(in) esquecível
10 Sobre como você nunca age como deve
Notas iniciais
Sobre como você nunca age como deve
– Estou com fome, Shizu-chan!
O informante repetira, esta vez mais alta que a anterior, como se para garantir que agora seria entendido. Shizuo não sabia qual expressão mostrava no momento, mas sabia que ela parecia confusa o suficiente para ganhar risos baixos de um Izaya que o olhava intenso enquanto apoiava a mão sobre a sua, que se mantinha ainda sobre a maçaneta da porta, e impulsionava seu corpo para frente e para cima, até que, agora nas pontinhas dos pés, eliminasse os centímetros de diferença entre eles e repetisse num sussurro em sua orelha esquerda:
– Estou com muita fome, Shizu-chan!
E os risos baixos transformaram-se em uma risada melodiosa que ecoou por todo o corredor quando o guarda-costas afastou-se de súbito da inesperada aproximação, recuando alguns passos para dentro de seu apartamento e olhando raivoso para o informante que passava pela porta agora aberta. Seu olhar duro emoldurado por sobrancelhas franzidas acompanhou os passos do outro enquanto o ultrapassava tranquilamente e jogava-se num pulo no sofá, como se dono da casa.
– O que quer dizer com fome, pulga? – perguntou rude, balançando levemente a cabeça ao pousar mais uma vez a mão direita na maçaneta e empurrar a porta com um impulso mais forte do que a situação pedia. Quando a porta fechou-se num estrondo, Shizuo já se esquecera completamente de que seu plano inicial era fechá-la com o informante do outro lado dela. Não dentro. Fora.
Os olhos castanho-avermelhados que o encaravam até então divertidos baixaram-se num claro gesto de vergonha. Shizuo encarou confuso o olhar baixo por alguns segundos antes de perceber o quão indelicada fora sua pergunta, e não conseguiu evitar se sentir desconfortável, como sempre se sentia quando via Izaya baixar seus sempre intensos e desafiadores olhos. Ignorando o estranho peso em seu estômago, sentou-se na poltrona ao lado do sofá e encarou o topo da cabeça repleta de cabelos absurdamente negros. Não falaria mais nada, nenhuma pergunta, mas também não expulsaria o informante de sua casa, o que, para ele, era verdadeiramente o máximo que podia fazer.
– Eu... – começou o moreno, brincando com os dedos na borda do casaco que vestia. Já não era mais seu moletom, como já não era há algum tempo. Izaya, afinal, o havia devolvido limpo em alguma das visitas diárias que fazia. Mas também não era o casaco negro com detalhes em pelos brancos que anteriormente vestia o informante com frequência. Era um moletom simples, negro, sem zíper, um par de bolsos largos nas laterais. – Eu queria ter te dito antes... E ensaiei formas de te dizer... Mas não é fácil... assim... Sabe...
O guarda-costas apertou o cenho, incapaz de conter a curiosidade que insistia em fazer-se presente. Ignorando, porém, o claro interesse que emanava dos olhos castanhos-mel, o informante manteve-se em silêncio, apenas aumentando a frequência com a qual corria as mãos pelo tecido negro. Shizuo sentia sua própria ansiedade aumentar enquanto assistia os repetidos movimentos nervosos dos dedos longos e finos.
– Desembucha, pulga.
– Não é fácil assim, sabia? Eu tenho orgulho! – e Shizuo, mesmo sentindo sua paciência esgotar-se, sequer cogitou duvidar das palavras de Izaya. Não quando as bochechas do informante pareciam refletir o vermelho de seus olhos que agora o fitavam intensos. A vergonha ali era tão evidente que o guarda-costas via-se incapaz de pressioná-lo por respostas – Eu levei até onde consegui... Mas... Cheguei no meu limite... – respirou profundamente, o peito subindo e descendo em notável violência – Eu preciso da sua ajuda. Eu não tenho dinheiro.
Os olhos castanhos-mel abriram-se em demasia, presos aos olhos castanho-avermelhados, encarando-os confusos. Não eram as palavras, entretanto, que o faziam fitar o rosto do outro com tal intensidade, Shizuo, afinal, ainda não as percebera por inteiro. O que mantinha seus olhos presos nos olhos de coloração tão característica era a expressão contrariada e a voz séria que parecia machucada pelas palavras que anunciava. Shizuo nunca ouvira em Izaya aquele tom. Nunca ouvira Izaya perder uma luta contra suas próprias palavras.
Ainda procurava entender a luta interna do informante quando viu seus lábios separaram-se novamente:
– Quando me deixou em casa, eu vasculhei as coisas e encontrei algum dinheiro...e... Tudo na geladeira estava estragado, mas tinha alguma comida nos armários... Arroz e... Missô... Macarrão... Mas não tinha tanta coisa assim. Acho que talvez eu não cozinhe tanto assim. Eu encontrei dinheiro nos bolsos de algumas calças e casacos e em uma gaveta... Mas não tinha quase nada. Eu acho que tenho mais, mas as gavetas estão todas trancadas e não sei das chaves. E... achei cartões, mas não me lembro das senhas. E-eu perguntei para o porteiro o que podia fazer... Claro que não expliquei tudo, não me olhe assim!, eu só comentei que tinha esquecido uma senha e ele me disse que podia ir ao banco no qual tenho conta e sacar dinheiro com algum documento de identificação com foto... Mas não achei nenhum documento meu... E... Shizu-chan... prometo que vou te pagar depois... é só que n-não sei mais o que posso fazer... Só tenho mais isso agora.
