(in) esquecível

12 Sobre como você era para mim como veneno


Notas iniciais
Che-gay! *.* Olá, pessoal! Tudo bem? Por favor, não me matem, mesmo que eu mereça! Eu devo muitas, muitas, imensas desculpas pela demora. Eu realmente sinto muito. Não planejei sumir assim, mas a pobre pessoa por trás da doida-viciada-em-Shizaya-autora-de-fanfics Yuki Max teve dias super turbulentos que não permitiram descanso algum. Essa pobre pessoa é uma pobre professora de alemão que fez uma prova super importante pra carreira dela e entrou em colapso. =S Assim, peço imensas desculpas pela demora. Fora isso, peço desculpas por ainda não ter respondido aos comentários do capítulo passado, começarei isso logo após esta postagem. Nunca faço isso de postar antes de responder, mas acredito que, desta vez, o melhor que posso fazer pra me retratar é postar o quanto antes. =D Ufa, feitas as minhas desculpas, agradeço mais uma vez, do fundo do meu coração, a todo mundo que está lendo, que comentou, que favoritou. Obrigada, de verdade, pessoal! Bom, vamos aos capítulo, já falei demais aqui! Nos vemos nas notas finais! *.* =* Yuki



Sobre como você era para mim como veneno



Ele já estava acordado quando a campainha soou, alta e insistente, não pode evitar um sobressalto, entretanto, ao ouvi-la. Ainda confortavelmente deitado em meio a macios cobertores, ele até mesmo se permitiu a dúvida quanto a proveniência do som, se da pequena caixinha branca no canto superior esquerdo de seu corredor ou se de algum dos apartamentos com os quais dividia paredes. A potência com a qual o som estridente invadiu seu pequeno lar pela segunda vez, contudo, o impediu de atribuir a responsabilidade pelo barulho naquela manhã de domingo a seus vizinhos.

Tom a busca-lo para algum trabalho de emergência: tinha certeza que fora esta a última vez que ouvira tal estridente som. Tom era o único a tocar sua campainha. Kasuka tinha uma chave, afinal, e seus amigos sabiam o quanto odiava ser o anfitrião. Quase tanto quanto odiava o som de sua campainha.

Enquanto a mente ainda nublada de sono buscava por algum motivo para Tom procura-lo, perdeu-se por poucos segundos na recordação de que Izaya, mesmo desconhecendo seu ódio por tal invenção humana, sempre optava pelas duas batidinhas na porta, não acionando o pequeno botão ao lado da maçaneta da porta de entrada nenhuma das vezes nas quais lhe visitara nas últimas três semanas. Sempre batidas na porta. Sempre duas.

Qualquer curiosidade que preenchesse sua mente recém-desperta, entretanto, foi cortada imediatamente ao ouvir um baque alto seguido de um gemido de dor e um grito de “Já vou!”.

Talvez porque o sono ainda se insinuasse a seus olhos, Shizuo permitiu-se um sorriso que por pouco não se transformou em risada. Ele não tinha dúvidas de que o até então adormecido Izaya fora acordado subitamente pelo som da campainha e, pelo baque surdo e gemido de dor, derrubado pelo susto.

“Claro que cairia, pulga idiota”, permitiu-se pensar, o sorriso ganhando mais espaço em seu rosto. “Aquilo não é jeito de gente dormir!”.

Franziu os lábios em seguida, certo de que o gosto amargo que fazia seu sorriso morrer provinha mais de seu orgulho ferido do que das horas ininterruptas de sono profundo. Sentou-se na cama, deixando o confortável cobertor escorregar por seu peito e amontoar-se em seu colo. Não fez menção de levantar-se, mas também não se manteve imóvel aproveitando o calor macio de seu ninho, dobrando por fim ambos os joelhos e apoiando neles ambos os cotovelos, a posição perfeita para afundar entre as mãos os fios descoloridos e deixar-se invadir novamente pela sensação que preenchera seus sonhos durante a noite.

Talvez pela tintura, talvez pela falta de cuidado e talvez pela brutalidade com a qual os agarrava, o fato era que os fios entre seus dedos não eram finos e macios, e, acima de tudo, não escorregavam com suavidade por entre seus dedos como se fugissem deles. Ele não tinha dúvidas, portanto, de que aqueles não eram os fios com os quais sonhara. Porque mesmo sem a tintura, com os devidos cuidados e sem o bruto aperto, os cabelos agora entre seus dedos nunca seriam um mar negro, uma prisão que tinha tanto de desespero quanto tinha de delicadeza. E ele se lembrava, ainda que não perfeitamente, que este fora sonho que tivera: um mar negro que o puxava cada vez mais para as profundezas, partindo-o entre o desespero de afundar e a sensação agradável de correr os dedos pelo que o arrastava.

