(in) esquecível

4 Sobre como você acabou por ficar... por uma noite


Notas iniciais
Olá, pessoal mais sedução do mundo! *.* Tudo certo por ai? Primeiro de tudo, como sempre, agradeço muitíssimo todos os comentários tão amorzinhos, os favoritos e, claro, a todo mundo que está lendo! Obrigada, gente, por toda a atenção que estão dedicando à história! Enfim, nos vemos nas notas finais, Beijo, =* Yuki



Sobre como você acabou por ficar... por uma noite



As gotas de chuva batiam fortemente no vidro da janela. Não era difícil constatar através do som que preenchia totalmente a silenciosa diminuta sala-de-estar do apartamento de Heiwajima Shizuo que a tempestade voltara a castigar Ikebukuro tal como fizera durante boa parte do dia.

O dono da casa poderia ter pensado que aquele era o tempo perfeito para enfiar-se debaixo de seus cobertores e dormir, entretanto, mesmo que este fosse o caminho que sua mente usualmente tomasse em momentos como aquele, ela permanecia limpa, livre de todo e qualquer devaneio, toda a sua atenção e todos os esforços de seu corpo focados exclusivamente no homem que ocupava um dos dois lugares do sofá a sua frente, uma caneca agora vazia em mãos. Diferente dos seus próprios olhos, entretanto, que fitavam seca e intensamente o outro, os olhos castanho-avermelhados permaneciam baixos, encarando algum ponto entre a porcelana em seus dedos e o chão.

O único som que preenchia a sala de estar era o bater forte e contínuo da chuva contra a janela, tão alto que Shizuo sentia como se chovesse dentro de seu próprio apartamento. Não seria ele, entretanto, a levantar sua voz e romper a ilusão, preenchendo a local com o som que deveria estar soando no momento: o de uma explicação. Uma boa explicação. Entretanto, talvez também pressionados pela necessidade absurda de uma palavra que rompesse o perturbador barulho, os olhos castanhos rubros levantaram-se e os lábios que só haviam-se aberto para dar passagem ao conteúdo da caneca firmemente apertada entre os dedos pálidos separaram-se:

– Obrigado por... me deixar entrar. Eu não queria incomodar, mas não podia ir embora durante a noite, na chuva... e aqui é o único lugar que conheço...

Shizuo poderia ter respondido, e ele teria trilhões de respostas prontas e satisfatórias. Ele poderia dizer, com extrema facilidade e sem hesitar um só instante, que aquele não era problema seu. O que era, certamente, uma verdade. Ele poderia, também, questionar de maneira rude a sanidade do outro. Poderia, finalmente, esclarecer que perto do que receberia por ter-se mantido na soleira do apartamento, a ideia de encarar a noite e chuva que caía sobre o distrito não era das piores, talvez até agradável. Mas ele manteve-se em silêncio, qualquer resposta facilitaria as coisas para Izaya e ele sabia disso, qualquer palavra que ele dissesse apenas serviria de combustível ao outro e ele poderia acabar perdendo-se no rumo que seguiria a conversa a partir de então. Manteve-se, portanto, quieto, deixando que apenas o incômodo silêncio incentivasse o homem sentado desconfortável na ponta de seu sofá a continuar com o que pretendia dizer.

– Eu posso ficar aqui? – a pergunta não foi feita baixa e tímida como a situação exigiria, foi alta e clara, ansiosa e impaciente.

“Não”: foi o que seus lábios quiseram cuspir, mas mais uma vez manteve-se em silêncio. Sua única resposta foi relaxar a postura dura na qual se mantinha próximo à janela e sentar-se na poltrona escura à direita do sofá, separado de seu indesejado visitante por apenas um lugar vago no sofá. Viu quando o outro enrijeceu com sua proximidade e olhou-o tenso. Talvez ele só estivesse cansado e confuso demais para levar a cabo seu plano de expulsar Izaya, mas no fim seus motivos não importaram, ele apenas ouviu um “obrigado” baixo do homem que claramente relaxara em seu lugar, recostando finalmente as costas no encosto estofado.

– Você pode ir dormir se qui-...

