(in) esquecível

5 Sobre como sua ausência e seu retorno pareciam uma coisa só


Notas iniciais
Olá, pessoal, Tudo bem com vocês? Como sempre, agradeço a todos os comentários, os favoritos e a todo mundo que está lendo! Espero do fundo do meu coração que gostem do capítulo! Nos vemos nas notas finais, Beijo, =* Yuki



Sobre como sua ausência e seu retorno pareciam uma coisa só



– Seu rosto está péssimo.

O comentário saiu baixo dos lábios de seu empregador, e Shizuo sabia o quanto o homem a seu lado ensaiara as palavras antes de dizê-las em voz alta. E talvez a profunda consciência de que Tom, provavelmente até mais do que ele mesmo, não desejaria ter iniciado aquele assunto controlou sua vontade de rosnar irado um “Foda-se” ou um “E isso não é problema seu”.

– Não dormi esta noite. – foi o que deixou os lábios do guarda-costas. Franziu as sobrancelhas, desgostoso. Mesmo que tivesse conseguido evitar a resposta atravessada que seu amigo não merecia, não pode controlar a irritação em sua voz.

– Eu devo saber o motivo?

Shizuo entendia que aquela pergunta significava muito mais do que poderiam dar a entender as palavras escolhidas. Tom nunca invadia seu espaço pessoal, esta era uma das regras estabelecidas por eles mesmo sem declaração oficial. A única exceção a esta regra era caso a vida pessoal do guarda-costas influenciasse no trabalho de ambos, o que acontecia com mais frequência do que o loiro gostaria de admitir. Afinal, “descontrolar-se sem motivo e surrar além do necessário um devedor” era exatamente o que Tom classificava como “razões pessoais” e que, portanto, deveriam ser discutidas e limitadas. Com aquela pergunta, portanto, Tom claramente perguntava se o que quer que fazia-o julgar o rosto de Shizuo como “péssimo” influenciaria no trabalho deles, mesmo que até então o guarda-costas tivesse se comportado perfeitamente, cumprindo seu trabalho com eficiência.

Shizuo crispou os lábios, incomodado. Tom não o olhava diretamente, mas sabia que esperava por uma resposta. O problema a o fazia torcer o cenho, entretanto, era o fato de que, por mais que concordasse que o outro merecia uma conclusão, ele não tinha uma. Ele sinceramente não sabia se tinha um problema. Ou melhor, se ainda tinha um problema. Era óbvio que ele tivera um problema na noite anterior e que seu rosto mal-humorado e visivelmente exausto era resultado deste problema. Mas se fosse só isso ele poderia simplesmente levantar sua voz e dizer “Não, o motivo não importa” e fim de conversa.

Contudo, não era assim tão simples. Por mais que ele quisesse dizer de bom grado que tudo estava encerrado, no fundo ele sentia que havia algo errado nesta conclusão. Ao mesmo tempo sentia-se estúpido por cogitar a possibilidade de que seu envolvimento com o estranhamente patético Orihara Izaya aparentemente sem memórias não acabara. A simples ideia de pensar nesta possibilidade e ver-se acreditando mesmo que involuntariamente nela o deixava possesso.

Antes que pudesse responder, entretanto, e como se lesse as preocupações em sua mente, Tom voltou a pronunciar-se:

– Eu ouvi hoje de manhã uma conversa. Não foi intencional, mas são coisas que ouvimos quando trabalhamos em um ramo como este... – fez uma breve pausa, olhando de canto provavelmente para certificar-se de que era ouvido – Pegaram Izaya ontem. Parece que o apagaram.

Shizuo podia sentir a insinuação na voz de Tom, mesmo que soubesse que ele tentava controla-la ao máximo, conhecendo o quanto ela seria nociva. “Não o apagaram”, foi tudo o que sua mente pode pensar em resposta às palavras do cobrador, “Não totalmente, ao menos”.

Buscou no bolso da calça social seu maço de cigarros e levou um deles aos lábios. Sabia que durante aquela manhã havia fumado mais cigarros do que normalmente fumava ao longo de um dia completo de trabalho. Ainda assim a fumaça invadiu seus pulmões como se o abraçasse após anos de desencontros.

– Não apagaram. – repetiu em voz alta as palavras em sua cabeça. Ele sabia que aquela pequena amostra de que tinha mais conhecimentos sobre o assunto do que seu empregador incialmente esperava o faria exigir por mais, mas mesmo assim continuou – Apenas o machucaram bastante.

