(in) esquecível

3 Sobre como você não era você, mas continuava a ser


Notas iniciais
Olá, olá! Agradeço a todos os lindos e incentivadores comentários do capítulo anterior e claro, a todo mundo que leu e está dedicando um tempinho à minha história. Eu realmente espero que gostem deste capítulo! *.* Beijo, =* Yuki



Sobre como você não era você, mas continuava a ser



Não é necessário dizer que Heiwajima Shizuo não conseguiu levar a cabo seu plano de ignorar um Orihara Izaya – ou alguém que estranhamente trazia em si seu cheiro, seus olhos e sua voz – desmaiado do lado de fora da porta de seu apartamento. Nem ele mesmo acreditou que dormiria quando se convenceu que deveria tentar fazê-lo. Como desnecessária prova de sua inquietude, acabou por realizar seu ritual contra insônia antes mesmo de senti-la: retirou o leite da geladeira, pescou no armário da cozinha uma pequena leiteira e colocou-o para esquentar, e enquanto esperava fumou o que jurou – em vão, certamente – ser seu último cigarro do dia. Por fim sentou-se na confortável poltrona que ganhara de Kasuka no retrasado Natal e bebeu lentamente o leite morno sem qualquer tempero.

Da mesma forma não é necessário dizer que o ritual demorou muito mais do que o usual. Normalmente ele levaria apenas cinco minutos para completa-lo eficientemente e meter-se debaixo de suas cobertas com os olhos pesados. Entretanto ele já se mantinha na poltrona por tempo o suficiente para fazer com que seu leite esfriasse por completo e seus olhos lhe afirmassem com todas as letras que aquilo não seria o suficiente para pô-los abaixo. Poderia tê-lo feito, mas recusou-se a levantar-se e procurar pelo controle remoto da TV, mesmo que aquela fosse uma boa desculpa para permanecer sentado na sala de estar à uma hora da madrugada de uma noite fria quando teria que arrumar-se para o trabalho dali a apenas cinco horas e meia.

Seus dedos tamborilavam as laterais da caneca em suas mãos com urgência, fazendo o barulho ritmado de louça barata arranhada inundar o apartamento. O exasperante som cessou apenas por duas vezes, quando seu nervoso maestro pinçou do maço em seu bolso direito um cigarro e o levou aos lábios que crispavam-se em uma fina linha, claramente irritados.

Era claro que ele estava em espera, mesmo que nunca fosse resignar-se a aceitar este fato.

Estava curioso, e curiosidade, ele sabia, não era um sentimento que ocupava com constância seu peito. Não se recriminou, porém, por senti-lo, e sequer procurou um bom motivo para justifica-lo. Não tinha cabeça para recriminações ou desculpas sem real fundamento, não quando ela estava cheia com pensamentos sobre o estranho homem ainda inerte em seu corredor. Não eram bons pensamentos, entretanto. Nenhum deles tinha sequer um lampejo de algo saudável e todos lhe concederiam passagem direta à cadeia se concretizados.

Se alguém pudesse, claro, pegá-lo.

Foram quarenta minutos de esperava, tempo demais para uma caneca pequena de leite, mas não tempo suficiente para esfriar o sangue do homem na poltrona cujos pensamentos vagavam agora, livremente, para o que poderia fazer para livrar-se de seu maior problema sem comprometer a carreira de Kasuka e a si mesmo (nesta ordem, precisamente).

Só dúvida, mesmo que pequena, quanto a identidade do homem do lado de fora da porta o mantinha sob controle, caso contrário ele já teria enlouquecido com o cheiro insuportável que o impedia de esquecer de que – talvez, muito provavelmente – seu pior inimigo estava a menos de quatro metros dele. Cheiro este que, também impregnado em suas roupas, convencia-o progressivamente que pertencia a Orihara Izaya o corpo inerte no corredor... Corpo tão quieto e silencioso, como se a espera de um último golpe. Um bem pequeno bastaria, um que sequer demandaria muito esforço ou repercutiria pelos corredores, um que poderia passar despercebido aos ouvidos vizinhos mesmo naquela noite silenciosa.