E, ainda que não fosse inclinado a metáforas, esta era a exata definição do que sentira nos minutos que permanecera ao pé do pequeno sofá de dois lugares de sua pequena sala-de-estar-corredor correndo os dedos pelos cabelos de Orihara Izaya. Minutos que foram o suficiente para vê-lo sair de sua posição recuada e indefesa e espalhar-se pelo sofá como uma pulga, uma das pernas pendendo para fora do móvel, uma das mãos agarrada ao firmemente estofado superior e a cabeça já totalmente desalinhada na almofada, quase seguindo sua perna no caminho para fora do sofá. Shizuo negaria para sempre que sorriu ao ver a forma desarrumada como seu pior inimigo dormia. E nem que sua vida dependesse disso admitiria que quando acariciou pela última vez os fios negros e afastou-se em direção ao próprio quarto, o fez com um estranho pesar no peito.

“Aquilo não é jeito de gente dormir, pulga...”, pensou mais uma vez, como se gastar o máximo que pudesse de palavras com repreensões vazias fosse fazer gasta também a imagem em sua mente.

As vozes que preenchiam gradualmente a sala, ainda que baixas e inteligíveis, ocuparam o lugar dos pensamentos insistentes em sua cabeça. Precisou de apenas alguns segundos e de um coçar mais enfático nos olhos para reconhecer a voz de Kadota e lembrar-se que combinara uma visita na noite anterior.

Cogitou por alguns momentos manter-se no quarto. Aquela conversa era, afinal, entre Kadota e Izaya. Ele não tinha interesse algum em ouvir as mesmas histórias novamente. Provavelmente Izaya o contaria como fora o dia anterior e a visita à escola. E este seria o gancho para que Kadota contasse as suas próprias histórias ao lado do informante durante o período escolar. Shizuo não conhecia estas histórias e estaria mentindo se dissesse não sentir curiosidade em relação a elas, mas sua curiosidade não era o suficiente para impulsionar seu salto para fora da cama e fazê-lo ouvir por minutos a fio a voz irritante de Izaya contar como fora perseguido no dia anterior. E, acima de tudo, sua curiosidade não era forte o suficiente para encarar a expressão que Kadota lhe lançaria quando percebesse que aqueles cobertores que cobriam o sofá sobre o qual ele provavelmente se sentava eram o indício de que Izaya dormira ali. Shizuo não precisava, definitivamente, que lhe fosse lembrado que passara a noite sob o mesmo teto que seu pior inimigo.

Pela quarta vez.

Sua resolução de manter-se longe daquilo que tinha certeza ser absolutamente irritante ruía gradativamente, entretanto, conforme sons de risos invadiam impiedosamente seu quarto mesmo através da porta fechada. Inversamente proporcional a sua resolução, aumentava sua raiva.

– Parecem duas hienas! – rosnou, apertando por entre os dedos o cobertor sobre o colo.

Não sabia o que poderia ser tão divertido para fazer até mesmo o sério Kadota rir tão abertamente, mas, independente do motivo, sentia-se provocado e, já arrependido por ter preenchido seu domingo de descanso com risos aos quais definitivamente não queria integrar, pôs-se de pé num salto e dirigiu-se a porta, girando a maçaneta com força o suficiente para moldar nela o contorno de seus dedos.

Os olhos castanhos-mel abriram-se ao limite, surpresos, quando ao gemido de reclamação das dobradiças metálicas juntou-se um gemido baixo, dolorido. Soltou de súbito a maçaneta, afastando-se alguns passos para focar a razão do inesperado resmungar. O foco de sua atenção passou a ser, então, os dedos longos, finos, pálidos e cobertos de cicatrizes unidos fortemente sobre a testa do homem parado diante de si, esfregando-a quando em quando.