– E eu devo perguntar como você sabe disso? – Shizuo quase riu diante da pergunta indireta de Tom. O amigo sempre agia desta forma quando pisava em terreno perigoso. Sempre começando suas perguntas indiretas com “e eu devo...” ou “eu deveria saber...”. Sentia vontade de responder: “Não, você não deve”, mas mesmo assim sentia-se grato por tamanha consideração por parte do outro.

– Ele apareceu machucado em minha casa.

– Entendo.

“Não, você não entende, mas mesmo assim não vai perguntar mais nada. Você esperará até que eu diga.”.

– Ele levou uma pancada forte na cabeça. Kadota o mandou até minha casa depois de encontra-lo vagando por aqui. Shinra está cuidando dele. – “E isso não é problema meu”, quis complementar, “‘Por que você não o matou? ’, você quer perguntar, não o fará.”. – Talvez ele tenha perdido a memória.

– Como “talvez”? – mesmo que Tom ainda não o olhasse, esforçando-se por não parecer interessado, Shizuo podia sentir a urgência em sua voz.

Deu de ombros. Era só isso: talvez. Shinra ainda não confirmara nada.

– O quão machucado ele estava?

– Não muito. Havia um corte onde supostamente foi a batida em sua cabeça que causou a perda de memória e sangrava um bocado. Mas fora isso... – “Já o deixei pior”, foi o que quis acrescentar, mas não o fez. – Ele ainda foi capaz de sair andando por ai e chegar até meu apartamento.

Juntou levemente as sobrancelhas, pela primeira vez considerando o quão ruim pode ter sido recebê-lo com um golpe e tê-lo feito apagar outras duas vezes. Não que ele pudesse ter evitado e não que o informante tenha parecido assim tão pior do que já estava depois de atingido. Inevitavelmente sua mente correu para o olhar assustado que recebeu dos olhos castanho-avermelhados, finalmente entendendo-o: Izaya estava temeroso por chegar consideravelmente machucado em um lugar e ser recebido com golpes. “Mas... ainda assim... ele insistiu...”.

– Você bateu nele?

– Sim.

– Muito? – não respondeu, mas o outro pareceu dar-se por satisfeito, lançando a próxima pergunta: – Ele reagiu?

– Não.

A surpresa no rosto de Tom, que finalmente voltara-se para fita-lo, era palpável. Shizuo sabia o que aquela surpresa insinuava, já vira aquela mesma insinuação no palmtop de Celty: ‘pode ser verdade’. Mas Shizuo não precisava de novas insinuações, sua mente já as fazia em demasiado.

“E se ele estiver falando a verdade?”: foi o que pulsou repetidamente em sua cabeça durante toda a manhã. “Ele seria capaz de fingir tão bem?”.

– Ele está com Shinra... mas você acha não acredita que ele ficará por lá?

Acenou positivamente com a cabeça, mesmo que não intencionasse de todo fazê-lo, e seus lábios acabaram por rosnar uma ameaça que, por mais convicta que tenha soado aos ouvidos de Tom, nem mesmo seu recitador acreditava.

– Se ele botar as patas aqui de novo eu o mato, com ou sem memória.

Era uma mentira, mas talvez ao dizê-la em voz alta ela se tornaria verdade, e isso era o bastante por hora. Ele sabia que Tom gostaria de perguntar mais, mas agradeceu mentalmente por não tê-lo feito, essa era outra das dívidas que teria para com o amigo. Sabia de sua incapacidade de reagir positivamente sob pressão e não gostaria de tê-la colocada a prova, principalmente agora que se esforçava tanto para acreditar na própria ameaça.

Durante o restante do dia ele ampliou este esforço a várias outras áreas: se esforçou ao máximo para não dar brecha ao cobrador para novas perguntas, o que, consequentemente forçou-o ao esforço por fazer seu trabalho de forma impecável. O problema é que fazer seu trabalho de forma impecável significava acompanhar Tom em exemplar silêncio e manter seu rosto firme. Eram raras as ocasiões nas quais realmente tinha que agir como um guarda-costas e guardar por seu empregador. As situações perigosas normalmente partiam dele e de sua incapacidade de manter seu semblante calmo diante das desculpas despropositadas que ouvia, nestas ocasiões ele não podia se segurar e acabava por levantar os punhos contra os devedores; as ocasiões nas quais a briga partia do lado oposto eram tão raras que sequer criavam estatísticas. Fazer seu trabalho impecavelmente significava, portanto, manter-se longe de brigas, o que significava, por sua vez, muito tempo livre sozinho no silêncio de sua cabeça. O silêncio solitário o obrigou a mais um esforço: o de não se preocupar com a ferida escondida por odiosos cabelos negros lisos e as possíveis questionáveis ações que a pessoa encarregada por ela poderia ter. Ele sabia que Shinra não tinha por Izaya o mesmo fascínio doentio que tinha por ele, mas sabia também que isso não impediria o médico clandestino de fazer mais do que apenas dar uma olhada no informante e tratar seus machucados.