Quando as batidas na porta voltaram a soar após quarenta minutos de espera, Shizuo estava repleto pela certeza de que mataria o responsável por elas.

– Desculpe, eu sei que talvez tenha feito algo ruim a você e realmente não queria pedir por isso, mas eu não tenho pra onde ir... Posso ficar aqui só por hoje? Prometo que não te incomodo e fico só até o sol nascer. Eu posso fazer café da manhã, também, se quiser! Eu consigo... eu acho...

Um pesado silêncio se espalhou pelo apartamento, aumentando progressiva e tortuosamente a sensação desagradável na garganta do guarda-costas. Pensou em buscar mais um cigarro no maço em seu bolso, mas tudo o que pode fazer foi olhar o homem ajoelhado a sua frente cuja cabeça quase encontrava o chão.

– Então...?

Não sabia desde quando era vítima daquele estranho olhar ansioso ou por quanto tempo permaneceu no silêncio que obrigou o recuado homem a sua frente a pressiona-lo por uma resposta, tudo o que sabia era que a partir do momento que se percebeu sob os olhos castanho-avermelhados tornou-se impossível ignorá-los. Acabou por encará-lo em retribuição, ainda que em silêncio. O homem a sua frente ainda mantinha-se ajoelhado, apenas a cabeça levantada em sua direção, entretanto era difícil não sentir-se intimidado por sua presença, seu tom de voz solicitante e seu olhar profundamente expectante.

Shizuo não respondeu – ou, ao menos, poderia jurar não tê-lo feito – mas acabou por receber um sorriso largo do homem que agora se levantava e adentrava seu apartamento. Poderia ter-se indignado com tal ousadia, afinal não se lembrava de ter concedido a entrada, mas tinha toda a mente preenchida por desconfianças sobre o sorriso satisfeito que ainda lhe era oferecido. Não era o sorriso malicioso de Izaya, aquele que ele usava quando fodia a vida de alguém – a dele, por exemplo -, mas também não era o sorriso inocente de uma criança que ganha um doce.

De toda forma, não teve muito tempo para se preocupar com o sorriso, não quando seu não-convidado sentava-se confortavelmente na poltrona que ganhara de Kasuka. Não soube qual foi o olhar que dirigiu a ele, mas o moreno levantou-se num pulo, murmurou um “desculpe” e permaneceu de pé próximo à televisão.

Mesmo que seu anterior lugar de repouso estivesse agora vago, Shizuo permaneceu de pé próximo à porta, lutando internamente sobre manter a porta aberta e lançar o homem que o olhava ansioso através dela ou fechá-la e prende-lo de vez consigo, anulando as possibilidades de fuga. Optou, por fim, a fechá-la, mas sustentou-se próximo a ela. “Você não é bem-vindo”, era o que sua postura gritava ao homem a sua frente.

– Fale, pulga. – ordenou, contrariado a deixar sua curiosidade saltar para fora de seus lábios.

De primeira, os dois grandes olhos que o encaravam não pareceram entender o que aquelas palavras significavam, lançando-se ao redor como se a procura de algo. Mas Shizuo não disse mais nada, a ausência de resposta apenas endurecendo ainda mais seu impaciente semblante.

– Pulga... sou eu? Isso é um apelido? – o guarda-costas não respondeu, mas também não suspirou alto exasperado, como desejou momentaneamente fazer – Me disseram para te tratar por um apelido também... Digo, aquela pessoa que me falou que eu deveria vir até aqui e me deu o endereço. Mas fiquei um pouco, hum, constrangido em usá-lo. Eu devo te chamar de... – ele hesitou, baixando os olhos –... Shizu-chan?

Shizuo quase pode ouvir algo dentro dele estourando. Algo como um tiro de largada. Algo que o dava carta-branca para finalmente matar o homem perto da TV que levantara novamente seus olhos castanho-avermelhados e o olhava assustado.