– Ai, Shizu-chan! Essa doeu. – as mãos se afastaram de seu anterior trabalho, deixando perfeitamente visível uma enorme marca avermelhada na testa de Izaya. Não restavam dúvidas de que logo o arroxeado cobriria o vermelho com o nascimento de um enorme galo. A forma como Shizuo franziu o cenho, entretanto, não chegava nem perto de poder ser considerada preocupação e, talvez percebendo isso, os olhos castanho-avermelhados fitaram-no apreensivos e os lábios que até então se dispunham apenas a resmungos doloridos, fecharam-se receosos antes de abrirem-se encabulados – Eu estava indo te acordar. Dota-chin chegou. – a carranca mal-humorada deu lugar a sobrancelhas curiosamente arqueadas quando Shizuo viu, de repente, a feição encabulada de Izaya dar lugar a um daqueles sorrisos odiosos que tanto recebia nos últimos dias – Ele achou engraçado como você tem o sono pesado. Disse que não parecia combinar muito com você. Mas então eu disse que você é bastante dorminhoco, como um ursinho hibernando. Não acordou nem quando eu invad-

Uma sonora gargalhada preencheu todo o pequeno apartamento, cortando o que quer que Izaya planejasse dizer. Dois pares de olhos, um castanho-mel assassino outro castanho-avermelhado curioso, desviaram-se juntos para a origem de tal, aparentemente, perturbador som, e encontraram um Kadota Ryohei com um sorriso aberto e os olhos umedecidos pelo divertimento. Mesmo da distância que o separava do homem sentado em seu sofá, Shizuo pode identificar perfeitamente quando seus lábios formaram as palavras “ursinho” e abriram-se ainda mais, num sorriso terrivelmente divertido.

Um vergonhoso rubor tomou conta da carranca de Shizuo quando percebeu que o que fazia o sempre sério Kadota rir era ele, o homem mais forte de Ikebukuro. Ele e seus hábitos de sono. Eles e os nomes que o Izaya os dava.

Sua mão já estava a meio caminho da porta, decidida a acertá-la mais uma vez em Izaya nem que isso significasse destruí-la, quando percebeu que o informante já não estava mais a sua frente. Raivoso, dirigiu-se até a sala, encarando furioso um Kadota que ainda o olhava divertido.

– Yo, Shizuo! Bom dia.

Ignorando o cumprimento do amigo, correu os olhos pela sala em busca do homem que estava decidido a socar.

– Cadê a pulga? – rosnou, ganhando como resposta apenas um olhar apreensivo e um apertar de lábios. Kadota parecia incerto quanto a responder, mas sua decisão fez-se desnecessária no segundo seguinte.

– Shizu-chan, posso usar este moletom e esta toalha?

A voz, aquela que odiara desde o primeiro instante que ouviu, soava inesperadamente às suas costas. Shizuo não precisava tê-lo feito, mas virou-se na direção de seu quarto para confirmar que Izaya realmente tivera a coragem de se esgueirar por suas costas, abrir seu guarda-roupa, vasculhá-lo, tirar de lá uma de suas roupas e dirigir-se a ele com o sorriso mais odioso que poderia ter escolhido enquanto perguntava a ele se não se importava em ser um babaca. Ou, ao menos, foi assim que Shizuo interpretou o fato de Izaya estar agora, com um sorriso atravessando seu rosto, segurando um conjunto de moletom negro e cinza e uma toalha verde-escura, uma de suas favoritas.

– Eu tomei banho ontem... mas não tinha roupas limpas... enfim... P-posso?

O desespero de Izaya tornou-se quase audível quando, ao invés de respondê-lo, Shizuo correu analiticamente os olhos ao redor, pousando-os ora em um móvel ora em outro, visivelmente receoso na escolha de um que causaria maior estrago ao informante e menor estrago na já pobre decoração de sua casa.

– Ah, sim... – a voz de Kadota fez-se ouvir no instante no qual os olhos castanhos-mel pousaram no pequeno sofá de dois lugares no qual estava sentado – Simon me contou que ontem vocês dois correram a cidade toda. Isso foi depois de terem visitado a escola, Shizuo? – franziu o cenho para Kadota, olhando-o quase curioso. Shizuo sabia que aquela era uma pergunta estúpida cuja resposta já era conhecida por seu interrogador, logo, concluiu que o amigo estava, estranhamente, tentando impedi-lo de acertar Izaya. Como se respondendo sua conclusão silenciosa, Kadota desviou os olhos momentaneamente para Izaya antes de voltar a fita-lo, desta vez com palpável seriedade.

Suspirou profundamente, retribuindo o olhar sério de Kadota antes de dirigir-se a Izaya, o tom menos rude do que as palavras poderiam insinuar.

– Toma a porra do seu banho, maldito. Melhor do que emporcalhar ainda mais minha casa.

Izaya lançou um sorriso a Kadota antes de atravessar o corredor e trancar-se no banheiro. O silêncio preencheu a sala até que o som do chuveiro aberto fosse ouvido, substituído então imediatamente por um suspiro profundo de Kadota.

– Não está sendo fácil, não é?