“Isso não é problema seu, Shizuo”.

“A pulga aguenta um pouco da loucura do Shinra.”

“A pulga merece a loucura do Shinra.”

“A pulga nem está tão ruim assim.”

“A pulga não é problema meu.”

“Pare de pensar nisso.”

E mais de uma vez olhou de canto para Tom, questionando-se sobre o quão ruim seria ceder um pouco e preencher sua mente com o som de seu punho quebrando ossos, mas ninguém, absolutamente ninguém naquele dia ousou lhe dar um motivo para justificar sequer um mínimo descontrole de sua parte. “Você está mais intimidador que o normal”, foi o que o disse Tom ao fim do dia de trabalho como lesse seus silenciosos questionamentos. E ele não hesitou um segundo antes de acreditar em seu empregador.

Ele poderia, depois do trabalho, ter tentado algo mais. O que faria, as brigas que arrumaria, as coisas que quebraria depois das 19 horas não eram do interesse de Tom, não afetariam o cobrador e não dariam a ele permissão de questioná-lo. Ele poderia, também, ter convidado seu amigo e empregador para um jantar e tentado afastar, através da conversa, o silêncio perturbadoramente barulhento de sua mente, mesmo que soubesse que este método seria consideravelmente menos eficiente. Ele poderia, mas não fez nada, despedindo-se de Tom ao deixa-lo em sua casa e rumando direto a seu apartamento. Mas talvez não o tivesse feito, arrumando qualquer desculpa para manter-se fora, se soubesse que encontraria seu lar da forma que o encontrou.

O cheiro de Izaya estava impregnado em cada canto de seu apartamento, insuportavelmente poluindo cada centímetro de seu porto-seguro. O sofá, a amada poltrona que recebera de Kasuka, o batente da porta de seu quarto, a caneca que jazia desleixadamente dentro da pequena pia na cozinha: tudo ali tinha a presença de Izaya. E, para ele, que podia sentir aquele cheiro e presença insuportáveis à distância, a proximidade absurda de tudo fazia-o sentir como se Izaya estivesse ali com ele, como se apoiado em suas costas.

O sofá, a poltrona, o batente da porta e a caneca não o preparam, entretanto, para o que encontraria quando adentrou seu pequeno banheiro. O cheiro de Izaya ali beirava o ridículo. O cenário parecia o de um filme de terror: havia sangue seco no chão e toalhas sujas e um lençol jogados sobre a pia. Shizuo se esquecera de que encontraria seu banheiro em tal estado caótico, mesmo que o tivesse visto daquela forma ao escovar os dentes pela manhã antes de deixar o apartamento.

– Eu terei que... sozinho... esta merda toda...

Os olhos castanho-dourados fitavam com um misto de desaprovação e nojo o chão do banheiro. Shizuo não era um homem paranoico com limpeza, nunca o fora, mantinha seu apartamento limpo mais por hábito do que por desejo e muitas vezes procrastinara tarefas ao ponto de deixar seu lar um caos. Shizuo também com não era um homem inclinado a pensar que algo no mundo poderia afetar sua saúde e sabia que se dissesse para seu pior inimigo o que pensava ao encarar o sangue seco no chão ouviria um “Como se você pudesse morrer com alguma doença, Shizu-chan”. E ele mesmo não acreditava que alguém como Orihara Izaya se deixaria abater por alguma das doenças que Shizuo considerava ao encarar o líquido agora vinho-negro a manchar os ladrilhos brancos. Mas não podia evitar que repulsa tomasse uma parte de si ao imaginar-se se abaixando com um pano úmido em mãos com o intuito de tornar seu banheiro novamente habitável.

