmo Tom, que o conhecia mesmo de ele tornar-se quem era, já ouvira.

Shizuo resmungava. Bastante. E bufava. E estalava os dedos e os lábios. E às vezes riscava o isqueiro sem nem ao menos ter nos lábios um cigarro. Mas, apesar disso, apesar de claramente incomodado e definitivamente tão ansioso que mal conseguia manter nos bolsos do casaco as mãos, Shizuo nada dizia, perpetuando o silêncio mais barulhento que Tom já ouvira.

Tom podia ter perguntado. Absolutamente poderia ter perguntado o que havia de errado. Mas há meses o cobrador aprendera que apenas uma pessoa no mundo era capaz de deixar Heiwajima Shizuo inquieto daquela forma. E aprendera, também, que exatamente por essa pessoa ser Orihara Izaya, nada sobre ela deveria ser dito. A não ser, claro, que Shizuo decidisse algo dizer, o que ele não parecia sequer minimamente disposto a fazer.

Não que Tom pudesse exigir algo dele. Também estava, afinal, escondendo bem escondidinho uma porção de segredos naquela manhã.

E não que Shizuo, ao encontrar o olhar gentil e cansado do homem que há tantos anos havia se tornado seu amigo e que tanta fé em si desde sempre depositava, não tenha pensado em contar tudo. Pensou. Pensou em dizer que Izaya estava machucado. Pensou em dizer que Izaya estava escondendo a razão por trás de suas feridas. Pensou em dizer que estava preocupado. Pensou até mesmo em contar o que ouvira de Kasuka e o desastre que fora seu Natal. Mas, no fim, o que Tom poderia fazer? Que tipo de conselhos poderia dar? E, mais do que isso, que tipo de conselhos ele mesmo, Shizuo, gostaria de receber?

Manter-se calado era a melhor opção.

Não precisava de mais pessoas pensando sobre seus problemas. Não precisava ter mais gente preocupada. E não precisava, definitivamente não, ver o olhar compreensivo de Tom tornar-se decepcionado enquanto ouvia que ele não só havia dormido com um desmemoriado Izaya, como também, mesmo depois e apesar de saber disso, havia novamente dividido com ele os mesmos lençóis e mesmos beijos.

Isso não suportaria. Bastava que Kasuka o olhasse com nojo. Ver no rosto simpático do melhor amigo o mesmo olhar não era coisa com a qual conseguiria lidar. Não naquele momento, ao menos.

Bufou alto, lançando primeiro a Tom, depois ao relógio do celular, um olhar ansioso.

Duas horas e meia já se haviam passado desde que começara a trabalhar. Duas horas e meia.

Já estava exausto, e ainda nem sequer haviam encontrado o tal devedor cujo nome e o valor da dívida desconhecia, mas que torcia bastante preocupado o cenho de Tom e que até mesmo o levara a antecipar o retorno ao trabalho. Os poucos devedores que encontrara, entretanto, deixavam-no pensar que seu dia não poderia ficar mais cansativo.

Podia ver no rosto de Tom a repreensão por estar sendo demasiadamente rude durante as cobranças. E confessava que provavelmente estava indo longe demais nos rosnados e nas ameaças. Mas, ainda assim, nada podia fazer para impedir-se de estalar irritado os dedos a cada vez que ouvia um pedido de extensão de prazo para pagamento.

Começos de ano sempre eram difíceis, ele sabia. Tantas dívidas deixadas pelos gastos de fim de ano, tantas que nem mesmo as bonificações extras no trabalho eram capazes de quitar, faziam o trabalho mais difícil do que o era durante o restante do ano. Mas, por mais que soubesse bem que sua função era apenas impedir que agissem de forma violenta com Tom e diminuir as recusas com sua reputação e carranca, não podia evitar que dentro de si crescesse a urgência por enterrar os punhos em algo.

Coisa que, de fato, há menos de cinco minutos chegara bem perto, bem pertinho, de fazer.

E coisa que levou Tom, mesmo que já tivesse o cenho bastante franzido em preocupação, a apertar ainda mais firme a testa, suspirar fundo e, como sempre fazia quando Shizuo chegava à beira do descontrole, reduzir o passo, encarando de soslaio o guarda-costas e forçando-o a meter outra vez nos bolsos as mãos e regularizar a respiração com uma caminhada lenta.

Seria o momento perfeito para um cigarro. Outro. E já o tinha nos lábios, os dedos rolando despreocupados pelo isqueiro, quando a voz cansada, um pouco rouca, o parou:

— Quer parar um pouco, Shizuo?

As sobrancelhas castanho-claro levantaram-se surpresas, o cigarro pendendo apagado entre o dedo indicador e médio do homem mais forte de Ikebukuro.

Estava, sim, acostumado às reduções de ritmo a toda vez que se descontrolava. Uma pausa, contanto, era coisa que Tom nunca propunha. Não durante manhãs, ao menos. Propunha-as, ainda que raramente, à tarde, quando o cansaço e alguma cobrança com desfecho ruim arrancavam toda a disposição do cobrador. Mas as manhãs eram sempre empenhadas e ininterruptas até o horário do almoço.

Consultou o relógio. Ainda que não tivessem encontrado o devedor teoricamente complicado, provavelmente não trabalhariam muito mais. Mais uma hora, mais ou menos, pelo cronograma que Tom o passara durante a manhã. Só uma hora.

Fitou intrigado as costas do amigo, assistindo-o gingar preguiçosamente em direção à uma cafeteria.

— Tom! – chamou, a voz soando mais alta do que planejava, arrancando olhares amedrontados das pessoas que apressadas passavam a seu lado – Prefiro não parar.

