(in) esquecível

11 Sobre como você descobriu que ainda podia correr como uma pulga


Notas iniciais
Olá, gente sedução, *.* Tudo bem com vocês? Como sempre, agradeço do fundo do meu coraçãozinho a todo mundo que comentou, favoritou e que está lendo. Obrigada pelo apoio, seuslindos! ^^ Uma coisinha: eu não sei colocar capas nos capítulos aqui no Nyah (sim, eu sei, eu sou uma porta para tecnologias), mas achei uma imagem absolutamente linda e a coloquei como capa no capítulo postado no SS. São os dois lindões vestidos como detetives e achei que isso super combina com a história e com este capítulo. É muito amor! s2 Então, deixo o link da fic no SS nas notas finais e estão convidados a darem uma olhadinha na imagem lá! *.* That's all Folks! Espero que gostem do capítulo! Beijo, beijo, =* Yuki



Sobre como você descobriu que ainda podia correr como uma pulga



O coração que batia descompassado, a respiração pesada que escapava por entre os lábios entreabertos e as mãos que, firmes em punho, tremiam violentamente: ainda que já há algum tempo não se sentisse daquela forma, Shizuo nunca deixaria de reconhecer os prenúncios de sua explosão. E, mesmo que nunca pudesse dizê-lo em voz alta, ele inegavelmente amava cada uma de suas reações: amava a revolta em seu peito e amava o arrepio que percorria seu corpo e o impulsionava adiante, levando-o a beira da loucura. E, por mais que sempre se arrependesse ao entregar-se ao descontrole, a verdade era que poucas coisas no mundo seriam lhe traziam tanto prazer quanto fazê-lo.

Um sorriso que levaria desespero a qualquer um que o fitasse invadiu os lábios entreabertos enquanto o guarda-costas os umedecia com a ponta da língua, expectante. E as pupilas dilataram-se numa satisfação doentia enquanto Shizuo antecipava o prazer que sentiria ao acertar os punhos no corpo colado ao seu, balançando-se suavemente como se embalado por sua respiração pesada e os solavancos de seu peito.

Respirou fundo.

Aquela seria sua última tentativa de conter-se.

O que deveria, porém, oxigenar a seu cérebro e obriga-lo a acalmar-se, acabou por transformar-se no fôlego que embalaria seu próximo grito. O segundo daqueles que ficaram presos em sua garganta por duas semanas. Um daqueles pausados, que pronunciava cada sílaba do nome de seu pior inimigo como se a saboreasse.

O segundo grito, entretanto, por mais fôlego que tivesse acumulado, não chegou a soar. Em seu lugar, outro grito, ridiculamente diferente daquele que ele trazia preso na garganta, fez-se ouvir:

– Consegui, Shizu-chan!

E se o tom eufórico no qual o grito soara não fosse o suficiente para substituir a carranca raivosa de Shizuo por uma expressão surpresa, certamente a gargalhada alta o seria. Ele não entendeu de primeira, entretanto, qual a razão do grito. Precisou primeiro firmar uma das mãos no concreto rude do muro ao seu lado e impulsionar o corpo por cima dele, pousando com desnecessária força do lado de dentro da escola. Só ao fazê-lo percebeu que aquela gargalhada era resultado de um Orihara Izaya sorridente que o encarava com olhos brilhantes de satisfação. E mesmo vendo ao seu redor a pequena quadra de basquete de seu antigo colégio e as árvores aos pés das quais tantas vezes descansara ao fugir das aulas, Shizuo ainda precisou de um tempo para compreender que Izaya pulara o muro, sozinho.

Por um instante ele considerou que tivesse sido ele mesmo a lançar Izaya muro acima durante seu acesso de fúria, mas a forma como o outro parecia perfeitamente equilibrado, sorrindo de forma orgulhava, o fez descartar a possibilidade rapidamente.

Talvez notando sua confusão, Izaya sorriu-lhe mais uma vez e aproximou-se, parando exatamente a sua frente. O guarda-costas esperou, certo de que lhe seria entregue alguma explicação. O informante, entretanto, limitou-se a entreabrir os lábios, como se ensaiasse suas palavras, mas optando por fechá-los novamente e preenche-los com outro daqueles sorrisos abertos que Shizuo não compreendia motivos ou significados. Estava pronto a pressionar o informante por respostas quando o viu aproximar-se ainda mais e tomar para si uma de suas mãos, levando-a a seu peito e pousando-a ali.