A repulsa que sentia, entretanto, foi gradualmente dando lugar a outros sentimentos enquanto ele finalmente esfregava com uma esponja o chão branco. O primeiro deles, claro, raiva por ser obrigado o ajoelhar-se para limpar a sujeira de Izaya. O segundo não era assim tão fácil de definir, mas amarrava-lhe um pouco a garganta e pesava no fundo de seu estômago. Era arrependimento, mas Shizuo ou se recusava ou era incapaz de percebê-lo. De toda forma, tudo o que sabia era que o enforcamento e o soco que dedicara ao informante não pareciam agora ideias tão boas e justificáveis. O moreno realmente perdera sangue.

Inevitavelmente lembrou-se das marcas vermelhas de dedos no pescoço e da bochecha esquerda inchada: elas pareciam destoar tanto do olhar que recebera do outro, agradecido quando o deixou entrar e ressentido quando o mandou embora. Lembrava-se dos olhos baixos que acompanhavam o moreno ao apertar o lençol entre os dedos enquanto se dirigira ao banheiro e que ainda baixos emolduraram o rosto de um Izaya vestido novamente com sua típica roupa negra, ainda totalmente molhada de chuva. O moreno não o olhara antes de deixar o apartamento com Shinra, mas Shizuo podia sentir o quão insatisfeito estava.

Mas ele, mesmo que se esforçasse, não entendia o porquê de Izaya querer ficar. Se ele havia mesmo perdido a memória, não havia nada de sensato em confiar em estranhos na rua que o mandavam a um lugar onde era recebido com golpes e desejar, mesmo assim, ficar por lá, mesmo após o dono da casa ter declarado com todas as letras que poderia te matar. E, de toda forma, Kadota havia também mencionado Shinra, Izaya não devia parecer hesitante ao acompanha-lo, principalmente por saber que era um médico. Talvez Izaya tivesse um instinto primário que dizia “irrite o Shizuo”, e que o impedia de, mesmo sem memória, deixar o guarda-costas em paz.

Ou, claro, ele estava mentindo e aquela era uma de suas brincadeiras.

Não conhecia suficientemente bem o informante para saber até onde ele iria. Os anos lhe ensinaram a destinar a Izaya parte da culpa por tudo o que acontecia de ruim a ele e tudo o que era errado em Ikebukuro. Mas exatamente por culpa-lo por absolutamente tudo, via-se agora sem conseguir reconhecer os limites e o modus-operandis de seu pior inimigo. Izaya iria longe o suficiente ao ponto de colocar-se desarmado a sua frente para receber seus golpes sem desviar? Longe o suficiente ao ponto de pedir ajuda a ele e ficar a sua mercê?

Shizuo sabia, sem sombra de dúvidas, que Izaya era louco, só não sabia o quão louco era.

Com a pior parte do trabalho de limpeza feito, restava a ele apenas colocar para lavar o lençol e as duas toalhas sujas. Isto, perto do que já tinha feito, quase o fazia sorrir satisfeito de tão simples que seria. Ao invés de abrirem-se, entretanto, seus lábios apertaram-se em uma linha fina enquanto o guarda-costas estancava, atônito. À linha fina dos lábios juntou-se o cenho franzido. Ele ouvira, tinha certeza de que ouvira, um agudo tilintar no chão recém-limpo ao trazer para seus braços os panos que jaziam no batente da porta à espera de serem levados até a máquina de lavar. Sua expressão tornou-se mais séria e um sorriso malicioso apossou-se de seus lábios ao encontrar ao lado da pia o motivo de tal estranho barulho: um fino pedaço de metal, pequeno o suficiente para ser confundido com uma lâmina de barbear.

Shizuo passou a ponta do indicador pelo comprimento da lâmina, checando o corte. Sorriu mais largo ao vê-la ridiculamente afiada. Tinha certeza: era um pedaço quebrado de uma lâmina maior.

Um pequeno presente deixado em seu banheiro.

E a desconfiança que sentia tornou-se certeza: Izaya voltaria.

Izaya voltaria.

Mas não seria naquele dia, Shizuo constatou ao olhar através da janela de sua diminuta sala para a rua deserta em frente a seu prédio antes de rumar a seu quarto e enfiar-se debaixo dos cobertores. E nem no próximo, foi o que percebeu quando não sentiu o cheiro de Izaya em nenhum momento pelo distrito.

O único prenúncio que se concretizava com toda a força era a previsão do tempo: a chuva caía dia após dia, fina e espaçada, por Ikebukuro e o frio aumentava a cada dia.