Quando virou-se em sua direção, Tom tinha as sobrancelhas tão franzidas que quase se juntavam, os olhos apertadinhos abaixo delas.

— Você está se sentindo bem, Shizuo?

— Por quê? – apertou também os olhos, recuando um passo.

— Não quer parar? Parece cansado. Tudo bem parar um pouco.

Shizuo apertou um pouco mais o cenho, sondando. Diferente de como faziam seus próprios olhos, entretanto, os de Tom não pareciam cerrarem-se em desconfiança ou armarem-se defensivos. Precisou, contudo, de mais algum tempo para entender que o olhar tão intenso e as sobrancelhas tão franzidas eram preocupação, apenas, sem nenhuma segunda intenção.

Um suspiro baixinho deixou os lábios do homem mais forte de Ikebukuro e devagar suas sobrancelhas e seus olhos se suavizavam.

— Só quero ir logo pra casa. – sentenciou.

Tom fitou-o longo, piscando confuso, antes de ceder, relaxando o olhar e deixando um riso anasalado escapar ao sussurrar "eu também quero".

— Mas tem certeza que tá tudo bem? – insistiu, e, ainda que desta vez mais tranquilos estivessem os olhos castanho-escuros, Shizuo ainda pôde perceber neles um pouco de preocupação. Poderia ter mentido, claro. Tom não insistiria caso dissesse "está tudo bem", deixando-o quieto sem insistir. E planejava fazer isso. Antes que pudesse se conter, contudo, viu rasgar de sua garganta um "Não" e, mesmo sem saber exatamente o quanto queria contar, continuou:

— Izaya se machucou feio ontem. Bem feio... Não fui eu! – apressou-se em acrescentar, parcialmente irritado com a acusação silenciosa no olhar de Tom – Ele chegou em casa assim. Não sei nem de onde chegou. Nem como ele ficou assim. Ele não me conta porcaria nenhuma, aquele merda. Fica de brincadeirinhas e sendo a pulga insuportável que é só para não dizer nada. – inspirou fundo, sentindo raiva preencher seus pulmões a cada palavra – Me fez cuidar dele, mas não disse porra nenhuma. Queria ter quebrado a cara dele, pulga de merda.

— Mas não quebrou.

— Ele já estava todo quebrado. Só... Ele já estava machucado demais. Não estava tão ruim quanto parecia, mas mesmo assim... E quando eu saí hoje ele ainda estava dormindo. Mas ele nunca está dormindo quando eu saio. Que merda!

Os olhos castanhos-mel correram outra vez, ansiosos, para o relógio no celular, mas talvez não o tivessem feito se vissem o olhar chocado que Tom lançava em sua direção. Com os olhos bem fixos nos números pequenos e na ausência de mensagens novas, também perdeu a hora que os lábios de seu empregador se separaram, como se algo fossem dizer, antes de cerrarem-se, novamente silenciosos. Talvez se tivesse percebido tudo isso, não teria respondido com um "é" tão enfático quanto Tom, com a voz estranhamente baixa e o timbre levemente culpado, disse que então deviam terminar logo o trabalho e irem para casa.

Nada mais foi dito até a despedida. No fim, o devedor que o havia tirado da cama durante a manhã e tão complicado deveria ser nem ao menos estava em casa. Voltariam no dia seguinte, mas algo no rosto de Tom gritava que ele não estava satisfeito com o rumo daquela cobrança. Shizuo controlou o impulso de perguntar qual a quantia emprestada e quem era o devedor que fazia Tom tão desconfortável, mas nada disse além do "até amanhã" em resposta ao aceno que o amigo a ele direcionou ao deixá-lo em frente a um restaurante.

Pouco havia passado do meio-dia. Sem a cobrança complicada, o trabalho acabara antes do previsto. Mas, por mais que tivesse tempo sobrando e por mais que Tom tivesse parecido consideravelmente ansioso e inquieto ao chamá-lo para juntar-se a ele no almoço, negou o convite, pondo-se a caminhar.

O pequeno mercado de bairro não ficava longe da estação de metrô onde estava. Algo entre ela e sua casa. Nada fora do caminho. Nada que fosse difícil atravessar a pé.

Foi uma caminhada apressada, sem longas reflexões, sem nada além de uma ou outra olhada preocupada na tela do celular e a constante tentativa de não pensar sobre a ausência de respostas do irmão à sua mensagem do dia anterior (agora marcada como lida) e o desconforto por ter declinado do convite de Tom apenas porque sabia que, caso o fizesse, Izaya ficaria sem almoço.

Não que planejasse cozinhar para Izaya. Definitivamente não iria cozinhar. Mas passar no mercadinho e comprar um par de marmitinhas prontas era, inegavelmente, também algo que deixava nele uma sensação estranha no peito.

A compra foi rápida. Alguns onigiris, uma salada – para Izaya, sem dúvidas –, alguns filezinhos de peixe grelhado e dois pares de pudins – para ele mesmo, desta vez. Encarou as sopas por uns instantes, torcendo os lábios para o frio que fazia do lado de fora, mas decidiu por fazer um missoshiro rápido quando chegasse em casa, ao invés de gastar tanto a mais em água temperada.

Shizuo só não esperava que, inacreditavelmente, ao fim das compras, fosse carregar em sua sacola tanto mais do que havia decidido comprar. Inclusive a tal sopa fora de seu orçamento.

Tudo começou bastante sutil. Um cumprimento caloroso quando entrou na loja, uns olhares curiosos enquanto escolhia as compras, um sorriso pequeninho quando colocou os pudins na cestinha e um sorrisinho solícito quando se postou ao fim da fila do caixa. Não era nada demais, mesmo que fosse um tipo de reação bastante diferente da que normalmente costumavam dirigir a si. Foi só quando pousou a cestinha no caixa, depois de encarar uma espera considerável, que Shizuo percebeu com certeza inquestionável que havia algo de errado na recepção calorosa daquele mercadinho.