Sua garganta rosnou baixinho, interrompendo o outro, mas sem pronunciar-se em seguida. Enquanto a atenção dos olhos castanho-avermelhados voltava-se plenamente a ele, deixando a intensa admiração da caneca branca de lado, Shizuo tentava se lembrar como palavras articulavam-se normalmente. Talvez, ele considerava, a força que o permitia sentar-se tranquilamente no mesmo cômodo que Izaya sem tentar acertá-lo era de tal forma poderosa que até mesmo lhe tomara a capacidade de fala.

Limpou a garganta, disposto a tentar novamente. Precisava dizer que Izaya era um maluco desgraçado se achava que ele seria capaz de dormir com tal indesejada companhia sentada no sofá de sua sala. Ou mesmo dizer que não pensasse que era permitido a ele dormir naquele sofá, se esta era sua intenção ao dizer-lhe aquelas palavras. E, de toda forma, naquela altura da noite sequer valia a pena tentar pegar no sono. Em menos de duas horas o despertador soaria em seu quarto avisando-o que independente do quão absurda fosse a noite, ela chegaria, inexoravelmente, a um fim. O homem que o olhava ansioso ainda a espera de sua resposta, entretanto, não lhe permitia sequer cogitar algo que se assemelhasse a um desfecho.

– Bom... – a voz de Izaya cortava novamente a sala – Posso tomar um banho?

– Não.

– Mas, Heiwajima-san...

Bufou alto. Ele sabia que nunca deveria ter permitido que Izaya entrasse. Ele sabia que aquele momento marcaria uma série de exceções que seria obrigado a conceder. E ele sabia, dolorosamente, que ainda que lutasse contra isso ao tentar convencer-se que independente do olhar baixo e da voz oscilante aquele era Orihara Izaya, ele acabaria por sentir pena e deixaria seu instinto protetor de irmão mais velho ganhar voz diante daquele cujas expressões e tom de voz lhe lembravam não raras vezes às de uma criança pequena.

“Talvez se ele tomar banho esse cheiro horrível de pulga passe”, foi o que disse a si mesmo para justificar a forma como sua mão gesticulou indicando ao outro a direção do banheiro. Não que ele fosse correr informar onde estavam todos os produtos necessários para o banho, ou fosse até seu quarto buscar uma toalha e uma muda de roupas limpas. Esses pensamentos sequer passaram por sua cabeça, se o tivessem feito, talvez ele entendesse o decepcionado olhar castanho-avermelhado que encontrou primeiro as roupas abaixo de si, depois o dono da casa, antes de desviar-se novamente, constrangido.

Shizuo permaneceu sentado na confortável poltrona, sua mente vazia, esgotada demais para lançar-se à busca de explicações para Orihara Izaya estar neste momento usando seu sabonete. Ele sabia que precisaria de ajuda para lidar com a situação e não se esquecera da sugestão de Kadota: devia, definitivamente, procurar por Shinra. Se aquela fosse uma condição médica (como Izaya sugeria), o amigo certamente teria uma explicação. Franziu as sobrancelhas levemente, considerando por instantes se o próprio médico clandestino não seria o culpado, seus pensamentos, entretanto, foram cortados por um grito alto a chamar seu nome. Aquele chamado varreria para longe as suspeitas sobre a responsabilidade de Shinra já que o jovem, por mais inegavelmente maluco que fosse, nunca teria feito tal mau trabalho. Ele nunca teria deixado a ferida aberta de maneira tão irresponsável. Ou, ao menos, foi isso o que Shizuo concluiu ao ver a forma como Izaya o olhava desesperado, nu, embaixo do chuveiro, com as mãos cobertas de sangue.

Shizuo nunca teve problemas com sangue, isso seria inconcebível a um jovem que passou boa parte de sua infância e adolescência em visitas frequentes a hospitais. Entretanto ele mentira se dissesse que não o arrepiou a abundância do vermelho a manchar o chão de seu banheiro. Antes de poder parar-se, portanto, e sem se preocupar nem por um segundo com a estranheza da situação, puxou sua própria toalha do toalheiro ao lado do chuveiro e a jogou a Izaya.

– Sai dai, idiota. Está sangrando assim porque você está debaixo da água.