Não foi só uma vez que Shizuo pegou seu celular inquieto, assim como não foi só uma vez que digitou e apagou mensagens para Celty. Não estava preocupado, era apenas um involuntário e inevitável senso de responsabilidade por alguém que bateu à sua porta todo machucado em uma noite chuvosa três dias atrás. Ele sentiria o que sentia – e, não, não era preocupação, ele garantia – por qualquer um, mesmo por Izaya. Era, talvez, ele admitia, curiosidade. Um pouco, bem pouco, de curiosidade, mas não forte o suficiente para fazê-lo levar a cabo as ligações ou apertar o botão de envio das mensagens.

Ele sabia que não havia pedido por isso e que, pelo contrário, havia fornecido indícios exatamente na direção oposta, mas Shinra devia tê-lo contatado para informar sobre o estado do informante. O que o médico pensava mantendo-se assim em silêncio após tanto tempo? O que ele poderia estar fazendo em todo este tempo sozinho com Izaya? “A pulga tem as lâminas dele, consegue se defender”, era o que dizia a si mesmo, mas mesmo este conhecimento foi perdendo força depois do segundo dia sem qualquer noticia do homem possivelmente amnésico.

No fim do terceiro dia, uma sexta-feira na qual todo seu esforço por continuar o bom trabalho que fazia durante os dias anteriores ruiu por duas vezes quando pressionou com mais força do que o necessário dois devedores, decidiu que era hora de ir até Shinra atrás de uma resposta. O fato de ser sábado o dia seguinte o incentivava ainda mais a dedicar tempo indo até o apartamento do médico clandestino para tentar acertá-lo um golpe antes de ser impedido por Celty.

Sua decisão ruiu pontualmente às 21h, no exato momento no qual o programa de TV anunciava que para aquele final de semana as chuvas dariam trégua e que os dias seriam, portanto, os últimos nos quais os telespectadores poderiam aproveitar o sol agradável do outono. No exato momento no qual o jovem sorridente avisou que no dia seguinte pela manhã a estrela arriscaria-se, ainda que fraca, a brilhar no céu, Shizuo sentiu a presença de Izaya em Ikebukuro.

Ele poderia pensar que era imaginação sua, o tempo que permaneceu estagnado no mesmo lugar enquanto a programação na TV mudava uma vez, duas vezes, três vezes, apoiaria esta teoria. Continuava inegavelmente, entretanto, a sentir a presença do outro, mesmo que não parecesse aproximar-se ou afastar-se. Mas não era como se, mesmo depois de uma hora e meia sem qualquer novidade, Shizuo pudesse simplesmente ignorar que o informante estava em Ikebukuro, então permaneceu sentado em sua poltrona, na mesma posição, alheio ao som da TV ou a qualquer coisa que não fosse a presença de seu pior inimigo em seu distrito.

“Talvez Russia Sushi...”, considerou, mesmo que não fizesse sentido Izaya aparecer no distrito três dias depois de supostamente ter pedido a memória para comer relaxadamente um otoro.

Um arrepio gelado correu por sua espinha e sua mão torceu-se pela necessidade de conseguir alguma arma, ao sentir que finalmente Izaya se aproximava, agora numa velocidade absurda, como se para ganhar de uma só vez todo o tempo que demorara antes de se dirigir até ali.

Cinco, dez minutos, quinze minutos... Sabia que dentro de pouco tempo Izaya estaria novamente diante de sua porta, mas isso não o preparou para ouvir as duas batidinhas apressadas de nós de dedos contra a madeira. Os nós dos seus próprios dedos tornaram-se brancos de tão forte que os apertava em punho.

A maçaneta quase cedeu sob de seus dedos e as dobradiças reclamaram com um rangido ao serem tratadas com tamanha brutalidade, mas a reação mais notável foi a do homem do outro lado da porta. Não que Heiwajima Shizuo conseguisse ver esta reação, na direção completamente oposta, o guarda-costas não viu nada, nem mesmo o próprio Izaya. Foi somente após fechar a expressão, franzir o cenho confuso, avançar alguns passos e ganhar o corredor que foi capaz de ver Izaya parado alguns passos além, quase no fim do corredor. O moreno mantinha-se parcialmente de costas, uma perna adiantada como se preparado para a largada de uma corrida, o peito arfante, o rosto pálido voltado para trás e os olhos castanho-avermelhados arregalados.

– O que está fazendo?

– Eu? Nada.

Shizuo apertou ainda mais as sobrancelhas juntas e encarou o homem que continuava parado no mesmo lugar, encarando-o receoso. Involuntariamente deu um passo a frente, assistindo como imediatamente o moreno imitou seu gesto, não permitindo que a distância entre eles diminuísse.