– Não, não devo. Claro que não... o que eu estava pensando? – o homem a sua frente cuspia nervosamente as palavras, atropelando-se entre elas e gesticulando em demasia – Heiwajima-san está bom pra você? Eu acho Heiwajima-san um nome muito bom! Vou usá-lo. Vou total usá-lo. Vou usar só ele, o tempo todo. – os olhos castanho-avermelhados fitavam-no incertos e as mãos levantavam-se em defensiva – Digo, não o tempo todo. Não é como se eu fosse ficar te chamando. “Heiwajima-san! Heiwajima-san!”. Não vou fazer isso. Mas não que eu não ache que é um bom nome para ficar chamando. É um ótimo nome.

– Cala a boca, Izaya. Qual o seu problema? – Shizuo não pode evitar perguntar, franzindo as sobrancelhas, claramente desconfortável.

– Ok. Vou calar... – encarou-o novamente, sondando-o com os grandes olhos de tons rubros –... ou não. Eu devo me calar?

Shizuo bufou. Nunca fora fácil lidar com Izaya, mas, ao menos, antes sua interação com ele limitava-se a gritar e tentar com todas as forças acertá-lo. Agora, entretanto, não conseguia sequer mover-se e dedicá-lo outro golpe, não quando ele o olhava tão inofensivo. Isso o frustrava de várias maneiras, já que justamente neste momento se sentia tão inclinado a golpeá-lo. Havia algo na forma de falar e na estranha inocência que o fazia sentir que o melhor era por tudo abaixo.

– Fala de uma vez o que houve com você, desgraçado, antes que eu acabe contigo. – rosnou.

Um pequeno “oh” formou-se nos lábios de Izaya e seus olhos se arregalaram.

– Você não gosta de mim. Entendi. Não sei o que estou fazendo aqui. Por que aquela garota me mandou aqui? Eu devo ir embora? Mas não sei pra onde ir! Só tenho seu endereço!

– Fala. – ameaçou mais uma vez, sentindo sua paciência esgotar-se e reconsiderando se realmente seria assim tão complicado matar aquele Izaya.

– Falar. Ok. Falar. Eu vou falar. – umedeceu os lábios com a ponta da língua – Posso tomar um copo de água antes? Minha cabeça e minha garganta estã-...

– Não.

– Ok, não. E eu provavelmente também não posso me sentar, né? Ok...hum... Eu também não sei direito o que houve comigo. Não sei mesmo... – Shizuo observou-o franzir as sobrancelhas enquanto levava uma mão à testa, pressionando o supercílio com o indicador e o dedo médio, e outra à parte de trás da cabeça, de onde, lembrava-se ele, havia visto sangue escorrer – Eu sinto muita dor aqui, sabe? Acho que bati a cabeça. E também tem outros machucados em mim. – levantou a camiseta e o casaco, mostrando em seus braços e depois em sua barriga algumas escoriações. Pela primeira vez permitiu-se olhar com atenção para o outro. Ele já havia notado as roupas molhadas e sujas e o machucado na cabeça, mas agora percebia machucadas também as mãos e laterais do rosto. Notou também a latente vermelhidão na maça da bochecha esquerda, consideravelmente inchada. Sabia que ao menos por esta parte era culpado. – Mas não sei como me machuquei assim. Talvez eu tenha caído... Acordei em um beco, sabe?! Não sei o que houve... – ele pressionava com mais força os dedos em seu supercílio, fechando um pouco os olhos e abaixando o tom de voz, como se dissesse mais para si mesmo do que ao outro, mas logo aumentou sua voz, abrindo os olhos e fitando Shizuo – Eu acordei lá neste beco, todo molhado e acho que sangrei um pouco, mas estava chovendo e não consegui ver nada. Depois de um tempo consegui me levantar, mas não sabia pra onde devia ir. Foi um pouco estranho, porque não conseguia me lembrar de nada, nem do que eu fazia lá e nem... enfim, absolutamente nada. Acho que bati com a cabeça. Aqui... bem aqui... consegue ver? E não me lembro de nada. De toda forma, não podia ficar ali. Estava chovendo e escuro. Então sai andando pra onde vi que tinha luz. Cheguei numa bem movimentada, mas ninguém, absolutamente ninguém, parava pra falar comigo. Todo mundo me via e me ignorava, ou fazia cara de susto ou corria de mim. Nem sei quantas pessoas tentei chamar. Sério! Eu pareço assim tão ruim? Digo, eu pareço um mendigo, provavelmente, com esse cabelo e essas roupas sujas de chuva e sei lá o que mais, mas ninguém, ninguém!, nem ao menos parou pra me ouvir. Quando estava quase desistindo uma pessoa parou na minha frente, me olhou surpresa e perguntou “Izaya?”. Era um rapaz acho que da nossa idade, com um gorro ou sei lá o que na cabeça, e ele estava com a garota e outro rapaz...