– Mas... Heiwajima... – Izaya olhava claramente nervoso do chão sujo do banheiro para seus olhos.

– Tsc! Isso depois. Agora você sai dai, pulga.

O outro, entretanto, apenas permanecia quieto, a toalha segura em suas mãos, levemente afastada de seu corpo, que ainda mantinha sob o chuveiro.

– Que merda, Izaya, sai logo dai. Ou eu vou até ai e te tiro.

Não era uma oferta de ajuda, era uma ameaça, sussurrada assustadoramente baixa e entredentes. Shizuo sabia que se fosse obrigado a ajudar Izaya diretamente acabaria por perder o controle que tentava a todo custo manter.

O moreno o obedeceu, como esperado que fizesse: desligou o chuveiro e enrolou a toalha em volta da cintura, deixando a área destinada ao banho sem secar-se adequadamente e criando em pequena poça de água parcialmente avermelhada no piso do banheiro. Os olhos castanho-avermelhados mantinham-se baixos e os pés descalços moviam-se ansiosamente. Izaya estava claramente encabulado, o que, de certa forma, acabou por fazer Shizuo sentir-se também desconfortável, mesmo que não soubesse explicar com exatidão porque via o moreno corar e envolver os braços ao redor da cintura protetoramente.

– Seque-se direito, idiota. Eu vou pegar algo pra... – deixou o banheiro sem terminar sua explicação, dirigindo-se a seu quarto e caçando no pequeno guarda-roupa uma toalha limpa, marrom-clara.

Quando retornou ao banheiro fez seu máximo para ignorar que Izaya permanecera na mesma posição, não movendo um músculo sequer para seguir sua ordem de secar-se. Jogou desleixadamente, mas eficientemente, a toalha ao redor dos ombros pálidos que tremiam levemente e aproximou-se com mais prestatividade do que gostaria de ter demonstrado.

– Deixe-me ver esta bosta. – apontou com o queixo o topo da cabeça de Izaya. – Onde você disse que doía?

Shizuo nunca imaginou que um dia de sua tragicômica vida estaria em uma situação com aquela: deslizando os dedos impacientemente pelos cabelos negros de um Izaya nu em seu banheiro. Ele tinha certeza, contudo, que o dono dos fios negros faria tudo o que estivesse ao seu alcance para transformar aquela situação na mais desagradável possível, caso um dia ela acontecesse. Ele poderia fazer isso de várias formas, metade delas envolvendo comentários ácidos e debochados. Shizuo acreditava, entretanto, que o que aquele outro Izaya optara por fazer era o pior de tudo, pior do que qualquer palavra sarcástica ou movimento questionável: ele corava e abaixava a cabeça.

Tinha vontade de fechar os dedos que afastavam os fios negros da ferida em punho e acertá-lo com força no informante, mas algo – e ele considerou que parte da responsabilidade fosse a incapacidade de reagir diante de um Orihara Izaya corado – o manteve parado.

– Não está tão ruim. Vou chamar o Shinra. – afastou-se gradativamente, rumando para a saída do banheiro.

– E... e eu faço o que? – os olhos castanho-avermelhados olhando-o expectantes ganhavam ainda mais destaque no rosto levemente corado. Mas mesmo que esperasse tanto por uma resposta, Izaya não ganhou nenhuma, o que, naquela situação, foi o melhor que Shizuo fez por ele.

“Não acredito que vou fazer isso”, foi o que pulsou em sua cabeça ao abrir a porta de seu guarda-roupa pela segunda vez naquela manhã. Ele nunca seria capaz de emprestar uma de suas roupas a Izaya, nenhuma das ganhas de Kasuka nem nenhuma das comprada com seu próprio dinheiro, mas ele sentia que deixar Izaya tremer nas toalhas molhadas, por mais que parecesse uma ideia agradável, traria a ele desnecessários problemas futuros. Assim, foi com parcial resignação e parcial sensação de dever-cumprido que pescou na gaveta superior um lençol branco e o colocou sobre os ombros, rumando de volta ao banheiro, onde Izaya o esperava com a mesma expressão expectante de antes.

– Enrola isso nessa merda e senta na sala. Vou chamar o Shinra.