– O que caralho está fazendo? – repetiu a pergunta, sentindo a raiva crescer em seu peito e afastar para longe qualquer rastro de uma possível preocupação que sentira por três dias.

– Nada. – repetiu a resposta, sondando o rosto de Shizuo com os enormes olhos preocupados. Respirou fundo antes de continuar – Você vai me bater?

Shizuo acabou por espelhar os olhos do outro, arregalando também os seus, voltando a franzir o cenho depois de um tempo. Ele quase se sentia ofendido pela pergunta, quase, mas no fim reconheceu-a como totalmente justificável.

Recuou o passo que avançara e outros tantos, voltando para dentro de seu apartamento sem fechar a porta atrás de si. Assistiu, enquanto sentava-se em sua poltrona, através de sua visão periférica, Izaya entrar e fechar a porta com uma batidinha surda. E enquanto levava um cigarro aos lábios via Izaya acomodar-se no lugar do sofá mais afastado de si. Com o cigarro acesso nos lábios e depois de uma profunda tragada, finalmente voltou os olhos castanho-dourados para sua mais nova companhia permitindo-se uma análise mais aprofundada. Ele vestia as roupas usuais e pareceria o mesmo de sempre se envolta de sua cabeça, acima de suas orelhas e parcialmente encoberta por seus cabelos, não fosse totalmente reconhecível uma faixa branca de gaze firmemente amarrada.

– E então...?

– Ele é assustador.

Shizuo quase não pode conter o riso que insistia por escapar por sua garganta. Aquela não era, definitivamente a resposta que esperava, mas não foi este o motivo que o fez rir. Ele rira porque não precisava de mais nenhuma palavra para saber a que se referia o outro. Ele ria porque ele mesmo já dedicara aquelas palavras a Shinra quando criança, mesmo que naquela altura tivesse acrescentado um “e irritante” ao adjetivo e tivesse soado mais raivoso do que temeroso. Izaya pareceu sentir-se ofendido por sua tentativa de riso, apertando os lábios, contrariado. O guarda-costas, entretanto, não respondeu à afirmação do outro ou a seu olhar reclamão, tragando pela segunda vez o cigarro e encarando-o fixo, a espera de uma explicação completa para seu “e então...?”.

– Ele queria fazer mais coisas comigo e hoje acordei com ele do meu lado, me encarando com uma seringa na mão... eu não quero ficar lá! E...e... – o informante baixava a voz, encarando os próprios dedos – A Celty é legal... mas... mas... ela não tem cabeça. Ela não tem cabeça, Heiwajima-san! Como isso é possível? Quando perguntei a Shinra o porquê ele só riu e retrucou, sério, se por acaso justamente eu não sabia onde estava a cabeça dela. Isso é assustador, Heiwajima-san! E nenhum deles respondia nenhuma das minhas perguntas, diziam que “Isso você vai ter que perguntar direto pro Shizuo”. Mas dai e-...

– O que você perguntou pra eles, idiota?

– Você vai me bater?

– O que perguntou pra eles, Izaya? – odiava fazer mais de uma vez uma pergunta, mas o olhar que recebia do outro lhe fazia ter certeza de que devia saber qual era a dúvida direcionada aos amigos, independente de quantas vezes tivesse que perguntar. Izaya respirou fundo antes de voltar a encará-lo e responder:

– Perguntei o que já tinha perguntado pra você, mas que você não tinha respondido.

Shizuo achou que era desnecessário perguntar novamente, tinha um palpite forte sobre o conteúdo de tal conversa, mas, ainda assim, limpou a garganta, apertou os dedos em punho e repetiu:

– O que perguntou a eles?

– Eu sai correndo de lá e cheguei bem mais cedo na cidade... Mas fiquei o tempo todo rondando... Não queria vir pra cá... Mas dai decidi e corri pra cá. Quando toquei a campainha fiquei com medo de que você se irritasse por eu ter vindo até aqui e tentei correr pra longe, mas você atendeu... Mas mesmo que tenha me deixado entrar e dito que não ia me bater-...

– Eu nunca disse isso. – rosnou, interrompendo a enxurrada de palavras que Izaya vomitava a ele. Todas elas, em sua opinião, totalmente desnecessárias. – O que caralho perguntou pra eles, desgraçado?