O informante calou-se, a cabeça baixa e as mãos estendidas em sua direção, as palmas pra cima exibindo algumas notas e algumas moedas. Não muito. Não o suficiente. Shizuo fitou o dinheiro por algum tempo antes de perceber do que se tratavam todas as palavras que Izaya vomitara para ele em uma velocidade absurda. Ao entendê-las, não conseguiu evitar corar quase tanto quanto corava o homem que agora evitava olhá-lo nos olhos.
Gradualmente os olhos castanhos-mel pararam de procurar pelos olhos castanho-avermelhados e baixaram-se também, envergonhados.
Nem em seus sonhos mais delirantes Shizuo imaginou ver Izaya em uma posição tão recuada e defensiva, os olhos baixos, o rosto corado e a voz hesitante. Mas a verdade é que ainda que sua imaginação algum dia tivesse cogitado uma cena como aquela, ela jamais chegaria aos pés da realidade. Sonho algum teria feito-o adivinhar o desconforto que sentia ao abaixar também seus olhos enquanto sentir seu próprio rosto corar e suas palavras recusarem-se a sair.
Shizuo agradeceria, mais tarde naquele dia, por não ter sido capaz de dizer nada. Não havia, afinal, nada o que pudesse dizer. Só podia espelhar aquela vergonha absurda que emanava das bochechas coradas. Ele nunca, afinal, sentira na pele o que aquelas palavras ditas tão rápidas realmente significavam.
Verdadeiramente, sua vida nunca fora fácil. Já passara por inúmeras situações adversas e dinheiro nunca fora uma questão descomplicada. Mas nunca, absolutamente nunca, estivera em uma situação como aquela. Nunca tivera que sentar-se no sofá de seu pior inimigo e explicar para ele que não tinha dinheiro sequer para pagar por uma refeição justa sem preocupar-se se poderia fazê-lo novamente no dia seguinte. E, de toda forma, Shizuo sabia ter Kasuka. Kasuka, mesmo sem seu pedido, estava sempre pronto a ajuda-lo. Aquele homem a sua frente não tinha, aparentemente, mais recurso algum além de pedir corado até o último fio de cabelo por sua ajuda.
Naquele momento, o fato de saber que aquele era Orihara Izaya, longe de fazê-lo recusar prontamente o pedido, o fez torcer o cenho de uma forma que sequer chegava perto de ser raivosa e prontamente buscar os dedos longos e pálidos, agora frios como gelo, que se entrelaçava aos cabelos negros da cabeça baixa, soltando-os apenas após ter arrastado seu dono até a pequena cozinha.
– Eu não tenho muita coisa, mas pode usar o que quiser...
Os olhos castanho-avermelhados o encararam excessivamente abertos, claramente surpresos, mas Shizuo não disse mais nada, retirando-se da cozinha a passos rápidos. Sabia que um bom anfitrião ajudaria a preparar a comida ou assumiria para si a responsabilidade. O guarda-costas, entretanto, rejeitou ambas as possibilidades prontamente. E, por mais que tentasse convencer a si mesmo de que não o faria por não ser um bom anfitrião e por Izaya sequer chegar perto de ser um querido convidado, o que verdadeiramente transformava em absurda a ideia de manter-se no mesmo cômodo que o informante era o fato de que não podia encarar por mais tempo seu rosto corado. Sentia como se um nó travasse sua garganta, nó que impossivelmente pareceu dobrar de tamanho quando ouviu Izaya perguntar, num tom que, ainda que alto, mal mereceria a alcunha de grito, se devia cozinhar também para ele. Nó este que tornou sua voz quase irreconhecível quando gritou que não era necessário.
Mesmo que por apenas alguns segundos, hesitou entre largar-se na poltrona e deixar seu apartamento por um tempo. Quando por fim afundou o corpo no almofadado macio de sua poltrona, pescou imediatamente um cigarro no bolso de sua calça.
– Era óbvio que isso aconteceria. – sussurrou baixinho, apenas para si, enquanto liberava lentamente os pulmões da fumaça.
Sabia que não devia, sabia que era absurdo fazê-lo, mas recriminava-se por não prever o que aconteceria. A verdade era que, ao deixar Izaya em seu apartamento em Shinjuku no início da semana, sequer cogitara a possibilidade de que o moreno poderia ter problemas sozinho. Coisas como alimentação e dinheiro nunca passaram por sua cabeça. Mas aquele era, de toda forma, um problema tão prático e previsível que parecia irreal. Era claro que Izaya não teria dinheiro. Como ele teria? Shizuo tinha certeza que, em algum lugar daquele apartamento tão carregado de coisas que ele sabia fugir à sua imaginação e admitia fugir ao seu interesse, devia haver dinheiro o suficiente para Izaya nunca mais precisar fazer aquilo que ele chamava de trabalho. Ele sabia, mesmo que nunca houvesse perguntado, que Izaya envolvia-se com políticos e com a máfia. Que fodia com gente muito mais importante que o guarda-costas. Logo, não havia dúvidas de que o moreno tinha dinheiro. Mas de nada adiantava tê-lo se não pudesse acessá-lo.
Shizuo corou mais uma vez ao lembrar-se do rosto de Izaya explicando-lhe a situação e, involuntariamente, levou uma das mãos até o rosto, deixando-o afundar-se nela e sentindo-o quente.
Pensar que Izaya tinha dinheiro e que não era um pobre coitado não o estava ajudando a reprimir o nó em sua garganta e o peso no estômago. Não conseguia deixar de pensar que devia ter previsto o problema, ao mesmo tempo em que não conseguia deixar de recriminar-se por sentir pena de seu pior inimigo.
Ele só queria esquecer tudo aquilo. Esquecer que Izaya batera a sua porta com fome e pedira sua ajuda. Aquilo era informação demais para sua já cansada mente.