— Boa tarde, Heiwajima-san. Como foi seu Natal?

O sorriso da senhora no caixa era muito grande e os olhos dela muito curiosos. E, ainda que já tivesse tantas vezes ido até aquele mercado, duvidava que os motivos para isso fossem a sua assiduidade como cliente e a simpatia que demostrava a cada vez que ia até lá.

Franziu o cenho para ela, resmungando um inadequado "sim" à pergunta e calando-se, desconcertado. Mesmo quando era pequeno, não se lembrava de ter sido tratado com tanta familiaridade por estranhos.

— Ah, não! Esse não é bom, Heiwajima. – a senhora sorriu, apontando para os onigiris embaladinhos agora sobre o balcão – Não são tão frescos. Makoto, – gritou para dentro da loja, arrancando de Shizuo um surpreso arregalar de olhos – traz aqui aqueles onigiris bons. Dois de salmão, dois de umeboshi, dois de peixe seco e dois de ovo. Rápido! E traz aquela sopa nova que chegou hoje. – os olhos doces e calorosos voltaram-se outra vez para o conteúdo sobre o balcão e, lentamente, os cabelos brancos quase prateados revolveram-se em uma negativa – Ah, não! Você não achou seu favorito? Makoto, traz também aqueles pudins. – voltou a gritar para o fim da loja, onde um rapazinho equilibrava alguns bolinhos de arroz sobre um potinho de sopa. Ele parecia confuso com a ordem, o que levou a senhora a outra vez elevar a voz de uma maneira admirável para alguém de sua idade – Os pudins favoritos do Shizu-chan-san. Tá se fazendo de sonso, moleque?

O rapaz arregalou os olhos e tremeu um pouco, num gesto que Shizuo reconhecia bem como uma reação natural a sua presença, mas isso não o impediu de caminhar até o caixa, um minuto depois, com uma porção de onigiris, sopa e seus pudins favoritos nos braços. Fitou-o confuso, assistindo-o tremer um pouco mais antes de curvar-se e afastar-se. Se não fosse a estranheza de perceber que um completo desconhecido sabia qual seu sabor de pudim favorito, Shizuo talvez tivesse percebido o apelido pelo qual fora chamado.

Mas não percebeu.

Foi sem desconfiar de nada, portanto, que, enquanto ainda encarava de sobrancelhas franzidas as costas do rapaz que se afastava rapidinho, outra vez a voz levemente rouca da senhora no caixa chamou sua atenção:

— Como está nosso menino?

Os olhos castanho-mel hesitaram um instante, correndo do rosto simpático até as costas do rapaz que se afastava, questionando-se brevemente se a senhora estava consultando-o sobre os serviços do tal rapaz Makoto. Havia algo nas sobrancelhas brancas contraídas em latente preocupação que não o permitiu pensar assim por muito tempo, contudo.

— Ele ficou tão mal depois de tudo... Tão preocupadinho e machucadinho. Não sei como tiveram coragem de fazer aquela maldade com ele! Makoto quis chamar a polícia, mas nosso menino não quis porque ia assustar os clientes... Ikebukuro não é mais a mesma, né?!

Um arrepio gelado percorreu as costas de Shizuo, correndo frio até gelar congelada sua nuca, enquanto os olhos castanhos-mel levemente franzidos abriram-se enormes. Com os olhos assim enormes, encarou o rosto preocupado da senhora no caixa, o coração disparado e um ofego preso na garganta.

Ela estava falando de Izaya!

— Pulga? – sussurrou, tão baixinho que, de rabo de olho, pôde ver as pessoas na fila do caixa inclinarem-se em sua direção.

Inicialmente, a senhorinha também inclinou-se, o ouvido direito voltado para seu lábios como se pedindo para que repetisse. No segundo seguinte, contudo, compreensão preencheu os olhos negros cercados por rugas, e um riso sonoro escapou dos lábios finos cobertos por um batonzinho suave.

— Ele bem disse que você chama ele disso! Que graça! Ele é bem animadinho mesmo, né?! Uma pulguinha! – riu outra vez, e Shizuo, ainda que incapaz de processar o tipo de conversa estava travando com aquela senhora no caixa do mercado, não conseguiu se impedir de perguntar qual era a relação entre ela e Izaya e por que ela dedicava a ele tantos diminutivos. Quando o riso findou-se, contudo, o rosto gentil voltou a assumir traços de preocupação – Ele está melhor agora? Falou que vinha aqui ontem mas não veio. Tá descansando?

Shizuo não fazia ideia de qual expressão tomou seu rosto ao ouvir a pergunta, mas não teve dúvidas de que foi uma bastante ruim. Nada além disso, afinal, traria a mão da senhora do caixa para cima da sua em um carinho reconfortante. Não era como se ele planejasse fazer algum tipo de cara, nem era como se o estado de Izaya estivesse não ruim que precisasse ser reconfortado por uma velhinha no mercado, mas talvez o desconforto que sentiu ao perceber que aquela senhorinha parecia saber de tudo o que Izaya durante o dia anterior vinha escondendo tenha transparecido tão intenso em seu rosto que até mesmo digno de carinhos pareceu.

— Não se preocupe, Shizuo, vai ficar tudo bem. Ele é um rapaz forte, não é?!