– Eu confesso que... – Shizuo revirou os olhos, irritado. Izaya estava testando-lhe a paciência não o respondendo mesmo após tanta insistência. E, verdadeiramente, sua paciência não era algo que precisasse de provas, ela, definitivamente, não passaria. – Mesmo que eu tenha dito que achei que éramos parentes ou amigos... Confesso que quando a garota me falou de você e por causa da forma como ela falou... Eu confesso que achei que éramos algo mais... Como... Você sabe, a Celty e o Shinra. E que você estava bravo porque tínhamos brigado... Mas mesmo assim se preocupou comigo e entrou no banheiro quando chamei e... Agiu normalmente... E... Tocou-me despreocupadamente... E... Me chama por um apelido e eu também te chamava por um... E eu... Eu verdadeiramente te acho bonito!

O cigarro em seus dedos deslizou para o chão e Shizuo não moveu um músculo sequer para impedi-lo. Ele olhou receoso para os lábios de Izaya, sabia que eles já não mais se moviam, agora calados, mas podia jurar continuar a ouvir um som ensurdecedor pulsar em suas têmporas. As palavras de Izaya flutuavam sozinhas em sua mente, sem que sua consciência conseguisse juntar-se a elas e ordená-las.

– E eu perguntei para você o que somos, mas você não me respondeu... Mas, independente disso eu prefiro ficar aqui com você a ficar com Shinra. Eu me sinto bem aqui... com você... Desde que vo-você não me bata. Ok?

Shizuo não percebeu que havia se movido até ouvir um som abafado escapar da garganta de Izaya. Encarou os olhos castanho-avermelhados abaixo de si, que o olhavam surpresos, e usou o próprio peso para imobilizar Izaya contra o sofá, impedindo que as duas mãos que seguravam com quase insignificante força seu braço direito na vã tentativa de afastá-la de seu pescoço o repelissem. Quando percebeu o que fazia afrouxou o aperto gradativamente, acabando por soltar o pescoço pálido e apoiando ambas as mãos nas laterais do rosto que o encarava assustado. Por fim relaxou a pressão que fazia sobre o outro com o corpo e afastou-se, apoiando um dos joelhos na almofada macia do sofá e estendendo a outra perna em direção ao chão, apoiando então o peso de seu corpo nela. Quando desviou os olhos do rosto do outro, tencionando levantar-se, sentiu um puxão leve barra-lo, impedindo-o de afastar-se. Foi a vez dos olhos castanho-dourados arregalarem-se em surpresa aos sentir um toque sutil em uma de suas bochechas. Apenas ao ver Izaya afastar-se percebeu que recebera um beijo, discreto e rápido.

– Está bravo por que me esqueci de você, Heiwajima-san? – a voz de Izaya soava baixa, amarga – Desculpe. Eu também não queria ter esquecido. Desculpe.

Uma série de impulsos correram por suas veias, tantas e tão rapidamente que Shizuo acabou por estancar. Seria fácil jogar novamente seu peso em Izaya e imobilizá-lo até que ele nunca mais fosse capaz de mover-se. Seria fácil desapoiar as mãos que se mantinham seguras nas laterais do rosto pálido e enfiá-las nele em forma de punho. Seria fácil, mas pela primeira vez na vida Shizuo sentiu que não seria o bastante, que independente do quão forte batesse, não seria capaz de resolver o problema que lhe lançava aqueles tão atentos olhos castanho-avermelhados. Não que antes ele se orgulhasse de recorrer à violência, mesmo quando a direcionava ao informante. Mas aquela era a primeira vez que sentia que devia acalmar-se e explicar as coisas claramente, antes de tudo tornar-se ainda mais complicado. Ele sentia que estava caindo em alguma armadilha e que cada vez que se movia colocava-se mais preso nela.

Recuou, desta vez sem qualquer impedimento, e sentou-se novamente na poltrona. Pescou do bolso um cigarro, acendeu-o com um profundo trago e encarou o homem a sua frente.

– Escute, pulga. Eu não acredito em você e eu não vou jogar este jogo estranho. Eu sei que você espera que eu me descontrole, porque é sempre isso que você quer, não é?!