O segundo cigarro que mantinha entre seus dedos e que tragava com frequência nada saudável ajudava-o progressivamente em sua tarefa de esquecer, mas continuar o progresso tornou-se impossível ao captar com sua visão periférica o vulto do informante no limiar de sua sala. Virou-se para olhá-lo apenas para arrepender-se no segundo seguinte. Os olhos castanho-avermelhados pareciam ainda mais baixos do que quando pediram sua ajuda e as mãos torciam a barra do casaco em claro desconforto. Restou-lhe apenas apagar o agora inútil cigarro ao ouvir um baixo agradecimento. Não havia, afinal, nicotina no mundo capaz de fazê-lo sentir-se melhor.
Os olhos castanhos-mel recusaram-se a encarar o homem que agora se acomodava mais uma vez no sofá ao seu lado, mas sabiam que, mesmo se procurassem pelos olhos castanho-avermelhados, não os encontraria fitando-os. O silêncio que preenchia o cômodo só não era mais desconfortável do que as palavras que deveriam estar preenchendo-o.
– O-brigado, Shizu-chan... Desculpe pelo trabalho... Usei o mínimo possív-
“Ah, por favor, merda! Não piore ainda mais...”, gritou em sua mente, torcendo para que seus pensamentos pudessem reprimir o som das palavras de Izaya. A última coisa que ele precisava agora era de humildade por parte daquele homem que durante toda a sua vida soube ser orgulhoso. Ouvir pedidos e agradecimentos daquele que manipulava as pessoas para seu benefício não era divertido nem trazia o doce sabor da vingança a seus lábios. Era horrível e nojento, fazendo seu estômago dar voltas em protesto.
Talvez percebendo a recusa por parte do guarda-costas em ouvir seus agradecimentos ou desculpas, Izaya acabou por calar-se, deixando mais uma vez o silêncio incômodo inundar o espaço entre eles. Entretanto, ainda que Izaya houvesse se calado, Shizuo não seria inocente o suficiente para acreditar que aquilo era tudo. Que não falar sobre o assunto o faria sumir como que por mágica. E não seria ingênuo o suficiente para acreditar que o que quer que Izaya houvesse cozinhado seria o suficiente para mantê-lo alimentado pelo resto da vida. Ele tinha um problema claro em suas mãos: Izaya não tinha dinheiro.
Ele sabia que só havia uma solução possível ao problema, mas procurava contorná-la com todas as suas forças. Ele poderia dizer que não era sua responsabilidade alimentar um marmanjo de 25 anos de idade. Poderia jogá-lo para Shinra e seus experimentos malucos. Poderia jogá-lo para Shinra e pedir que Celty cuidasse para que nada acontecesse de ruim. Mas nada, absolutamente nada, o convencia de que isso era o certo a fazer. Ele gostaria de negar isso, mas a verdade era que seu senso de responsabilidade por aquela pessoa que encarava em silêncio as nuances em seu rosto aumentara ridiculamente nos últimos minutos. Não podia deixar de culpar-se por não ter pensado naquela situação antes e receber como isso aquela imagem horrível de seu pior inimigo anunciando que sentia fome.
Tomada a decisão de que assumiria a responsabilidade, precisava buscar com todas as suas forças justificativas o suficiente para fazê-lo.
“Não ganho muito. Não tenho dinheiro para manter dois apartamentos. Nunca pediria ajuda a Shinra. Nunca pediria ajuda a Kasuka. Nunca pediria ajuda. Não é como se fosse minha vontade. Vai ser insuportável, mas eu consigo aguentar. Se não quiser mais posso manda-lo embora...”.
– Você fica aqui.
A voz saiu de supetão em um grito e Shizuo usou toda a sua força e coragem para fazê-la assim, de forma que não lhe restou mais força alguma para impulsioná-lo a olhar nos olhos do rapaz sentado ao seu lado em silêncio. Incapaz de ver a reação, portanto, ele limitou-se a esperar por ela, permanecendo quieto. E ele esperou por um daqueles gritos surpresos e risadinhas que pareciam tão características a aquele Izaya (que, de alguma forma, ele assumia como ao mesmo tempo tão semelhantes e tão diferentes dos gritos e risadinhas que liberava o antigo Izaya). Esperou por uma enxurrada de pedidos de desculpas e agradecimentos. Esperou até mesmo por um daqueles odiosos abraços como o que ganhou no dia anterior ao confirmar que o ajudaria.
Sua espera, entretanto, não rendeu em nada, mesmo depois de longos minutos. Cansado de esperar, direcionou os olhos castanhos-mel para o rapaz sentado ao seu lado.
As pernas que até então se esparramavam pelo sofá como se donas dele, desleixadamente, agora se juntavam lado a lado, rígidas. Sobre os ossudos joelhos apertados lateralmente um ao outro pousaram-se os igualmente ossudos cotovelos, pressionando-os com clara força, visivelmente perceptível pelos músculos contraídos do antebraço agora exposto pelas mangas do casaco repuxadas até o fim do cotovelo. Os dedos longos, finos e pálidos, cruzavam-se uns aos outros firmemente e as palmas espalmavam-se juntas, fechando ambas as mãos num aperto tão forte que pareciam um só punho. A exceção eram os polegares, que se mantinham levantados, sustentando o queixo. Este queixo que, de forma suave e delicada, ainda que magra, contrastava-se terrivelmente com a expressão dura daquele homem que agora o fitava diretamente. As finas sobrancelhas negras que se franziam em confusão só perdiam em expressividade para os olhos castanho-avermelhados que o fitavam concentrados, quase doloridos. O aperto dedicado ao queixo pelos duros polegares parecia impedir que os lábios separassem-se para explicar aquela expressão tão singular do pálido rosto.