– Com merda você que dizer... eu? – pela primeira vez deste que batera em sua porta, Shizuo viu Izaya sorrir – diretamente – a ele um sorriso que lembrava vagamente os sarcásticos que usualmente exibia.

– O que mais seria, pulga? – retribuiu o sorriso, contagiado pela sensação de que o outro revelaria o jogo, colocando todas as suas cartas na mesa e que ele poderia, finalmente, fazer sua jogada e caça-lo.

– Ok, obrigado.

Shizuo piscou algumas vezes enquanto encarava a leve reverência que Izaya lhe dedicava, deixando que seu próprio sorriso sumisse gradativamente. Coçou os olhos, cansado, e abriu-os excessivamente, fitando o outro. Ele tinha certeza que havia visto um sorriso malicioso naquele rosto pálido, mas agora não havia sequer rastro dele ali.

– Ah! O que?

Os olhos castanho-avermelhados que agora o encaravam diretamente abriram-se em demasia, surpresos. Shizuo deveria ter desconfiado que esta seria a reação mais provável de alguém cujo queixo tivesse sido subitamente agarrado, mas estava preocupado demais procurando naquele rosto a poucos centímetros do seu o sorriso que vira segundos antes para perceber o quão estranha era sua ação.

“Tenho certeza que vi...”, pensou, soltando o queixo que mantinha entre seus dedos e usando-os agora para empurrar as bochechas parcialmente coradas do outro num sorriso forçado.

– Hahahaha... O que está fazendo, Heiwajima-san? Por que está apertando minhas bochechas assim? Que fofo!

As bochechas que até então tentava forçar a sorrirem, empurraram-se voluntariamente contra seus dedos numa risada alta e fácil, à qual olhos brilhantes fizeram companhia. Aquele não era o sorriso que buscava, não chegava sequer perto de sê-lo. O riso de Izaya não era um riso fácil que chamava outros a juntarem-se a ele, era sempre um riso forçoso, particular, cruel. Shizuo sabia disso, sabia bem disso após tantos anos sendo o principal alvo do riso sarcástico e malicioso. Para ele, ver aquele sorriso leve em Izaya era chocante o suficiente para fazê-lo esquecer prontamente as palavras que se seguiram ao riso e não se importar com o adjetivo que lhe fora direcionado.

Soltou o rosto que ainda sorria e afastou-se.

Ele precisava solucionar aquilo.

Rápido.

Precisava alcançar novamente seu quarto e buscar na cômoda o celular. Precisava digitar o número de Shinra e chama-lo com urgência. E era nisso que se focava plenamente, ignorando o homem que o olhava intenso, acompanhando seus passos, enrolado em um lençol branco.

– Shinra. É, eu sei que é cedo. Eu sei, mas isso não importa. É urgente. Escuta, Shinra, é urgente. Você precisa vir até aqui. É, meu apartamento. Como não sabe? Enfim... A Celty sabe onde é. Traga ela junto! Rápido! Shinra, está me ouvindo? Que caralho de barulho é esse? O que você está fazendo? Ah! Não, não quero saber... Só venha rápido!

Fechou o celular nervosamente entre os dedos, encerrando brutamente a ligação, e virou-se para encontrar Izaya parado na porta de seu quarto.

– Quem é Shinra? O que ele estava fazendo?

– Outro idiota. E... eu sei lá o que estava fazendo... provavelmente alguma idiotice.

Franziu o cenho para Izaya, que se moveu desconfortavelmente e deixou a soleira da porta do quarto, virando as costas, resignado, e direcionando-se à sala. Shizuo suspirou longamente, contando quanto tempo demoraria até sua campainha soar e por fim seguindo atrás de Izaya, jogando-se cansado na poltrona e apertando o celular entre os dedos. Sabia que o despertador não demoraria a soar, alta e irritantemente.

A luz solar já preenchia totalmente seu apartamento há algum tempo, mas somente naquele momento Shizuo permitiu-se um olhar na direção da janela. Arriscou pensar que aquele dia, ainda que frio, contaria com ao menos um pouco de sol e talvez se mantivesse sem as desagradáveis chuvas. Os invernos eram normalmente secos em Ikebukuro, mas aquele, para seu desagrado, fora anunciado como atípico pela bela moça do canal de TV. Ainda que tivesse alguns dias até a mudança da estação, entretanto, Shizuo notava que o distrito preparava-se para trazer o frio e as prenunciadas chuvas.