Os olhos castanhos-mel abriram-se ao limite, presos no contato tão absurdamente íntimo que o permitia sentir as batidas do coração de Izaya como se fossem as suas próprias. Quando tentou recuar, entretanto, Izaya separou mais uma vez os lábios, libertando finalmente a explicação que o guarda-costas esperava:

– Meu coração disparou quando você gritou meu nome. – Shizuo não sabia dizer se a voz se Izaya realmente soava suave ou se assim parecia-lhe em contraste com as batidas fortes em seu peito – E meu corpo respondeu antes que eu pensasse. Quando vi já estava aqui do outro lado. – o guarda-costas queria afastar-se, mas algo naqueles olhos que o fitavam tão intensos e que pareciam tão sinceros o impedia de mover-se – Era disso que você falava, Shizu-chan? Sobre brigarmos pela cidade? Era assim que gritava meu nome? Era assim que meu corpo respondia? Era dessa forma que meu coração batia? – um arrepio correu a espinha de Shizuo gritando-o para afastar-se, para manter-se longe das palavras que diriam os lábios rasgados em sorriso do informante mais perigoso que conhecia – Eu me sinto tão vivo, Shizu-chan!

Por fim, teve certeza de era tarde demais para afastar-se quando sentiu um toque gelado que nem as camadas de roupas eram capazes de aquecer tocar-lhe o peito, buscando ali as batidas tão fortes tanto as que sentia sob os próprios dedos. E, ele sabia, encontrando-as, tão intensas como se sincronizadas. Aquelas batidas que denunciavam o quanto seu corpo, por mais que sua cabeça o repudiasse, gostava de perder o controle. O quanto seu corpo concordava com cada uma das palavras de Izaya.

E ele não tentou impedir ou afastar-se, e, por mais que sua desculpa fosse a inutilidade que uma negação teria àquela altura, a verdade era que ele, de alguma forma, estava preso aos olhos castanho-avermelhados que pareciam quase negros enquanto o fitavam. E talvez, apenas talvez, a certeza de que não havia no mundo negação o suficientemente forte para mudar o fato de que também se sentia vivo.

E, por mais que dentro dele ainda crescesse a raiva despertada instantes antes, por mais que seu corpo transpirasse em agonia e suas unhas cravassem-se nas palma de sua mão livre com força o suficiente para feri-la, Shizuo permanecia parado, a mão de seu pior inimigo em seu peito e sua própria mão no peito dele.

– É assim. – respondeu, mesmo que mal entendesse o que exatamente confirmava. Tudo o que tinha em mente era a forma como seu coração parecia lutar em seu peito e sua pele arrepiava-se, preparando-o para botar abaixo o homem que ainda tocava-lhe e, contraditoriamente, não o fazendo.

Da forma como mantinha seus olhos presos nos olhos donos de estranhos tons avermelhados, Shizuo pode perceber como eles também não pareciam compreender de todo sua resposta, primeiro abrindo-se em demasia, para em seguida piscarem repetidamente. E então, diferente da rapidez com que pousaram em seu peito, ao afastarem-se, os dedos finos o fizeram lentamente.

– Entendi.

Shizuo não fazia ideia do Izaya poderia ter entendido, mas o que quer que fosse, fez com que o coração de Izaya, que ainda pulsava sob seus dedos, batesse ainda mais rápido, quase como se o expulsando dali. A verdadeira expulsão, porém, veio através de um toque gelado que envolveu seus dedos e o afastaram rapidamente. E só então Shizuo percebera o quão estranho era manter sua mão sob o peito do outro, sentindo as nuances das batidas de seu coração. Puxou sua mão com mais força do que o necessário do aperto dos dedos frios e mirou o rosto de Izaya com raiva, pronto para repelir a risada insultuosa que sentia que ganharia. Estancou o punho no ar, porém, ao notar as sobrancelhas franzidas e o olhar que, ainda que fixo em seu rosto, parecia perdido.

– O que está fazendo?

E como se antes não estivessem fixos em seu rosto, os olhos castanho-avermelhados pareceram focar-se nele e surpreenderem-se por encontra-lo ali. A força daquele olhar, agora inegavelmente pregado ao seu, acendeu todos os seus sentidos e, se não fosse ali o homem mais forte de Ikebukuro, certamente teria cedido ao impulso de recuar alguns passos e afastar-se o suficiente para não ouvir o que diriam os lábios finos que abriram-se receosos.