Como resposta ganhou apenas um olhar duro do guarda-costas, um que demonstrava exatamente o que pensava seu dono: “E você jura que vai me fazer um pergunta cretina destas?”. O que acabou, por fim, por arrancar um novo riso de Kadota, não tão divertido quanto os que ouvira antes, mas não totalmente desprovido de graça. Mesmo que o olhar rude se mantivesse em seu rosto, entretanto, Shizuo deixou-se largar em sua poltrona favorita, de frente para seu mais novo convidado. Não tinha problemas com Kadota, não seria exagero dizer que apreciava sua companhia, mas também não estaria sendo sincero caso afirmasse que estava apreciando aquela visita e o objetivo por trás dela.

Kadota não tentou uma nova conversa, permanecendo em silêncio até o momento no qual Izaya sentou-se ao seu lado cheirando a sabonete e shampoo. Com o reinício da conversa entre os dois, Shizuo permitiu-se retirar-se, primeiro até a cozinha, onde bebeu um copo de leite e jogou, contrariado, – e demonstrando toda a sua insatisfação em xingamentos – um iogurte para Izaya, em seguida para fora de seu apartamento, decidido que caminhar enquanto fumava era a melhor escolha para manter sua sanidade naquele domingo. Não se sentia a vontade abandonando seu apartamento a mercê do informante, mas o desconforto que a possibilidade de passar o resto de sua tarde ouvindo como Izaya conseguia notas boas nas provas mesmo que faltasse ou como passava às vezes seu intervalo no telhado na companhia de um jogo de tabuleiros não parecia-lhe mais agradável. Ele não queria conhecer Izaya melhor. Não queria saber o que fazia quando não estava correndo dele ou provocando-o pelo colégio. Não queria saber como conhecera Kadota e não queria ouvir as sondagens que sabia que o amigo fazia neste exato momento. Sabia que Kadota lhe contaria tudo o que fosse relevante e sabia que ele, mesmo que por meios bastante diferentes dos de Shizuo, era muito bom em arrancar confissões ou descobrir pontas soltas.

A ideia de visitar o irmão mais novo passou por sua cabeça, mas não se sentia inclinado a explicar a Kasuka o porquê de visita-lo sem aviso prévio e com tal expressão irritada. Não queria envolver o ator em seus problemas e não arriscaria descontar suas atuais frustrações na pessoa com quem mais se importava.

Como consequência, não se afastou de seu apartamento mais do que um quilômetro, limitando-se a gastar impiedosamente seu maço de cigarros e a sola de seus sapatos em uma caminhada exasperada pelos quarteirões vizinhos. Não estava muito longe, portanto, quando seu celular tocou e a voz de Kadota perguntando por onde estava fez-se ouvir através dos alto-falantes.

– Por que não me disse que tenho irmãs?

Mal pusera ambos os pés para dentro do apartamento, foi interpelado por olhos castanho-avermelhados intensos, tão irritadiços quanto a voz que invadia quase dolorosamente seus ouvidos. De onde estava, parado no limiar de sua sala de estar, podia ver pequenas linhas de fumaça deixarem sua panela de arroz elétrica e sentir o cheiro do que julgou ser peixe a ser grelhado. Seu estômago deixou-o saber que parte do mau-humor que sentia ao fitar os olhos castanho-avermelhados que ainda o encaravam raivosos era fome.

– Eu te disse, desgraçado! Até mesmo disse que tínhamos que encontrar Mairu e Kururi.

O olhar suavizou-se até transformar-se em um sorriso.

– Ah! Esses nomes... Elas são minhas irmãs? São gêmeas, né? – mesmo que o som do apito da panela elétrica não soasse informando o término do cozimento e acabasse por desviar a atenção de Izaya, que correu prontamente em direção a cozinha, Shizuo não teria respondido – E, você também tem um irmão, não é?

O arrepio que gelou sua espinha cortou qualquer atenção que Shizuo agora dedicasse à fumaça de cheiro agradável que invadia sua cozinha. Os olhos castanho-dourados abriram-se em demasia e fitaram primeiro Izaya, depois Kadota.

“Você contou!”, foi o que quis acusar, mas palavra alguma escapou de seus lábios.

– Desculpe, Shizuo. Eu disse que Kururi e Mairi davam-se bem com você por gostarem de Kasuka e ele deduziu o resto sozinho.

– Eu sabia que você tinha alguém especial por causa da poltrona e da ligação de ontem. Sua voz parecia feliz... E já imaginava que era um irmão mais novo... Um irmão mais novo combina com você, de alguma forma. Kasuka, então, hein?! O nome é bonito, como o seu, Shiz-...