Ainda que fosse especialmente bom em decifrar expressões difíceis como as de seu irmão mais novo, Shizuo, verdadeiramente, não sabia interpretar o que encontrava em Izaya. A única coisa que poderia dizer é que o informante parecia verdadeiramente confuso e em choque, como se lutasse alguma batalha interna que exigia silêncio de seus lábios.
Quando os polegares finalmente libertaram o queixo e permitiram que os lábios separassem-se, Shizuo ouviu exatamente o som que esperava desde o início: um suspiro surpreso e uma risadinha baixa que gradualmente aumentou até revelar-se uma verdadeira risada divertida. Os olhos castanho-avermelhados, entretanto, não pareciam sorrir, fitavam-no com a mesma força que antes.
– O que quer dizer com ‘você fica aqui’, Shizu-chan? – a voz, assim como os olhos, também não parecia contagiada pelo riso, permanecendo confusa e dura. Aquela voz que, ainda que a mesma, tão diferente parecia da voz que o pedira ajuda na hora passada. E, mesmo que Shizuo entendesse plenamente a confusão do outro, já que ele mesmo sentia-se confuso ao dizer aquelas palavra, não podia evitar sentir-se desconfortável com aquela estranha seriedade de Izaya. Dessa forma, foi quase com um alívio que ouviu um novo tom, desta vez alegre e claramente divertido, deixar os lábios do outro: – Eu sabia, Shizu-chan! Sabia que a gente tinha alguma coisa! Você está me chamando para morar com você, Shizu-chan! O que será que meu antigo eu diria?... Ah! Shizu-chan, assim você me deixa confuso! Será que estou pronto pra este novo passo? Mas na verdade não importa o que o antigo eu diria, né?! O que importa é agora, não é, Shizu-chan?! E eu quero morar com você! Quero mesmo! Gostei de dormir com você sábado passado. Você é quentinho e quando te abraço tudo parece se encaixar certinho... E meu coração acelera quando fico do seu lado.... E eu não quero ficar sozinho naquele apartamento grande! Me diz... a gente já tinha conversado sobre isso antes? Digo... sobre morar juntos?!
Se não fosse pelo tom claramente interrogatório, Shizuo sequer saberia que Izaya estava falando com ele, em um diálogo que permitia e exigia sua participação, e não sozinho. E se não fossem os olhos castanho-avermelhados fitando-o enormes e expectantes, deixando claro que ele era o alvo daquela pergunta, ele sequer desconfiaria que aquelas estranhas afirmações e perguntas eram direcionadas a ele. Mas ele não poderia ser culpado caso não percebesse que era, inegavelmente, o alvo dos olhos e das palavras, não quando tudo lhe soava tão irreal.
Sua pobre linha de pensamento foi interrompida, porém, por uma voz hesitante e baixa:
– Não era isso? Mas você disse ‘você fica aqui’! Achei que isso significasse que eu ia mo-
– Isso não significa que você vai morar comigo! – exclamou, cortando-o. A repulsa pulsava alto em seus ouvidos, quase o ensurdecendo.
– O que significa então?
Shizuo inspirou fundo antes de continuar, esforçando-se ao máximo para controlar seus músculos que insistiam em provar a Izaya que ele estava errado de uma forma que não usaria palavra alguma.
– Eu não vou te dar dinheiro – cuspiu ao outro, quase se arrependendo da escolha de palavras ao ver os olhos castanho-avermelhados que até então o fitavam expectantes abaixarem-se em clara vergonha – Eu não tenho dinheiro para isso. Isso significa que você come aqui. Você já estava vindo aqui todo dia à noite de qualquer forma, pode muito bem comer aqui. E dai, sei lá, leva comida pro seu almoço e café da manhã... Não vai ficar aqui. Não vai dormir aqui. – os olhos castanho-avermelhados continuavam baixos. Coçou a cabeça contrariado antes de fazê-lo, mas acabou amaciando o tom de voz e acrescentar – Eu esqueci que você poderia ter problemas com isso... Assim, acho que é um pouco de minha culpa também... E, de toda forma, onde come um, comem dois.
Por mais que quisesse fazê-lo, não abaixou o olhar quando os olhos até então baixos levantaram-se e fitaram-no claramente surpresos. Sabia que falara mais do que devia, mas não desviaria os olhos agora, por mais que se sentisse desconfortável sendo observado daquela forma.
– Obrigado, Shizu-chan – os olhos castanho-avermelhados continuavam presos nos seus, mas os lábios que sorriam aberto cortavam o desconforto de tal olhar.
“Não me agradeça, idiota. Não estou fazendo isso porque quero. Por mim você morreria de fome. Você que se foda.”, foi o que esforçou por dizer, mas seria uma mentira e, de alguma forma, nunca fora bom em mentiras. Claro que sabia que também não era uma mentira completa. Não era mentira que não queria fazer aquilo. Não era uma mentira dizer que não queria fazer refeições com Izaya. Verdadeiramente não desejava isso. Mas seria uma mentira dizer que isto o impediria, no fim, de fazê-lo. Sua resposta ao agradecimento do outro se limitou, portanto, a uma carranca mal-humorada e um aceno rude da mão direita. Resposta que acabou por arrancar um novo riso de Izaya, que ainda o olhava com clara surpresa estampada no rosto.
– A partir de amanhã, então, eu cozinho pra gente. É minha forma de agradecer. E eu descobri que sou bom nisso, na verdade! O que quer comer amanhã?
– Hambúrguer caseiro.
Os enormes olhos castanho-avermelhados que o encaravam intensamente provavam que Izaya não esperava por uma resposta. Shizuo não poderia culpa-lo. Ele mesmo não esperava por uma.