– Shizu-chan, me diz...

Contrariando seu instinto que o pedia para afastar-se, Shizuo deu um passo à frente, inclinando-se na direção de Izaya. E ele verdadeiramente não precisava fazê-lo, pois, ainda que soasse receosa, a voz do informante era facilmente compreendida sem que qualquer aproximação fizesse-se necessária. Isso não evitou, entretanto, que outro passo o aproximasse, diminuindo a distância que segundos antes Izaya havia imposto. Os se olhos castanho-avermelhados que o fitavam não oscilaram sequer um segundo diante da nova aproximação, o mesmo não pode ser dito da voz, que não manteve sequer a pouca força que continha. E o que antes era receio agora era silêncio. Silêncio que tanto contrastava com olhos tão expressivos, mas que acabou, por fim, por vencê-los, fazendo-os desviarem-se do rosto do Shizuo e fecharem-se enquanto Izaya movia a cabeça em uma negação. Negação que Shizuo sequer tinha palpites do porquê.

– Por onde começamos, Shizu-chan?

Sem suas ordens ou seu controle, as sobrancelhas castanho-claro uniram-se, formando uma nada charmosa ruga no rosto do homem mais forte de Ikebukuro. Os lábios que outrora se abriam em dúvida mas que agora crispavam-se em raiva terminavam de compor o visual que botava para correr todo e qualquer homem daquele distrito.

O primeiro impulso do dono de tal expressão foi, definitivamente, socar. Mas sem seriedade, apenas porque aquele era sempre seu primeiro impulso. E, como todas as vezes, como por costume, ele esforçou-se por reprimi-lo, admirando-se por conseguir. Seu segundo impulso, e este ele sequer teve chances de lutar contra, foi falar. E ele, ao ouvir sua própria voz, não conseguiu não pensar, mesmo que por poucos segundos, que gostaria de ter falhado na repressão de seu primeiro impulso. Um soco seria, afinal, definitivamente melhor do que seu tom confuso:

– Não estou entendendo nada!

Seu tempo para arrependimentos não foi grande, entretanto, e talvez se tivessem sido maior, ele teria remediado sua má decisão e optado por aquele soco reprimido. Mas, ainda que poucos, os segundos de intervalo entre sua declaração e o riso de Izaya serviram, por fim, apenas para deixa-lo mais confuso.

– Estamos do lado de dentro, Shizu-chan! Por onde começamos? Eu pertencia a algum clube? Era um bom aluno? Como eram os uniformes? Nos conhecemos onde? Shinra estava na minha classe? E Dotachin? Qual era minha sala? E Celty? Também estudou com a gente? Como ela fazia pra frequentar a escola sem cabeça? Na verdade, fiquei me perguntando, como é que a Celty faz para saber o que está digitan-

Shizuo piscou algumas vezes, apertando ainda mais sua carranca confusa. Izaya estava de volta. Ou, ao menos, aquele Izaya estava de volta. O que não pulava muros, não se afastava subitamente, não tinha olhares perdidos e não deixava suas frases incompletas e com explicações insuficientes. E Shizuo, por mais que quisesse suas explicações, por mais que desejasse arrancar a força o que viria depois de um aéreo “Shizu-chan, me diz...”, ele via sua atenção ser roubada novamente pela irritação que aquele novo Izaya, que falava demais e muito rápido, lhe trazia. E ele, por mais que não fosse admitir, permitia-se levar por ele, porque, de alguma forma, era mais fácil lidar com sua irritação pelas palavras em excesso do que com o desconforto da ausência de palavras.

Assim, por mais que pudesse dizer que era uma surpresa a ele levantar sua voz num grito irritado enquanto esquecia prontamente todas as perguntas que tinha a fazer, acabou por fazê-lo:

– Que caralho! Cala a boca, pulga!

– Desculpa – a voz, entretanto, soava antes divertida do que arrependida – Se eu fizer as perguntas devagar, você me responde?

– Não. – a resposta saiu curta, e Shizuo não hesitou sequer um instante antes de acreditar na veracidade dela.

Um riso baixo chegou aos ouvidos do guarda-costas, seguido pelo som de passos firmes no chão de pequenas pedrinhas brancas que compunham o caminho que levava para a entrada principal do colégio. Não demorou a somar os seus passos a aqueles que ouvia, cobrindo-os seus sons com o eco de suas passadas nervosas.

– Eu fazia parte de algum clube?

– Como se eu me importasse! ... Não que eu soubesse.