– Se você tocar nele, eu te mato.

Talvez uma das poucas características que permaneceram em Izaya, fazendo-o indiscutivelmente parte daquele homem que odiara por mais de dez anos, era que mesmo com a ausência de suas memórias (ou com o fingimento sobre tê-las perdido) ele não deixava um sorriso morrer diante das ameaças de Shizuo. Recuar, sim. Tanto o antigo quanto o novo Izaya recuavam diante da escolha correta de palavras. Mas nem mesmo a escolha correta de palavras era capaz de fazê-lo sério em relação a elas. Izaya, com ou sem sua memória, com ou sem suas mentiras, nunca substituía um sorriso por uma expressão séria ou serena.

Nunca.

Até aquele momento.

A seriedade por trás das palavras de Shizuo, construída com a voz baixa e apoiada por todo o desespero de ver o nome de seu precioso irmão na boca de seu pior inimigo, fez com que morresse qualquer indício de sorriso no rosto do informante, arrancando dos olhos castanho-avermelhados uma seriedade que Shizuo nunca ali vira, nem no novo, nem no antigo Orihara Izaya.

– Eu não faria isso, Shizuo.

E Shizuo poderia ter estranhado ouvir seu nome sair perfeito dos lábios de Izaya, tal qual lhe fora designado em seu nascimento, sem acréscimos de sufixos. Poderia também ter suspeitado da seriedade de Izaya, aquela que tão pouco combinava com ele, fosse o antigo ou o que batera à sua porta há três semanas. Poderia, se não estivesse focado em encontrar alguma mentira nas palavras daquele homem, algum traço de hesitação, fosse ele qual fosse. Porque ali, naquele momento, parado no limiar de sua pequena sala e fitando o homem em sua igualmente pequena cozinha, havia algo mais importante do que descobrir se era ou não enganado por promessas de memórias perdidas: descobrir se era ou não enganado quando Izaya lhe dizia que não faria nada contra Kasuka. Porque esta era, acima de qualquer informação, a que mais lhe importava e, mesmo que não fosse admitir, a única que o faria mata-lo sem hesitar nem por um segundo.

Quem quebrou o contato entre seus olhos foi Izaya, mas quando o fez, as nervosas batidas no peito de Shizuo já haviam cedido espaço a ritmadas batidas quase controladas. De toda forma, com o cheiro de queimado gradualmente substituindo o agradável cheiro de peixe grelhado, não havia mais como roubar para si a atenção dos olhos castanho-avermelhados. O informante não disse nada enquanto remexia a panela, nem quando dedicou ao lixo seu conteúdo de cor suspeita e depositou novos filés, crus, na frigideira sobre o fogo.

– Vai demorar um pouco mais. Fica para o almoço, Dota-chin? – a voz parecia esforçar-se para soar educada e convidativa, mas falhava miseravelmente em ocultar seu desconforto.

– Por incrível que pareça, Kadota, – Shizuo espantou-se com o som da própria voz, mas não calou-se, mesmo que não soubesse direito o que pretendia ao falar as palavras que agora seus lábios anunciavam – a pulga cozinha bem.

Os dois pares de olhos que o encaravam denunciavam o que Shizuo definitivamente não precisava de ajuda para perceber: ele acabara de elogiar Orihara Izaya. Acabara de elogiar Orihara Izaya logo após ter ameaçado matá-lo. E, de certa forma, os dois pares de olhos surpresos indicavam que o que havia de errado nesta sequência não era a ameaça de morte. Ele não tinha certeza do porquê, mas algo dentro dele lhe sussurrava que o breve elogio soara como uma retratação. Sugestão esta com a qual ele não podia concordar. Afinal, nada soava mais absurdo do que Heiwajima Shizuo retratando-se após a uma ameaça a Orihara Izaya.

Kadota foi o primeiro a baixar os olhos, limpando a garganta antes de anunciar e assumindo sua postura apaziguadora:

– Bom, se é assim, acho que fico.

Izaya, entretanto, não baixou os olhos, fitando-o com uma curiosidade que sequer denunciava que instantes antes estivera numa situação desconfortável. Sustentando o olhar, Shizuo pode perceber como gradualmente o sorriso voltava a aqueles olhos que desde a cena de minutos antes se mantinham com uma inegável seriedade.

– Sabe que... – os lábios que se preenchiam gradativamente com um sorriso foram umedecidos pela ponta da língua, abrindo-se com uma malícia que Shizuo não estava acostumado a ver naquele novo Izaya –... se me matar não vai poder comer minha comida, né?