– Kadota?

– Sim! Kadota! Esse era o nome dele! Ele disse depois, quando eu perguntei se ele me conhecia. Você o conhece também, então? Ah! Claro que sim, foi justamente a garota que estava com ele que me disse que eu devia te procurar. Ele, o Kadota, disse que não era uma boa ideia. Eles discutiram por algum tempo sobre isso... Mas no fim a garota disse “Acha mesmo que o Shizuo vai fazer algo contra ele assim?”. E o tal Kadota pareceu ceder. Dai ele me disse que “por hora você deve ir lá, não sei onde você mora e não consigo contatar Shinra”. Quando perguntei quem era Shinra ele me disse que era alguém que podia me ajudar e que eu devia te pedir pra ligar pra ele... Enfim, a garota escreveu num papel onde você morava. E que eu devia te chamar de Shizu-chan porque “ia ser legal”. Demorou um pouco até eu conseguir chegar até aqui porque ninguém na rua respondia quando eu perguntava direções... Mas cheguei e... e...

Izaya levou a mão que até então pressionava a testa até o pescoço e alisou-o de leve. Shizuo pode ver ali marcas vermelhas e concluiu que era onde havia apertado mais cedo, quando o moreno batera em sua porta pela primeira vez.

Apertou os olhos na direção do homem que o fitara em pleno silêncio, opressivo e implorante, buscando ali qualquer indício, mesmo o menor deles, que provasse que aquilo era uma brincadeira. Ele não era estúpido, ele entendera plenamente o que insinuara Izaya com aquela narrativa. Mesmo que o homem a sua frente não houvesse proferido as exatas palavras, Shizuo entendia que ele dizia não se lembrar nem ao menos de quem era.

Shizuo conhecia as implicações de aceitar aquela história como verdadeira: ele teria que aceitar que, de alguma forma, aquele homem a sua frente era um inocente, e, verdadeiramente, isso era algo que nunca poderia pensar sobre um homem que cheirava a Orihara Izaya e vestia seus olhos castanho-avermelhados. Se reconhecesse inocência naqueles oblíquos olhos ele teria que, ainda que a contragosto, lutar para manter seus punhos longe dele e iria sentir-se irremediavelmente mal quando falhasse miseravelmente.

Dessa forma, ele não tinha opções, ou, ao menos, não uma que seu ansioso punho direito que formigava por encontrar novamente aquele rosto suplicante aceitasse de boa vontade. Ele sabia: eram mentiras, cada uma das palavras que ouvira desde que abriu a porta naquela noite de terça-feira chuvosa de início de inverno era fruto de mais um jogo do informante mais miserável que já pusera os pés em Ikebukuro.

Por um momento pensou que o parecer final sobre a história era tudo o que precisava para diminuir a indesejada distância entre suas mãos e o rosto de seu pior inimigo, mas estava enganado. Mesmo optando pela clara mentira, Shizuo não pode acertá-lo mais uma vez e suas mãos acabaram por apertar algo totalmente diferente do pescoço pálido já marcado por seus dedos: um pequeno bloco de papel e uma caneta preta que guardava em uma das gavetas da cozinha. Rasgou um pedaço do papel e escreveu nele somente duas linhas: um endereço e números de uma linha de metrô.