– Como era o uniforme da escola?

– Tsc... foda-se. Azul.

– Eu era um bom aluno?

– E por que diabos eu saberia isso?! Era um cuzão que faltava bastante! E quando vinha era só pra foder alguém.

– Você era um bom aluno?

– Não.

– Shinra?

– Era.

– Dotachin?

– Melhor que eu.

– E a Celty? Como ela assistia às aulas?

– Você é idiota?! Shinra me disse que te contou que ela é uma dullahan. Que fixação é essa com o caralho da cabeça dela?! Ela não estudou com a gente, pulga desgraçada! Você está fazendo gracinha, né?!

E pela primeira vez desde que começara a segui-lo pelo caminho que levava até a o prédio da Academia Raira, fez questão de apressar seus passos e fita-lo diretamente. Ao fitar não suas costas, mas seus olhos, Shizuo percebeu o imenso sorriso que estampava o rosto do informante.

– Desculpe, Shizu-chan, – o sorriso agora se transformara em gargalhada – e obrigado por responder minhas perguntas. Consigo entender porque aquela garota me mandou procurar você... – o riso cessou aos poucos, e o Izaya que agora o encarava o fazia sério, num olhar que em muito lembrava, para desgosto do guarda-costas, os olhares analíticos que às vezes Shinra lhe lançava – Você vai me mostrar onde ficam as salas e onde te conheci?

Só ao ouvir a pergunta percebera que tanto ele quanto o homem que o fitava de tal maneira desconfortável estavam agora parados nos limites da entrada que dava acesso aos armários. E ele, mesmo que fosse o dono de tal plano, só então percebeu que seria o guia de Izaya. E ele não o fez sozinho, apenas após fitar os admirados olhos castanho-avermelhados que corriam ansiosos ao redor, contemplando cada parte do prédio como se pela primeira vez, deu-se conta de que os olhos corriam estrangeiros pelos arredores porque eles, provavelmente, não reconheciam o que viam. O que implicava que ele, Heiwajima Shizuo, seria o responsável por provar a eles que o que ele denominava mentalmente como “a merda toda” era familiar.

E, mesmo que não fosse responder a pergunta de Izaya, dirigiu-lhe um leve acenar irritado, indicando a entrada da escola e atravessando-a em seguida. E isso, para ele, era a melhor resposta que poderia dar ao assumir um papel que definitivamente não desejava.



*

Animador de festas infantis. Atendente de loja. Caixa de restaurante. Barman. Ironicamente, todos os antigos trabalhos do atual guarda-costas obrigavam-no a interagir, de forma direta, com pessoas. E talvez fosse exatamente essa – mesmo que ele dissesse ser culpa de Izaya – a razão pela qual ele acabara demitido em todos os seus trabalhos, sem exceção, sempre uma demissão desastrosa. E se não estivesse agora tão ocupado culpando novamente Izaya, ele seria capaz de perceber que o problema era, definitivamente, o fato de que ele não servia para aquele tipo de trabalho. E “aquele tipo de trabalho” incluía, sem sombra de dúvidas, “guia turístico”.

Guias turísticos sorriem. E não há dúvidas de que estes sorrisos, por mais forçados que sejam a seus donos, sempre parecem verdadeiros aos clientes. A questão para Shizuo sequer chegava perto, entretanto, do fato de ser incapaz de sorrir convincente e docemente. A questão era que não havia sorriso algum, sequer sombra dele, nem daqueles claramente forçados e desconfortáveis. O que não seria de todo ruim. Ele poderia apenas ser um guia sério, focado em sua função. Contudo, o problema para aquele guia em questão era que em seu rosto não mostrava nenhuma das possibilidades: nem sorriso nem seriedade. E os especialistas em turismo certamente concordariam que o que Shizuo elegera para substituir as duas usuais expressões não era a escolha mais sábia para um guia-turístico. Afinal de contas, poucas pessoas confiariam numa carranca fechada que hora ou outra rosnava palavrões e ameaças, intercalando-os a respostas incompletas e pedidos nada educados por silêncio.

Mas a falha daquele homem como guia-turístico ainda não estava completa. A falha daquele guia-turístico, aquela que faria o excesso de palavras inapropriadas e os rosnados parecerem perfeitamente aceitáveis até pelos críticos mais rígidos, teria início em poucos segundos.

Seria enganoso, entretanto, pensar que Shizuo, mesmo que cumprindo seu papel de guia-turístico de maneira tão ineficiente, não tivesse tentado, de verdade, mostrar o colégio a Izaya.