Os olhos.

O sorriso.

A expressão.

A forma como a ponta da longa colher de metal agora encontrava maliciosamente os lábios que sorriam atrevidos.

Talvez depois da noite anterior Shizuo já devesse ter se acostumado com a ideia de que, quando em quando, seu coração resolveria bater um pouco mais forte ao deixar seus olhos em Izaya. Com ou sem sua permissão. Mas era inegável que as batidas que sentira ao deslizar os dedos pelos fios negros nunca o teriam preparado para as batidas que o invadiam ao encarar Izaya naquele momento. A expressão provocativa, os olhos desafiantes e a língua afiada: ele não estava, em definitivo, preparado para recebê-los. Mesmo despreparado, entretanto, foi feliz em sua tentativa de convencer-se de que a empolgação que sentia correr por suas veias era resultado de como aquele homem, com seus olhos e sorrisos, lembrava em muito o homem que odiara por quase metade de sua vida. Lembrava muito mais o Orihara Izaya que se dedicara construindo com ele memórias do que o Orihara Izaya que jurava tê-las esquecido. Lembrava o Orihara Izaya que ele podia odiar sem culpa. Lembrava o Orihara Izaya que o levava ao descontrole e recebia-o por completo em perseguições pelas ruas de Ikebukuro. Lembrava o Orihara Izaya no qual batia sem preocupar-se com sua força.

E talvez fosse a forma como as fortes batidas de seu peito faziam o sangue correr por suas veias inadequadamente, ou talvez porque aquele sorriso de Izaya era-lhe como um veneno, como um gatilho, como um acionador, mas o homem mais forte de Ikebukuro acabou por umedecer os próprios lábios e involuntariamente espelhar o sorriso que lhe era entregue com igual intensidade.

– Não me parece uma perda assim não ruim, pulga. Não é de se jogar fora, mas também não é lá grande coisa.

– Não seja ingênuo, Shizu-chan, eu ainda não dei o meu máximo. Você não sabe o milagre que essas mãozinhas podem fazer.

– E o que está esperando pra mostrar, então, pulga?

– Que impaciente, Shizu-chan... Apressadinho assim vai acabar ficando sem comer. Do jeito que está agora não passaria nem das entradas comig-

A primeira tosse soou confusa, misturando-se às palavras de Izaya para enfim calá-las. A segunda soou alta e rude no apartamento então perfeitamente silencioso, puxando para si a atenção dos dois homens mais perigosos de Ikebukuro e matando de uma só vez ambos os sorrisos.

– Acho que eu perdi a fome, pessoal. Fica pra próxima, Izaya, Shizuo. De toda forma acho que estou atrapalhando algo...

Shizuo fitou confuso o homem cuja presença quase se esquecera.

– Não tem problema algum, Kadota. Não está atrapalhando nada, eu já tinha decidido não matar a pulga agora e também estou com fome.

Desviou o olhar para Izaya, buscando os olhos atrevidos para alertá-los de que se continuassem provocando-o acabaria por arrancá-los do rosto ao qual pertenciam, mas o informante dera as costas aos outros dois, dedicando-se agora a evitar que a segunda tentativa de peixe grelhado tivesse o mesmo fim que a primeira. Quando desviou os olhos novamente a Kadota, viu-se sob a mira de um par de olhos castanho-escuros intrigados. As sobrancelhas franzidas perfeitamente visíveis sem a boina para encobri-las.

– “Matar” não é o problema aqui, Shizuo!

– Como matar não é o problema? Há nem três horas você estava tentando me convencer a não matar ele.

– Ok. Esse era o problema naquela hora, mas não é disso que estou falando agora.

– Quê?

– Quê o quê?

– Como assim quê o quê, Kadota?! Você não tá fazendo sentindo nenhum.

– Você está brincando, né, Shizuo? Você realmente não tá percebendo nada disso? – a expressão de Kadota, uma mistura entre choque, surpresa e diversão, fazia, progressivamente, o sangue de Shizuo ferver. “Ele é o Kadota. É seu amigo. Seu convidado. Kadota é legal. Você não precisa bater nele, Shizuo. Ele deve ter um bom motivo para agir como idiota.” Controlar-se se tornou, contudo, tarefa um pouco mais fácil quando viu os olhar de Kadota desviar-se do seu para encontrar as costas do homem que ainda dedicava-se a afastar os peixes do fogo – Izaya, é impossível que você não esteja percebendo. Eu sei que está.