Franziu o cenho. Odiava como às vezes parecia não ter controle sobre o que fazia ou dizia. Algo sempre acabava quebrado. Como seu orgulho, por exemplo.
– Você é uma criança, Shizu-chan?! – o deboche por trás das palavras era palpável, mas antes que Shizuo pudesse responder, o informante suavizou o olhar até transformá-lo em sorriso – Vou fazer o melhor hambúrguer que já comeu na sua vida!
E, por mais que Shizuo nunca fosse admitir, Izaya tinha razão. Desde a primeira garfada ele teve certeza que aquele hambúrguer era o melhor que já comera. O que era verdadeiramente espantoso visto o pouco tempo que Izaya levara para prepara-lo.
Sequer fazia duas horas que ouvira as típicas batidinhas em sua porta. O combinado da noite anterior persistia: eles começariam naquele sábado a busca pelas memórias de Izaya. O plano sofrera, entretanto, uma alteração. E era justamente por esta única alteração que, ao invés de estar agora vasculhando a Academia Raira com seu pior inimigo, sentava-se com ele em desconfortável silêncio na pequena mesa de sua igualmente pequena cozinha enquanto comia o que nunca admitiria ser o melhor hambúrguer de sua vida.
Quem os via sentados juntos desfrutando de um almoço tranquilo, entretanto, nunca poderia imaginar os inúmeros problemas que antecederam a refeição. O sorriso satisfeito nos olhos castanho-avermelhados não denunciava que aquele rapaz fora expulso daquele mesmo apartamento às quatro horas da manhã aos gritos de “não deite no meu sofá, pulga maldita, já disse que não vamos morar juntos” ou mesmo que fora recebido no mesmo lugar apenas seis horas depois de deixa-lo com um “não estou com paciência hoje, uma gracinha e eu te quebro”. Da mesma forma que a carranca de Shizuo sequer remetia ao alívio e à satisfação sentidos a cada garfada que Izaya levava aos lábios, afastando gradualmente a imagem de olhos baixos anunciando que sentiam fome.
Kasuka sempre trabalhava aos sábados, exatamente por este motivo Shizuo sempre se esforçara para fazer o mesmo. Algo em seu orgulho lhe dizia que ficar em casa enquanto seu irmão mais novo trabalhava era errado. Aquele era, portanto, o primeiro sábado em anos que andava pelas ruas de Ikebukuro sem que a trabalho e sem que sua companhia fosse Tom. Ele era o mesmo, claro: andando pelas ruas da cidade com sua usual carranca e suas usuais roupas de barman, mas a perspectiva era totalmente diferente. Sem sua postura profissional e sem a pressão do trabalho, Ikebukuro parecia outro distrito. Se Shizuo fosse um homem que se desse a sentimentalismos, poderia abrir os olhos em maravilha ao ver como Ikebukuro ganhava vida nova aos sábados: as crianças sem uniformes e os adultos sem os ternos se misturavam a um mar de turistas com cachecóis fofos naquele dia de início de inverno.
Claro que seria ingênuo pensar que o que impedia Shizuo de perceber como o inverno parecia primavera naquele sábado estranhamente ensolarado era sua pouca inclinação a sentimentalismos. Seria até um insulto dizer que ele não era inclinado a sentimentalismos quando seu peito estava repleto com tantos diferentes sentimentos. Mas também ser errôneo pensar que os sentimentos em seu peito eram coloridos como os cachecóis ou quentinhos como o sol de sábado. Talvez fosse até uma possibilidade plausível dizer que o dia, com suas cores e calores, só parecia primaveril porque Shizuo havia sugado todo o inverno para dentro de si. Não que fosse de todo ruim deixar nevar em seu peito, não quando isso significava que ele poderia manter-se alheio aos olhares curiosos das pessoas coloridas e, principalmente, alheio aos olhos que traziam estranhos tons de vermelho fogo e que o olhavam lateralmente enquanto Izaya andava ao seu lado, em silêncio.
O caminho até a Academia Raira era familiar aos seus pés, mesmo que já não o percorresse há anos. Não era um caminho livre de lembranças. Cada esquina daquele caminho estava marcada a ferro em suas memórias e em algumas cicatrizes espalhadas por seu corpo. Olhou de relance seu acompanhante, relutando em perguntar se aqueles lugares realmente poderiam ter sido esquecidos.
– Estudamos juntos nesta escola? – a pergunta de Izaya sobrepôs-se à sua.
– Já disse isso. – respondeu impaciente – Sim. Shinra também. Kadota também. Com Shinra você estudou na primária também, pelo que ele me disse.
– Então Shinra é meu amigo mais antigo? Por que ele tenta me matar?
– Por que ele não tentaria? – rebateu, irritado, mas acrescentou – Ele não tenta te matar. Ele é um desgraçado assim mesmo. É o mesmo comigo. Não é como se ele tivesse motivos pra te matar. Eu acho.
– E Kadota?
– Kadota o que? Ele não quer te matar, pelo que eu saiba.
– Não isso... Ele me ajudou da última vez... – balançou a cabeça, rindo – Somos bons amigos?
– Uma pessoa como você não tem bons amigos, pulga. – rosnou com nojo, suspirando irritado quando Izaya deixou-se ficar para trás, os olhos baixos como sempre fazia quando Shizuo respondia daquela forma – Mas você o chama por um apelido, assim como faz comigo. E ele odeia também. Você é realmente irritante com isso.
Um riso baixo chegou aos ouvidos de Shizuo e ele repreendeu-se por ter, de alguma forma, consolado o informante.