Não se importou em ser chamado pelo nome. Nem se importou quando mais um carinho foi entregue em sua mão. Aquele carinho tão desinteressado e suave, afinal, lembrava-o tanto o carinho de Heiwajima Namiko, e ele estava tão inegavelmente confuso por perceber que aquela estranha sabia de algo sobre Izaya que ele, Shizuo, quem cuidou das feridas e dividiu cobertor, não sabia, que não poderia se importar com carinhos ou nomes nem se quisesse.

— Ele não quer me contar o que aconteceu. – resmungou, entredentes, antes de poder segurar a língua.

O sorriso gentil tremulou por um tempo no rosto da velha antes que os lábios finos fossem tapados por um par de mãos enrugadas.

— Ai, céus! Eu não devia dizer nada... – a voz dela abaixou dois tons, abafada pelos dedos pequenos – Desculpa... Não posso dizer! Eu não devia ter dito nada! – os olhos negros abaixaram-se ressentidos enquanto rapidinho as mãos soltavam os lábios para enfiar com mais velocidade do que o esperado todos os produtos dentro de uma sacolinha – Ele me disse pra não dizer nada... – sussurrou baixinho, mais para si mesma do que para Shizuo ou as outras dezenas de ouvidos curiosos.

Os dedos de Shizuo resvalaram de leve por seu bolso, apertando de leve o isqueiro ali. E, na mesma velocidade em se cerrava apertado o cenho, a mandíbula do homem mais forte de Ikebukuro trincou-se em uma mordida.

Por mais que um breve sussurro, havia ouvido bem o que havia dito a velhinha.

Izaya pedira para que ela não contasse nada!

Izaya havia se machucado, aquela senhora sabia como, sabia porquê, sabia onde, e não contaria nada!

Não contaria nada a pedido de Izaya!

Shizuo só percebeu o quão errática tornara-se sua respiração e quão trêmulo fizera-se seu corpo quando seu punho bateu, estalado e pesado, no balcão de alumínio, deixando nele marca profunda. Dedicou a marca nem meio segundo de atenção, contudo, antes de apertar com força os olhos e os lábios, recuando um passo e esmagando o isqueiro dentro do bolso, um palavrão escapando alto e rude de sua garganta.

Não queria se descontrolar. Ninguém ali tinha culpa de nada. Ninguém tinha culpa que Izaya era um filho da puta e ninguém tinha culpa de que seu dia estivesse sendo um dia de merda. Mesmo assim, mesmo que repetindo a si mesmo tudo isso, se alguém tivesse se movido nem que um centímetro sequer, se alguém, qualquer pessoa, naquele mercado tivesse se aproximado ou se afastado, Shizuo provavelmente teria perdido todo o pouco, quase ínfimo, controle que nele restava.

Ninguém se aproximou, contudo. Nem a senhorinha de olhos surpresos nem todos os outros curiosos de respiração sustida. E, com o ar entrando em seus pulmões a cada ofego e o cheiro estranhamente reconfortante de fluido de isqueiro cercando-o, Shizuo, ainda que devagar, tranquilizou-se o bastante para olhar no visor da caixa registradora o valor da sua comprar, arrancar da carteira o dinheiro e jogá-lo sobre o balcão antes de enrolar com força a sacola de compras no punho e sair do mercado.

O caminho até o apartamento nem foi sentido. Não fosse pelo peso da sacolinha em suas mãos e a respiração ofegante lembrando-o constantemente, Shizuo não se julgaria nem mesmo capaz de permanecer lúcido o bastante para manter a própria raiva direcionada. Só elas – a sacolinha e a respiração – impediram-no de parar em qualquer lugar, bater em qualquer pessoa, gritar com qualquer coisa. Mas conseguiu. Com a respiração alta e a sacolinha quase cedendo com a força de seu aperto, os poucos quarteirões foram atravessados sem que Shizuo esquecesse em momento algum quem era o dono de sua ira.

"Izaya", sussurrou rosnado enquanto subia as escadas.

"Izaya", rosnou mais alto ao girar a chave na fechadura.

"Izaya", rosnou outra vez, quase saudoso com o gosto de ódio que impregnava sua boca quando chamava pelo nome do pior inimigo da forma como há meses atrás fazia e como deixara de fazer progressivamente a partir do dia em que o tal inimigo bateu desmemoriado à sua porta. "Izaya"

Foi dormindo, contudo, abraçado a seu travesseiro, o nariz enterrado nos cobertores e a perna enfaixada escapulindo por debaixo deles, que encontrou o rapaz cujo nome sua ira chamava.

A raiva não cedeu. Definitivamente não. Mas a imagem da gaze e do sono sujaram-na o bastante para que o homem mais forte de Ikebukuro deixasse o quarto sem nada fazer.

A sacolinha pousou com força na pia da cozinha. E, no sofá, jogou-se também com força Shizuo, a respiração ainda ofegante, os olhos bem abertos quase alucinados.

Não comeu. Nem naquela hora nem quando, meia hora depois, Izaya saiu do quarto, coçando os olhos, resmungando algo sobre o sono dos remédios, reclamando não ter sido acordado antes, e o convidou para comerem juntos.

Mesmo que forçasse bastante a memória, Shizuo nunca mais na vida se lembraria do que disse a Izaya em resposta ao convite. Supunha que o tenha mandado calar-se, e que provavelmente tenha xingado e o expulsado de sua casa, mas nunca teve absolutamente certeza nenhuma.

A única coisa que sabia era que, fosse o que fosse, manteve Izaya longe de si pelo resto do dia. Não o trazendo para seu lado quando assistia TV pelo resto da tarde e não o trazendo para seus braços quando se ajeitou no sofá para dormir.

Fosse qual fosse, sua resposta o fez ver, pela primeira vez em muito tempo, raiva – raiva sem ironia sem malícia – nos olhos castanho-avermelhados.