Ainda que a afirmação pairasse opressiva no ar, o rapaz ao fogão só virou-se ao terminar sua tarefa, o que incluiu não somente peixes alinhados em pratinhos, mas também a distribuição do missoshiro e da salada que Shizuo sequer lembrava-se de ter em sua geladeira em três pequenas vasilhas de porcelana. Quando os olhos castanho-avermelhados finalmente desviaram-se dos vasilhames e panelas para encontrarem os castanho-escuros que ainda o fitavam em busca de respostas, desviaram-se imediatamente, baixando-se como se envergonhados.

– A comida está pronta! Vamos comer, sim?! Acho que já está todo mundo falando besteira por causa da fome, né?! E mesmo que elogios do Shizu-chan não sejam de todo confiáveis, Dota-chin, te garanto que tudo está perfeitamente comestível. – no apartamento silencioso, sem rosnados de Shizuo ou chiar de panelas, a voz de Izaya soou limpa e segura, mesmo que seus olhos, agora fixos em algum ponto inespecífico entre Kadota e Shizuo, não espelhassem tal segurança – Shizu-chan, eu percebi a careta que fez para a salada, vou ficar de olho se vai comer tudo. Se não comer, escondo seus pudins! Dota-chin, sabia que o Shizu-chan é viciado em pudim? A geladeira é cheia! Nem sei como ele consegue ser magro assim se entupindo de pudim o dia todo. Já pensou na possibilidade de tomar um vermífugo, Shizu-chan? Certeza que isso é verme!

O excesso de palavras, a provocação boba: não havia dúvida de que, mesmo que aqueles olhos castanho-avermelhados recusassem-se a retribuir o olhar que lhe era lançado, aquele era o Izaya com o qual forçosamente convivera nas últimas três semanas. Mesmo que as palavras fossem abundantes, entretanto, não pareciam trazer a resposta pela qual esperava Kadota. O rapaz, sempre sério e controlado, deixou clara sua insatisfação ao rolar os olhos e bufar alto, gesto que, verdadeiramente, Shizuo nunca esperou ver nele. O guarda-costas viu-o, ainda, franzir as sobrancelhas e separar os lábios de tal rude forma que não deixou dúvidas de que dali sairiam dois ou três xingamentos. Fosse qual fosse a razão, porém, ele optou por fechá-los novamente e sentar-se em desconfortável silêncio em uma das cadeiras de madeira que Izaya há pouco dispusera na pequena cozinha, limitando-se a encarar exasperadamente os dois homens que ainda mantinham-se de pé.

Presos como estavam nas reações atípicas do rapaz sentado a mesa, os olhos castanhos-mel perderam o momento no qual um par de olhos de estranha coloração avermelhada o fitou demoradamente, assim como os lábios que se crispavam em desgosto ao notar a forma como eram vítima do olhar exasperado de Kadota perderam o momento de reclamar, repletos de razão, do desnecessário trecho da resposta que citava seus hábitos alimentares nem um pouco saudáveis. Ainda fixo na expressão de Kadota, era-lhe claro que ele pretendia dizer algo, ainda assim, permaneceu em silêncio quando Izaya pousou a sua frente todos os vasilhames de comida e sentou-se a seu lado. Shizuo foi o último a sentar-se, em frente aos dois, a espera do que ainda poderia ser dito. Os lábios de Kadota, entretanto, só separavam-se para receber novas porções da comida que, mesmo com o amargo silêncio da mesa, permanecia estranhamente deliciosa.

As refeições de Shizuo sempre foram silenciosas, mesmo quando criança. Ambos os filhos do casal Heiwajima, afinal, não eram exatamente expressivos, não, ao menos, da forma que preenche refeições com sorrisos e conversas animadas. O mais novo, em especial, não compartilhava da aura animada e falante que tantas vezes caracterizam filhos caçulas. Shizuo, portanto, não se importava com o silêncio. Nunca se importou. Ele sequer notaria a diferença se na semana anterior, após um desastroso convite de jantares a seu pior inimigo, suas refeições não tivessem se tornado experiência barulhenta, animada e falante. Sem seu pedido, autorização ou participação, o Orihara Izaya que invadira sua casa há uma semana com um conjunto suspeito de facas e utensílios de cozinha pareceu empregar toda a sua força para compensar os vinte e cinco anos de refeições silenciosas do homem mais forte de Ikebukuro.