– Quem é Celty?

Sem o som da chuva para preencher o ambiente como na madrugada, a voz de Izaya soava alta e limpa. Ele não planejava responder, mas manter-se em silêncio provava-se ainda menos atrativo do que arriscar uma conversa com o informante.

– Celty? É quem aguenta o idiota do Shinra.

Vinte minutos, talvez menos. Vinte minutos era o tempo que ele teria que aguentar até Shinra tocar a campainha e livrá-lo de seu problema. Seu problema, entretanto, não parecia querer aguardar em silêncio.

– Aguenta? Como namorados?

– Noivos, eu acho.

“Ou ao menos ouvi o Shinra dizer algo sobre isso... há quanto tempo...? Hum... Shinra é um cara de sorte, lembro quando ele me apresentou a Cel-...”.

– Heiwajima-san... Heiwajima-san... – olhou para o homem a sua frente, parcialmente surpreso. Havia se distraído e não percebera a voz baixa que o chamava. Direcionou a ele sua atenção, vendo-o baixar os olhos e apertar o lençol com força entre as mãos. – Posso fazer uma pergunta?

“Não”, foi o que pensou, certo de que não gostaria de ouvir qual seriam as palavras que deixariam os lábios normalmente venenosos daquele homem. Seu silêncio, entretanto, deve ter sido interpretado como um incentivo, pois o moreno voltou a separar os lábios, olhando-o de relance antes de continuar:

– Quando encontrei a garota, ela disse que... – tornou a fechar os lábios e olhou-o diretamente. Shizuo não pode evitar sentir-se sondado. – Você sabe?! Depois que eu acordei quando ninguém quis me ajudar exceto aquele rapaz, Kadota, e a garota que estava com ele... Essa garota disse que eu devia te procurar porque você era... – a voz tornou-se fraca e Izaya limpou a garganta antes de continuar –... que você era alguém especial para mim e por isso eu devia te procurar. – Shizuo permaneceu quieto, as sobrancelhas tensas, esperando o que aqueles olhos que voltaram a sondá-lo diriam – Eu estava certo de que devia te procurar, então, já que ela havia dito que você era especial pra mim... Primeiro pensei que você era algo como alguém da minha família, mas seu nome e o nome que Kadota dizia ser meu eram diferentes. E, de toda forma, nós somos bem diferentes, né?! Você não é da minha família, é? Depois disso pensei que éramos amigos... Mas quando te encontrei e você me bateu eu não entendi mais nada. E eu percebi, também, que talvez você não goste muito de mim... Você não parece muito feliz por eu estar aqui... Mas me ajudou mesmo assim e agora a pouco estava me tocan-tocando minha bochecha... Você pode... por favor... me dizer o qu- me dizer o que somos? Ou dizer por que aquela garota me mandou aqui?

Izaya calou-se, por fim, e recostou-se contra o sofá, encolhendo-se dentro do lençol e envolvendo-se ternamente com ele, como se buscasse proteção. Shizuo não sabia qual o rosto fazia no momento, mas imaginou que a postura recuada de Izaya significava que toda a confusão e raiva de seus pensamentos transparecia em seu rosto. Ele não sabia exatamente sobre o que estava irritado. Não que ele não tivesse motivos, o problema era o exato contrário: ele os tinha em demasia, tornando-se incapaz, portanto, de eleger um para focar-se e atacar com força. Ele não sabia se odiava mais aquele Izaya recuado em seu sofá, a garota que dissera coisas estranhas a ele ou o olhar expectante que esperava por sua resposta.

E, como intensificador de seu desconforto, ele não conseguia pensar em uma resposta, não uma que utilizasse palavras, ao menos. A única coisa que poderia fazer era levantar-se e jogar Izaya através de sua janela. Ou soca-lo até que ele não esperasse mais por resposta alguma... Mas até mesmo ele sabia o quão patético seria se realizasse qualquer um desses seus desejos. Talvez fosse exatamente isso o que ele mais odiava no momento: seu inimigo a tentar uma conversa aparentemente sem ironias ou provocações e mesmo assim mal conseguir conter a vontade de partir para cima dele.