Shizuo não tinha qualquer intenção de entrar no quarto pela manhã.

A noite havia sido terrível. Talvez até mesmo pior do que as anteriores. Sem sonhos e sem olhos arregalados de insônia, mas, ainda assim, como se gravada em suas pálpebras, a cada vez que cerrava os olhos a imagem de Izaya mentindo, desconversando, machucado, bravo, surgia perfeitamente nítida. Quando acordou, portanto, com um amargo na boca, um desconforto no peito e um furacão dentro da cabeça, naquela manhã de terça-feira, Heiwajima Shizuo tinha certeza de que a última coisa que queria era encarar Orihara Izaya.

Mesmo assim, precisava de um banho. Já o adiara muito, considerando que no dia anterior não se afastara da pequena sala-de-estar corredor por mais do que dois minutos e que deveria, dali menos de trinta minutos, encontrar Tom para mais um dia de trabalho.

Precisava, definitivamente, de um banho e, para isso, precisava também de uma troca de roupas. E para a troca de roupas precisava entrar no quarto.

Não era coisa que desejava, mas, ainda assim, não era algo que poderia deixar de fazer. "É só não olhar para a cama", foi o que repetiu para si mesmo enquanto caminhava pelo pequeno corredor, "A cama fica de um lado, o armário do outro. É só não olhar", foi o que se convenceu enquanto testava a maçaneta, perguntando-se se precisaria arrombá-la para entrar.

Não precisou. Izaya não trancara a porta.

Nem que por um segundo, contudo, Shizuo pôde pensar que isso era um sinal de que era bem-vindo no quarto. Mal o primeiro passo tinha dado para dentro do quarto quando, mesmo no escuro imposto pelas cortinas ainda cerradas, tropeçou no que de imediato reconheceu como seu travesseiro. Não precisou pensar muito antes de concluir que ele fora arremessado à porta. Um sinal bastante claro de que Izaya não o havia esperado para dormir abraçadinho na noite anterior. Um contraste que, por mais que ainda queimasse bastante forte a raiva em cada um de seus poros, o homem mais forte de Ikebukuro não pôde evitar perceber. Da última vez que vira, afinal, seu travesseiro agora bagunçado e possivelmente sujo, ele estava apertadinho aconchegado aos braços Izaya.

A imagem dos olhos castanho-avermelhados ardendo em ira invadiu qual tempestade sua cabeça. E ele quase, quase!, desviou os olhos do travesseiro no chão para a cama, talvez só para garantir que aquele olhar não estaria ali (ou talvez para mostrar que seu próprio olhar raivoso ainda bem presente estava!).

Conseguiu se segurar, entretanto, sem dedicar olhar ao rapaz sobre seus lençóis, enquanto sem cuidado jogava o travesseiro em direção à cama. E conseguiu manter os olhos longe dos cobertores enquanto caminhava até o armário e escolhia algumas roupas. E nem mesmo uma espiadela de rabo de olho escapou quando no canto do quarto pegou um par de sapatos.

E já seriamente acreditava – ainda que um farfalhar inquietante como comichão o tempo todo estivesse em seu peito – que conseguiria sair de lá sem olhar para a cama quando uma música – primeiro baixinha, então progressivamente mais alta – começou a soar.

O primeiro impulso de levar as mãos aos bolsos em busca do próprio celular foi barrado quando, mais rápido do que seus dedos, seus ouvidos perceberam que não era de sua roupa que o som parecia vir. Os olhos correram, então, apressados e surpresos, para a cama.

A primeira coisa que fitou, talvez exatamente pela estranheza, foi o celular cinza ocupando o exato lugar, tinha certeza, que seu travesseiro ocupava até a noite anterior, brilhando intenso no quarto escuro e vibrando sobre os lençóis brancos. Não era como se não o reconhecesse. Conhecia bastante bem aquele celular. Era o celular que Izaya usara para chamar a polícia quando o flagrou brigando, desencadeando sua prisão. O mesmo que Izaya usara para denunciar sua posição a algumas gangues, o celular com o qual filmara, com um sorriso no rosto, o momento no qual elas encontrarem-no. Era aquele celular, lembrava-se bem, o celular que vira Izaya tantas e tantas vezes usando enquanto o expulsava de Ikebukuro em perseguições frenéticas. A questão era que, por mais que muito bem conhecido fosse aquele pequeno aparelho cinza, há muito tempo, quase meio ano, não o via de verdade. Recebia dele algumas mensagens – como a que há não poucos dias recebera –, e até mesmo tinha o número na lista de chamadas recentes, mas, mesmo assim, ele não havia, de fato, visto o tal aparelho nos últimos meses.

A questão toda era que, durante todos os meses desde que Izaya batera à sua porta pedindo por ajuda, Shizuo nunca havia visto Izaya usar um telefone. Nem manter um perto. Muito menos dormir ao lado de um.

No entanto, lá estavam eles, juntinhos, Izaya e celular cinza, os dedos finos adornados por alguns anéis quase tocando a tela brilhante.

Diferente de como Shizuo fazia, contanto, ao fitar tão sério e de olhos arregalados o aparelho, Izaya não parecia dar assim tanta importância ao telefone, remexendo-se inquieto, bocejando, mas não abrindo os olhos até que ele parasse de tocar.

Foi só quando os olhos castanho-avermelhados abriram-se, um pouco preguiçosos, que Shizuo percebeu havia se aproximado da cama. E foi só quando eles endureceram, faiscando fixos em si, enquanto as palmas das mãos cheias de anéis tapavam a tela do celular, foi que Shizuo percebeu que estava intrigado sobre quem estava do outro lado da linha.