Uma semana não era tempo o bastante, certamente, para mudar hábitos de uma vida toda. Dessa forma, seria enganoso pensar que Shizuo incomodou-se com a ausência de sons na mesa compartilhada com Kadota e o homem que há algumas noites bagunçava seus jantares. Mas também seria mentira dizer que ele não se sentia desconfortável ao ver a forma como o grande desafiador das leis do corpo, que dedicara-se por dias a provar como inegavelmente era possível engolir e falar ao mesmo tempo, agora permanecia num silêncio sepulcral que não fora rompido nem ao ouvir o elogio de Kadota à sua comida.

Maliciosa, provocativa, o timbre sonoro e limpo demais para um homem: era um fato que Shizuo odiava a voz de Orihara Izaya. Sempre odiou, desde a primeira vez que a ouvira. E a odiava com um ódio gratuito, daquele que estaria presente independente do que dissesse a voz. Daquele que leva a sério os insultos e com descrença os cumprimentos. Shizuo não sabia explicar, portanto, porque mal podia manter firmes seus hashis nas mãos trêmulas e porque sua boca parecia ainda menos adepta a continuar a degustar a refeição que ele mesmo elogiara momentos antes. Assim como não podia explicar por que razão tais atípicas reações pareciam ser causadas por um opressivo desejo de provocar Izaya.

“O peixe está uma porcaria”.

“O tofu está ainda mais insosso que normalmente”.

“O arroz está empapado”.

“A salada está nojenta”.

Não importava se seriam mentiras. E talvez suas palavras sequer merecessem tão malvista alcunha quando inegavelmente serviriam a um bem maior: fazer a voz irritante, maliciosa, provocativa, soar novamente. E não apenas soar novamente, mas soar exatamente como devia soar: provocativa, irônica, digna do ódio que Shizuo dedicava a ela. Verdadeiramente digna, não da forma fraca como fez-se na maior parte das três semanas que se seguiram às duas batidinhas na porta daquela noite chuvosa de terça-feira. Mas da forma como às vezes se impunha, como quando desculpou-se ao apontar-lhe o canivete na semana anterior, como quando riu-se ao fugir de suas investidas na tarde anterior na Academia Raira, ou quando insultou-o momentos antes, elevando a voz acima dos chiados das panelas e seus rosnados. Shizuo queria ouvir como aquela voz parecia fazer-se ainda mais clara e limpa enquanto o provocava, como se só assim pudesse dar tudo de si. E queria que, junto às provocações, o castanho-avermelhado dos olhos afiados queimasse como carvão em brasa enquanto o olhavam.

E Heiwajima Shizuo sabia, sabia que de jeito tão profundo que não havia sequer sentido negar, que havia algo errado em querer renascer dentro daquele sentado silenciosamente a sua frente o homem que desejou por anos matar. Mesmo que não se apegasse a fatores como ironias ou carmas, tinha plena consciência de que algo dentro dele definitivamente fora danificado, quebrado, envenenado.

Saber que havia algo de errado em sua vontade de fazer arder Orihara Izaya, entretanto, não fazia diferença alguma para o homem mais forte de Ikebukuro. Ele era, afinal, para o bem ou para o mal, forte o suficiente para lidar com as consequências de seus erros sem precisar preocupar-se em evita-los ou aprender com eles. Autoconsciência não representava papel algum na vida de um homem com sua força.

E foi sua força, absurda e despreocupada, que o permitiu olhar no fundo dos olhos castanho-avermelhados que desejava incendiar e dizer num rosnar rude:

– Aproveita a porta aberta e some, desgraçado. Quanto tempo acha que vou te aturar empulgalhando meu apartamento?!

E pela porta recém-aberta pela saída de Kadota, saiu também um Orihara Izaya que sequer olhou para trás. Ao homem expectante do lado de dentro do apartamento não restaram nem sorrisos, nem ironias, nem provocações, nem olhos que queimavam vermelhos como brasa.



Notas finais
Olá, pessoal, tudo bem até aqui? Este capítulo seria, na verdade, a introdução de uma parte importante da fic, mas acabou ficando maior do que eu esperava e ganhou vida própria como um capítulo separado. Devido a isso, ele não teve muita ação e foi focado nas novas percepções de Shizuo. E, céus, eu gostaria de dizer centenas de coisas aqui sobre ele, mas tenho que calar-me e segurar meus dedinhos para não spoilar. =S De toda forma, acho que vocês vão gostar do que ele irá introduzir. O próximo capítulo já está parcialmente escrito e garanto que não haverá demoras desta vez. Beijo, beijo, =* Yuki ps. Black-rose-mamis, sabe o Izaya pressionando os lábios com uma colher enquanto cozinha? Ele é todo seu! É a primeira parte do seu presente de aniversário. =D