Shizuo odiava violência ainda mais do que odiava Izaya. Seu ódio a Izaya estava entrelaçado ao seu ódio à violência, alimentando-se dele. Ele o odiava porque Izaya trazia a tona, como se nada significasse e sem autorização, sua violência, provando a ele como era incapaz de manter-se sob controle. Mas, agora, ali estava Izaya, quieto, sem provocações, recuado e obediente, exatamente o oposto do que normalmente era, e, mesmo assim, ele ainda sentia-se prestes a explodir de raiva.

O som alto da campainha libertou-o da opressão por uma resposta e ele não hesitou nem um instante antes de dirigir-se com passos firmes até a porta e abri-la num só impulso, acenando levemente com a cabeça e ditando a seus convidados que entrassem.

– Shizuo-kun, não que eu me importe quando me chama assim... mas é verdadeiramente cedo! Eu estava com meu nov- Oh! Izaya!

Shizuo assistiu quando os olhos castanhos extremamente curiosos circundados por óculos dançarem de Izaya até ele, e então até Celty que, ele pode perceber, tinha uma aura apreensiva em volta de si. E não foi com surpresa que viu o capacete amarelo com orelhinhas virar-se em sua direção e entortar-se levemente para o lado em clara confusão.

– Eu te chamei aqui porqu-...

– Shizuo-kun, sabia que o Izaya está sentando no sofá da sua casa? – franziu a sobrancelha, que tipo de pergunta idiota era aquela? Claro que ele sabia. – Porque ele está ali! Sério! Bem ali! – Shinra apontava com o indicador esquerdo diretamente para Izaya, que recolhia-se mais contra o lençol e olhava-o num misto de surpresa e curiosidade.

– Eu sei. Eu te chamei aqui porque ele preci-...

– Uou! Você consegue ver também, Celty? É o Izaya, não é?! Mas sua cara está meio estranha, Izaya-kun... – Shinra inclinava sobre o moreno que apertava com mais força o lençol nos dedos – Já sei... Shizuo bateu muito forte?

– Ah! Não... eu...

– Ouviu isso, Celty? É a voz do Izaya! – o médico clandestino estreitou os olhos e Shizuo teve certeza que nada de bom viria a seguir, mas antes que pudesse interrompê-lo, Shinra segurou numa das dobras do lençol e puxou-a com força, de forma que Izaya, mesmo segurando o tecido com ambas as mãos, não pode evitar que parte de seu tronco desnudo ficasse exposto. – Espera ai... você... – Shinra soltou o lençol e encarou Shizuo com um misto de preocupação e curiosidade, esta mais presente que aquela – Shizuo-kun, sabia que o Izaya-kun está pelado no seu sofá? – estreitou os olhos até quase fecharem-se, desconfiado e divertido – Ou melhor: por que o Izaya está pelado no seu sofá?

– Eu não estou pelado! – Izaya defendeu-se, claramente indignado, mas Shizuo desejou que ele não o tivesse feito: os olhos de Shinra agora brilhavam em divertimento.

– Ah não?!

– Não! Eu tenho isso! Vê? Eu estou coberto! Não estou... pelado. Você não consegue ver nada através disso! Consegue? – a voz decidida de Izaya assumia progressivamente tons inseguros, de forma que a última palavra quase soava como uma súplica. Shizuo não sabia se era óbvia a forma como ele estava constrangido ou se ele apenas se tornara mais sensível às expressões daquele novo e estranho Izaya.

– Shizuo, – Shinra chamou-o, sério, e o guarda-costas pode sentir Celty aproximar-se de si e pousar as mãos em seus ombros, como se quisesse reforçar as palavras que seu amado diria – dessa vez você exagerou.

– O qu-...?

– O que você fez com ele? Por que ele parece estúpido?

– Hey! – Izaya exclamou, claramente ofendido, mas sua reclamação não alcançou nenhum dos presentes.