– Kadota-chan? Kado-chan? Não soa bem como o seu, Shizu-chan. Talvez Dota-chan?! Também não! – as finas sobrancelhas que até então se juntavam em dúvida deram lugar a uma expressão satisfeita – Dotachin.
Shizuo virou-se de súbito e agarrou a gola do casaco de Izaya. Sabia que a razão por estar naquele momento caminhando com ele por Ikebukuro era exatamente fazê-lo recuperar seus memórias, mas não podia deixar de perder a calma quando o via dar um passo em direção ao antigo informante.
– Já disse pra não me chamar assim, Izaya... Se bem que se a outra opção é Dota-chan, pode continuar com esse mesmo. – uma voz tranquila e grossa que soou ao seu lado acabou por manter preso o xingamento que Shizuo preparava-se para gritar – Yo, Shizuo!
Os dois pares de olhos, um castanho-mel outro castanho-avermelhado, arregalaram-se juntos e fitaram o homem que mantinha uma das mãos levantadas em cumprimento.
– D-Dotachin! – a voz de Izaya saia estrangulada pelo aperto de Shizuo em sua gola – Socorro! Shizu-chan vai me matar!
Shizuo encarou os olhos castanhos confusos do homem ao seu lado antes de suspirar e voltar seus olhos ao homem que mantinha suspenso pelo pescoço, encarando seu rosto suplicante por algum tempo antes de soltá-lo.
– Não vou te matar, idiota. Não agora. Yo, Kadota!
– Tudo bem, Shizuo? Quer dizer que ainda não passou? A falta de memória do Izaya.
Encarou-o confuso, vendo-o aproximar-se de Izaya e olhá-lo atentamente.
– Como você sabe? – perguntou, chamando para si a atenção do outro.
– Que ele perdeu a memória? Fui eu que encontrei ele naquele dia há algum tempo... Ele não se lembrava de quem eu era e estava machucado. Imaginei que ele tinha batido a cabeça e estivesse confuso. Mas... bom, já faz um tempo, então o dano deve ser mais grave do que eu pensei inicialmente... Já viu o Shinra?
Os olhos castanhos escuros agora focavam Izaya, e Shizuo podia perceber claramente a curiosidade que transmitiam. Era palpável que o rapaz queria fazer perguntas e esperava silenciosamente pela oportunidade de poder fazê-las, uma após a outra. Shizuo não se encontrava de forma diferente. Ele também tinha dezenas de perguntas que gostaria de fazer, mas, diferente de Kadota, o alvo delas não era, desta vez, o homem de olhos castanho-avermelhados que entreabria os lábios e fitava-o receoso. Havia muitas coisas que Shizuo queria perguntar, mas a Kadota. Como, por exemplo, o que ele poderia dizer para que Izaya recuperasse suas memórias, ou o que poderia fazer para arrancar de Izaya a confissão da mentira sobre a perda delas. Ao abrir seus lábios, entretanto, e sobrepor a voz à de Izaya que começara a responder sobre o médico clandestino, acabou por liberar a pergunta que há dias invadia sua mente:
– Você acredita nele? – e talvez se seu coração não pulsasse tão alto em seus ouvidos, teria percebido o som de urgência de sua voz.
Os olhos castanhos escuros que fitavam Izaya a espera da resposta desviaram-se novamente para Shizuo. Emoldurados como estavam pelas grossas sobrancelhas franzidas, aqueles olhos não deixavam dúvidas em relação à surpresa de seu dono. Sem que a expressão surpresa se desfizesse, entretanto, um sorriso nasceu nos lábios de Kadota:
– Você acredita?
Shizuo não esperava por ver refletida sua pergunta. Talvez exatamente por não esperar, não pode fazer outra coisa além de ser sincero:
– Nunca acreditaria. – aperto os olhos, mecanicamente contraindo os dedos em punho – Nunca nele. Mas... – calou-se abruptamente. Aquele “mas”, por mais traidor que fosse ao deixar seus lábios diante dos atentos olhos castanho-avermelhados, era exatamente o ponto importante de suas recentes ações. A existência daquele “mas” era o que mantinha, afinal, os dedos apertados em punho longe do rosto pálido que o fitava com exímia curiosidade.
Um riso baixinho deixou os lábios de Kadota, mas não havia humor ali.
– Estou com você neste ‘mas’, Shizuo. A única coisa que sei é que este não é o Izaya que conheço. O Izaya que eu conheço não me pediria ajuda ao ser pego por você, né Izaya? – mais uma vez os olhos castanhos escuros pousaram no informante, como se o estudando – Mas o você que eu conheço me chama de Dotachin, então fiquei surpreso quando ouvi. Quando nos encontramos há duas semanas você nem sabia quem eu era.
– Eu não me lembro do Dotachin. É como foi com você, Shizu-chan. Só sei que ele é Dotachin. – mesmo que Kadota claramente se inclinasse na direção de Izaya e o fitasse diretamente, o moreno mantinha os olhos no rosto de Shizuo. Vez em quando eles desviavam-se para os olhos castanhos escuros, mas logo se voltavam novamente para o guarda-costas. – O Shinra disse que isso é normal, né, Shizu-chan? Que vou me lembrar aos poucos conforme veja algo familiar.
– Entendi. – Kadota franziu o cenho enquanto desviava para Shizuo os olhos até então presos em Izaya – Por que ele não me olha direito?
O guarda-costas bufou alto.
– E eu lá entendo esta pulga?! Ele fez a mesma coisa com o Shinra. Daqui a pouco ele para. Foi assim também com o idiota. – bufou alto mais uma vez e, voltando os olhos a Izaya, gritou – Hey, pulga. Olha pro Kadota quando ele fala com você, caralho! Não é pra mim que tem que responder, já estou cansado de ouvir suas merdas. Ficou a semana toda chiando na minha orelha.