O celular tocou ainda uma, duas vezes sem que nenhum dos dois se movesse. Nem Shizuo recuava, nem Izaya desviava dos olhos castanhos-mel o olhar. Quando o terceiro toque, insistente, entretanto, ecoou pelo quarto, trazendo junto a si o som irritante de vibração e apitos de mensagens, Shizuo, sem dizer palavra, apertou firme a trouxa de roupas na mão e saiu do quarto.

O homem mais forte de Ikebukuro precisou terminar seu banho, vestir-se, correr apressado pelo corredor, roubar na cozinha um onigiri do dia anterior, trancar a porta e alcançar com passos firmes como marcha a rua antes de, com um suspiro alto e um ranger irritado dos dentes, perguntar-se por que diabos havia saído do quarto sem exigir saber quem era a pessoa que estava do outro lado da insistente chamada ao celular de Izaya.

Estava bravo. Consigo mesmo, desta vez.

Ele, melhor do que ninguém, sabia muito bem o quão teimoso Izaya era e o quão intensos eram os poderes dele de deixá-lo desconfortável dentro de sua própria casa, mas nada disso explicava por que razão havia deixado o quarto sem nada questionar.

Izaya era irritante, sabia disso. E Izaya nada teria dito, sabia disso também. Mas, ainda assim, o emputecia de forma como normalmente não se emputecia – de uma forma meio vergonhosamente quieta – como aceitara isso como verdade e deixara o próprio apartamento de cabeça baixa.

Estava puto. Puto com Izaya. Puto com a cara que Tom fez quando o encontrou. Puto com a repreensão por chegar atrasado. Puto com o olhar preocupado que Tom lançou em sua direção quando não respondeu às suas perguntas sobre a suposta cara brava que fazia. Puto com a forma como as pessoas na rua encaravam-no. Puto com a possibilidade de que outra vez boatos estranhos estivessem correndo sobre si em sites suspeitos.

E continuou puto.

Continuou puto durante todo o resto do dia.

Puto com os devedores que insistiam em não pagar. Puto com o outdoor que não se despregou do chão – e se quebrou no meio – quando o arrancou para acertar um jovem rapaz com dívidas de jogo. Puto com a facilidade com que as pessoas corriam de suas tentativas de diálogo sobre dívidas. Puto como ao longo do dia mais e mais pessoas pareciam mudar o lado da calçada quando o avistavam. Puto com o almoço pronto de uma loja de conveniência. Puto com Kasuka que não havia respondido sua mensagem. Puto com as tentativas de conversa de Tom. Puto com as lembranças da conversa com a senhorinha no mercadinho. Puto com o fato de que o tal Makoto sabia seu sabor de pudim favorito. Puto com o quanto o número de devedores parecia ter voltado a subir.

Puto.

Puto com a cara que Tom fez quando perguntou sobre o devedor complicado.

Absolutamente puto.

Puto com as pessoas que se reuniam, aglomerando-se como formigas nas calçadas, e impediam a passagem.

Puto com o "Hey, Shizuo, espera! Tem alguma coisa acontecendo!" no tom de voz preocupado de seu empregador.

Puto com as pessoas que esbarravam de encontro a seu corpo enquanto corriam para juntar-se à aglomeração.

Puto com a forma como as pessoas na aglomeração pareciam fitá-lo ainda mais intensamente do que haviam durante todo aquele dia fitado.

Puto com o quão, apesar do quão puto estivesse, não pôde deixar de sentir algo familiar naquela situação toda.

E puto com seu coração que perdia batidas conforte seus pensamentos se inundavam de lembranças de Izaya, machucado, no centro de uma aglomeração igualzinha a aquela não muito tempo atrás.

Puto com o quanto tudo parecia igualzinho à memória em sua cabeça.

Formação circular, o centro livre como num espetáculo, olhares que tanto de pavor traziam, respirações sustendo-se conforme avançava no meio da multidão, passos de recuo colocando-o no centro: tudo era parecido demais com a cena em suas memórias para que Shizuo pudesse evitar o arrepio frio a correr por sua espinha enquanto, passo a passo, aproximava-se do centro.

Tudo parecido demais...

...parecido demais...

... até não parecer mais nadinha...

Izaya estava no centro, assim como antes, os lábios sangrando e cercado por homens que desta vez somavam quase uma dezena. Um dele nitidamente trazia nas mãos um bastão – assim como antes. Outro, uma lâmina – assim como antes. E o homem no centro certamente tinha uma arma – assim, também, como daquela vez na praça.

Mas, desta vez, eles não eram os únicos armados.

Olhos brilhando em vermelho tão intenso quanto o sangue que os lábios finos manchava, postura tão relaxada quanto um rei regendo tabuleiro, um sorriso aberto como insulto: no centro do caos, Orihara Izaya segurava um canivete como se extensão de seu próprio braço, manejando-o como com quem move os próprios dedos.

Não acuado, não perdido, não inofensivo, de pé diante de alguns homens caídos Izaya parecia tudo, absolutamente tudo, menos alguém que precisava de ajuda.

Mesmo assim, ajudar foi a primeira coisa que Heiwajima Shizuo fez quando, após encontrar seus olhos, os olhos castanho-avermelhados baixaram-se e Orihara Izaya estendeu os braços em sua direção, chamando baixinho "Shizu-chan".