Eles caminharam pelas salas. E Shizuo mostrou as salas onde estudou e as salas onde acreditava que Izaya havia estudado. Até mesmo deu-se ao trabalho de inventar uma pequena mentira ao fazer Izaya sentar em uma carteira qualquer dizendo ser a que sentava, por acreditar, seriamente, que poderia forçar as memórias a voltarem se fornecesse mais detalhes, ainda que mentirosos. Caminhou, também, pelo auditório e pela diretoria. E, ainda que a contra gosto e a custo de muitos xingamentos, apontou todas as janelas através das quais tantas vezes havia pegado Izaya observando o resultado de suas más ações.

E ele estaria mentindo se dissesse que não previu que sua pouca paciência se esgotaria quando adentrou o terraço sobre o telhado da Academia e ouviu com repúdio enquanto Izaya afirmava que dali conseguia “ver tudo o que acontecia no pátio. Legal, né, Shizu-chan?!”.

Sua paciência só chegou ao fim, porém, e resultou no ato que consistiu sua pior falha, no momento no qual se viu diante de Izaya no lugar no qual Shinra os havia apresentado.

Assim como naquele dia cerca de 10 anos atrás, Izaya estava parado a sua frente com um sorriso que tanto parecia ser o malicioso que preencheu seus lábios até o fatídico dia das duas batidinhas na porta há quase três semanas. E, assim como naquele dia cerca de 10 anos atrás, Shizuo sentiu seu sangue ferver ao ver diante de si aqueles olhos castanho-avermelhados que o fitavam tão diretamente, sem rastro algum de medo. E como não poderia deixar de ser, assim como naquele dia cerca de 10 anos atrás, lançou-se contra ele num só impulso.

E se de um guia-turístico não era esperada a carranca e os palavrões, definitivamente também não era esperado um ataque. Curiosamente, entretanto, por mais fora do protocolo que fosse o ato, o homem guiado pareceu esperar por um golpe, reagindo imediatamente a ele.

A rápida reação do dono dos olhos castanho-avermelhados acabou por elevar a níveis absurdos a já imensa irritação do guarda-costas. Entretanto, se ele estivesse atento o suficiente para algo além do som de seu próprio coração pulsando em sua orelha, teria percebido que aquela rapidez fora causada por ele mesmo. Teria percebido que Izaya só pode reagir prontamente porque recebeu um aviso. Os lábios que agora gritavam o nome do informante mais perigoso de Ikebukuro e Shinjuku, entretanto, sequer se lembravam de que instantes antes haviam se aberto nas exatas palavras:

– Corre, pulga.

E este aviso, por mais curto e rude que fosse, acabou por quebrar qualquer semelhança com o dia há mais de dez anos. Mas Shizuo não percebera isso. Assim como não percebera que seus passos na direção de Izaya, ainda que tão rápidos e pesados quanto antes, tinham ruídos de algo diferente, que se mesclava à raiva e com os quais ele não estava habituado. Assim como não percebera que junto a seus pensamentos sobre o quão maravilhoso seria acertar um soco – ou a barra de ferro que acabara de arrancar da arquibancada da quadra de vôlei – no homem que corria a sua frente misturavam-se pensamentos sobre o quão uma amostra prática da antiga vida de Izaya seria mais eficiente que qualquer história boba ou mentira sobre lugares de carteiras escolares para fazê-lo lembrar-se.

Se Shizuo percebesse a linha de seus pensamentos, talvez até mesmo soltasse a barra de ferro que rodava com imensa facilidade entre os dedos ou pisasse o chão com menos convicção. Shizuo estava, afinal, pela primeira vez em cerca de 10 anos, justificando um ataque contra Izaya.

Mas ele não se preocupava com justificativa nenhuma.

O vento nos cabelos. O coração pulsando nos tímpanos. Os músculos alongando-se. O peso do ferro em suas mãos. As pupilas a dilatarem-se e retraírem-se a cada esquiva de seu alvo. A verdade era que Shizuo não tinha tempo para preocupar-se com nada além do prazer absurdo que corria em suas veias em forma de adrenalina.