Shizuo começaria a ralhar contra a expressão claramente ofendida e o dar de ombros do informante quando um riso alto o cortou. De início não entendeu ao certo de onde ele vinha, não estava habituado, afinal, a ouvir um riso solto ecoando na voz grossa daquele homem que mesmo que gentil sempre falava tão sério. Olhou confuso para Kadota, encontrando-o com pequenas lágrimas nos olhos sorridentes.
– O que foi isso? – e Shizuo teve vontade de devolver a pergunta a Kadota. Não entendia o que poderia haver de tão engraçado em ser obrigado a ouvir Izaya repetir as explicações de Shinra durante uma semana inteira – Bem, não importa... Se não percebeu não serei eu a dizer... Né, Izaya? – os olhos castanhos escuros correram mais uma vez em busca dos castanho-avermelhados – Ah, você também está com cara de quem não está entendendo nada. Talvez aquela maluca da Erika não seja assim tão maluca... não quero estar por perto quando ela encontrar vocês... – a voz de Kadota era tão baixa que Shizuo viu-se obrigado a aproximar-se dele para continuar a entendê-lo, a menção, porém, do nome de Karisawa Erika fez seu estômago girar em protesto.
– Vocês dois, Kadota! Você e aquela maluca! Vocês que mandaram ele pro meu apartamento! O que caralho tinha na cabeça?! – o amigo o olhou assustado, claramente surpreso pela súbita alteração no tom de voz, agora ensurdecedor.
Kadota recuou alguns passos e fitou Izaya, desta vez com curiosidade redobrada.
– Você está super bem, Izaya!
Diferente de alguns minutos atrás, quando Izaya olhava-o apenas de relance, desta vez os olhos castanho-avermelhados fitaram Kadota diretamente.
– O-brigado, Dota-chin
– Algum osso quebrado?
–N-não. Shinra fez pontos por causa do machucado na cabeça, mas já tirei também...
– Entendi... Ele está ótimo, Shizuo!
E Shizuo calou-se, sabia que provavelmente não era intenção de Kadota provar algum ponto de argumentação a favor de sua decisão anterior de enviar Izaya a ele. Sabia que a surpresa em seu olhar ao fitar um Izaya livre de machucados era real. Mas nada mudava o fato de que gritar um “você é idiota?! Somos inimigos. Eu iria mata-lo!” já não faria sentido algum. Não quando Izaya agora sorria a Kadota enquanto continuava a dar respostas que Shizuo, preso em sua indecisão entre mandar ou não o amigo ao inferno, não ouvia. Forçou a focar-se novamente na conversa quando percebeu que Kadota agora dirigia as perguntas ele.
– Você conseguiu autorização, Shizuo? Que bom!
– Autorização? – perguntou, o cenho franzido.
– Sim. Izaya me disse que estão indo pra Academia Raira para ver se ele se lembrará de algo por lá. É uma boa ideia.
– E o que tem uma coisa com a outra? Não preciso da autorização da pulga pra arrastar ele pra lá. Ele vai lembra-se de algo querendo ou não.
– Quê? – Kadota parecia confuso, encarando-o com as sobrancelhas franzidas, não demorou, porém, que elas se erguessem em tão clara surpresa que se esconderam no gorro em sua cabeça – Hahaha! Não do Izaya. Do diretor. Você não pode simplesmente entrar na escola sem mais nem menos.
– Como não?
– Não como não, ué. É contra a lei. – declarou, mas, provavelmente vendo que a carranca de Shizuo aumentou após sua declaração, continuou – A escola tem horário de funcionamento. Sábado não está incluído. Ou seja, está fechada. Pra entrar você teria que arrombar.
– Ok. – respondeu, simplesmente – Não é como se a gente fosse receber autorização mesmo. – “Não o Izaya. E, definitivamente, não eu.”, acrescentou mentalmente – Vem junto?
– Invadir a escola? Hoje eu passo, Shizuo. Vou encontrar Togusa logo mais... E de toda forma não tenho certeza se a ideia é tão boa assim...
Shizuo não pode evitar um suspiro profundo. Ele concordava com Kadota, mesmo que não fosse fazê-lo em voz alta. A ele também não agradava a ideia de arrombar o portão da escola e enfiar-se dentro dela sem autorização. Sabia que isso não pioraria de todo sua reputação, mas não podia evitar sentir-se receoso a voluntariamente fazer algo que poderia trazê-lo problemas. Ele, afinal, ainda que sem grande sucesso, evitava ao máximo destruir coisas.
A opção de visitar a escola durante um dia da semana, quando ela estivesse aberta, passou rapidamente por sua mente, mas logo foi descartada. Arrombar a escola pareceu-lhe uma opção melhor do que não fazê-lo, principalmente porque visitar a Academia Raira durante a semana significaria meter-se no meio de adolescentes barulhentos e irritantes, entre eles, duas gêmeas atualmente matriculadas, entre elas, uma que definitivamente não ficaria em silêncio caso visse Shizuo junto a Izaya passeando pelos corredores. Ainda era plano de Shizuo encontrar com Mairu e Kururi, mas não era parte de seu plano fazer isso em público. Não sabia exatamente como era a relação entre Izaya e suas irmãs mais novas, mas, independente de qual fosse, nunca era uma ideia boa ter testemunhas.
Franziu o cenho, buscando no bolso da calça seu maço de cigarros e levando um aos lábios. Enquanto acendia seu cigarro, pescava algumas das palavras que eram trocadas entre Kadota e Izaya. Aparentemente, o informante, sob o atento olhar sempre sério de Kadota, contava detalhes de sua atual condição. Revirou os olhos enquanto ouvia-os, tragando o cigarro profundamente.