Levantou seus olhos para o homem que o encarava em latente curiosidade e estendeu para ele, sem dizer palavra, a folha recentemente marcada pela tinta negra. O outro se aproximou e pegou receoso de seus dedos o fino papel branco, fitando as letras e números por um instante antes de voltar a ele os imensos olhos parcialmente rubros.

– Você mora ai e a entrada do metrô fica a dez quadras daqui, virando a próxima esquina à esquerda.

– Eu...

– Pulga maldita... aqui, isso é o bastante. Dá o fora. – jogou uns pares de moedas em direção ao outro, bufando quando as viu cair ao chão após a vã tentativa dele em pegá-las em voo. Sabia que não era sobre dinheiro que falaria Izaya quando separou os odiosos lábios, mas já era demais para ele tê-lo em seu apartamento sem ataca-lo, não precisava vê-lo apelar para o lado humano que ele mesmo, não poucos dias atrás, dissera-lhe não existir ao chama-lo de monstro em alto e bom som pelas ruas do distrito. Izaya não pareceu, entretanto, entender a gravidade do risco que corria ao continuar tentando manter-se no pequeno apartamento.

– Obrigado... mas... não posso ficar? Nem por hoje? Está chovendo... e eu e-estou cansado e minha cabeça dói... – umedeceu os lábios levemente e fez menção em abaixar a cabeça, desistindo logo em seguida e fitando-o nos olhos. Shizuo sentia, inevitavelmente, uma parte sua revoltar-se com o homem a sua frente e a forma como ele parecia não ter orgulho. Irritava-o ser alvo daquele olhar. – Por favor, Heiwajima-san.

Os olhos castanho-avermelhados encararam-no por mais alguns segundos antes de baixarem-se e não tornarem a levantar-se. Foi hesitação o que sentiu emanar dos dedos que dobraram o papel e o enfiaram em um dos bolsos do casaco negro – aquele que poderia jurar repleto de lâminas – mas Shizuo não espelhou esta hesitação nem momento algum, mantendo-se firme mesmo quando ouviu passos afastando-se, um baixo “obrigado por tudo” e o barulho da porta de entrada abrir-se e fechar-se com poucos segundos de diferença.

Suspirou fundo, sentindo cada um de seus músculos relaxarem-se. Mal havia percebido o quão grande lhe fora o esforço por não atacar Izaya até o momento que ele deixou seu apartamento. Era inegável, entretanto, que mesmo mais calmos seus músculos ainda tremiam intensamente, respondendo a toda a adrenalina que lhes era enviada. O breve pensamento de que se corresse agora ainda seria capaz de alcançar Izaya e descontar nele a frustração que corria por suas veias passou por sua cabeça, mas ele esforçou-se por manter-se quieto, levando, finalmente, seu último cigarro da noite aos lábios.



*

Ele tentara, verdadeiramente, convencer-se de que era cedo demais para que o cheiro e a presença de Izaya deixassem seu apartamento, afinal, não fazia nem duas horas que o informante deixara-o sozinho para tentar dormir as duas horas e meia de sono que restavam-lhe até que seu despertador anunciasse o início de um novo dia de trabalho. Ele buscou persuadir-se que era por isso, portanto, que ainda sentia o moreno tão próximo. Entretanto, Heiwajima Shizuo podia ser muitas coisas, mas não estúpido. Já percebera há tempos que o cheiro de Izaya continua a impregnar seu distrito porque ele ainda estava ali, e que o sentia tão perigosamente próximo porque, provavelmente, estava parado do lado de fora da porta de entrada de seu apartamento.