Era uma via de mão dupla, entretanto, e assim como Shizuo não preocupava-se com a realidade de que aquele Izaya que corria de suas golpes era aquele estranho Izaya que batera a sua porta semanas antes, a realidade não preocupava-se nem um pouco com o prazer absurdo que Shizuo sentia ao esquecer-se as condições de sua presa. E, assim alheia a seus desejos, a realidade impôs-se a Shizuo na forma de um Orihara Izaya jogado de barriga pro alto no meio do pátio no qual se iniciara a perseguição, àquela e a de 10 anos atrás.

Somente ao aproximar-se de tal Izaya o guarda-costas percebeu que não havia em suas mãos sequer rastro do canivete (assim como não havia rastro algum de corte em suas roupas) e que ele não estava no centro de Ikebukuro, como era esperado de uma briga entre ele e o homem de respiração pesada jogado no chão.

E foi só naquele momento que Shizuo percebeu com força como era ter como inimigo o novo Izaya: sem armas, correndo em círculos. E talvez, apenas talvez, se fosse um homem um pouco mais aberto a reflexões, perceberia que aquela era exatamente a descrição da sua vida desde que ouvira as duas batidinhas na porta de seu apartamento.

– E-eu... – a voz do estranho novo Izaya soava intercortada por longas respirações — ... corri como me disse, Shizu-chan. E... hehehe... acho que sou rápido!

E, espelhando a estranheza de toda aquela situação completamente diferente do que esperava, acabou por rir resignado, lançando-se também ao chão, sentado, a respiração descompassada não pelo esforço, mas pela raiva que ainda sentia preencher seus poros.

– Você é uma pulga. É sua obrigação ser rápido.

Um riso sonoro fez-se presente, e Shizuo quase agradeceu ao ver seu próprio riso abafado.

– Eu não sou uma pulga, pulgas não suam, e eu estou todo suado...

– Eu sei.

– Como sabe?

– Você fede.

Diferente do esperado, entretanto, a carranca magoada sequer deu sinais de tomar o sorriso do rosto de Izaya, que acabou por intensificar-se.

– Não estou fedendo. Usei desodorante, Shizu-chan.

– Você sempre está fedendo. Fedor de pulga maldita.

– Você também está suado, Shizu-chan.

– Claro que estou. Não sou uma pulga maldita.

– Não entendo sua lógica!

O riso alto acabou por plantar um sorriso divertido no rosto de Shizuo. Ele também não entendia, afinal, nem lógica nem nada daquilo que o levava a permanecer sentado a alguns metros de seu pior inimigo após uma perseguição que jurava que só acabaria com a morte dele. Os olhos castanho-avermelhados que os fitavam, vivos e brilhantes, quase como se provocativos, entretanto, acendiam nele a vontade de levantar-se num impulso e cumprir sua promessa, nem que para isso tivesse que estender a mão a Izaya e impulsioná-lo a levantar-se também.

Sua vontade morreu, entretanto, no instante que os olhos com estranhos tons avermelhados desviaram-se dos seus, fixando-se gradativamente no prédio escolar enquanto Izaya forçava seu corpo a sentar-se.

– Lembrou-se de alguma coisa?

– Acho que meu corpo lembrou que é rápido e que deve fugir dos seus golpes. Queria que ele tivesse se lembrado disso na primeira vez que me acertou, Shizu-chan. Pouparia algumas dores. – o riso divertido que escapou dos lábios do informante acabou por arrancar um rosnado raivoso de Shizuo – É, eu sei que não é isso que está perguntando. Mas não me lembrei de nada. Mesmo que agora tenha uma sensação um pouco diferente quando olho para o prédio. Mas não sei se é por que estou me lembrando, ou se porque agora ele é o lugar no qual você me acompanhou todo mal-humorado e me fez fazer exercícios para os quais eu não estava, definitivamente, preparado.

A sinceridade por trás das palavras de Izaya pegou Shizuo de surpresa. Os olhos castanhos-mel desviaram-se do rosto do informante, involuntariamente fitando o prédio que fora palco de tantas perseguições e brigas. As sobrancelhas franzidas e os lábios firmemente apertados eram o único sinal de que, mesmo que não o fitasse, a atenção do guarda-costas era de Izaya.

– Eu percebi isso há um tempo, Shizu-chan... Eu já tenho agora um monte de memórias novas. Com você e com Shinra e Celty. E agora um pouco com o Dotachin. E isso é bastante engraçado, não acha?