Quando perguntado, algumas horas mais tarde, sobre o que aconteceu a partir do momento no qual postou-se diante de Izaya, Shizuo não seria capaz de dizer quase nada além de alguns grunhidos incongruentes. Ainda assim, quem esperto o bastante fosse para acessar os fóruns online do Dollars, encontraria sem dificuldade vídeos em altíssima definição que mostravam que, enquanto Orihara Izaya cedia sobre as próprias perna, sentando-se na calçada e escondendo entre as vestes negras o canivete afiado, Heiwajima Shizuo, o monstro de Ikebukuro, enlouquecia, pondo abaixo de mãos nuas os homens armados com bastões, canivetes e pistolas, um a um. Sem gritos e sem rugidos, apenas olhos furiosos e golpes tão precisos, bem coordenados e direcionados que, não fosse a respiração alterada e os punhos nitidamente trêmulos, quase calmos poderiam ser julgados. Foi, e ninguém que assistiu a briga negaria, a luta mais limpa que o distrito já havia visto Shizuo travar.

Não durou muito. Bastou que dois terços dos homens estivesse ao chão para que o restante fugisse. E, diferente do que quem assistia a fúria determinada de Shizuo pensava que ele faria, Shizuo não foi atrás dos que fugiram, postando-se, ao invés disso, outra vez ao lado de Izaya para, desta vez aceitando os braços estirados em sua direção, levantá-lo nos braços e carregá-lo até um mercadinho não muito longe dali, onde uma senhorinha se desesperava, correndo de um lado a outro com água e uma caixinha de primeiro-socorros nas mãos.

Talvez exatamente por interferências dessa tal senhorinha, que a plenos pulmões ralhou, foi que nesse exato momento que os celulares pararam de filmar vídeos para os fóruns.

Vídeo nenhum, portanto, registrou o momento no qual os olhos castanhos-mel furiosos suavizaram-se um pouquinho ao pousar no sorriso malicioso de Orihara Izaya.

— Você me carregou como uma princesa dessa vez, Shizu-chan!

Nem registrou o momento em que Shizuo, ainda exaltado demais para dar qualquer resposta à provocação de Izaya, torceu o cenho e rosnou baixinho ao arrancar da mão da senhorinha a caixa de primeiro-socorros. Quase gemendo baixinho ao ouvir como resposta à tentativa desatar a faixa suja de sangue no tornozelo de Izaya um:

— Não, Shizu-chan... Tá quebrado. Minha perna tá quebrada. Não adianta isso.

E, para lamento daqueles que assistiam pessoalmente à cena, também celular nenhum gravou o momento no qual os lábios do homem mais forte de Ikebukuro tremeram um pouquinho e ele levantou-se, furioso, como se prestes a correr atrás dos homens que até pouco com os punhos acertava. E como nenhum vídeo registrou, no fim, portanto, o rosto enfurecido de Shizuo falando ao celular, nem a caminhada de um lado a outro, impaciente, que vez em quando era interrompida por um carinho preocupado nos cabelos de Izaya. Nem registrou os berros enfurecidos para que todo mundo fosse "para o inferno e saísse da frente" quando o motoqueiro-fantasma chegou ao mercadinho e após uma briga bastante enérgica, levou Orihara Izaya embora no que todos os que assistiam podiam jurar ser uma carruagem negra, deixando Shizuo para trás, as mandíbulas travadas em ira.

A multidão já se afastava, entediada com a falta de movimento do homem mais forte de Ikebukuro – que desde a saída repentina de Izaya sentara-se diante da porta com a cabeça baixa e a respiração ofegante – e parcialmente assustada com a possibilidade de que a qualquer momento ele voltasse à ativa e novamente enlouquecesse, quando a senhorinha pequena afastou-se do caixa vazio, aproximou-se de Shizuo, arrumando o vestidinho florido ao sentar-se no chão, e sussurrou, uma das mãos em seus ombros e a voz suave:

— Ela tem razão, você sabe... Você só ia atrapalhar, nervoso como está. Não ia ajudar nada xingando o médico desse jeito. Parece meu marido quando fui ter nosso pequeno Yuri. Ficou nervoso assim também e até desmaiou na hora, acredita?! Era papai de primeira viagem. Mas não adianta nada ficar nervoso assim, só aumenta o trabalho. O médico ia ter que acabar cuidando de você, também, igual cuidou do meu marido. Tem que ficar calmo. Faz mal ficar nervoso, mal pro coração. Foi disso que o Keiichirou morreu, sabia? Do coração! Nervosismo faz mal. E você confia nela, não confia? Na moça da moto. Por isso chamou ela, não foi? Ela vai cuidar bem do nosso menino, não vai? Você pode ficar aqui até se acalmar e depois então vai até ele... Ele só vai ficar mais nervoso se você estiver nervoso. Precisa se acalmar pra acalmar ele. Ele não queria te preocupar, sabia? Por isso não me deixou falar nada... Ela não queria te ver preocupado assim...

O pedido por silêncio já estava quase deixando, rude, recheado com um palavrão, a garganta de Shizuo quando, surpresos, os olhos castanhos-mel encontraram o rosto enrugado da dona do mercadinho.

— Quê?

Um risinho baixinho escapou da senhorinha enquanto ela se ajeitava melhor, uns tapinhas sendo deixados nas costas do homem mais forte de Ikebukuro.