Contudo, mesmo que já estivesse consciente da presença do outro há algum tempo, ainda permanecia na mesma posição, deitado de barriga para cima debaixo de um grosso cobertor, um dos braços jogado desleixadamente acima de sua cabeça. Sabia com cada célula de seu corpo que se ousasse mover um músculo sequer, levantaria dali e enterraria a cabeça de Izaya na parede branca do corredor.

Agora, mais do nunca, estava certo que aquele era, definitivamente, Orihara Izaya.

Apenas o moreno seria capaz de irritá-lo tão profundamente mesmo quando resolvia assumir outra personalidade. Izaya era a única pessoa na fase da terra que seria capaz de fazê-lo ser violento em qualquer circunstância. Junto a esta constatação ele ganhou, como brinde, uma razão para odiar o homem parado do lado de fora de sua porta mesmo que ele dissesse não ser o Izaya que normalmente era: ele despertava em si o seu pior, seu lado mais irracional e violento.

E só havia uma coisa que Shizuo odiava mais que violência: usá-la. E era exatamente por isso que aquele novo Orihara Izaya parecia pedir a ele mantendo seu cheiro e sua presença ali mesmo depois de tê-lo feito usar todo seu escasso autocontrole para expulsá-lo.

Como consequência, ele agora odiava Izaya mesmo que ele estivesse falando a verdade ao insinuar que não podia mais se lembrar de quem era ou de todas as merdas que fizera. E, em sua opinião, a raiva que sentia por este novo Izaya sequer diferia-se significativamente da outra: Izaya irritava-o, tanto o que o xingava, o acusava, e o provocava quanto o que implorava, recuava, abaixava os odiosos olhos e conhecia adequadamente o uso dos honoríficos.

A capacidade que aquele homem possuía de irritá-lo profundamente era toda a prova que precisava para saber que aquele era, inegavelmente, Orihara Izaya.

– Ah! Heiwajima-san...

Mesmo que os olhos que o encaravam de baixo pudessem sugerir algo como resignação ou a humildade típica de quem pede por favores, não era isso que Shizuo sentia emanar daquele tom castanho-avermelhado vivo. Ele não sabia ao certo o que esperar daquele olhar, tão intenso que parecia capaz de queimá-lo, e não esteve pronto para enfrentá-lo, mesmo que, inquestionavelmente, fosse exatamente isso o que ele planejasse fazer ao romper a distância até a porta e abri-la. Não sabia ao certo o que o impulsionara a levantar-se ou o que incentivava sua mão a mover a maçaneta, mas sabia que havia em sua resolução uma estranha mistura de expectativa e curiosidade.

Quando encontrou o homem cujo cheiro invadia miseravelmente seu apartamento sentado com as pernas abraçadas junto ao corpo na soleira de sua porta, não soube definir o que aquilo representava a ele. Entretanto, independente do que representasse, aquela foi a segunda vez no dia que acabou desarmado, a segunda vez que se dispusera a matar Izaya e não o faria.

Izaya parecia um animal recuado e isto, ele reconhecia com cada célula de seu corpo, foi exatamente o que quis dele por anos. Mas agora Shizuo aprendia involuntariamente: a realização de desejos sempre acaba por mostrar-se uma piada daquelas que só a vida é capaz de contar.

Vendo seu pior inimigo finalmente recuado ao lugar que sempre desejou – aos seus pés, encolhido, indefeso, frágil –, não foi capaz de levar a cabo nenhum dos planejamentos que fizera em seus nada saudáveis pensamentos. Seu punho não se levantou, sua mão não agarrou nenhuma arma, seus lábios não se abriram em xingamentos, tudo o que ele fez foi sentir a força do olhar rubro em si e afastar levemente a porta, ironicamente dando passagem ao homem sentado no corredor.

Mesmo que não pudesse precisar se era realmente real ou projeção de sua desconfiança, podia jurar ter visto um discreto sorriso malicioso no rosto do homem que passou por ele pela porta recém-aberta.

Notas finais
Olá de novo, tudo bem até aqui? Espero que tenham gostado do capítulo. Mais uma vez agradeço a todos os que leram. Beijo, =* Yuki