E, por mais que o tom de Izaya fosse claramente interrogativo, Shizuo não daria uma resposta à pergunta. E até mesmo reconhecia que provavelmente Izaya não esperava por uma. Afinal de contas, aquilo não era engraçado. Definitivamente não o era. Talvez irônico e perturbador e por isso trouxesse às vezes alguns sorrisos resignados aos lábios desavisados, mas, ainda assim, não havia rastro de diversão. Não naquele momento, ao menos. E não ao homem que já não podia dizer-se ignorante à sua participação na nova vida daquele estranho Izaya que parecia ter o fôlego pequeno o suficiente para obriga-lo a calar-se após suas declarações e jogar-se novamente de barriga para cima no chão concretado do pátio da Academia Raira, os olhos castanho-avermelhados fixos agora no céu que, absurdamente azul, contradizia a previsão de chuva anunciada para aquele fim de tarde de sábado.

O homem mais forte de Ikebukuro chegou a tentar lançar também seus olhos ao céu limpo, mas desistiu quando percebeu que a adrenalina em seu corpo não cederia enquanto permanecesse sentando ao lado de Izaya. Em um só impulso, portanto, o guarda-costas levantou-se e pôs-se a caminhar na direção ao portão da escola. Desta vez alcançando o outro lado através da entrada principal, deixando sem qualquer zelo a marca de seus dedos nas barras de ferro e saltando para a rua sem qualquer discrição. Ele já não se importava de ser visto, e até mesmo julgou-se idiota por importar-se antes. Nada, afinal, poderia trazer a ele um problema maior do que o que ele já tinha, problema este que correu para alcança-lo e parou a poucos metros de si tão logo alcançou a primeira das dezenas de esquinas que teria que atravessar no caminho de volta para casa.

“- Esta loja existe há bastante tempo?”

“- Você gosta de sorvete?”

“- Eu gosto de sorvete?”

“- Como é seu trabalho?”

“- Podemos sentar naquela praça?”

“- Por que anda tão rápido?”

“- Como eu conseguia correr de você por aqui?”

“- A gente corria pelo distrito todo?”

“- É impressão minha ou todo mundo fica olhando?”

“- Por que todo mundo fica olhando?”

“- Seria legal se a gente fizesse algo bem estranho agora, né?! Só pra tudo mundo parar de olhar!”

“- Quando você corria atrás de mim como lá na escola, eu me defendia com aquilo que disse ser minha arma?”

“- Quem era aquele que disse meu nome agora?”

“- Por que não respondeu o homem que sabia meu nome e nos convidou pra comer sushi?”

“- Você gosta de sushi?”

“- Tenho certeza que gosto do sushi!”

“- Vou encontrar o Dotachin, amanhã, né?”

As perguntas de Izaya não fraquejavam sequer um instante, continuando firmes e sonoras ainda que não recebessem respostas. Ou, ao menos, não fraquejaram até metade do caminho, quando o informante foi obrigado a usar o fôlego para algo essencialmente diferente. Shizuo, entretanto, considerou que Izaya recebera de seus rosnados indícios o suficiente para saber que deveria calar-se caso não desejasse uma nova perseguição, a segunda daquele dia.

Os prédios que passavam em alta velocidade ao seu lado, os olhares curiosos dos habitantes de Ikebukuro e a abundância de objetos esperando para serem arremessados: Shizuo até poderia se iludir e pensar que tudo era como antes, mas ele não se deixaria ser pego novamente, não quando a respiração de Izaya soava tão alta e seus passos tão lentos, como se ambos estivessem desacostumados àquela atividade que tanto haviam praticado há não muito tempo.

E, talvez por reconhecer que havia inegavelmente algo de diferente naquela perseguição, não conseguia, por mais que quisesse, gritar o segundo grito que mais deixava sua garganta em direção ao informante, perdendo apenas para “I-ZA-YA”: o tão conhecido “SAIA JÁ DA MINHA CIDADE!”. Ele reconhecia, mesmo que infeliz com o conhecimento, que não havia sentido gritar aquilo a Izaya, não quando a corrida claramente levava ao seu próprio apartamento.

E ao encarar Izaya jogado no centro de sua sala na mesma posição na qual se jogara no pátio da Academia Raira, de barriga para cima e os olhos castanho-avermelhados fixos no teto branco, tudo o que o guarda-costas pode fazer foi rosnar todo seu repertório de palavrões e trancar-se em seu banheiro para um banho que jurou a si mesmo ser capaz de retirar de sua pele qualquer resquício do cheiro de seu pior inimigo e das duas perseguições ridiculamente frustrantes que tivera naquela tarde.