– Você também, Kadota. – anunciou, soprando a fumaça junto às palavras.
– Eu o que?
– Você também faz parte do “coisas familiares” que a pulga precisa ter contato. – ocupou-se com uma segunda tragada enquanto Kadota absorvia suas palavras – Tem tempo hoje à noite?
Seria ingênuo pensar que Shizuo não sabia que era errado pressionar Izaya daquela forma. A Academia durante a tarde e a conversa com Kadota durante a noite. Ele sabia que era demais. Mas não podia evitar o desejo de livrar-se logo da falta de memórias do informante.
– Hoje à noite? Não. Togusa-san, lembra? Amanhã de manhã sim. – Shizuo tragou pesadamente seu cigarro em desgosto, mas acabou por acenar com a cabeça positivamente e dar de ombros – Até amanhã, então, Shizuo, Izaya. Boa sorte. Não sejam pegos!
Shizuo poderia jurar ter visto um sorriso discreto preencher os lábios de Kadota antes que ele virasse as costas e andasse em direção contrária a da Academia Raira.
– Ele é legal, Shizu-chan – a voz ao seu lado soava animada, mas logo perdeu alguns tons enquanto o informante se encolhia levemente – A gente vai mesmo invadir a escola?
Permaneceu em silêncio, limitando-se a mais um trago e o reinício de seus passos em direção ao lugar no qual conhecera aquele homem que agora se esforçava ao máximo para acompanhar seus passos.
– Pular é o suficiente.
Mesmo que o intervalo entre sua resposta e a pergunta de Izaya fosse bem maior do que normalmente acontecia em uma conversa inteligível, ele sabia que sua declaração, feita 20 minutos após a pergunta, foi perfeitamente compreendida pelo informante, mesmo sem explicações adicionais. Afinal de contas, toda a explicação que Izaya precisava estava diante de seus olhos na forma de um sólido muro de concreto rudemente assentado. Shizuo sabia que provavelmente era muito mais fácil escalar o portão da escola, as barras de ferro dispostas quase como se para apoio de seus pés, mas não podia arriscar que fossem pegos por olhares curiosos. Logo, a escolha mais assertiva era, definitivamente, o muro lateral esquerdo. E, mais precisamente, a parte do muro escondida por uma árvore antiga e grande, a única que resistira às constantes podas feitas na região.
– Eu não consigo pular isso!
Shizuo não conseguiu controlar um virar de olhos. “Você pula de prédios, pulga desgraçada!”.
– Claro que consegue, você é uma pulga!
– Não sou uma pulga! E não consigo pular este muro! Quanto tem isso? Dez metros? Nem pensar!
– Dez? Está cego, maldito?! Tem no máximo três metros! No máximo!
– Três metros é muito! Por que não podemos pular o portão? É mais fácil!
– Calar a boca, pulga! Todo mundo consegue nos ver do caralho do portão!
Rosnou alto ao ver Izaya abrir a boca para rebatê-lo mais uma vez. Tinha quase certeza de que se continuassem aquela discussão não seria mais necessário pular muro algum já que ele acabaria por destruí-lo. E a cabeça do Izaya seria provavelmente o que usaria para fazê-lo. Mais um rosnado escapou de seus lábios enquanto estendia ambas as mãos, unidas juntas pelos dedos entrelaçados, em direção a Izaya.
– O que é isso?
– Você apoia a porra desse seu pé de pulga aqui e eu te levanto. De cima do muro você se vira pra pular pro outro lado.
– Isso não vai funcionar, Shizu-chan! Eu vou cair!
– Tsc!
“Eu tentei do jeito fácil, pulga!”, pensou, dando de ombros.
Desfazendo os dedos entrelaçados, aproximou-se de Izaya e segurou-o pelas axilas.
– O que você está fazendo agora? – o visível medo naquela voz quase trouxe um sorriso aos lábios de Shizuo. Não podia evitar se sentir um pouco vingado por todos os dias que fora obrigado a receber Izaya em seu apartamento e ouvi-lo por horas a fio.
– Vou te jogar. – declarou, simplesmente. “Se não quer impulso e não vai fazer por si só, vai ser assim, pulga!”.
– Não acho que seja uma boa ideia, Shizu-chan! – Shizuo não conseguiu evitar e riu ao perceber o esforço do informante em manter sua voz firme enquanto tentava se esquivar de suas mãos.
– Então é melhor que tenha outra ideia agora, pulga, caso contrário é isso mesmo que vou fazer.
– Carona! – o grito de Izaya fez recuar o riso de Shizuo, transformando-o em uma carranca confusa – Você consegue pular, né?! E você é forte o bastante para me carregar, não é?!
– Nem fodendo, pulga. Você não vai tocar em mim!
O riso que estampava o rosto de Izaya e que Shizuo quase podia jurar provocador se converteu em uma careta ofendida. O guarda-costas, entretanto, não teve tempo sequer de pensar em como lidar com a teimosia de Izaya antes de senti-lo pulando de encontro a seu peito e agarrando-se ali, os braços ao redor de seu pescoço e as pernas envolvendo seu quadril.
– Quem não vai te tocar, hein, Shizu-chan?! – sorrisos entrecortavam a voz que soava de encontro ao pescoço do guarda-costas.
Repentinamente, toda a neve que acumulara em seu peito naquele dia estranhamente primaveril de início de inferno derreteu de uma só vez, fervendo. E, pela primeira vez em duas semanas, Shizuo permitiu-se liberar o grito que parecia preso em sua garganta desde o momento que ouviria duas pequenas batidinhas em sua porta numa noite chuvosa de terça-feira:
– I-ZA-YA!
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