– Não, Heiwajim-

– Cala a boca e me escuta. Você realmente deve estar me divertindo ao me colocar nesta situação. Mas eu não vou recuar. – afastou o cigarro dos lábios e suspirou profundamente – Não somos amigos. Eu não gosto de você. Você é um filho da puta. Desde o primeiro momento que coloquei meus olhos em você, antes mesmo disso, você sempre foi um desgraçado. Você também não gosta de mim. E tudo o que tem feito desde que nos conhecemos é foder minha vida. Você fode minha vida há anos. E você deve estar se divertindo escutando isso não é?! Você já me fez perder empregos, já me fez ser preso, já mandou pessoas atrás de mim, e já tentou me matar por mais vezes do que consigo me lembrar. A única relação que temos é essa: você me provoca, eu te persigo pelo distrito. A pessoa que te mandou aqui é louca.

Shizuo calou-se, o peito subindo e descendo rápido pela respiração arfante. Não soube exatamente qual momento se levantara, mas agora se via de pé, diante de olhos castanho-avermelhados que o fitavam assustados. Sequer se esforçou por sentar-se novamente, apenas se afastou do olhar intenso com passos firmes na direção da janela. Abriu-a, deixando o ar noturno gelado invadir a apartamento e recebendo-o com um suspiro profundo de boas-vindas. Sem virar-se para olhar o homem que sabia encará-lo acendeu um cigarro e soprou a fumaça janela afora.

Fumou o cigarro inteiro, deixando a nicotina acalma-lo, antes de virar-se novamente em direção ao apartamento. Os olhos castanho-dourados que antes fitavam a calma rua agora fitando os inquietos olhos com tons rubros que corriam de um lado ao outro e os lábios parcialmente abertos, mas silenciosos. Pensou em pressioná-los, os lábios e os olhos, por uma reação, mas optou por virar-se novamente para a janela e acender mais um cigarro. Foi, portanto, de costas que ouviu finalmente a resposta do outro:

– Então é assim...

Franziu o cenho, tragando mais longamente o cigarro em seus lábios. Aquela não era a resposta que esperava, mesmo que não soubesse exatamente o que queria ouvir. Por um momento pensou que Izaya esperava por uma confirmar, um “Sim, é assim”, mas antes de sequer considerar fazê-lo, ouviu-o pronunciar-se novamente:

– E isso explica algumas coisas, não é?! – um sorriso fraco preenchia os lábios finos do outro. Não havia humor ali, mas ao menos não havia deboche. – Quer dizer... Faz mais sentido você atacar seu inimigo quando ele bate na sua porta, do que atacar seu amante, não é, Heiwajima-san?! Hehehe...

O sorriso fraco transformara-se em uma baixa risada desconfortável. Shizuo, por mais que não conhecesse o homem sentado no seu sofá, podia jurar que ele sorria apenas para evitar o silêncio. A forma como ele continuou a sorrir, espaçadamente, enquanto abaixava os olhos e piscava cada vez mais demoradamente e a forma como seu rosto parecia tornar-se gradualmente mais vermelho enquanto ele sorria aquele riso estranho o fez franzir as sobrancelhas e crispar os lábios, desconfortável, sua expressão fechando-se mais a cada vez que ouvia mais uma série dos risos insólitos, baixos e sem humor.

– Hey, pulga, qual o problema?

– Problema? – a voz do outro era quase um sussurro, com se incapaz de amparar-se por si própria. Não respondeu mesmo após sentir os rubros olhos confusos em si, apenas apertando mais o cenho – Eu me sinto um pouco tonto.

– Ei! – foi tudo o que conseguiu gritar antes de ver o outro desabar em seu sofá.

Antes que os olhos castanho-avermelhados fechassem-se de vez, ainda ouviu um “Hehehe, eu não devia ter corrido até aqui, não é, Shizu-chan?” escapar de forma aérea pelos arfantes lábios entreabertos.

Notas finais
Olá de novo, Tudo bem até aqui? Agradeço todo mundo que leu até o fim. =D Alguém ai apostou que o Izaya ia voltar? E não só ia voltar como ia insistir na pergunta sobre a relação entre eles? Bingo! Espero que tenham gostado! ^^ Ah! Eu tenho também um convite a todo mundo que quiser: Escrevi uma fic para o desafio de abril, cujo tema é yaoi. É minha primeira original, uma one-shot bem curtinha e de formato diferente - tanto narrativo quanto temático - do que uso para escrever aqui (e do que usei em "Depois de um sonho"). O nome dela é "Todos os dias que são meus" e é uma história de amor suave de um rapaz preso a um milagre. Está todo mundo mais do que convidado a dar uma olhadinha. O link é: http://fanfiction.com.br/historia/608672/Todos_os_dias_que_sao_meus/ A quem resolver ler, espero que goste da história. Beijo, beijo, =* Yuki