– Eu não fiz nada! Ele apareceu assim na minha porta! – Shizuo gritou em sua defesa. Ele tinha parcela de culpa em muitos ferimentos de Izaya, mas aquele, em específico, ele sabia não ser a causa. – Então não é minha imaginação, não é? Ele mesmo está diferente, né! – perguntou, quase suspirando aliviado. Saber que não era o único a ver como aquele não parecia verdadeiramente Izaya o confortava mais do que admitiria.

– É, tem sim alguma coisa errada nele... Além, claro, de estar pelado no seu sofá... Não foi você?

– Eu disse! Ele apareceu aqui assim... Conta pra ele, pulga.

– Pulga... ok... isso de novo! Você me chama de pulga, Heiwajima-san, mas eu não posso usar o seu apelido sem que você fique com olhar assassino! – Izaya gesticulava, claramente incomodado. Shizuo arriscou pensar que a forma como todos pareciam falar dele como se ele não estivesse presente esgotara a paciência até mesmo daquele Izaya recuado e meio medroso. Isso quase – quase – o fez respeitá-lo um pouco mais.

– O que foi isso?! Por que ele está falando assim? Por que ele te chamou de “Heiwajima-san”?

– Cala a boca, pulga. Explica logo esta merda pro idiota!

– Ohhhh! Lá vem! Acho melhor a gente ir agora, Celty querida! – apesar do comentário, Shinra não movera um músculo, olhando expectante ora para o guarda-costas ora para o informante. Não demorou, entretanto, para que franzisse as sobrancelhas e formasse com os lábios um perfeito “o” surpreso enquanto fitava Izaya mover-se desconfortavelmente no sofá e abaixar os olhos.

– Eu vou contar... Só... não me lembro de nada. Eu já disse pro Heiwajima-san: eu acordei num beco não muito longe daqui, chovia forte e eu sentia muita dor na cabeça... Bem aqui, e depois sangrou bastante quando eu tomei banho... Todo mundo me evitava, mas dai um rapaz parou para falar comigo e junto com ele tinha um menina e ela me disse para vir aqui e... Ei, espere! O que está fazendo? Dói! Não aperte!

Shizuo observava de canto enquanto Shinra aproximou-se de Izaya durante o relato e com o olhar curioso e assustador que assumia sempre quando seu lado médico aflorava passou a examinar sua cabeça, exatamente no lugar para o qual o informante apontava. Vendo o desconforto do moreno, Shizuo acabou por involuntariamente chamar a atenção do médico clandestino pra si:

– E foi isso. Ele encontrou Kadota e aquela maluca da Karisawa e eles o mandaram pra cá. Quando bateu na minha porta disse não lembrar nem quem é e nem quem eu sou. Tomou um banho e sangrou bastante. Parece que ele continua sem lembrar-se de porra nenhuma. – franziu o cenho, fitando com intensidade os olhos castanho-avermelhados que o encaravam apreensivos – Isso, claro, se ele estiver falando a verdade. E é ai que você entra, Shinra.

Assistiu Shinra estreitar os olhos e afastar a mão que mantinha sobre a cabeça de Izaya, buscando em seu bolso um par de luvas, vestindo-o e assumindo o ar profissional que Shizuo sempre estranhava ver no amigo.

– Bom, Izaya, vocês sabe quem eu sou?

– Sim, você é o Shinra e é médico. – respondeu satisfeito, acrescentando baixinho em seguida: – Ou ao menos eu espero que seja.

– Sou médico e este é meu nome. Mas não foi isso que perguntei, você sabe.

Izaya apenas negou com a cabeça, mordendo levemente o lábio inferior, claramente frustrado.

– E ela? Você sabe quem ela é?

– Celt-...

– Não o nome dela. Isso você ouviu, não é? Quero saber se se lembra de algo sobre ela. Como, por exemplo, por que ela usa um capacete.

– Porque ela anda de moto? – arriscou o informante e Shinra riu baixo.

– Bom... isso também...

– Eu sei... desculpe... eu não sei quem você é, nem que ela é, nem quem é o Heiwajima-san é ou porque ele me bateu ou porque ele parece estar sempre bravo comigo... e também não sei quem é sou, só sei que chamo Orihara Izaya porque me disseram... – Izaya cuspia todas as palavras, rápido e claramente frustrado, como alguém que as guardou consigo por tempo demais.