— Ele não te disse, né?! Também não me disse muito, só sei o que vi... Mas acho que tudo bem te contar, agora que você viu também. – ela levantou-se, apontando com a cabeça de cabelos brancos quase prateados em direção ao interior da loja. Inicialmente, Shizuo pensou que ela apenas queria afastar-se dos poucos curiosos que ainda em frente ao mercado estavam, para seu espanto, contudo, ao entrarem na loja uma pequena sacola foi pousada em suas mãos – Toma. Isso é seu. Dele, na verdade, mas seu também, então. Ele que veio aqui pra comprar. Disse que vocês tinham brigado e que então ele estava pensando em fazer uma janta com tudo o que você gosta de comer pra conversar... Me perguntou uma receitinha... Enfim... – a senhorinha pousou uma mão sobre a de Shizuo, chamando para seu rosto os olhos castanhos-mel que perdiam-se espiando o conteúdo da sacolinha – Foi assim da outra vez também. Da primeira vez não, na verdade. Da primeira vez ele chegou meio ofegante e quando perguntei 'por que?' ele disse, meio fazendo piada, sabe?, que tinha gente seguindo ele. Mas daí aconteceu de novo. E ele sempre vinha bastante aqui quando não tinha ninguém e ficava falando sobre vocês dois. Ele é engraçado e curioso, e anotou várias receitas. Ninguém quer ouvir as receitas e histórias de uma velha, né?! – ela riu baixinho –, então é claro que a gente ficou amigo. E eu sabia que não era ele normal entrar aqui ofegante. Daí perto do Natal ele apareceu machucado. Não muito, sabe?! Mas machucado. No dia seguinte sim, daí foi bastante! E foi uma bagunça porque Makoto tava voltando de uma entrega e viu! Viu um pessoal batendo nele, jogando coisas. Eu disse pra ele contar pra você, mas ele não quis. Disse que não queria te preocupar. Mas aconteceu de novo, não é?! Antes de hoje... Quando ele disse que vinha e não apareceu... Eu ouvi o boato e percebi que era verdade quando você apareceu pra fazer compras no lugar dele ontem... – os olhos negros encontraram os seus, baixos como se envergonhados – E ontem eu falei demais porque achei que ele tinha te contado... Desculpe, Shizu-chan-san. Vocês brigaram, né?! Brigaram porque eu contei mais do que devia ter contado e não expliquei direito. – um suspiro baixinho, chateado, deixou os lábios dela – E hoje foi o mesmo. Essas pessoas ruins que não sei quem são apareceram e chamaram ele pra fora do mercado! Ele estava aqui! Eu não queria que ele saísse, mas ele disse que iam destruir o mercado se não saísse. Saiu e daí levaram ele pra lá... – os dedos trêmulos apontaram para fora do mercado, em direção ao lugar onde tinha encontrado Izaya mais cedo – Fico feliz que tenha encontrado ele! Mesmo que... ele se machucou, né?! Mas fico feliz de você ter chegado... Eu não devia ter deixado ele sair do mercado...

Rosto baixo, voz rouca e olhos molhados: Shizuo podia com perfeição perceber que a dona do mercadinho estava prestes a chorar. E talvez fosse porque ela inegavelmente havia sido gentil consigo, ou porque a gentileza dela lembrava um pouquinho a gentileza de Namiko ou porque havia, na tarde anterior, destruído uma parte de seu balcão de atendimento, mas Shizuo realmente não queria que ela ficasse triste ou se sentisse culpada. Ensaiou dizer um monte de coisas, então. Dizer que Izaya estava acostumado a se machucar. Que apesar da reputação e personalidade péssima, Shinra era o melhor médico da região. Que Celty nunca faria mal algum a Izaya. Que ele mesmo garantiria que a pulga receberia cuidados. Mas nada disso, no fim, parecia ser a coisa adequada a se dizer. Preferiu o silêncio, então, baixando outra vez os olhos à sacolinha em suas mãos.

— Ah! Eu odeio cogumelo. – a reclamação escapuliu sem querer por entre seus lábios, e, também involuntária, uma careta invadiu seu rosto – Pulga maldita!

As sobrancelhas castanho-claro franziram-se confusas quando um riso baixinho, meio choroso, mas ainda assim divertido, ecoou a seu lado.

— Que danadinho! – a voz gentil soou calma, quase tranquila e outra vez a risada baixinha alcançou os ouvidos de Shizuo – Espero que pelo menos do pudim goste. Por que não come antes de sair? Vai estragar se não comer...

Um estalo irritado deixou os lábios de Shizuo. Ele ainda estava puto, com certeza. E não conseguiria negar nem mesmo se quisesse que estava preocupado com Izaya. E definitivamente tinha mais coisas sobre as quais pensar do que gostaria de ter. Ainda assim, contudo, não parecia má ideia comer um pudim antes de marchar até o apartamento de Shinra e, provavelmente, botá-lo abaixo.



Notas finais
Olá de novo, =) Tudo certo até aqui? Não tenho muito o que dizer sobre o capítulo porque tô cansada demais pra pensar sobre ele. Hahahahah... Revisei menos do que gostaria de ter revisado, então se passou algum erro, mil desculpas. Juro que volto pra reler ao longo da semana. A verdade é que eu voltei a trabalhar e foram duas semanas bastante fodas. Acho que tem gente que sabe, mas eu sou professora, e começo de ano é sempre muito louco com planejamento e panz e a verdade é que eu fiquei bem sem tempo pra escrever. Mas como tinha dito que postaria ainda no fim de semana, cá está o capítulo e cá estão meus dedos cruzados pra que nenhum erro muito louco tenha passado pela minha revisão sonolenta. E, exatamente por ter voltado a trabalhar, percebi que provavelmente não conseguirei atualizar toda semana. Vou tentar, mas, por não ter certeza de que posso garantir e por não querer cometer o erro de ser leviana e apressada com a história, vou deixar os capítulos com postagem quinzenal, tudo bem? Enfim, eu espero que tenha gostado do capítulo! Estou ansiosa para o próximo (porque tô planejando ele há anos e acho que será engraçadinho), então espero que você esteja também!!! Nos vemos nele? Obrigada por ter lido!! Beijo, beijo, =* Yuki