Como que por milagre, – ou talvez por esperteza do informante que sabia, com ou sem suas memórias, que meter-se no caminho de um Shizuo frustrado não era uma boa ideia – não topou com Izaya ao sair do banho. E nem mesmo encontrou-o ao sair de seu quarto e passar pela diminuta sala-de-estar-corredor em direção a cozinha. Teria se deixado iludir com a ideia de que Izaya havia deixado seu apartamento se não ouvisse, mal abrira a geladeira em busca de algo para comer, o som do chuveiro ligado.

Respirou fundo, pescando na geladeira seu iogurte favorito e tentando convencer-se de comê-lo seria o suficiente para tornar seu humor melhor. Entretanto, o verdadeiro responsável pela melhora de seu humor, pelo menos pelos minutos que durou a ligação, foi seu irmão mais novo, Kasuka. Nunca havia muito o que conversar com ele, afinal de contas, se Heiwajima Shizuo não era um homem de muitas palavras, definitivamente Heiwajima Kasuka conseguia ser ainda mais econômico. A ligação, contudo, por mais esporadicamente silenciosa que fosse, acabou por manter Shizuo em seu quarto por quase quinze minutos. Tempo suficiente, constatou o guarda-costas ao voltar para sua sala de estar, para que Izaya acabasse o banho, vestisse novamente suas roupas e jogasse-se no pequeno sofá de dois lugares. Desta vez não como estivera jogado no pátio do colégio ou no chão de piso frio daquele mesmo cômodo, mas deitado confortavelmente, de lado, uma almofada sob a cabeça e uma por entre as pernas.

– Hey, pulga, não vai dormir aqui! – gritou num rosnado, parado no limiar entre o pequeno corredor e a pequena sala-de-estar.

Não houve resposta, nem mesmo quando ele repetiu, ainda mais alto e com o acréscimo de uma daquelas palavras que não entra em dicionários.

Os olhos castanhos-mel abriram-se em excesso, trazendo de volta toda a raiva que a ligação de seu irmão mais novo havia suprimido, e os pés agora descalços levaram pesadamente Shizuo até o sofá, onde fitou de cima sua vítima. Sua vítima, entretanto, não parecia sequer minimamente preocupada com o olhar assassino ou a imensa possibilidade de ser esmagada, ressonando baixinho, olhos fechados e expressão serena. A única reação, e definitivamente não foi a que esperava Shizuo, foi um resmungo baixo e um tremer sutil do homem que claramente dormia um sono profundo, contraindo as pernas em direção ao dorso num claro indício de frio.

– Sem comer e com frio. Vai ficar doente de novo, sua pulga desgraçada.

E com esta declaração, Shizuo iniciaria uma série de eventos que ele não poderia explicar caso fosse questionado.

Ele não poderia explicar, por exemplo, porque se preocupava quanto à falta de comida ou quanto ao frio que Izaya sentiria. Não poderia explicar porque ao invés de acordá-lo aos berros e expulsá-lo de sua casa, acabou por correr as cortinas da sala para barrar as luzes externas que invadiam o cômodo e buscar em seu guarda-roupa um cobertor, jogando-o no rapaz em seu pequeno sofá com mais delicadeza que normalmente alguém dedicaria a seu pior inimigo e ganhando como resposta um suspiro satisfeito. E não pode explicar, também, porque ao invés de afastar-se logo após ter coberto Izaya, acabou por aproximar-se novamente e correr os dedos por entre os cabelos negros que se espalhavam, molhados e revoltos, pela almofada branca, brincando um pouco com os fios. E não saberia explicar porque, por mais que a forma como enroscasse ali seus dedos fosse bruta e desconfortável, ele não pode afastar-se imediatamente.

– Eu disse que não poderia dormir aqui, pulga! Você é um maldito que nunca ouve!

E, ainda que aquele fosse um xingamento, Shizuo desejou possuir a capacidade de não poder ouvir-se, somente assim, talvez, não ouviria a forma como sua voz, ainda que raivosa, soava apenas um sussurro. E não ouviria, também, seu coração bater descompassado, como se louco.

Notas finais
Olá de novo, pessoal, Tudo bem até aqui? Obrigada por lerem! Espero que tenham se divertido! Eu confesso que me diverti bastante escrevendo este capítulo. Logo, espero que minha diversão tenha alcançado também vocês! Beijo, beijo, =* Yuki ps. o link da fic no SS: https://socialspirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-durarara-inesquecivel-3282228/capitulo11