– “Ele parece estar falando sério, não é?” – foi o que Shizuo leu na tela brilhante do palmtop que Celty estendeu a ele, cutucando-o no braço para chamar sua atenção.

– Não sei, Celty. – respondeu sem tirar os olhos das palavras escritas.

– “Não estou dizendo que acredito nele... Afinal, é o Izaya. Estou só dizendo que ele parece dizer a verdade”. – Shizuo poderia dizer que concordava com as novas palavras que apareciam progressivamente conforme a dullahan digitava, mas manteve-se quieto – “Shinra poderá saber... não se preocupe”.

“Não estou preocupado”, era o que gostaria de ter respondido, mas sabia que seria inútil mentir à amiga. Ele estava preocupado, mesmo que não soubesse direito o que faria quando soubesse a verdade. Levantou os olhos do palmtop e fitou novamente médico e paciente, assistindo Shinra analisar os estranhos olhos castanho-avermelhados através de um aparelho tirado sabe-se lá de onde.

– É difícil dizer, Shizuo-kun. Ele não está mentindo sobre ter batido a cabeça, mas, bom, isso você já sabia... Precisaria de uma análise completa para te responder com precisão. Mas, de toda forma... – os olhos circundados por óculos brilharam, intensos –... parece muito interessante.

– Ótimo, ele é todo seu.

– Como assim todo meu? Eu não quero. Não queremos, não é, Celty? Mesmo que estejamos pensando em aumentar a família...

Shizuo sentiu a dullahan se remexer nervosamente ao seu lado e bufou. Não bastava Izaya estar brincando com ele ao aparecer a sua porta, Shinra resolvia que também era uma boa opção fazer piadinhas.

– De toda forma... – o médico se recompôs, voltando a assumir seu raro tom sério –... eu o levarei para poder examiná-lo. Mas não posso, enfim, você sabe... ficar com ele lá... – Shinra encarou-o diretamente, franzindo as sobrancelhas, frustrado – Shizuo, o quão cruel você é por sugerir a um casal apaixonado que acolha em seu ninho de amor um terceiro?

– Isso não é problema meu. Examine a pulga e largue ela por ai. Por que ele teria que voltar pra cá?

– Não tem como ele ficar sozinho desse jeito... Pelo menos agora...

– Melhor do que ficar aqui.

Shinra pareceu ponderar sua resposta, mas Shizuo soube, no momento em que disse as palavras, que o médico acabaria por ceder. Ninguém – além de Karisawa Erika – seria maluco o suficiente para sugerir que Shizuo ficasse com o informante. Por fim, com um suspiro cansado, o médico acabou por dobrar-se:

– Eu fico com ele por alguns dias, então, até ele estar bem o suficiente pra voltar pra casa.

Heiwajima Shizuo não era um homem supersticioso, nunca fora, sempre tivera problemas o suficiente em seu presente para perde-se em devaneios sobre possíveis futuros. E aquele momento não lhe forneceu nenhum indício para que abrisse uma exceção: Izaya não o olhou malicioso, não sorriu sarcástico e sequer uma palavra deixou seus lábios, nem irônica nem contestadora. Absolutamente nada. Seu pior inimigo acompanhou porta afora de olhos baixos e lábios cerrados o médico cujo olhar brilhava perigosamente, deixando para o dono da casa apenas silêncio. Não houve nenhum indício de que aquele problema não havia se encerrado ali, Shizuo, entretanto, não pode evitar que um arrepio gelado corresse sua espinha e os pelos de sua nuca arrepiassem-se contrariados.

Ele tinha certeza de que aquela não seria a última vez que aquele homem cruzaria a porta de entrada de seu apartamento.

Notas finais
Olá de novo, ^^ Eu sempre me divirto escrevendo, mas este capítulo foi para mim algo totalmente diferente, me diverti muito, muito, muito mesmo!, enquanto escrevia. Espero, então, que minha diversão tenha alcançado você que leu! =D Obrigada por chegar até aqui, Até, Beijo, beijo, =* Yuki